Notas iniciais
Então, algumas considerações: 1. O nome dos hotéis que eu coloquei aqui é fictício. 2.O clube de xadrez West London existe de verdade e sua história é verídica

Arthur olhou para o corpo em sua frente. Deitada na superfície de metal estava uma mulher, aparentando ser jovem. Sua pele era bastante pálida e estava nua. Um corte, fechado, era visível no pescoço e varias manchas roxas eram presentes ao longo do corpo. Ela cheirava a formol e o detetive torceu o nariz em sinal de desaprovação. Não importava quantas vezes vinha ao necrotério, ele não se acostumava com aquele odor insuportável. Estava ali, para analisar a grande descoberta que seu amigo policial havia lhe informado.

-Então – disse para o legista – qual a causa da morte?

O legista era um homem alto, tinha cabelos curtos e uma barba por fazer, ambos ruivos. Usava óculos, apesar de ter uma mania de deixá-los cair até o meio do nariz. Seus olhos verdes encararam os esverdeados do detetive, antes de desviarem para o corpo da jovem. Tirou uma das mãos que estavam no jaleco e passou pelo pescoço da jovem.

-Como você pode ver, temos uma incisão aqui, o que indica que o assassino cortou sua garganta e a deixou sangrando até a morte. Algumas marcas de luta são presentes em seu corpo, mostrando que ela tentou reagir ao agressor.

-E foi achado algo incomum na vítima?

O legista o olhou por cima dos óculos e disse:

-Na verdade, sim. Isso é bastante incomum, mas analisando o corpo, encontrei isso.

O ruivo retirou o pano que cobria as partes baixas da jovem e com a outra mão afastou um pouco suas pernas, revelando um pequeno símbolo na parte interna da coxa. O detetive olhou mais de perto e franziu as sobrancelhas com o que viu. Aquilo era... uma espiral?

-De inicio, achei que era uma tatuagem, mas ao analisar melhor, descobri que foi feito depois da morte da jovem.

O detetive passou o dedo por cima da espiral e notou que o sinal havia sido marcado na pele da jovem.

-Isso foi feito com...

-Sim. Provavelmente com o mesmo objeto que cortou sua garganta. Uma faca, talvez.

Arthur encarou aquele símbolo, seriamente. Era o mesmo sinal que Kiku havia lhe informado no dia anterior. Seus subordinados haviam encontrado o mesmo sinal na garota que tinha sido desmembrada em Whitechapel. Só que ao invés de ser na parte interna da coxa, havia sido na barriga. Sorriu para si mesmo.

“Então, o filho da puta está deixando sua marca.” – pensou.

Foi tirado dos seus pensamentos pelo legista.

-Mais alguma coisa que eu possa fazer por você detetive?

-Ah, não. Obrigado, Scott.

O ruivo fechou a gaveta, onde o corpo da jovem estava e retirou-se da sala, deixando o detetive imerso em seus pensamentos.

“Deve existir algum motivo por trás dessas espirais. Preciso descobrir qual.”

Arthur saiu do necrotério ainda pensativo. Precisava colocar seus pensamentos em ordem e ali, onde o cheiro de formol era nauseante, era o último lugar onde iria conseguir. Saiu e encostou-se a parede do edifício, tirando do bolso uma carteira de cigarros e um isqueiro. Levou o cigarro até a boca e o acendeu. Tragou, sentindo as substâncias relaxando seu corpo. Não importava o quanto o cigarro fazia mal, para o detetive, era um calmante. Assoprou a fumaça e olhou ao redor. Seu parceiro Kiku, estava indo em sua direção.

- E então, o que encontrou lá Arthur? – perguntou o japonês.

O detetive levou o cigarro à boca novamente antes de responder:

- O mesmo que da ultima vez, uma espiral. – respondeu, assoprando a fumaça para o lado.

-Pelo visto, temos um Serial Killer. Há tempos não esbarro com um desses.

-Claro, mais um doente mental que acredita está criando uma obra de arte ao matar tanta gente. – ironizou o loiro.

-De qualquer forma, temos um padrão. Mulheres, na faixa dos vinte a vinte cinco anos, com espirais nos corpo.

-Não é muita coisa se você quer saber.

-Eu sei, mas é um começo. Os policiais já estão vasculhando o local onde a jovem foi encontrada. Em breve teremos mais noticias.

Arthur nada disse. Apenas assoprou a fumaça, olhando para cima.

-O que eu gostaria de saber, era o porquê de ele largar sempre as vítimas em becos. Além do mais, qual o problema dele? Espirais? Tenho certeza que deve ter alguma explicação doentia para isso. – disse o japonês.

-Você sabe como são os Seriais Killers, sempre com algum motivo obscuro. – respondeu o detetive.

-De qualquer forma, temos que voltar. Temos muito trabalho para fazer hoje. E, Arthur...

-Hum?

-Tente não fumar tanto, faz mal para você.

O detetive assoprou a fumaça no rosto do amigo e apagou o restante do cigarro na parede. Ele sorriu, divertido, ao encarar a expressão irritada do japonês. Deu as costas, indo em direção à viatura, sendo seguido por um policial mal humorado.

~ o ~

O jovem de olhos azuis caminhou lentamente por um corredor até chegar em frente a uma porta de metal. Uma jovem de cabelos ondulados e castanhos, aproximou-se dele e sorrindo, disse:

-Bom dia Sr.Jones.

Ele olhou para a jovem e retribuiu o sorriso.

-Bom dia Elizaveta. Então, o que temos para hoje?

Elizaveta pegou a agenda, que estava em suas mãos e abriu, lendo o conteúdo em voz alta.

-Ás 8:00 você tem um encontro com os representantes do hotel Charlotte Strand*. Ás 11:00, o presidente dos Estados Unidos virá se hospedar e precisamos da sua presença para dar as boas vindas a ele. Ás 14:00, reunião e inspeção da gerência.

O loiro sorriu para sua secretária e disse bem humorado:

-Hoje a agenda está lotada.

-Pois é – respondeu a jovem – A vida do dono do White House* não é fácil.

-Nem me fale –suspirou- Bom, agora irei para meu escritório arrumar tudo e me preparar psicologicamente para enfrentar os irmãos Vargas. Você sabe como eles são.

Elizaveta riu com o comentário de seu patrão e disse:

-Boa sorte.

O jovem retribuiu com um aceno e despediu-se, fechando a porta em seguida. Assim que o barulho de click foi ouvido, seu sorriso desapareceu. Ele massageou a bochecha dolorida. Todos os dias tinha que fingir aquele sorriso. A verdade era que se sentia indiferente para com seus empregados. Fingia ser um bom patrão, só para manter as aparências e todos o adoravam, mas a verdade era que ele não nutria nenhum sentimento por eles.

Colocou a pasta em cima da mesa e sentou-se em sua cadeira. Um único retrato era presente naquela superfície de vidro. Nele, era possível ver um casal de meia-idade com um jovem de olhos azuis e cabelos claros. Nas mãos, o jovem segurava um certificado, onde podia se ler “Parabéns por ser formar Alfred Frederic Jones”. Aqueles eram seus pais. Pelo menos, adotivos e esse era o nome que eles haviam dado a ele.

Alfred guardava o retrato deles não por amor, mas por conveniência. Seus pais adotivos haviam dado tudo a ele. Uma vida rica, com uma boa educação. Frequentou os melhores colégios e uma grande universidade. Agora era dono de um dos grandes hotéis de Londres e continuava contando a história de que não seria nada sem seus pais e que devia tudo a eles. Ele sorria e mentia na cara de todos. Era muito fácil mentir. As pessoas se sensibilizam muito com histórias amorosas, principalmente familiares. Tudo era uma questão prática. Era o filho perfeito, sempre com boas notas, porém seus pais não desconfiavam das coisas que ele fazia por trás da máscara de bom moço.

Constantes reclamações eram ouvidas na vizinhança. Mal trato a animais principalmente. Os vizinhos achavam que era algum marginal que estava a rondar pelo bairro. Ninguém desconfiava do jovem sorridente, que todos amavam. Ele era perfeito demais para isso.

Alfred sorriu friamente, encarando os papéis em sua frente. Agora que tinha tudo, podia divertir-se a vontade. A máscara de filho, aluno e agora patrão perfeito, o caia muito bem e ninguém desconfiava dele.

Um barulho chamou a sua atenção e ele apertou o botão do aparelho, falando com sua secretária.

-Sim?

-Os irmãos Vargas já estão aqui, senhor.

-Obrigado Elizaveta. Mande-os entrar.

Desligou o botão e encarou a porta a sua frente. Era hora de representar seu papel mais uma vez.

~ o ~

O clube de xadrez West London* era destinado a pessoas que apreciavam o jogo e foi criado com o intuito de unir os amantes de xadrez do país. Criado em 1893, era o mais antigo e tradicional clube de toda Londres. Seu primeiro nome havia sido “London Chess Club” e o clube tinha uma grande história, principalmente durante a II Guerra Mundial, onde foi um dos poucos clubes a ficar aberto e a recrutar pessoas para jogarem. Seus membros eram bastante famosos. Alguns dos maiores campeões de xadrez do Reino Unido participavam do clube. E era naquele ambiente, que Arthur passava suas folgas.

O detetive amava xadrez, era algo que o fascinava. Sua mente racional calculava cada movimento das peças do seu adversário e ao mesmo tempo o próximo movimento que iria executar. Gostava de igualar o xadrez ao seu trabalho. Talvez seja esse o motivo que o fascinava tanto no jogo. Para ele a vida era um tabuleiro de xadrez e as pessoas, as peças. Gostava tanto do jogo, que às vezes jogava sozinho, desafiando a si mesmo.

Estava sozinho, sentado na cadeira e um sua frente uma grande mesa horizontal se estendia. Em cima dela, havia tabuleiros de xadrez e em frente aos tabuleiros, atrás da mesa, jogadores. Arthur estava concentrado em seu jogo. Movia as peças uma por uma e por isso não notou a movimentação ao seu lado. Os membros estavam ao redor de uma mesa e observavam um jogo desenrolar-se. Dois homens estavam em uma disputa acirrada, onde o mais novo estava levando tranquilamente, enquanto seu adversário parecia estar tendo dificuldades. Apesar de o jogador ser habilidoso, ele não conseguiu derrotar seu adversário, que com um movimento, encurralou seu rei.

-Xeque-mate – disse o mais novo com um sorriso, triunfante.

Os outros membros aplaudiram o vencedor, que estendeu a mão para seu adversário, em sinal de respeito.

-Boa partida.

O derrotado resmungou, dando as costas. O mais novo apenas observou seu adversário partir e algo chamou à sua atenção. Um jovem estava sozinho jogando. Era o único que não havia prestado atenção em sua partida. Aquilo o instigou e ele aproximou-se do rapaz.

-Com licença.

Apesar de estar em frente ao solitário, ele não deu muita atenção. Tentou mais uma vez, dessa vez, mais alto.

Ao perceber que alguém estava tentando lhe chamar atenção, Arthur tirou seus olhos do tabuleiro e encarou o jovem em sua frente. Ele era loiro, tinha olhos azuis e usava óculos. Estava usando uma calça jeans escura, uma blusa preta e uma jaqueta de couro marrom. Olhou-o por um segundo antes de responder:

-Sim?

-Pude perceber que estava tão concentrado em seu jogo, que não reparou na incrível partida acontecendo aqui.

-Eu percebi a movimentação, mas estava mais interessado no meu jogo.

O rapaz sorriu e disse:

-Vejo que é habilidoso. Gostaria de jogar comigo?

Arthur levantou uma sobrancelha e respondeu:

-Se eu quisesse jogar com alguém, não estaria sozinho, não acha? – e com isso voltou seus olhos para o tabuleiro.

Apesar da resposta grosseira, o loiro permaneceu ali, observando o jogador. Alguns minutos se passaram e Arthur continuava a encarar o tabuleiro, pensando em sua próxima jogada. Ao notar que o detetive estava em um impasse, o jovem disse:

-Você sabe que se mover o Rei das brancas para cá e sua Torre para este lado, você tem um xeque-mate?

Arthur assustou-se com a voz do jovem. Achava que ele havia indo embora. Encarou os orbes azuis e depois olhou para o tabuleiro. Notou que se ele move-se o Rei das brancas, iria deixar o Rei das negras sem muito movimento, podendo pegá-lo com a Torre.

-Como eu não percebi isso antes? – sussurrou.

O loirou sorriu confiante e sentou-se, ficando frente a frente ao detetive.

-E agora, sou um adversário para você?

Arthur encarou o jovem e a contra gosto, disse:

-Faça como quiser.

-Posso ficar com as brancas?

-Sim.

Arrumaram as peças, colocando-as em seus devidos lugares e começaram a jogar. O loiro iniciou a partida com o Peão que fica em frente ao Rei, movendo-o duas casas na frente. Arthur o seguiu fazendo o mesmo com seu Peão. Os dois Peões ficaram frente e a frente e o jovem moveu sua Rainha, levando-a por toda a extensão diagonal até a última casa. O detetive reconheceu aqueles movimentos.

“Ele está tentando usar o xeque pastor. Deve estar achando que eu sou algum idiota.” – pensou, irritando-se por ter sido subestimado.

Arthur moveu o Peão que fica em frente ao Cavalo, deixando na diagonal com a Rainha branca. Com isso ele ameaçava a Rainha e anulava o xeque pastor. O jovem o olhou por um tempo e o detetive sentiu arrepios ao encarar aqueles olhos azuis, tão inexpressivos.

Continuaram a jogar e ambos enfrentavam-se de igual para igual. Alguns membros se aproximaram para observar a partida deles. Muito tempo se passou e o jogo parecia que não ia terminar nunca. Arthur estava só com o Rei, um peão, e um cavalo, enquanto o jovem tinha o Rei, dois bispos e a Rainha.

O detetive estava com seu Rei ameaçado pela Rainha branca e o moveu para o canto do tabuleiro, afim de que evitasse um xeque-mate, porém ele cometeu um deslize e não percebeu que colocou o Rei na diagonal com o Bispo branco. O jovem aproveitou o erro e movimentou o outro Bispo, que estava paralelo ao primeiro, deixando o Rei do detetive sem chance de escapar. Arthur franziu as sobrancelhas e observou à sua situação. Não tinha para onde ir. Se mover o Rei para a direita, estará ameaçado pela Rainha. Se andar para frente, será pego pelo Bispo e se continuar onde está o outro Bispo o ameaça pela diagonal.

-Xeque-mate – disse o jovem.

O detetive encarou o loiro a sua frente. Havia perdido? Há muito tempo que não perdia para ninguém e estava surpreso pela vitória do jovem.

-Foi uma ótima partida. Você é um ótimo adversário...

-Arthur. Meu nome é Arthur Kirkland.

-Prazer Arthur. Meu nome é Theodore. Theodore Chase.

Arthur refletiu um pouco ao ouvir aquele nome, tinha a impressão de que já havia ouvido aquele nome em algum lugar.

-Theodore – repetiu – Nunca o vi por aqui. É um novo membro?

-Digamos que sim. Eu já jogava xadrez, só não havia entrado em um clube. Resolvi tentar. Tive ótimas referências sobre esse lugar.

O detetive estudou o jovem por um instante. Por causa de seu trabalho, havia aprendido a ser cauteloso e a observar as pessoas. Um barulho chamou a sua atenção e ele viu o loiro atendendo seu celular. Quando desligou, ele disse:

-Sinto muito, tenho que ir. Espero encontrá-lo mais vezes Arthur.

-Digo o mesmo Theodore.

Ambos apertaram as mãos e Arthur observou o jovem saindo do clube.

Definitivamente ele havia chamado a sua atenção.

~ o ~

O jovem de nome Theodore passou por uma banca de revista e comprou um jornal. Abriu e leu a notícia que mostrava o detetive Arthur Kirkland dando seu depoimento sobre os assassinatos em série, que estavam ocorrendo em Londres. Sorriu para si mesmo ao terminar de ler. Então, o jovem Kirkland estava investigando sobre sua pequena experiência.

Definitivamente ele havia chamado a sua atenção.

Continua...

Notas finais
CAPÍTULO DOIS PRONTO O/ Antes de qualquer coisa, me desculpem pela demora. Faculdade é coisa mais “oi, você não terá mais tempo para nada além de mim” >____< São tantos livros para ler, tantos trabalhos para fazer, além das provas e... e... ARGH >< Sorte de vocês que arranjei um tempinho para escrever (leia-se não fui para faculdade hoje) e pude terminar esse capítulo. Estou colocando o máximo de personagens de Hetalia. É bem provável que eles irão aparecer novamente ao decorrer da história. O Scott é OC, mas eu não resisto a ele >_< Não sei se ficou muito na cara, mas o Theodore é o Alfred. Ele deu um nome falso para o Arthur. E... XADREZ! Meu lado nerd está aflorando esses tempos @_@ Eu gosto bastante de xadrez, apesar de não saber jogar muito bem e mesmo com a descrição FAIL da partida, espero que tenham gostado ^^ É isso. Reviews?