Takeuchi não poderia acreditar no que estava escutando da morena naquele momento.

— O meu carro não cabe as suas malas e a do Yuuki juntas, Miyagi! — argumentou a mulher, ainda brava com ela. Akane largou do abraço do garoto, mas segurou seu pulso, mantendo-o por perto. O menino tentou apaziguá-la, assegurando que ele ficaria bem.

A mulher complementou que se o que Akane estivesse fazendo fosse por ciúmes, que ela ficasse tranquila, pois Hibiki não era do tipo que dava em cima dos próprios alunos, por mais solteira que fosse. Garotos jovens simplesmente não eram sua praia; era como se eles fossem crianças aos seus olhos. Aquilo era tão desprezível, tão questionável que para ela, se um professor ou professora chegasse a tal ponto, era o cúmulo do desespero. Miyagi tentou contestar, mas não achou argumento; largou o pulso do garoto, com um semblante um pouco triste em seu rosto, justamente quando Nakajima havia chegado.

— O que houve aqui? — Perguntou ela ao ver a cena. Yuuki então breve pôs a mão em um dos ombros da garota, que o fitou.

— Akane... Vai ficar tudo bem.

— Mas...

— Vai ficar tudo bem. Hibiki-sensei não é uma pessoa ruim. E além do mais, eu sou só uma criança para ela. Não me importo de ela me ver dessa maneira. — Comentou ele, com a mulher acenando com a cabeça positivamente, de braços cruzados.

— Yuuki-kun...

Ele então a envolveu em seus braços e acariciou suas madeixas, atestando com um terno sorriso em seu rosto que aquilo seria breve, e que logo estariam de volta ao normal. Conformada, desvencilhou-se do abraço, e acenou para o garoto, enquanto ele adentrava o veículo. Observou, com Shizue, o carro a partir rumo ao horizonte, se afastando cada vez mais.

— Você ouviu o que ele disse, não foi, Akane-chi? Além do mais, não sei se você percebeu, mas ele só tem olhos para você. Por você, ele resistiu aos encantos do Tsukishima-kun e de quebra, deve ter o tirado do seu caminho também. — Comentou, e isso fez lembrar do momento em que Hisashi admitiu para Tsukishima que gostava da garota. Shizue inteirou que não seria a professora deles que o tiraria dela, e que esse período de férias de verão que ambos passariam seria breve.

Se sentindo um pouco mais aliviada, acompanhou Shizue até a casa dos Nakajima. A morena estava levemente nervosa, afinal ela estaria em um ambiente desconhecido. Chegando no lar da moça, a de cabelos alaranjados chamou a atenção de sua mãe, dizendo que a jovem havia chegado. Quando a mulher decidiu se apresentar para as duas, Akane tomou um susto com a similaridade. “Filho de Peixe, peixinho é” pensou ao observar as duas.

— Sinta-se à vontade, querida. Espero que goste da sua estadia aqui, mesmo que seja temporária. — Comentou a mãe. Akane agradeceu e foi por sua mala no quarto de Shizue.

Um pouco longe dali, Yuuki chegava na casa de Hibiki-sensei, que estacionou seu carro na vaga que o apartamento proporcionava.

— Faz um tempinho que não passo aqui… Me dá um instantinho? — Contestou a mulher, pegando a chave e entrando, o deixando do lado de fora, de forma que este não visse o estado de sua casa. Por mais que ele não houvesse visto, era de se esperar que, pela demora, o lugar estivesse uma bagunça. Depois de um tempo, ela o disse que ele poderia entrar e assim ele o fez.

“Hibiki-sensei… você literalmente jogou a sujeira por debaixo dos panos, não foi?” Este pensou, ao entrar e ver o lugar extremamente limpo e até bem organizado, contradizendo com tudo o que ele passou no dia anterior com a própria. A mulher o sugeriu um banho, já que ele poderia estar suado por conta do dia ensolarado. Apesar de hesitante, ele assim pegou uma roupa de sua mala e foi ao banheiro da mulher, refrescando-se. Após ele, ela também aproveitou para fazer o mesmo, e alertou ao garoto para que este não espiasse, com ele retrucando que não iria. Após o banho, a mulher, agora vestida mais casualmente, começou a preparar o jantar.

Durante o jantar, ela notou que o garoto não parava com seus olhos quietos, ocasionalmente observando lá e cá os arredores.

— O que houve?

— Não é nada… é só que é realmente minha primeira vez aqui…

Ela sabia que não era só aquilo, mas nada disse por hora. Somente terminou seu jantar. Pegou as louças e as levou para lavar.

— Queria estar com ela, não é?

— Não, isso não tem--

— Acha que eu nasci ontem, garoto? Tá bem na cara que você está com saudades dela. Eu sei que vocês se amam, não precisa esconder isso de mim.

Por um momento, ele ficou ali, pensativo, até que ela o sugeriu que este ligasse para ela. Ele pegou o celular e, olhando para a tela, sentiu-se hesitar ao olhar para o contato do Lire da menina. Em um gesto de ousadia, a mulher apertou o botão de iniciar chamada de vídeo, o fazendo saltar de nervoso, e sair apertando o botão de desligar a chamada.

Do outro lado da linha, Akane estava no quarto de Shizue enquanto a garota olhava em seu guarda-roupa. Seu celular tocou, chamando a atenção de ambas, e antes que pudesse atender, vislumbrou brevemente o rosto do menino na foto de perfil antes desta desaparecer. Seu coração saltou uma batida, e colocou o aparelho junto ao seu peito,

— Era ele?

— Era.

— Que donzela apaixonada… por que não liga para ele? — Sugeriu a moça de cabelos alaranjados. Miyagi tentou argumentar com ela, mas o olhar da outra parecia que lhe dizia “Você sabe que quer…”. Vendo que sua justificativa não colaria com ela, duvidou brevemente, mas assim o fez.

Do outro lado, Yuuki se surpreendeu ao notar seu celular tocando. A Sensei somente deu um sorriso que significava “Eu sabia que ela iria retornar”, e, pedindo licença, saiu de sua própria casa para dar o espaço aos dois.

— Yuuki-kun?

— Boa noite, Akane…

— Boa noite. Você me ligou antes?

Ele gostaria muito de contar que sua ligação para ela havia sido por causa de sua professora. Porém, decidiu negar este fato a ela, assumindo a responsabilidade de seu ato.

Ela o questionou como estava, e este a respondeu que estava bem, retrucando a mesma pergunta a ela. A menina lhe disse o mesmo. Ficaram um curto tempo ali conversando, antes de enfim se despedirem um do outro.

Por mais que ambos não dissessem, sabiam que o que sentiam naquela hora era saudade, ao se verem através de uma tela e não pessoalmente. Tanto é que, pouco após desligarem, seus semblantes eram uma mistura de tristeza e alegria. A comunicação entre eles trouxe certo conforto, mas era somente isto.

— Matou a saudade? — Hibiki o questionou, adentrando seu apartamento novamente.

— Um pouco.

— Logo, vocês estarão juntos de novo para poderem se amar novamente. Ah… falando em se amarem, até onde vocês foram?

— Eh?

— Quero dizer se vocês já deram as mãos, já se abraçaram, ou até se vocês já se beijaram.