A escola estava agitada com a penúltima semana de aula antes do grande baile de inverno, e em seguida o pequeno recesso para natal e ano novo. Naquela manhã em Forest Lake começava a nevar — algo raro — apesar da cidade chover com frequência, nevar era algo bem incomum, mesmo no inverno.

Taylor apareceu cheia de casaco, estava até engraçado. Luke por alguma razão só estava com sua jaqueta e um cachecol. Nascido e crescido em Los Angeles, de frente a praia, era difícil encarar todo aquele frio.

Sentados na biblioteca, Taylor estava sentada no colo do namorado, buscando se aquecer. Jessie estava com luvas e touca.

— Aí vocês estão zoando né? Eu aqui morrendo de frio e vocês aí. — Ela ria, mas estava irritada.
— Eu tenho outra perna. — Luke ria, oferecendo colo. Taylor dava tapa no braço do namorado.
— Ei! — Taylor ria.
— Ué... — Luke parecia confuso e os três riam da situação.

Era quinta-feira, dois dias da festa da Vicky. Essa por sinal, estava desesperada. Tinha planejado toda sua festa na piscina, mas com a neve caindo, seria impossível fazer sol em dois dias.

Ela queria faltar a escola para se dedicar a festa, a organização. Porém, Vicky tinha alguns cargos dentro da escola. Um deles, ela era líder do grupo que organizava a maioria dos eventos da escola. Dentre eles, o baile de inverno. Parecia algo simples, mas a cabeça da Princesa de Forest Lake estava a milhão.

Ela tinha sua festa para organizar, decorações, comida, bebidas, música, convidados, atrações. Tudo mudando de última hora por causa do clima. Para completar, precisava acertar os detalhes finais do baile de inverno. Ela ainda por cima concorria a Rainha do baile.

Vicky tinha ensaio para os jogos do time de Basquete, ela era líder de torcida. E atualmente ela conseguiu um contrato para fazer um desfile em Minneapolis, cidade mais populosa de Minessota, estado onde moram. Seria a primeira vez que a jovem iria desfilar, seria na véspera de natal. Cerca de duas semanas.

— A festa na piscina babou né? — Taylor perguntava.
— Que bom, assim não precisarei mostrar meu corpo quase nu. — Luke dizia rindo, ele estava piadista.
— Sei. — Jessie ria. — Estava era preocupada da Taylor de biquíni para a escola toda né?
— Isso nem passou para minha cabeça. — Dizia Luke com um sorrisinho.
— Que? — Taylor só tinha percebido isso naquele instante. E ambos riram.

Luke abraçou a namorada que se acolhia no colo e nos braços do rapaz. Estavam mais quente. Jessie por algum motivo começou a soar pelas mãos e retirou as luvas. O aquecedor da biblioteca estava ligado, e pelo fato de uma enorme quantidade de alunos estarem lá.

— Jessie, estou sem dinheiro, Cid vai liberar uma fichas? — Luke perguntava.
— Claro. Mas, você sem dinheiro? — Jessie parecia surpresa.
— É... eu estou sem.
— Então eu pago o nosso lanche hoje! — Taylor dizia orgulhosa.
— Eu ouvi lanche de graça? — Jessie com seu tom de voz elevado.
— Claro, amiga, comer umas batatinhas!
— Eu amo BATATAS!! — Jessie parecia salivar ao imaginar batata frita bem crocante em sua boca.
— Nossa, Jéss, você acabou de almoçar! — Luke ria.
— O que tem? Comida é a oitava maravilha do mundo!
— Concordo! — Taylor e Jessie batiam as mãos.

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Sábado chegou, não estava nevando, mas estava fazendo bastante frio. A temperatura estava exatamente zero graus. Na manha daquele dia, Vovó Mary viu Luke estacionar o carro as 5h47 da manhã. Quando ele estava saindo do carro, ela saiu pela porta da cozinha, feliz em ver o neto.

— Oi meu filho.
— Vovó? — Luke surpreso — Entre vovó, está frio aqui fora.
— Tá tudo bem... — Ela dizia enquanto se cobria com sua manta. — Estava na Taylor?
— Não, vovó. — Luke retirava uma sacola grande e aparentemente pesada e fechava o carro.
— Queria um favor, meu filho. — Mary entrava na cozinha enquanto seu neto entrava em seguida e fechava a porta.
— O que quiser, vovó. — Luke abria sorriso, mesmo aparentando cansaço, ele amava sua avó.
— Pode jogar esses números? — Entregava um pequeno bilhete. — E comprar pão para tomarmos café?
— Claro... Já venho.

O californiano subia as escadas com a sacola e voltava menos de dois minutos depois, antes de sair mostrava que estava com o bilhete com os números.

— O dinheiro! — Vovó se virava para pegar o dinheiro para comprar o pão e jogar na loteria.

Quando se virou, o carro já tinha ido. Luke estava a caminho do centro, de carro não demorou nem cinco minutos e lá estava. Parou na padaria primeiro, comprou dois dólares de pão, veio um saco com dez. Aproveitou e comprou presunto, estava com vontade.

Logo, na loja ao lado, foi ver Irving, o homem que vende jogos da loteria. Ele reconheceu o garoto da semana anterior. Neto de Vovó Mary.

— Olá rapaz. Veio jogar pela vovó Mary?
— Sim, senhor.
— Como ela está?
— Bem.
— São dez dólares. — Dizia enquanto entregava o bilhete para Luke marcar.

Luke pegou o bilhete amassado em seu bolso e viu os números: 4, 8, 15, 16, 23, 42. Logo abaixo uma pequena mensagem. "A vovó se orgulha de você, seja o piloto de seus sonhos. Eu te amo. Mary"

O rapaz desamassou o pequeno bilhete, guardou novamente e foi embora. O prêmio era de 50 milhões de dólares. Mas Luke ganhou seu dia ao ler aquela mensagem. A última lembrança que teria de sua vó.

≈

Música

Estava chovendo bastante, tinha tantas pessoas reunidas naquele local que era impossível contar. Talvez a cidade toda. O dia de sábado foi simplesmente um dos piores dias da cidade de Forest Lake. Festa da Vicky foi cancelada, inauguração do Fliperama de Cid Simpson foi adiado. E naquela manhã de domingo, todos se reuniram no cemitério da cidade, Lar dos anjos. Como carinhosamente era chamado pelos moradores mais antigos do local.

Rose Carter chorava, apoiada em seu ex marido. Com um véu em seu rosto, tentando esconder as lágrimas que se misturavam com a chuva. Um mar negro tomava conta do local. Todos de preto, em luto.

Luke de terno olhava o caixão sendo enterrado lentamente. Seu olhar perplexo sem nenhuma reação. Taylor que passou o tempo todo ao lado do namorado, naquele instante estava ao lado de sua mãe, Diane. Que chorava, conheceu a vida inteira vovó Mary, que aos 56 anos veio a falecer após um ataque cardíaco fulminante.

Chloe apareceu ao lado do garoto, tinha vovó Mary como uma segunda mãe, a quem a criou ela e seus irmãos. Ela segurou a mão de Luke e apertou. O rapaz olhou para baixo e naquele instante, Luke chorou. Chloe o abraçou e repetiu o gesto, também chorava.

Jessie não compareceu ao velório, passou mal. A pessoa mais sentimental da cidade, não aguentou saber que a tão adorável e famosa velhinha da cidade, tinha ido. Sentia a dor de seu melhor amigo.

No inverno de 1986, Mary Evelyn Banks, que nasceu em 1930 em Forest Lake. Se casou e teve uma filha. Morou a vida inteira na mesma casa, onde também nasceu, foi onde morreu. A cidade se lembraria para sempre. Luke se lembraria pra sempre de sua avó.