Amiga sombria
1 AMIGA SOMBRIA
Estou com o coração ensanguentado nas minhas mãos, fazendo um trocadilho épico com essa vida, sem futuro, de escritor, entendo o porque de toda essa tragédia, esse festival bestial, acoutei a melancolia levando em conta que ela me mostrasse a extinção e invés de ajudar os que necessitam, escrever sobre eles, enquanto afogam-se em caos e aniquilação, digo o quanto gosto dela, seu aspecto belo, ultrajante e sutil de me olhar, seus braços me gelificam e me fazem cair, essa queda é deliciosamente ganha todas as noites por mim.
Posso dizer que tenho total consciência do mal que ela me faz, não sei se seria certo dizer que desperdiço a felicidade pela tristeza, contudo se não fosse por essa senhoria, a pasta arcaica estaria vazia, apenas nula e vaga, e meus textos estariam apenas submersos em pensamentos que me fariam enlouquecer.
Vale mesmo estagnar minha escrita para não exercitar essa faculdade? Sei que ela é um defeito mortal e fúnebre, transforma domingos radiantes em uma realidade mórbida, todavia ela é o meu maior combustível. Não participo do Niilismo e posso dizer que sou intelectual, todavia ao mesmo tempo que vejo um horizonte magistral além das montanhas empoeiradas, vejo que posso olhar o chão ou me tornar virar ao passado, escrever das desgraças e quem sabe ganhar uma esmola da minha personalidade pérfida. Sim, é difícil abandonar velhos costumes, ainda mais aqueles inatos que te ninaram antes de dormir, oh madre melancolia, consumir é mesmo necessário?!
Realmente não tenho dúvidas do seu efeito nocivo, o que tenho no cerne, em seu estado verídico, é medo. Fobia de te perder para sempre, e não saber mais escrever e nem me expressar, sinto que você é o meu amuleto amaldiçoado que me faz ser quem sou. Mando embora seu caráter maligno e transformo-me em um ser humano opaco e cortado ao meio, um pedaço para o diabo e o outro para jantar?
Trato você como um sentimento, um pedaço da minha alma? Ou uma personalidade individual que está ligada ao meu corpo através de um cordão robusto de carne e osso? Sei que aumenta as minhas emoções, constrói o meu túmulo de lamentações, faz-me oscilar diante de um texto obsoleto escrito dias atrás por mim, portanto devo deixá-la adentrar, e beijar meus pés e depois me domar como um cão dopado, inebriado?
Por causa da minha onda vibracional, atraio espíritos afins e os simpáticos também, na maioria das vezes dotados de melancolia, escuridão e covardia. Esse sentimento, cá entre nós, é um atributo de covardes, preferem criar o seu próprio mundo, pois o externo e infelizmente real, é muito calamitoso para nossos pés esburacados pelos empecilhos, falo com tanto distanciamento, no fim, sou como eles.
Para atingir um certo grau de evolução, dei o meu primeiro grande passo, que é tentar abandonar o vício sexual, o segundo, mais arriscado, é tentar escrever felicitas recordações para leituras posteriores, e assim, matar minha nobre e sórdida amiga para todas as horas, conheçam a senhora Melancolia.
FIM
03/08/14
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