Amethyst no Hana - A Flor de Ametista Original

52 Capítulo 51 - O Despertar de um Novo Coração


– ...O que será que aconteceria se eu tirasse a minha roupa no meio de um monte de mulheres e elas vissem que, no meio das minhas pernas, aonde deveria haver uma caverna, tem uma chave de fechadura ao invés? Seria um espetáculo e tanto, não acha? — E dizendo esta última frase, deixou o estabelecimento com um sorriso debochado, puxando Yuuki consigo.

Do lado de fora, Akane se queixava de como era inacreditável que a atendente não confiou em sua palavra. Apesar disso, as palavras de Akane não pareciam parar na mente de Yuuki; pelo contrário, passavam por um ouvido e saia no outro. Seu olhar parecia vago, fixado no chão a sua frente, refletindo o vazio de seu interior. Caminhava ao seu lado como se fosse automático.

– ...kun? Yuuki-kun? — Miyagi o chamava, mas ele estava imerso demais em seus pensamentos. Até que em um momento, ela clamou por seu nome mais uma vez, um pouco mais alto, e isso o tirou de seu transe.

– O-Oi. O que foi? — Perguntou ele, confuso, olhando para ela e piscando os olhos algumas vezes.

– “O que foi” pergunto eu. O que há com você? Está agindo tão estranho… — Concluiu ela, franzindo o cenho e levantando uma das sobrancelhas.

– Não é nada. Não se preocupe… — Yuuki a respondeu. Rapidamente ela deduziu que aquilo poderia ser sobre o acontecido antes.

O desejo de abraçá-lo e confortá-lo ardeu em seu coração. Todavia, sabia que só aquilo não era o suficiente; apressou seus passos e parou em frente a ele, o impedindo de prosseguir. Compreensiva, pôs uma de suas mãos gentilmente sobre o ombro do garoto, e se desculpou, esclarecendo que não queria que ele se sentisse do jeito que ele estava. Também o disse que, independente de tudo, valorizava quem ele era, e que gostava dele por quem ele era, incluindo seus defeitos e qualidades. O toque suave de suas mãos o parecia confortar e direcionar não somente seu olhar mas também seu coração para onde ele deveria olhar: para o coração e os sentimentos de Akane.

Movida por seu ímpeto e também pela vontade de seu coração de vê-lo feliz, puxou-o consigo novamente com um sorriso no rosto.

– Só espero que não me faça entrar em outra furada! — Exclamou Yuuki, preocupado com o destino que a menina iria dar aos dois.

– Fique tranquilo, Yuuki-kun. Confie em mim, você vai gostar. — A menina o respondeu, já sabendo para onde queria ir.

Enquanto caminhava para a psicóloga, Souichiro acabou se deparando com os dois do outro lado da calçada, correndo. Eles estavam alheios ao homem; entretanto, ele estava com os olhos fixados neles. Era estranho ver a filha, a qual tanto renegava, feliz com Yuuki. Ainda mais porque eles já não eram mais crianças, o que ele sabia que aquilo não poderia ser só amizade. Balançou a cabeça e decidiu seguir seu caminho.

Chegando na clínica, sentou-se no banco próximo a porta, e aguardou até chegar sua vez. Ao ser chamado, entrou e sentou-se de frente para a psicóloga, cujo nome estava não somente na placa em frente a porta, mas também em sua jaqueta medicinal.

– Souichiro-san, não é? — Perguntou ela, enquanto ajeitava alguns papéis sobre a mesa. Ele afirmou, sua voz um pouco carregada, o que chamou um pouco a atenção da médica, que o olhou de soslaio enquanto se organizava. — Muito bem, Souichiro-san. Como você vai? — Pegou um papel e também uma caneta, pronta para fazer as anotações necessárias.

– Nada bem, doutora… — Souichiro a respondeu, com um suspiro triste.

– Me diga o que te aflige, Souichiro-san.

– É que… — Pausou por um momento, sentindo a dificuldade de falar. — Eu tenho uma filha… na verdade um filho… olha — Comentou, puxando seu celular e colocando na tela a foto de Akane.

— Essa pessoa na foto parece uma menina, mas, na verdade, é meu filho, Akira… ou pelo menos, eu acreditava ser. Toda vez que eu o chamo pelo nome, ele me corrige, dizendo que Akane é seu nome e que ele não é mais um homem.

A mulher vislumbrou a foto por alguns instantes, antes de Souichiro guardar novamente o celular.

– Imagino que isso possa ser confuso e difícil para você, Souichiro-san… — Expressou Aoyama-sensei, enquanto anotava.

– Confuso não é nem de perto a única palavra que expressa o que sinto, doutora… — Souichiro murmurou, suas mãos entrelaçadas sobre seu colo. — Por muitas vezes me sinto revoltado, nervoso. É como se tudo que investi nele não desse os resultados esperados.

– E isso fez vocês dois se distanciarem, certo?

– Sim, isso criou uma distância entre nós. Eu só gostaria de poder me aproximar dele novamente.

A mulher então, depois de ter anotado tudo, descansou sua caneta de um lado da mesa, e pôs suas mãos sobre a mesma, tranquilamente.

– Bem, Souichiro-san… pelo seu relato, o que consegui entender é que você tem um apego emocional muito grande por seu filho, chamado Akira. E é completamente comum nós, como pais, termos expectativas sobre nossos filhos. Criamos eles com amor e carinho, investimos sonhos e esperanças, além de um futuro brilhante adiante deles. A questão é que, quando todas as nossas expectativas são confrontadas com uma realidade diferente da esperada, é difícil de aceitar que o caminho deles não seja o que queríamos.

Ela então deu uma breve pausa, assim permitindo Souichiro absorver suas palavras com cuidado, e prosseguiu:

– Todavia, a situação que vejo aqui é algo simples de compreender. A pessoa que você conhecia como Akira, dito seu filho, passou por mudanças. E toda mudança é difícil, é dolorosa; ela requere certa coragem de nós para dar o passo a frente. E esse passo a frente foi isso. Então, quando Akane se apresentou para você como sua filha, você foi resistente, assim como está sendo até os dias de hoje. Sei que Akira é uma parte importante dessa pessoa para você, porém, Akane tem sido clara sobre quem ela é, sobre a sua identidade. Ela não está fazendo isso a toa, ela só quer que você a reconheça, que você a veja como ela é hoje.

– Isso quer dizer… que eu não vou ver mais o Akira? — Hesitou, sua voz ainda carregada de dor e certo lamento.

– Veja bem, Souichiro-san, quando você diz isso, você dá a entender que deveria apagar o passado, apagar da memória a pessoa que você sempre imaginou. E essa não é a ideia que quero promover; pelo contrário, o ideal seria que essas memórias permanecessem, porém, de forma a não obstruírem a relação entre você e sua filha. Tudo que precisa saber é que Akira não desapareceu: aquela pessoa a qual você criou e amou ainda está ali, ainda que com outro nome e forma, mas ainda buscando seu amor e respeito como sempre fez. — A psicóloga explicou, mantendo um tom sereno, porém, ainda firme, lhe oferecendo um sorriso terno.

As palavras dela ressoaram a mente de Souichiro, que começou a imaginar cenas dele sendo feliz com Akane, tal como pai e filha deveriam ser. A trave diante dos seus olhos ali começava a se dissipar, como se uma névoa fosse gradualmente desaparecendo e deixando sua vista cada vez mais clara. Souichiro levantou-se com um sorriso em seu rosto, agradeceu a psicóloga com um aperto de mão e saiu de sua clinica com um coração um pouco mais confiante. Sua explicação, aliada às de Mutou o fizeram ver seu erro. Enquanto ele saia, a psicóloga acenou para ele; todavia, ao seu lado, uma presença acalentadora também acenava em conjunto com ela.