Amelia
3 c a p í t u l o 2

"Sabe qual é o problema do ser humano, Sr. Morrisson?" a professora pergunta se apoiando pesadamente sobre a mesa de um menino magro e esguio sentado na primeira carteira da primeira fileira. Ele ajeita seu óculos ligeiramente sobre o nariz fino, longo e pontudo e engole em seco. A professora de filosofia tinha cara de brava e impiedosa, e se eu fosse ele, também estaria meio assustada.
"Não, Sra.Fray" ele diz e ela ri voltando para o quadro verde e pisando firme ao subir no tablado.
"O problema do ser humano, Sr. Morrisson, é querer saber das coisas sem nem mesmo saber de seu principio. Por que certa coisa é de tal jeito? Como chegou até ali? E isso pode ser aplicado a filosofia. Como pode se querer ser estudado algo do qual você nem sabe o que é? Alguém aqui sabe me dizer o que é a filosofia?" ela diz e nem uma alma viva se levanta. Nem um dedo levantado, nem sequer uma pessoa com algo a dizer.
"O sentido literal poderia ser o amor à sabedoria" um menino diz da porta e todos da sala voltam sua atenção para ele, inclusive a professora que está com a cara amarrada e os braços cruzados um sobre o outro. "O trabalho da filosofia é estudar problemas essenciais da humanidade, em busca de uma compreensão da realidade e de como o homem se relaciona com o mundo. A filosofia na verdade não procura realmente uma verdade absoluta, mas sim hipóteses infinitas do que poderia ser. Para resumir, é a decisão de não aceitar como obvias e evidentes as coisas, ideias, fatos, valores da nossa existência cotidiana, sem antes investigar".
A professora olha o menino dos pés a cabeça e sorri para ele.
"Não poderia ter havido uma classificação melhor para a aula de hoje. Vou fingir que não chegou atrasado e mandar você escolher um lugar para se sentar. E qual o seu nome mesmo?" a professora diz para o menino.
"Cole Sprouse".
"Ah, claro. A carinha não me era estranha. Já ouvi falar de você. Você e seu irmão. Os gêmeos Sprouse. Bom, pelo que sei são bagunça para a escola mas devo dizer que me impressionei com seus conhecimentos" ela diz enquanto o menino percorre o olhar por toda a sala, aparentemente procurando um lugar para se sentar na sala cheia e adivinhe só? Só tinha um único lugar e bem ao meu lado.
Seus olhos verde água encontram os meus e logo o menino está caminhando a passos largos para se sentar ao meu lado na cadeira de dupla.
"Bom, devo corrigir que meu irmão é que é bagunça. Eu não. Apenas sempre estou no lugar errado e na hora errada, com a pessoa errada" ele diz colocando a mochila no chão e se sentando ao meu lado.
"E onde está seu irmão?"
"Dylan estava... com problemas e não pode vir no primeiro dia. Mas garanto que ele vem amanhã".
A aula continua e o menino não procura falar comigo nem por um momento e parecia ligeiramente incomodado ao meu lado, como se quisesse dizer algo.
E ele era tão irritantemente bonito! Olhos verdes, pele clara e com algumas pintinhas, lábios grossos, cabelos loiros meio castanhos e corpo definido. Sem falar no cheiro de menta exalando dele. Um colar rodava seu pescoço, batendo um pouco abaixo das clavículas, com seu nome escrito em negrito e com letras largas.
Ele se vira rápido sério para mim e só então reparo o quão patética pareço, apoiada sobre minha mão apoiada na mesa, mordendo a ponta do lápis e encarando-o feito uma louca. Levanto a postura rápido e volto a olhar para o quadro onde a professora tagarela sem parar.
Ele ri. Ah, como eu queria ver seu sorriso.
"Qual o seu nome?" ele pergunta e sinto minhas mãos suar.
"Amelia" — digo e ele parece ficar incomodado novamente. Será que eu estava fazendo algo errado? Ou não sei, nunca fui muito boa com socialização.
"Certo...tem irmãs?" ele pergunta e rio de nervoso. Que tipo de pergunta era aquela?
"Não, não que eu saiba pelo menos. Minha mãe teve alguns namorados incontáveis e nunca se sabe" digo rindo e tentando quebrar o clima.
Ele volta sua atenção para o quadro e fica o resto da aula quieto girando o lápis com os dedos magros. Ótimo, primeira chance de fazer amizade e já falhei. Muito bom, Amelia...
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