Amigo estou aqui
4 Capítulo 4
— O que houve com a sua orelha? — Baiyang perguntou quando viu o rival recolhendo as bolinhas no fim do treino.
Qiao Chen deu um sorriso sem graça ao colocar a mão na orelha. A treinadora quase a arrancou na noite anterior ao ver suas roupas com fios puxados depois que Satã decidiu que o quarto do closet era o seu novo playground. A explicação de que dois dias não eram suficientes para um gato se adaptar a uma nova moradia não lhe ajudou em nada e sua orelha pagou o pato.
— Nada não.
— O que você fez agora? Ela ainda está implicando com o gato?
— Nosso filho está ótimo, não se preocupe. — Disse sério, ao colocar a mão no ombro do rival.
Riu quando viu o rosto de indignação do outro.
— Não saia falando essas coisas por aí. Alguém pode ouvir.
— Não seja rude. — Chiou, e roubou a banda do rival quando ele se distraiu.
Baiyang bufou irritado.
— Devolve.
— Não, você feriu meus sentimentos. — Disse, segurando a bandana no alto. E como era uns dez centímetro mais alto que o outro, era fácil manter longe dele.
— Deixe de idiotice. Devolva agora.
— Só nascendo de novo. — Respondeu e depois parou. — Isso saiu errado. — Parecia confuso, fazendo o outro rir.
Antes que Baiyang pudesse responder, a voz de Ying os interrompeu.
— Qiao Chen, tem alguém que quer falar com você. — A sobrinha da treinadora lhe avisou, sorrindo.
E todo o seu bom humor se esvaiu quando viu sua amiga da infância, Xu Xingzi, na beira da quadra o olhando com cara de poucos amigos.
— Qiao Chen! Você me deve explicações. — Ela falou em tom alto, chamando atenção de todos ali.
Ele corou com a atenção, puxou a camisa e escondeu a cabeça.
— Ele já foi. Volte outro dia. — Disse com uma voz estranha e alguns riram, mas a expressão dela abrandou.
— Que pena, queria ir comer hambúrgueres e ele conhece os melhores lugares. — Ela comentou ao se aproximar dele e cutucá-lo, fazendo-o se encolher. Tinha cócegas.
— Você só está tentando me subornar.
— Está funcionando? — Ela riu.
Ele vestiu a camiseta novamente do modo correto e a observou.
— Depende. Vai pagar?
— Vai comer feito um desesperado?
Ele pareceu pensar um pouco.
— Provavelmente. — Foi sincero, dando de ombros.
— Vai me contar tudo o que está acontecendo?
Ele sorriu, mas o sorriso não lhe chegou aos olhos.
— Provavelmente não.
Ela pareceu um pouco contrariada, mas acatou.
— Vão sair num encontro? — Jiale perguntou, fazendo-a se assustar.
— Sai fora. — Qiao Chen o afastou fazendo uma careta.
— Estão namorando? — Ele estranhou, e ela corou até os últimos fios de cabelo. — Quem você está namorando, afinal? Achei que era aquele cara do outro dia.
— Cala a boca. — Ele chiou e saiu arrastando a amiga de lá.
— Vá direto para casa depois! E não fique até tarde. — A treinadora falou quando viu que ele estava saindo com a menina.
— Pareceu minha mãe agora, titia. Devo chamá-lo de primo? — Ying brincou, deixando a tia sem graça.
— Não seja boba. — Ela retrucou e continuou anotando alguns dados do treino em sua prancheta. Seu rosto corado não passou despercebido pela sobrinha.
— Não devia se meter desse jeito. — Dayong comentou quando ficou sozinho com o parceiro de dupla.
— Não me diga que não está curioso também, Dachi. — Jiale reclamou, ao colocar as mãos na cintura com uma expressão irritada e adorável.
— Você que adora fofocas.
— Mas você não quer descobrir por quê ele anda estranho? Tudo o que temos até agora são teorias.
— Seria interessante colher mais dados. É questão de tempo até ele voltar para o time principal.Tudo pode afetar o resultado final, então seria interessante descobrir as variáveis. — Concordou, brotando do nada do lados dos dois. Arrumou os óculos quando eles o olharam de modo estranho.
— Concordo.
— Não acredito que vão atrás deles. — Xinglong reclamou. — Vocês não conseguem se segurar. Que nem me seguiram aquela vez com a senhora Ya.
— Não tive nada ver com isso. Eles me arrastaram. Eu queria treinar.— Lu Xia falou, olhando-o em expectativa.
— Você sempre quer treinar. — Jiale torceu o nariz para o calouro. — Além disso, como iríamos adivinhar que não era sua namorada secreta que você engravidou? Ela era nova demais! — Completou voltando sua atenção para o amigo veterano.
A expressão enojada de He Xinglong disse tudo.
— Ela é mãe do Jiuxin!
— Mas não sabíamos disso, não é? Você guarda segredos da gente. Nem parece que somos seus amigos.
— Vocês comem de graça no restaurante do pai dele depois de cada jogo. — Lu Xia comentou com voz de tédio.
— Fato. — Concordou Yan, arrumando os óculos.
Jiale pareceu contrariado, mas não tinha como refutar.
— Eu só queria ajudar o meu amigo. Era pessoal.
— Você parece se preocupar tanto com esse amigo. — Zhuo Zhi comentou, observando com um pequeno sorriso. Xinglong pigarreou e desviou o olhar. — Vamos então? — perguntou ao pegar sua bolsa e apressar a todos.
— Vocês só querem espionar, seus enxeridos. — Baiyang reclamou, indo com eles.
— Não precisa vir com a gente. — Zhuo Zhi comentou, observando-o.
— Ele pegou minha bandana. — Justificou sua presença ali.
— Vocês sabem qual lanchonete eles foram? — Lu Xia perguntou quando começaram a andar a esmo. — Vocês são os piores. Desse jeito vamos treinar de madrugada hoje. — Reclamou.
— Pense nisso como treinamento para a vida, pequeno Lu Xia. — Jiale falou dramaticamente ao abraçá-lo, apontando para as estrelas.
Lu Xia o olhou descrente e balançou a cabeça.
— Tô fora. Vou para casa. — Disse, deu meia volta e saiu a passos largos de lá.
— Por onde começamos? — Jiale perguntou animado após ver o calouro indo embora.
Os dois amigos de infância foram andando em silêncio por um bom tempo. Nenhum dos dois parecia querer começar a conversa.
— Você não quer realmente ir a uma lanchonete, não é? — por fim ele perguntou.
— Eu vou se você for.
— Não estou com fome. — Ele disse, indo se sentar num dos banco do parque onde estavam.
E se ela não estava preocupada, só o fato dele negar comida já a deixaria em alerta.
— O que está havendo com você? Não tem atendido às minhas ligações, nem respondeu minhas mensagens.
— Estive ocupado treinando.
— Não estava. Nem com o uniforme do time você estava. Voltou para o banco? — Ela perguntou, mas ele não fez menção nenhuma de responder.. — Eu fui na sua casa e sua mãe…
— Não é minha mãe. — Ele a interrompeu. — Ela disse que não tem filho, então não tenho mãe.
Ela pareceu chocada com a fala.
— Não fale assim. Ela sempre teve o maior orgulho de você. Sempre foram próximos. O que houve de tão grave entre vocês? Ela estava jogando suas coisas fora, Chen.
— São só coisas.
— Não são só coisas. São fotos suas. Não vou deixar que vão para o lixo. Eu salvei para você. — Ela falou ao tirar dois álbuns antigos de fotos da mochila e lhe entregar.
Ele os olhou, mas não fez nenhuma menção de pegar.
— Eu posso guardar até que possa pegar de volta.
O garoto a encarou e suspirou.
— O que está fazendo, Xingzi?
— Estou preocupada com você. — Ela respondeu e ele desviou o olhar se distraindo com a bandana que tinha roubado do rival há pouco.
Deu um sorriso triste quando lembrou das palavras dele de que finalmente tinha se dado conta de que Xingzi merecia algo melhor.
— Não fique. Estou bem. Era só isso? Vou te levar em casa, vai ficar tarde.
— Bem? Alguma coisa aconteceu. Por que não me conta? Achei que fôssemos amigos. Não gosta mais de mim? — Ela perguntou e parecia triste.
Ele a olhou e, pela primeira vez em anos, seu coração não bateu mais rápido. Os sons ao redor dos dois não sumiram, e nem músicas românticas tocaram de fundo. Era só Xingzi, sua amiga do primário.
Algo tinha mudado. Ele tinha mudado.
Não muito distante dali, uma figura entre as árvores acompanhava o casal de amigos sem ser percebido.
Não estava gostando daquilo. Quem era aquela garota ao lado dele? Qiao Chen era seu e de mais ninguém. Talvez estivesse sendo gentil demais. Era hora de deixar isso claro.
— Estava procurando por você em toda parte. — Falou, assustando os dois que se viraram para ver quem estava falando.
— Quem é você? — Xingzi perguntou.
— O namorado dele. — Respondeu com a cara feia.
Xingzi pareceu um tanto chocada e sem graça. Já Qiao Chen estava puto.
— Você é um encosto que vive me seguindo e não se toca! — Negou veemente. — Vou te deixar ali naquele loja, está bem? Aí você pode ligar para alguém vir te buscar. É melhor eu ir embora. — Falou para a amiga.
— Vai ficar bem? — Ela quis se certificar.
— Não vai levar sua amiga para casa? — Yuan Chi se intrometeu.
Em hipótese alguma ele a levaria agora. Não o queria perto de seus amigos, e muito menos que ele soubesse seus endereços.
— Nos falamos depois. — Ele sorriu para ela, se despedindo.
Obviamente, quando se afastou, seu perseguidor o seguiu.
O parque era calmo, muito calmo. E esse era um dos motivos principais que fez com que Jiuxin elegesse o parque como seu local de descanso preferido quando sua mãe levava mais um de seus namorados folgados para casa.
Lá era escuro, apesar da iluminação pública, e portanto considerado um tanto perigoso. E isso era perfeito para que pudesse cochilar num dos inúmeros bancos disponíveis.
Infelizmente, naquela noite um casal decidiu que ali seria um bom lugar para uma DR. E aquilo o estava tirando do sério.
Não poderiam fazer o que vieram fazer em silêncio ou em outro lugar? Queria dormir. Odiava quando interrompiam seu sono.
Decidido a acabar com aquilo, levantou bufando e foi até o casal. Porém, estancou quando viu a cena: um dos rapazes tinha o outro prensado contra uma árvore enquanto o outro tentava fugir da investida.
E aquilo o tirou do sério. Odiava caras que forçavam a barra. Sem hesitar, mirou um chute na têmpora daquele infeliz abusivo.
O rapaz caiu feito um saco de batatas, e levou uma das mãos à cabeça. Estava sangrando.
Jiuxin torceu o nariz quando notou. Olhou para seu macacão branco e viu algumas gotas de sangue que espirraram o atingiram em cheio na perna. Aquela merda provavelmente iria manchar.
— Seu bosta inútil! Me deve uma roupa nova. — Avisou, ainda olhando sua roupa com uma expressão de nojo. — Não ouviu? — Vociferou para Yuan Chi. — Pode pagando. — Ignorou a expressão assassina do outro e ainda lhe deu um chute só porque podia.
Yuan Chi levantou com um pouco de dificuldade, abriu a carteira e lhe deu algum dinheiro.
Jiuxin contou as notas, fez uma careta e fez sinal para que ele desse mais. Nada mais justo que comprasse também um tênis depois de todo aquele transtorno. Perdeu minutos de sono que não voltariam mais.
— Agora vaza. — Disse, quando se deu por satisfeito com a quantia.
Yuan Chi o encarava com os olhos escuros, e a respiração pesada. Antes que pudesse avançar no rapaz que o atacou, Jiuxin o segurou pela gola do casaco de jérsei e rosnou em seu rosto:
— Ou vaza, ou te quebro.
Sorriu de canto quando os olhos de Yuan Chi arregalaram e ele saiu correndo de lá, depois de olhar brevemente para Qiao Chen, que continuou imóvel.
Jiuxin bufou e sorriu de canto. Chutou a bolsa Prince que o outro deixou ao sair com pressa dali.
— Malditos tenistas. — Xingou.
Olhou para o lado, e parou para prestar atenção no rosto do rapaz que ficou, e que ainda tremia. Ele lhe era familiar, mas não sabia dizer de onde o conhecia.
— Vaza também. — Falou, mas Qiao Chen não se moveu. Parecia travado e tremia.
Odiava pessoas que ficavam se lamentando, mas não moviam um dedo para mudar nada em suas vidas.
E algumas vezes ele se via na obrigação de dar uma ajudinha, jogando aquela dose de realidade na cara da pessoa. Sempre funcionava com seu ex-amigo Xinglong.
Considerava que era sua boa ação e contribuição para uma sociedade mais justa, mas talvez fosse só a necessidade de ver o circo pegando fogo.
— Você tá assim por que não queria ou por que atrapalhei seu amasso?
— Vá se ferrar. — Qiao Chen respondeu, e enxugou uma lágrima que teimou em descer, e Jiuxin deu um sorriso de canto quando o reconheceu.
Era um dos jogadores do time irritante Yu Qing, onde todos eram unidos e felizes. Só que ele não parecia tão feliz ali.
— Não me respondeu. — Cutucou o outro, que se esquivou, se aproximando mais da árvore de antes.
— Sai fora.
Uma reação. Fraca, mas já era algo.
Deu um empurrão forte, e o mais novo bateu as costas na árvore.
— Para. — Qiao Chen falou alterado, mas ainda se segurava.
Raiva contida. Ótimo sinal. Estavam perto de uma epifania.
— Não vai pedir um beijo para se acalmar, vai?
E foi o necessário para que algo explodisse no outro e ele voasse em sua direção.
Todos já estavam mais do que cansados. Era tarde, já tinham passado em inúmeras lanchonetes no caminho e ninguém em nenhuma delas tinha visto Qiao Chen. Era como se ele tivesse sumido.
— Eu não sabia que ele era proibido de entrar em tantas lanchonetes. — Jiale comentou, cansado, enquanto se apoiava no seu parceiro.
— Ele gosta de recordes. Vai ver é um que está tentando bater. — Zhuo Zhi comentou.
— Só não querem falir. — Baiyang resmungou. — Ele come demais.
— Verdade. — Xinglong riu, parou de ouvir quando ouviu um gemido alto. — Ouviram isso?
— Acho que veio dali. — Yan comentou, olhando na direção do parque escuro um pouco mais à frente.
— Eu não quero entrar ali, Dachi. Parece perigoso. — Jiale disse, com uma cara amedrontada.
— Vamos chamar a polícia. — Dayong sugeriu quando ouviram outro gemido seguido de uma risada.
Xinglong reconheceu o parque, era onde Jiuxin costumava ficar quando tinha algum problema em casa.
— Eu vou lá checar. Fiquem aqui. — Disse antes de ir.
— Não vá sozinho. — Jiale retrucou ao segui-lo, arrastando o parceiro. E consequentemente todos os outros.
Estavam preparados para vários cenários, mas não o que viram.
Lá estava Qiao Chen ao lado de Ya Jiuxin fazendo uma fogueira numa lixeira. Ambos estavam cobertos de hematomas.
E Qiao Chen ria de algo que o outro falou.
— Não tenho dinheiro. — Negou.
Jiuxin tirou o dinheiro do bolso e abanou.
— É por conta do babaca. — E Qiao Chen riu alto.
— O que está havendo aqui? — Baiyang perguntou, chamando a atenção dos dois, ao ver o estado do rival e reconhecer o delinquente da Escola nº3.
A expressão aberta e amigável de Jiuxin sumiu tão rapidamente quanto ele viu o ex-amigo ali no do seu parque.
Era hora de arranjar um outro lugar para dormir. Aquele estava muito mal frequentado.
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