Amiga Morte
14 O Fim dos Dois
Notas iniciais
...
Babi terminou de citar e colocou as cartas sob o travesseiro.
— Mãe — ela murmurou. — Pode procurar o Octávio pra mim? — Sandra a olhou e assentiu com a cabeça saindo do quarto.
Minutos depois, Octávio entrou e Babi se esforçou para parecer bem. Deu um sorriso torto enquanto sentia os lábios dele sobre sua testa. Ao encará-lo notou os olhos vermelhos e sentiu pena. Dó. Sabia que ele tinha chorado.
— Oi amor. — ele falou sentando na cadeira que antes, Sandra estava.
— Oi... Como você está? — ele balançou a cabeça pra cima e pra baixo e Babi deduziu que ele dizia estar bem. — Por favor, — ela pediu antes que ele dissesse. — Não abra a boca e diga um "Estou bem." Seus olhos dizem que não está.
— E como eu posso ficar bem ou estar bem, Babi? Você está aqui, falando comigo e a qualquer instante seu coração pode parar. Isso é demais pra mim. — ele falou com lágrimas caindo.
— Você sabia desse risco desde o início. — falou apertando levemente a mão dele. — Eu sabia que você ia sofrer! Era isso que eu temia. — agora ela chorava.
— E o pior é que eu também sabia. Eu tentei me manter otimista para não te passar insegurança, para te manter bem, eu... deixei a ciência de lado e de repente me vi carregado de fé. — ele levantou possesso totalmente contrariado e ao mesmo tempo tão agoniado. — Estou com raiva de Deus! Tanta, tanta...
— Não... — ela falou entre soluços. — Deus é o criador sublime. Posso não ter fé ao não acreditar que ainda tenho salvação, mas Ele existe. Olhe para tudo ao seu redor, para todas as coisas – ela deu um riso fraco em meio às lágrimas – Se tivesse visto de perto a paisagem que o Alasca tinha, você teria acreditado que coisas lindas como aquelas não poderiam ter sido criadas do nada. Eu tenho certeza que foi tudo pensado e moldado pacientemente pelas mãos dEle. E ele não tem culpa de nada. – Respirou fundo de repente cansada demais. Falar muito lhe deixava ofegante. – Controle de tudo, mas o livre arbítrio é nosso. Eu não entendo, você não entende... mas é exatamente dessa forma que Ele trabalha.
— Como você diz isso? Você está prestes a morrer, Bárbara.
— Mas se tudo na terra é recíproco, então, só estou recebendo o que mereço.
— Por que você está dizendo isso? Você sabe que não condiz! — Octávio gritava.
—Lei da semeadura!
— Nada do que você está falando faz sentido! Que droga! — ele falou engolindo as lágrimas de revolta e rancor. — Babi... Não posso te perder.
— Você não vai me perder, Octávio. Esse amor é tão puro que eu amaria você da onde eu estivesse. – respirou fundo e lentamente – Ou você acha que a morte é capaz de acabar com o amor?
— Não... – disse simplesmente.
— Eu não sabia nada de nada sobre nada da vida. Sobre o amor, sobre estar viva de fato... Eu... Achava que sabia tudo porque eu tinha a teoria de tudo e para mim bastava. – ela balançou a cabeça e segurou a mão dele. — Às vezes, eu precisava aparecer na sua vida pra que você soubesse amar. Pra que aprendesse a dar valor a esse sentimento. Amar você foi a maior lição que aprendi nesse pouco tempo que tive de vida.
— Mas, Bárbara... Eu sempre dei valor as coisas. Sempre fui grato por tudo. — ele ficou em silêncio.
— Então a lição era pra mim. E eu aprendi. Por isso, agora, preciso ir. — a voz dela saiu baixa.
— Você tá ouvindo o que tá dizendo? Pelo amor de Deus! — Babi olhou pra ele e chorou mais. Colocou a mão sob o travesseiro e pegou a carta que era pra ele.
— Leia. — ela pediu esticando a carta. Octávio a olhou confuso, não sabia o que fazer.
— Não é um bom momento. — ele falou na recusa de pegar o espesso papel.
— Preciso que leia. Agora. — ele pareceu reconsiderar a ideia. — Senta aqui. Em voz alta. — ela comandou, quando ele se sentou ao lado dela e começou a desdobrar o papel. Ele limpou a garganta e respirou fundo.
" Oi pessoa que me ensinou a amar.
Difícil escrever algo pra você. Assim. No fim dessa vida mesquinha que vivi. Mas, Octávio você foi a maior riqueza que já tive nessa vida.
Eu não sabia o porquê de nada. Eu precisei aprender e com certeza, não foi da melhor maneira. Quer dizer, foi e não foi.
Foi porque encontrei você, num elevador, depois de um dia tortuoso. E foi instantâneo a química. O amor. Eu soube ali, naquele cubículo de metal, que só pelo seu cheiro, eu havia encontrado o homem da minha vida.
E sabe porque não foi? Porque no final dessa história de amor a princesinha morre.
Sempre quis ser uma princesa. Viver no meu castelo. Ter meus guardas e ficar ali. Longe da real realidade. Pensei em escrever pra você. Porque sei que assim como eu, você está apaixonado. Você me ama. E sei, que você daria sua vida pela minha. Eu sei, Octávio. Sei o que deve estar se passando na sua cabeça..."
A voz dele falhou e ele a olhou com lágrimas quentes outra vez escorrendo.
—Você não sabe o que estou sentindo. — ele acusou perplexo e a fitando. — Você não faz ideia, Bárbara, da dor que tá aqui. — ele apontou pro peito.
— Já perdi alguém que amo.
— Mas, esse é o problema Babi! Eu ainda não te perdi, droga! Você está aqui e essa é a pior parte. Você está aqui e está do meu lado. Morrendo, definhando e não posso fazer nada. — ele falou abaixando a cabeça na maca e apertando a mão dela enquanto chorava. Ela acariciou os cabelos dele, segurando o choro. Queria ser forte. Não que estivesse tendo sucesso, claro. Mas, estava tentando.
— Termina de ler. — ela pediu baixo. Ele ainda levou alguns minutos até se recompor.
" Eu amo você. E eu não quero ir embora sem ter a certeza que você vai ficar bem. Que você vai dar a volta por cima. Eu quero que você tenha outros romances, que se aventure, se arrisque, faça tudo aquilo que tiver vontade e der na telha.
Espero que você não viva forçado e não deixe oportunidades passarem. Sabe, eu perdi muito tempo da minha vida. Porque eu queria sempre fazer as coisas certas, e estudar, fazer minha faculdade e olhe agora... Se aventure, Tavinho. Viva de verdade.
Não quero interferir na sua vida. Eu já estou indo, mas não quero ser um fantasma pra você. Não quero. E não ache você, que não verei as noites que você chorar por mim. E que seja só por uma semana.
Quero (mesmo do outro lado), ver teus sorrisos bobos mesmo que o motivo não seja eu. Porque te amo e foi por te amar, que quis viver. Mesmo no fim.
Com amor e pesar,
Babi."
Ele a olhou e ela estava com os olhos fechados. O bip insistente das máquinas dava o veredito. Ela não respirava mais.
— Babi?! — ele falou chacoalhando-a — Bárbara, pelo amor de Deus! Babi! — ele falava chacoalhando-a ainda mais. — Você não pode... Não... Babi... Por favor, me olha... Olha, eu tô aqui. Tô sorrindo como você pediu, eu sou o motivo da sua vida né? Eu tô aqui! — ele gritava insistente. A palidez era total nela e luzes vermelhas começou a rondar a sala toda. Era a certeza da morte dela. — Você me pediu pra viver de verdade! Droga, Bárbara! Como vou viver sem você?! — enfermeiros apareceram e Octávio havia perdido o senso de sanidade. — Babi! — alguns enfermeiros o pegaram e o tiraram da sala a força. Ele caiu no chão sem forças e Sandra, que aguardava sentada no corredor, percebeu. Ela o olhou e soube.
— Octávio? Ela... Me diz que não! — ela pediu já entre soluços. — Me diz que não! — Octávio a abraçou chorando mas, não disse nada. Ele não sabia como falar.
Depois disso ele não conseguiu ficar no hospital. Pegou seu carro e saiu rasgando em alta velocidade. Ele chorava muito e estava sem rumo. Era como se sua vida tivesse chegado ao fim e, em partes, era isso que ele sentia ter acontecido. Metade dele se foi.
Sem ver o sinal que havia fechado, ele passou e foi pego por um ônibus de viagem que andava sem controle na contramão. Seu carro se chocou com o ônibus e o estrago foi total. Ele havia visto Lua, antes de bater. Ela sorria e acenava e... Não era apenas uma alucinação.
Tudo estava ligado.
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