Amianto
1 Capítulo Único - Amianto
Notas iniciais
Ela estava vestida com seu melhor vestido casual. Olhava-se no espelho de corpo inteiro do quarto, pegou o bolero sobre a cama e pôs por cima. Ainda mirava-se no espelho. Viu seu cabelo desgrenhado, as marcas de olheiras sob os olhos. Aquilo não era problema, mas pegou uma escova na penteadeira e desembaraçou-o. Olhou para o tom vermelho escuro em suas unhas dos pés e das mãos. Pegou o batom, mas quando viu a mesma cor em seus lábios não gostou e borrou-a com as costas das mãos. Olhou os pulsos franzinos decorados com linhas finas que se sobrepunham desordenadamente.
Ainda se olhava no espelho, parecia querer prolongar aquele momento, mas sabia que uma hora teria que fazer.
Então saiu do quarto. Trancou a porta e se encaminhou para a sacada, olhou para baixo, vendo os quatro andares abaixo de si. Deveria bastar.
Apoiou-se no guarda corpo da sacada, ergueu o corpo sobre ela e apoiando nos vasos de plantas de sua mãe se pôs de pé. Novamente fitou o chão, que, cimentado, parecia um colchão cinza, esperando que ela se repousasse sobre ele. Tirou um pé, tinha apenas um apoio agora. A queda não poderia ser tão longa, e ela provavelmente nem acordaria para saber. Respirou fundo. Fechou os olhos.
—Moça, saí da sacada! — sentiu seu coração pulsar rápido no peito. Ela sabia que era com ela. Mas se a intenção dele era impedi-la de se jogar, quase a havia feito cair por descuido. Assustada, buscou apoio e agarrou-se ao vasinho de samambaia ao seu lado e o pé suspenso voltou a encontrar apoio.
—Moça, saí da sacada, você é muito nova pra brincar de morrer. — o coração dele estava acelerado, mas de nervosismo, não podia deixar que ela pulasse. — Me diz o que há, o que é que a vida te aprontou dessa vez? — ela o encarava sem entender. Tudo estava dando certo até ali, até que aquele rapaz aparecera para atrapalhar.
Em seu íntimo, ele sentia que aquele olhar era de reconhecimento, de qualquer forma, enquanto ele falasse com ela, ela o escutaria e não pularia.
—Moça, desce daí, aí é muito alto pra você se jogar. Venha, desce daí, deixa eu te levar pra um café, pra conversar. Te ouvir e tentar te convencer... — fez uma pausa, pensava no que falara seguir.
—Moço, para com isso. — ela mal acreditou quando ouviu a própria voz. Ela não pretendia respondê-lo, apenas que ele parasse de falar para poder cair em paz. – Eu sei que aqui é muito alto e é por isso que estou aqui. Obrigada por se preocupar, mas eu nem ao menos gosto de café, não quero conversar, nem me deixar convencer. Minha vida não vale nada, é só mais uma e não fará falta a ninguém. — ele abriu a boca, fazendo menção de voltar a falar, mas ela foi mais rápida. — Moço, ninguém é de ferro.
Ela planejou tudo rapidamente em sua mente, e não conseguiria fazê-lo fitando o Moço nos olhos. Começou a virar o corpo, apoiando-se no vaso de samambaia, tirou novamente um pé. Respirou fundo, sabendo que aquela seria a última vez.
—Ninguém é de ferro, nós somos programados pra cair. — Tirou o outro pé.
E então caiu, e fechou os olhos enquanto o vento gelado passava ao seu redor, a tal resistência do ar que aprendera na física não foi suficiente para aparar sua queda. Sentiu o colchão cinza sob si, não era tão suave quanto parecia lá de cima. E em seguida não sentiu mais nada. Um grito ecoou no ar. O garoto ajoelhou perante a grade do prédio dela. Ele nem sabia seu nome.
—Moça! Moça? Moça! Por favor, acorda, levanta, por favor, moça! – ele passou seu braço pela grade e tentava alcançar o pulso dela para ao menos saber se ela estava viva, mas ela não caíra próxima o suficiente dele e a cerca elétrica acima estava ligada, o que o impediu de invadir o terreno do prédio.
Chamou o SAMU quase sem esperanças. Quando chegaram foi constatado que ela morrera na hora. Não tinha o que fazer. Ele ficou em prantos. Os pais da menina foram chamados, chegaram chorando e a mãe não aguentou ver a filha morta.
— Eu lamento muito, tentei impedir... – os olhos azuis da mãe encontraram os dele quando ele falou.
—Qual teu nome rapaz?
—Guilherme.
—Obrigada Guilherme, mas se Ágatha – ele então soube o nome dela, Ágatha — se jogou, nós deveríamos ter notado os sinais. Os pulsos, os desenhos que ela vinha fazendo, a mente dela não estava saudável. Eu que lamento por você ter passado por isso. – ela se soltou do abraço do marido e pegou as mãos do jovem com as suas, que levemente enrugadas, já mostravam sinais do tempo. – Você me parece um bom garoto. É uma pena que tenhamos nos conhecido em tais circunstâncias.
Eles se abraçaram e em seguida Guilherme saiu correndo. Virou algumas ruas e parou em frente a outro prédio, sentou-se na calçada, ainda tinha lágrimas nos olhos.
A Lua aparecia como um círculo luminoso e tímido por entre nuvens quando ele viu o farol do carro de seu pai virar a rua. Secou as lágrimas e se levantou.
—Tava sentado aí fora por quê? – Foi o que seu pai disse primeiramente, enquanto esperava que o portão automático da garagem se abrisse o suficiente para que pudesse entrar com o carro. – Esperando um marginalzinho qualquer levar seu celular?
—Saí pra caminhar e esqueci a chave. – Mentiu e entrou pela garagem atrás do carro.
—Mais cuidado da próxima vez, moleque! O bairro tá ficando cada vez mais perigoso.
Subiram as escadas juntos. Guilherme foi à frente, para que seu pai não visse seu rosto com marcas evidentes de choro. Foi direto para o quarto e adormeceu pensando em Ágatha. O dia seguinte foi um domingo monótono com lembranças da tarde anterior e regado a PlayStation 3, refrigerante e chocolate. Segunda prometia ser um dia pior. E foi.
Guilherme acordou cedo. Arrumou-se para o trabalho e foi a pé, recusando a carona de seu pai. Chegou no horário, mas não conseguiu se concentrar, ainda pensava em Ágatha, a moça do sábado a tarde e de todos os dias da semana.
Ágatha fazia estágio para se formar como técnica em edificações numa instituição federal e quase não tinha contato com Guilherme, que trabalhava como técnico com informática. Ágatha podia não conhecer Guilherme, mas o contrário não era verdadeiro. Desde o primeiro dia de trabalho dela ele se encantou por ela, descrevia-a como sua Garota dos Sonhos e era assim que se referia a ela nos seus pensamentos.
Podia-se dizer que Ágatha fazia seu tipo. Com cabelos ondulados, compridos e castanhos; a estatura mediana; seu andar calmo e leve; ela parecia ser calma e leve; com seu tímido sorriso que ele vira tão poucas e brevemente vezes, mas que foram o suficiente para que também se encantasse por ele. Não podia deixar de reparar em seu corpo proporcional e tão fino que parecia poder se quebrar ao menor toque.
Sabia tão pouco dela, nem mesmo seu nome ele sabia, mas sentia tanto por ela, queria poder ter tido a chance de se aproximar e estava pensando em como fazer esse nos últimos dias. Mas seus horários não batiam, ele mal tinha momentos próximos a ela, a via pelo vidro de uma sala no andar de baixo. Não podia dizer que a amava, era muita pretensão, mas sentia um carinho enorme por ela.
E sem ela sua vida parecia vazia. Seus sonhos eram escuros e sombrios sem a garota deles. Nos momentos em que, sozinho frente ao seu computador na empresa, não podia pensar nela sem lembrar-se da visão de Ágatha caindo e aquilo era tão doloroso que nem se permitia pensar. Para ele, ela morrera em seus braços, e ele nada pode fazer para salvá-la. Desde então seus dias eram tristes. Ele tentou, mas era difícil esquecer-se de Ágatha e sua morte, que ele testemunhara.
No sábado ele achou que tudo melhoraria, sem ter que ver sempre a mesa vazia a dela no trabalho. Ele achou. Era fim de tarde quando decidiu saiu para caminhar. Afinal, era o que lhe distraia. Entretanto, desta vez ele não encontrou paz. Havia sido numa dessas caminhadas que ele se deparara com Ágatha em cima de sua sacada. Evitou a rua da casa dela naquele dia e quando parou de andar estava em frente a igreja do bairro. Nunca foi muito religioso, mas entrou, fez o sinal da cruz na entrada e sentou-se no fundo, onde, mesmo longe, pode ver os pais de Ágatha sentados num dos bancos da frente.
Ele ficou e assistiu à missa. Foi quando menos esperava que o padre declarou estarem reunidos também para rezar pela alma de Ágatha, que há sete dias fora juntar-se a Deus. Guilherme imaginou, portanto, que ele não sabia que ela se suicidara, um pecado sem perdão. De qualquer forma, serviu apenas para lembrá-lo do que tentava esquecer.
Levantou-se e foi embora, talvez já estivesse mesmo na hora de voltar para casa e esta fosse sua melhor deixa. Quando chegou em frente ao seu prédio olhou de relance para a janela do quarto de seus pais para ver se estavam em casa, mas seus olhos pareciam querer se focar só na varanda da sala, e pelo, aparentemente belo, fato de ela não ser telada.
No dia seguinte ele acordou sozinho em casa e uma coisa louca passou por sua cabeça. Certificou-se de que seus pais realmente não estavam, trocou de roupa e foi até a varanda, lhe parecia ainda mais tentadora agora, a rua estava vazia, pássaros cantavam ao longe, uma brisa levemente fria lhe batia, o céu estava sem nuvens, num tom de azul tão bonito. Era um belo dia.
Subiu na sacada.
—Moço! Não! – sentia um déjà vu, olhou para baixo e se deparou com uma garota negra de castanhos cabelos cacheados que poderiam ser a própria visão do paraíso ali na sua frente. O que seria bom, ter essa visão sagrada antes de ir para um inferno sem volta. – Por favor, desce daí, não quero que você caia, se sua intenção for essa, por favor, não faça! – sua voz era firme, mas mostrava sua aflição.
Estava tão receosa quanto ele, agora ele sabia como Ágatha se sentira. – Por favor! – ela dizia e ele não queria respondê-la. Ele sabia como era estar naquela posição e o quão era maçante e desesperador. E era tão tentador pular agora. Estava tão perto, parecia tão fácil, parecia libertador. Mas a morena, ah, aquela beleza tão encantadora quando Ágatha lhe havia sido. Ele queria poder ficar só olhando para ela e sua voz era tão convincente.
—Por favor, foi assim que minha melhor amiga morreu, me deixe te impedir! – seus olhar era profundo e marcava a pele de Guilherme quase que a fogo. Lágrimas se formavam em seus olhos e escorriam por suas bochechas. Será que essa amiga era Ágatha? – Eu não pude salvá-la, mas me deixe salvar você! – ele deixou-se perder e desceu do parapeito da varanda. Ficou olhando para ela, que, agora em prantos, secava as lágrimas em seu rosto com as costas das mãos. E então ela se virou para seguir seu caminho, ela sabia que ele poderia muito bem subir e pular sem ela ali, mas lembrar-se de Ágatha lhe foi uma carga emocional muito grande. Aproveitou o momento para ir e não ter que vê-lo se jogar.
—Ei! Espere, moça! – Guilherme gritou, chamando a atenção da garota novamente. – Eu quero conversar com você, vou descer, por favor, me espere. – ela não se moveu, encarava o rapaz que estava prestes a se jogar com um olhar estupefato. Em menos de cinco minutos Guilherme estava cara a cara com aquele olhar, e aquela pele, e aqueles cachos.
—Oi, vamos para um café? Pra conversar? Conheço um bom por aqui. – ele começou, sem saber como. E sem saber como tomou a úmida mão de choro dela nas suas. Ele reparou em como eram quentes, e ela no quanto as dele eram frias. Ele se arrependeu, era um gesto muito íntimo. Quase instantaneamente, ela quis puxar a mão de volta para si, mas não o fez. Fitaram-se.
—Tudo bem. – ela respondeu por fim, com um sorriso extremamente branco e com efeitos colaterais calmantes. Começaram a caminhar de mãos dadas.
—Já vou pedir desculpas, eu não deveria tocar no assunto, mas sua amiga, qual era o nome dela? – ela pareceu surpresa, estava claramente lutando para não se deixar abalar demais.
—Ela... ah, hã, Ágatha. – ela soava frio, ele por um momento se arrependeu de ter tocado no assunto.
—Eu acho que a conheci. Eu não sei se os pais dela contaram, eu estava lá, na hora, eu tentei impedi-la! Eu não fui capaz de salvá-la. – ambos estavam cabisbaixo. – Eu trabalhava com ela.
—Você fazia estágio com ela? Acho que ela teria me contado de você, faria o tipo dela. E mesmo nos seus piores dias ela teria comentado de um gatinho no estágio.
—Ah não, eu acho que não. Eu já era contratado, e de qualquer forma eu mexo com informática, e ela com engenharia, ela não deve nem ter sabido da minha existência, quem dirá comentado de mim com você.
—De qualquer forma, ela não poderia mais, mas você ainda não me disse seu nome.
—Ah, eu sou o... é Guilherme!... Prazer! – eles se encararam brevemente, e naquela conversa silenciosa, eles apertaram as mãos casualmente e ela entendeu que ele lhe perguntava seu nome.
—Gabriela.
—Que nome bonito. – sorriram e, juntos, caminharam até a cafeteria.
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