Amethyst no Hana - A Flor de Ametista Original
45 Capítulo 44 - Tempestade
O despertador toca. Um som, similar a um ruido branco aparenta vir do lado de fora, de forma ininterrupta. Yuuki, sonolento, estica seu braço e desliga o alarme. Nesse curto processo, todavia, ele sente algo levemente diferente em sua cama. Quando decide checar, vislumbra uma Akane que pacificamente dormia, mas que acabou por lentamente acordar.
— A-Akane… — Em um sussurro, Yuuki exclamou, estando ele levemente em pânico. Contrário a ele, Miyagi ainda despertava, seus olhos um pouco cerrados e sonolentos, assim como sua voz.
— Yuuki-kun, bom dia… — Disse ela, se espreguiçando completamente despreocupada com o que estava fazendo no momento.
— Que bom dia o que, se a Sensei descobrir que você esteve aqui, ela vai arrancar nossa pele! — Retrucou o moço, preocupado.
— Que forma de começar o dia hein… você--
— Shh… — Cobriu a boca dela com a mão. — Fale baixo! A sensei pode escutar. Afinal, o que você está fazendo aqui? Não deveria estar no seu quarto? — Complementou ele, ainda com medo.
— Não posso fazer nada, eu tive um pesadelo tão ruim que eu sabia que não conseguiria dormir sozinha no meu quarto… — Ela complementou, bocejando, ainda com um tom levemente sonolento, se levantando da cama do garoto.
Quando Yuuki abriu a porta para sair, não houve tempo para Miyagi se esconder: Hibiki-sensei, que passava por ali, vislumbrou aquela cena claramente previsível, fazendo o garoto suar frio, surpreso ao encará-la. O olhar da mulher mudou como que da água para o vinho, passando de leve surpresa para um cinismo imponderável, seus lábios em um semblante fechado.
— Ora, ora, ora… mas o que temos aqui? — Sua voz saia seca, tal qual como um carrasco que tivera sido entregue sua vítima em suas mãos.
— Sensei… isso não é o que parece… — Yuuki tentou argumentar, com medo.
— Ah, claro que não, de jeito nenhum, Yuuki. Só me parece que alguém que claramente não deveria estar no seu quarto acabou… sei lá, por acidente do destino, pura coincidência, parando no seu quarto. Ou vai me dizer que não? — O sorriso falso em seu rosto não enganava a nenhum daqueles dois no momento; estava claro que ela não estava gostando nada daquilo.
Aquele sentimento de culpa os fez se retraírem por um momento, enquanto a professora cruzava os braços e encarava os dois.
— Vamos. Estou esperando… como que este “acidente do destino” milagrosamente trouxe ela até o seu quarto?
Sabendo o que havia de enfrentar pela frente, a moça empurrou o garoto levemente para o lado e deu um passo a frente. Com um olhar mais sério, assumiu a culpa, para a surpresa (ou falta de surpresa) da Sensei, que tratou daquilo com o maior sarcasmo, como se já não houvesse acontecido antes. Tendo Akane sido questionada sobre aquilo, antes que a própria pudesse sequer explicar, foi interrompida pela mulher que os mandou se banharem para poder irem ao colégio, ressaltando que pensaria em uma punição adequada tanto para ela quanto para ele.
Enquanto Akane e Yuuki lidavam com seus problemas no colégio, ocultando o que havia acontecido, passos firmes no chão molhado se direcionavam até o dormitório. Tocou a campainha, e então, uma outra mulher veio atender.
— Pois não?
— Eu somente gostaria de uma informação… – Respondeu o homem. Entrou e se assentou no sofá da sala, removendo seu terno que fora levemente castigado pela chuva e entregando a mulher para que ela o colocasse para secar.
Trazendo uma bandeja com chá, o pôs sobre a mesa e se assentou no outro sofá; o homem, agradeceu.
— Pretendo ser bem breve. Diga-me: há alguém chamado “Akira Miyagi” por aqui?
— Akira Miyagi… — A mulher ponderou por um instante, até tomar atenção para o sobrenome. — Olha… Akira Miyagi não temos por aqui… mas eu conheço uma das moradoras que tem esse sobrenome… — Concluiu.
— Akane Miyagi, eu suponho? — A certeza em sua voz espantou levemente a gerente.
— Como você sabe?
— Muito simples… esta “Akane” Miyagi… na verdade é Akira Miyagi… um garoto. — Seu olhar como de um falcão, mãos cruzadas sobre a boca, o envolvendo em mistério. Suas palavras acabaram por confundir a mulher.
— Deve estar havendo algum tipo de engano aqui, porque Akane Miyagi é mulher… — Assegurou a gerente, tentando desfazer-se da confusão.
— Então até vocês ele enganou… — De nada adiantava a palavra da gerente naquele momento, tornando a retornar o desentendimento.
— Permita-me ser bem claro: apesar de aparentar ser uma garota, Akira Miyagi é 100% um garoto. Eu o conheço melhor do que ninguém. — O homem levantou levemente a entonação de sua voz, a fim de evitar soar ameaçador demais, e cruzou os braços.
— Então… está me dizendo que um menino vestido de menina… está no andar das meninas, no quarto que deveria ser de uma menina?
— Precisamente. E tenho por certo que, por conta disso, ele possa estar violando gravemente uma das diretrizes mais importantes de um dormitório, não?
Algumas horas depois, de volta ao colégio, estava na hora da saída. Yuuki e Akane estavam prontos para poderem trocar seus sapatos e retornar para o dormitório quando a representante Satomi lhes chamou a atenção.
— Hoje é o dia de vocês. Estão encarregados de limparem a lousa, arrumarem a sala e também de colocar o lixo para fora. — Comentou ela, com seu tom sereno de sempre. Não foi necessário pensar muito sobre aquilo: era a punição que a professora os imputou. Concordaram sem dar quaisquer resquícios de dúvida, e então ficaram na sala. Pegaram os apagadores e começaram a limpar a lousa juntos.
Em um momento, Yuuki parou brevemente e suspirou, aparentando desapontamento. O garoto a questionou sobre se ela sabia do porquê de ambos estarem ali. Desinteressada, ela respondeu que sabia, e o pediu para que focassem nas tarefas ao invés de lembrar daquilo. Conforme iam realizando as tarefas, começaram a deixar aquele assunto de lado, e notaram uma certa sintonia entre os dois, o que melhorou o clima de antes, até a hora de ir embora, pegando as mochilas, trocando os sapatos e abrindo os guarda-chuvas.
O som constante das gotas a cair no chão, os carros que passavam pelas ruas molhadas, toda aquela atmosfera havia acalmado Akane. Tanto ao ponto de nem mais se lembrar do pesadelo que teve. Mas mais do que tudo, parecia que o som conjunto de cada gota de chuva junto da presença de Yuuki os isolava do mundo. Mal sabia ela o cruel infortúnio que o destino havia lhe preparado.
— Estamos de volta! — Disse Yuuki ao abrir a porta do dormitório. A gerente então se levantou e os foi cumprimentar, afinal, até mesmo ela sabia que ele sempre retornava com Akane para o local.
— Sejam bem-vindos de volta. Temos uma visita hoje. — Comentou a gerente, atiçando a curiosidade de Akane e Yuuki.
— Oh, não, por favor, não se incomode comigo, eu já estou de saída… — Uma voz familiar aos ouvidos de Miyagi ressoou, com o som de passos vindo de trás da mulher, pelo corredor.
Os olhos dela se arregalaram, seu peito apertou, um sentimento de ansiedade preencheu o seu ser. Sua respiração, antes tranquila, começou a pesar, e então, ele se apresentou diante dela: De cabelos grisalhos, mais alto que ela, portando um terno cinza-azulado, sua barba por fazer, e um olhar de desprezo que ela conhecia muito bem.
— Nos encontramos de novo… Akira.
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