American Idiot
14 Homecoming
Notas iniciais
Não, sério, ficou grande, pqp '-' Não era pra ficar assim '-'
Anyway, já vou avisando que eu pulei de POV no mínimo umas duas vezes, mas foi necessário. Eu não gosto de ficar mudando de POV nessa fic, mas eu precisei.
Bom...
Enjoy!
A primeira coisa a fazer, agora que Jimmy se foi, era reorganizar minha vida. Decidi que passaria o resto da minha vida na Danger Zone mesmo, afinal, de um jeito ou de outro, ela virou minha casa, não é? Além do mais, eu não podia arriscar me separar do Gerard. Era simplesmente burrice.
De qualquer forma, eu ainda devia muita coisa à minha mãe, apesar de eu não querer admitir isso. Mas Gerard, de algum jeito, me convenceu a ligar para ela e agradecê-la por tudo. E quando eu digo tudo, estou englobando o fato de ela ter me criado, me dado comida, abrigo e até dinheiro para as minhas drogas. Enfim, então eu peguei meu celular e tentei ligá-la. Porém, minha tentativa de tentar ligar para a minha mãe foi... Digamos... Desastrosa. Não saiu exatamente como eu queria.
–Alô?
–Oi, mãe.
–Ah, é o filho bastardo. – ela deu um riso sarcástico e eu bufei discretamente, afastando o telefone para que ela não ouvisse.
–Então... Eu sinto muito pelo que eu fiz. – mordi o lábio – E... Bom... É. Eu... Eu te amo. – isso estava sendo mais difícil do que eu pensava. Admitir que eu amava minha mãe era simplesmente... Difícil. Muito difícil.
Mais uma vez, ela riu, e sua voz saiu cheia de escárnio:
–Hah! Você foge de casa e depois vem pedir o meu perdão? Cresça e apareça, Frank! Meu coração está batendo para fora de mim e eu estou sentada aqui, sozinha! Por favor, me ligue apenas se você estiver voltando para casa.
E dito isso, ela desligou. Bufei. Gerard, que estava sentado ao meu lado no chão frio de sua rua, arqueou as sobrancelhas, em um gesto de “o que foi?”.
–Não dá pra discutir com a minha mãe.
Ele fez uma cara compreensiva e afagou levemente o meu braço.
–Sinto muito, Frankie.
–Não é culpa sua. Como esperado, eu perdi outro ano com ela, passou bem rápido.
–Como assim?
–Hoje faz exatamente quatro anos que ela começou a não se importar comigo.
–Ah...
Ficamos em silêncio por um longo tempo, até que eu me levantei subitamente.
–Acho que vou indo...
–Já? É cedo.
–Tenho umas coisas para resolver sobre o meu serviço comunitário.
–Ah sim, tudo bem. – ele se levantou e me deu um selinho – Até amanhã, então.
–Até. – sorri de lado e me afastei, andando de volta até a área onde Ray e Bob geralmente ficavam. No caminho, passei por uma loja de eletrônicos e passei a olhar meu reflexo na vitrine. De começo, vi a imagem de St. Jimmy, mas ela tremeluziu e desapareceu, deixando apenas o meu reflexo. Sorri.
–Perdi uma ou duas noites com você, Jimmy. Talvez até mais. Mas você me ensinou a viver.
De repente, ouvi um barulho vindo de uma distância considerável. Parecia uma guitarra.
Guitarra? Espera aí...
Saí correndo na direção de onde vinha o barulho. Enquanto corria, pude ouvir uma voz melódica:
–Nas ruas da vergonha, onde você perdeu os seus sonhos na chuva, não há sinais de esperança, apenas o que sobrou da maconha fumada!
Acabei indo parar em um local estranho da cidade, onde, normalmente, ocorriam shows de bandas totalmente undergrounds. Porém, diferentemente das outras vezes, vi um aglomerado muito grande de pessoas que sorriam, gritavam e pulavam, felicíssimas. Era o típico cenário de um show de rock. Podia jurar que vi uma roda punk em um canto, mas ignorei-a. Em cima do palco, pude ver a figura de Tré, Billie e Mike, que tocavam com alegria. O vocalista olhou para mim e senti seu olhar perfurar minha alma, mas ele sorriu.
–Há uma luz suave, o St. Jimmy é a faísca na noite. Trazendo presentes e segurança, a fixação da cidade da luxúria.
Mordi o lábio inferior. Ele sabia de tudo o que havia ocorrido.
De repente, Billie estendeu a mão para mim. Segurei-a e ele me puxou para cima do palco. Era... Estranho estar ali, na frente de um grupo enorme de pessoas... E sem saber o que falar! O que eu ia falar? O que Billie queria?
–Qual é o seu nome?! – gritou ele, antes de estender o microfone para mim. Hesitei um minuto antes de sorrir e dizer:
–Frank. Frank Iero.
–Qual sua alegria e qual sua dor?
–Minha alegria é... É estar ao lado daqueles que eu amo. Minha dor é ter o monstro dentro de mim exposto para todos verem.
–Você sonha demais? Você acha que o que precisa é de um apoio?
–Não, eu posso viver por mim mesmo. Não tenho medo de continuar vivendo, não tenho medo de caminhar nesse mundo sozinho. – Billie sorriu mais uma vez, com uma expressão orgulhosa no rosto. Sorri de volta. Ele continuou cantando e eu fiquei assistindo ali, parado, aguardando mais algum comando vindo dele.
–Na multidão da dor, St. Jimmy vem sem se envergonhar! Ele diz “estamos todos fodidos”, mas não somos iguais! E mamãe e papai são os que você pode culpar!
As pessoas que assistiam ainda pulavam e gritavam aos sons que saiam da guitarra de Billie, do baixo de Mike e da bateria de Tré. Vi Mike fazer um aceno de cabeça para mim e rir, enquanto Tré gritou “HEY ANÃO!” para mim. Bufei e tentei ignorá-lo.
–HEY, AQUELE É O JIMMY! – gritou uma pessoa na multidão. O trio parou de tocar e todos se voltaram para olhar o tal “gênio” que havia descoberto quem eu era. Levantei uma sobrancelha ao ver que era uma das meninas que ficava na Danger Zone. Não sabia o nome dela e nem fazia questão de descobrir.
–Não, não sou o Jimmy. – suspirei – Meu nome é Frank Iero, como eu já disse antes. Venho de Jingletown, tenho dezesseis anos. E quanto ao Jimmy... Jimmy morreu hoje, ele explodiu o cérebro na baia, num estado de espírito e no meu suicídio particular.
Mas ninguém se importa, pensei, fazendo uma careta discreta, Alguém se importa se ninguém se importa?
De repente, notei a hora.
–PUTA QUE PARIU! TENHO QUE IR! – arregalei os olhos e me virei em direção a Billie – Obrigado... Por tudo. – sorri, profundamente agradecido, antes de correr para poder preencher os papéis do meu serviço comunitário.
–X-
POV Gerard
Observei Frank se afastar e suspirei. Sempre que ele ia embora, eu me sentia particularmente inútil, afinal, eu não tinha mais nada para fazer. Por isso mesmo, sentei-me novamente no chão e ouvi música. De repente, um par de pernas femininas na minha frente. Levantei o olhar e vi Cherry. Acenei levemente e ela se sentou ao meu lado.
–Hey.
–Hey... – murmurei.
–Onde está o Frank?
–Está preenchendo os papéis no escritório na Rua 12, Leste.
–Ah sim. Espera, pra quê?
–Serviço comunitário. – dei de ombros – Ele foi preso.
–Ah... Ele não deve estar escutando uma só palavra do que dizem a ele. – Cherry riu – Se o conheço bem, ele está no mundinho dele e está sonhando acordado.
–Provavelmente. E deve estar ignorando tudo o que falam para ele... – também ri – Mas eu até o entendo. Ele preferia estar fazendo outra coisa, tipo fumando e tomando café com a turma dele.
–Acho que ele não pode fugir disso. – Cherry mordeu o lábio inferior – Quer dizer, sua vida está na beira da ansiedade agora... Sabe, se ele preencher todos aqueles papéis, ele vai ser obrigado a ficar aqui até terminar o serviço.
–Com certeza.
Ficamos em silêncio por um longo tempo, até que ela se pronunciou novamente:
–Ei... Como você acha que ficou a relação entre ele e a Whatsername?
–Ela teve o suficiente e ele teve bastante. Ambos já viram demais um do outro. Uma hora isso ia acontecer, nós dois sabemos que eles são completamente diferentes entre si... – dei de ombros – Não é nenhuma surpresa.
–Isso é verdade. – comentou Cherry – Enfim, eu vim te convidar pra uma festinha. Quer ir?
–Não estou com cabeça para isso...
–Você que sabe. – ela deu de ombros – até mais.
Acenei para ela e observei-a se afastar lentamente.
–X-
POV Linda Iero
Então aquele ingrato resolveu ligar?
Hm.
Que interessante. Achei que ele duraria menos naquela cidade. Acredite, eu já morei lá, é o caos.
Mas por que ele não volta para casa? Quer dizer... Não que eu o queira por perto, mas... Não sei... Será que eu o quero de volta?
Não! Não o quero de volta! Estou ficando louca? Frank é o filho mais mal agradecido no mundo, é óbvio que eu não o quero por perto!
Ou eu quero?
Argh, que confusão.
Mas de uma coisa eu sei: aposto que ele está se dando mal na cidade. As pessoas são extremamente frias e não dão a mínima atenção a você. Imagino o que Frank deve estar sofrendo.
Mordi o lábio antes de, finalmente, decidir ligar para ele novamente. Porém, para a minha surpresa, ele não atendeu. Tentei uma, duas, três vezes. Nada. Caía direto na caixa postal. Lá pela quarta ou quinta vez, resolvi deixar uma mensagem.
–Então... Eu só vim lhe avisar uma coisa... Você vai se dar mal na cidade, portanto, aconselho-o a voltar para casa... – minha voz era trêmula e minha mente estava dividida entre admitir que queria que ele voltasse ou simplesmente manter a fachada dura e fria. Porém, aquela muralha de frieza logo caiu e eu comecei a chorar enquanto falava minha mensagem – Eu... Eu adormeci enquanto assistia Spike TV, depois de dez xícaras de café e você ainda não está aqui! Por que não vem para casa, Frankie? – mordi o lábio inferior mais uma vez – Eu... Eu estava sonhando com uma canção... Ela dizia algo como “Meu nome é Jimmy e é melhor você não me encher”... Devo estar delirando. – ri fracamente – Mas aí algo deu errado... E eles começaram a cantar “Jimmy morreu hoje”, mas eu não posso contar isso a ninguém, porque não há ninguém aqui. Você me deixou sozinha e eu deveria ter ficado em casa, mas não, comprei mais drogas... E eu admito isso. Após 10 xícaras de café, eu estou pensando... “Ninguém gosta de você, todo mundo te deixou, estão todos lá fora sem você, se divertindo”. E estão mesmo... Você deve estar aí, se divertindo com seus amigos... E eu aqui, sozinha. – dei uma risadinha trêmula – Então... Por favor, Frankie... Volte para casa, eu lhe peço. Eu... Eu te amo.
Desliguei o celular, sem acreditar que eu tinha achado a coragem para dizer tudo aquilo.
–X-
POV Frank
Ao chegar ao escritório na Rua 12, corri com toda a minha vontade até o elevador, apertando o andar número dois, sem me importar com a minha aparência ou coisas do tipo. Simplesmente escancarei qualquer porta que estivesse em meu caminho, preocupado com meu atraso, até que entrei na sala número cinco, vendo uma secretária levemente entediada atrás de um balcão.
O ambiente tinha a cara de ser um típico prédio de negócios, apesar de não ser o caso. Era claro, arrumado e monótono.
–Ah, você é o preso, não é? – disse a secretária, que mascava um chiclete. Ela era particularmente bonita, mas tinha cara de vadia, portanto, simplesmente a ignorei.
–É.
–Frank Iero?
Assenti. Ela me passou uns formulários e eu comecei a preenchê-los quando entrou mais uma pessoa na sala.
E adivinhe quem era?
Isso mesmo, o cara que eu espanquei no meu primeiro dia como St. Jimmy.
–Jimmy? – disse o cara, arregalando os olhos.
–O que você quer? – rosnei.
–Eu? Nada. Só ver a minha namorada. – ele sorriu antes de dar um selinho na secretária, que sorria sedutoramente e mexia nos cabelos loiros – Quer dizer que você foi preso, huh? Cansou de ser um falso rebelde e resolveu ganhar o selo “rebelde do ano”? – ele riu.
–Como se você nunca tivesse sido preso. – retruquei.
–Realmente, já fui. Mas não preciso mais disso. Eu tenho uma banda de rock’n’roll, eu tenho uma vida rock’n’roll, eu tenho uma namorada rock’n’roll... – ele sorriu mais uma vez para a loira – E outra ex-mulher, mas isso não vem ao caso – ele murmurou a última parte, com a esperança de que nem eu e nem a secretária tivéssemos ouvido.
Estranhei a última parte, mas deixei-o continuar antes de fazer qualquer pergunta.
–Eu tenho uma casa rock’n’roll, eu tenho um carro rock’n’roll, eu toco bateria e sei tocar guitarra. Tenho um filho em Nova York, tenho um filho na baía, não bebi nem fumei nada nos últimos 22 dias, portanto, não tenho motivos para ser preso. Minha vida é ótima. Então, me deixa em paz.
–Uma ex-mulher, huh? Por acaso é a tal Dakota? A menina que estava com você no dia em que eu te espanquei? – sorri.
–Dakota? Quem é Dakota? – perguntou a secretária, visivelmente alterada.
–Eu... Amorzinho, calma... – ele parecia se embaraçar enquanto tentava explicar a situação à nova namorada. Eu sabia que ele e Dakota nunca tiveram nada, mas era legal ver ele se embaraçar mesmo assim.
–QUEM. É. DAKOTA?!
–Eu... Han... É... É minha ex-mulher!
Arregalei os olhos. Ela era mesmo a ex-mulher dele?!
Ri baixinho enquanto os dois discutiam, até que vi a porta se abrir e a policial Williams me chamar discretamente. Deixei o recinto sem maiores problemas, já que os dois estavam brigando e gritando. Fechei a porta atrás de mim e a policial sorriu em minha direção.
–Boas notícias. Consegui transferir seu serviço social para Jingletown. Você pode voltar para casa.
–Sério? – arregalei os olhos e abracei a policial, mesmo sabendo que, provavelmente, eu ganharia um tiro depois dessa – AAAAH, OBRIGADO, OBRIGADO, OBRIGADO!
–D-de nada... – disse ela, rindo e franzindo a testa ao mesmo tempo. Ela retribuiu meu abraço antes de me soltar e dizer – Agora anda, sai daqui antes que esses dois explodam o prédio. – disse ela, fazendo um gesto em direção à porta, de onde saiam vários gritos raivosos. Ri baixinho e corri em direção ao elevador, após agradecê-la mais uma vez.
Em uma velocidade surpreendente, cheguei à porta do prédio, correndo em direção à Danger Zone, para poder contar as boas novas a Bob, Ray e Gerard...
Espera!
Gerard!
Ah meu deus, como é que eu vou deixá-lo assim? Não... Eu... Eu não posso deixá-lo... Mas como vou convencê-lo a vir comigo? Não posso pedir para ele abandonar a cidade assim... E seu irmão? Como ficaria?
Ah, céus. Essa ideia já não me parece tão boa.
Diminuí o passo, tentando pensar em uma solução para isso. Infelizmente, só havia uma coisa a fazer: conversar com ele e ver o que ele quer.
Mas será que eu ia aguentar perdê-lo?
–X-
Alguns minutos depois, cheguei na rua de Gerard e o encontrei sentado no chão frio e encostado na parede, como sempre. Vi um sorriso iluminar seu rosto ao me ver e não pude deixar de sorrir fracamente.
Eu não queria perder isso... Não queria perder seu sorriso doce...
Sentei-me ao seu lado e ele me deu um selinho antes de pegar minha mão e começar a conversar comigo. A maioria das vezes, eu só assentia ou dava uma risadinha forçada, sem prestar muita atenção no que ele dizia, até que senti que ele me chacoalhava.
–Frank!
–Hmm?
–Eu estou te chamando faz meia hora!
–Desculpe. – murmurei.
–Está tudo bem, meu amor? – indagou ele, parecendo realmente preocupado.
–Er... Não. – admiti – Precisamos conversar.
Ele logo ficou um pouco tenso. Contei a ele o que a policial havia me dito e, ao fim de meu relato, ele parecia perplexo.
–Então você... Você vai voltar para Jingletown?
–É. – suspirei – Mas não te peço para ir comigo, afinal, eu sei que você tem o seu irmão... E você já tem uma vida aqui. Apesar de eu gostar muito de todo mundo aqui... Meu lar é Jingletown. – suspirei – Acho que finalmente entendi aquilo tudo de “Lar é onde o seu coração está”.
Gerard ficou em silêncio por um longo tempo e eu não o pressionei para falar. Alguns minutos depois, ele disse:
–Eu... Eu não posso. Não posso ir. – ele acariciou minha bochecha, limpando uma lágrima que escorreu automaticamente ao ouvir essas palavras serem proferidas por ele – S-sinto muito, Frankie! Por favor, não chore!
Ignorei-o e comecei a chorar em seu peito. Eu não queria deixá-lo, mas... Mas eu não posso mais viver nessa cidade. É muito para mim. Se eu não sair da cidade, eu vou sucumbir.
Fiquei abraçado a Gerard enquanto ele me acariciava e me dizia para não chorar. Mas... Sinto que isso não era mais possível... Eu queria chorar. Chorar como uma garotinha.
–Frankie... Por favor... Perdoe-me... – sua voz estava entrecortada e eu sentia um enorme peso no coração.
–N-não... Eu compreendo... Eu já imaginava isso... – sorri fracamente. Aquilo era verdade. Eu já imaginava que ele não ia poder ir para Jingletown comigo. O problema é que... Ouvir isso da boca dele doía mais do que simplesmente pensar nisso.
–Eu não queria, mas... Eu não posso, eu cresci aqui...
–Sério, Gee, eu não te culpo. – levantei o olhar e afastei sua franja de seus olhos já marejados de lágrimas – Eu já sabia que você não poderia ir. Só alimentei falsas esperanças. – funguei – Mas... Eu te prometo uma coisa... Eu nunca vou te esquecer. Ok?
–O-ok...
–Eu tenho que ir avisar a Ray e Bob... Mas te vejo daqui a pouco... Isso é, se você quiser se despedir de mim.
–Deixa de ser tonto! – disse ele, rindo levemente – É óbvio que eu quero!
Ri baixinho e limpei uma lágrima que escorreu de seus olhos. Beijei sua testa e me afastei rapidamente, tentando reter as minhas próprias lágrimas que teimavam em escorrer pela minha face. Logo avistei Bob e Ray na Danger Zone, encostados em um muro. Ao me verem, acenaram. Acenei de volta, sorrindo fracamente.
–E aí, Franks! O que houve?
–Ah, eu tenho boas notícias.
–Fala.
–Nós... Hmm... Vamos voltar para Jingletown.
Os dois arregalaram os olhos e começaram a saltitar, visivelmente felizes. Começaram a falar sobre os planos que tinham para quando chegassem em Jingletown, etc.. Mas eu continuei alheio a tudo isso, simplesmente fixando meu olhar em um ponto qualquer no céu. De repente, eles notaram isso e Ray me cutucou:
–Franks? O que houve? Por que não está feliz? Não quer ir embora?
–Não, eu... Eu quero... É só que... – suspirei e fiz uma careta – Não queria deixar o Gerard...
–Ah é, tem ele... – Bob mordeu o lábio inferior – Por que ele não vem conosco?
Sacudi a cabeça.
–Ele tem uma vida aqui, Bob. Ele nasceu e cresceu na cidade... Além do mais, seu irmão ainda mora aqui, ele nunca abandonaria o irmão.
Os dois se entreolharam.
–Sentimos muito, Frank...
–Não sintam. Eu vou ficar bem. – espero.
–X-
Uma hora depois, nós três estávamos nos preparando para ir embora. Cherry cedeu um dos carros que não eram utilizados na Danger Zone para podermos ir embora. Agradeci-a diversas vezes, porque eu não estava nem um pouco a fim de ir a pé até Jingletown.
Como eu já havia me despedido de todos, os únicos que me esperavam era Cherry e Gerard. Bob e Ray deram tchau aos dois e entraram no carro. Sorri e abracei Cherry.
–Obrigada por tudo, Cherry.
–Não foi nada, Jimmy... Quer dizer, Frank. – ela fez uma careta divertida – Boa sorte em Jingletown. Vem visitar a gente, se você puder!
–Vou fazer um esforço. – ri levemente. Era verdade. Eu ia arranjar qualquer desculpa para voltar aqui, mas não só para ver o Gerard (como vocês devem estar imaginando), mas simplesmente para voltar a entender o porquê de eu ter voltado para casa. Eu sei que vou começar a questionar mais uma vez se não deveria ter ficado na cidade, portanto, algumas visitinhas regulares não vão fazer mal.
Separei-me de Cherry e me virei em direção a Gerard. Ia ser difícil me despedir dele, mas eu tinha que tentar.
–Frankie, eu... – interrompi-o antes que ele pudesse terminar a frase.
–Gerard, não precisa pedir desculpas. Eu sei que você precisa ficar.
Ele suspirou e me beijou.
–Eu vou sentir sua falta... – sussurrou ele, com algumas lágrimas nos olhos.
–Eu também vou sentir sua falta, Gee... – beijei sua testa – Mas eu preciso voltar, eu... Eu sinto muito, se eu pudesse ficar, eu juro que ficaria.
–Eu sei disso. Mas tudo bem, Frankie. Eu entendo.
–Tem certeza?
–Claro. – ele sorriu fracamente – Mas... Como nós ficamos agora?
–Eu... Eu não sei. – admiti.
Nós dois ficamos em silêncio por um longo tempo, até que Ray, que estava dirigindo, buzinou impacientemente. Bufei e gritei um “já vai”. Cherry riu e foi conversar com os dois, para ver se eles paravam de me apressar. Foi aí que Gerard segurou minhas mãos e me beijou mais uma vez.
–Frankie, eu vou lutar pela nossa relação... Nós vamos continuar juntos... Entendeu?
–En... Entendi. Obrigado, Gee. – sussurrei.
–Não há de quê. Agora vai, eles já estão ficando impacientes.
Separei-me dele, com uma dor enorme no meu coração. Porém, era necessário. Entrei no banco de trás do carro e Cherry se despediu de nós uma última vez. Quando Ray deu a partida, pude ouvir uma voz ao longe cantando:
Aí vem eles, marchando pela rua, como um murmúrio desesperado de uma batida de coração, voltando dos limites da cidade, debaixo dos pés deles.
–Faz quanto tempo que estamos aqui? – indagou Ray.
–Faz, pelo menos, duas semanas. – respondi, sem humor algum. – O tempo veio e não está indo para lugar nenhum. Isso tudo foi inútil, tudo o que eu ganhei foi uma prisão, meses de serviço comunitário e uma penca de problemas.
–Mas te trouxe o Gerard. – disse Bob. Não respondi, afinal, ele tinha razão, apesar de eu não admitir.
–Franks, se acalme! Vai ficar tudo bem, ok? Vocês dois vão continuar juntos e tudo o mais! – disse Ray.
–É o que eu espero. – admiti.
–Acredite em mim, vai ficar tudo bem. – ele sorriu. Sorri de volta. Era bom saber que eles se preocupavam comigo, mas eu tinha certeza de que não ia ficar tudo bem.
–É meio injusto, sabe? Vocês dois se amam... Mas não podem ficar juntos. – Bob revirou os olhos – É meio imbecil.
–Ninguém nunca disse que a vida era justa.
–Verdade, mas podia ser.
–Se fosse, nós não estaríamos aqui.
E com isso, eu encerrei a discussão. Ambos ficaram calados e eu também. Eu sentia o mundo girando e girando fora de controle mais uma vez. Perguntei-me se os dois sentiam o mesmo, antes de cair no sono.
–X-
Somente acordei após horas e horas de sono, e só acordei porque Bob gritou:
–FRANKS! FRANKS! NÓS JÁ CHEGAMOS! CHEGAMOS EM JINGLETOWN! – sua voz era extremamente animada e eu grunhi alguma coisa inteligível antes de realmente acordar e me ver na 7-11.
Naquela 7-11, que tinha medo de se decepcionar, que tinha medo de crescer, medo de se machucar.
A minha 7-11.
O meu lar.
–ENTÃO MANDE UMA CARTA-BOMBA E ME VISITE NO INFERNO! – ouvi uma das pessoas drogadas gritar, e isso era como uma saudação para mim. O sol da manhã (sim, já era de manhã) aquecia levemente o terreno da 7-11 que eu tanto conhecia. Os mesmos carros, os mesmos grupinhos... Tudo igual. Saí do carro lentamente.
Afinal, nós éramos aqueles que estávamos indo para casa.
Estamos voltando para casa novamente.
Eu comecei a correr assim que meus pés tocaram o chão, em direção à pilastra onde eu, Ray e Bob geralmente ficávamos antes de irmos para a cidade.
–Estamos de volta ao bairro! – disse Bob. Ele sorriu e eu não pude deixar de sorrir junto, o que surpreendeu os dois, já que, a viagem inteira, eu havia permanecido com uma cara séria e/ou triste.
–O que houve?
–Eu posso até sentir falta da cidade, mas... Para eu e vocês, Jingletown é o nosso lar. – admiti. Ambos sorriram mais ainda e nós nos abraçamos.
–Eu disse que você ia ficar bem! – disse Ray, com um sorriso convicto. Dei de ombros.
–Isso eu não posso saber... Quer dizer, é claro que eu vou sobreviver, mas eu não sei se quero continuar sobrevivendo assim... Eu... Só acho que seria muito melhor se eu tivesse o Gee do meu lado. Ia ser... Melhor para mim. E eu ficaria muito mais feliz.
–Então pode ficar feliz. – disse uma voz atrás de mim. Ray e Bob arregalaram os olhos e eu franzi a testa.
–Quem... – girei em meus calcanhares e vi ele.
Gerard Way. Com uma mala na sua mão direita.
Notas finais
Sinto informar-lhes que o próximo capítulo será o último, é. Eu sei que é a música Whatsername, mas também vai funcionar como um epílogo, assim como American Idiot funcionou como um Prólogo.
Yeah.
Beijo *u*
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