Ambiente Hostil
2 Missão Iniciada
Notas iniciais
Os cinco astronautas estavam na sala de treinamento onde tinham acabado de realizar os últimos testes que averiguaram se todos eles eram física e psicologicamente capazes de aguentar a viagem que estavam prestes a fazer.
— Mas que merda! Por que essa demora toda? — reclamou Tom, um dos membros da equipe. Seu maxilar grande e forte e cabelo castanho claro desfiado, somados aos penetrantes olhos azuis davam a ele uma aparência jovial. Na estação espacial, atraia os olhares de todas as garotas por seu rosto bonito. Já sua personalidade, destacava-se por ser altamente explosiva e arrogante.
— Ora, tenha calma, Tom. Os resultados devem sair logo. — disse a bela Kayla, uma das astronautas do local. Recebia carinhosamente o apelido de "Neve" de seus amigos, por possuir uma pele muito clara. Seus cabelos loiros, que também adotavam uma fraca tonalidade de castanho, eram longos e chamavam a atenção de todos. Tinha olhos escuros e uma boca com lábios que tentavam todos os homens da estação. Além de beleza, era dotada de uma inteligência e senso crítico invejável. Era o tipo de moça idealizada pelas fantasias mais utópicas dos homens, se não fosse por um detalhe: seu braço.
O pai de Kayla trabalhava em uma marcenaria. Certo dia, devido um atraso de sua esposa, teve de buscar sua filha na escola e por não ter tempo, a levou para o trabalho. Em um momento de descuido, o pai de Kayla não percebeu que ela estava brincando com uma de suas máquinas de serrar. Naquele dia, a garota aprendeu que não é legal brincar com máquinas feitas para serrar madeira. Infelizmente, a vida lhe ensinou isso da pior forma: tirando seu braço.
Kayla teve que aprender a usar o braço esquerdo para realizar as tarefas. Apesar das dificuldades que a perda do membro trouxe, Kayla conseguiu chegar onde chegou. Se tornou uma astronauta trabalhando numa das mais modernas estações especiais.
No ano anterior, como presente de aniversário, Kayla ganhou um braço mecânico, que substituiu aquele que ela havia perdido. Aliás, a própria tecnologia estava se tornando cada vez mais um auxílio para a humanidade. Em 2045, além dos moderníssimos braços mecânicos, como o que foi dado à Kayla, ainda existiam aparelhos de simulação virtual extremamente realistas, além de nanorobôs que atuavam fortalecendo o sistema imunológico ou até mesmo regulando a circulação sanguínea, melhorando a vida de diversas pessoas que enfrentavam problemas de pressão.
— Não ligue para ele, Kayla. Você sabe que o Tom é um rapaz muito estressado. — disse Susan, outra das astronautas que integravam a equipe.
Susan era negra, devido às raízes africanas por parte de sua mãe; ostentava os seus cabelos cacheados, dos quais se orgulhava muito. Susan se sentia vitoriosa por estar prestes a ir numa missão que, sabia ela, seria de grande importância para a humanidade. Seu destaque na equipe ia além da questão racial, partia para a questão sexual. Susan havia se revelado lésbica na sua adolescência, desde então, vem enfrentando as discriminações que os homossexuais enfrentam por terem uma opção sexual diferente daquela seguida pelos heterossexuais. Felizmente, em 2045, a homofobia está se tornando um problema cada vez menos frequente. Praticamente todos os países do mundo já permitem o casamento entre pessoas do mesmo sexo e os que achavam tal ato absurdo, passaram a descriminalizar a homossexualidade, com exceção de algumas pequenas áreas da África e do Oriente Médio, que continuam a seguir as ideologias dos governos totalitários de linha dura.
— Acho que o Tom está mais nervoso do que todos nós aqui. — disse Antony, completando a frase com uma risadinha. O "Pequeno Antony", apelido que recebeu por ser o mais jovem da equipe, era uma mistura curiosa de sangue latino e asiático. Sua pele morena misturada com seus olhos puxados davam a Antony uma aparência inconfundível.
— Escute aqui, Pequeno Antony, é melhor você calar a boca. — disse Tom, ainda mais nervoso. Isso vale para você também, Susan!
Escorado na porta da sala, estava Thierry Jones, o membro da equipe com a personalidade mais misteriosa de todos.
Thierry era americano, serviu como soldado na Tropa Heavely enquanto trabalhou na Heavely Miracle, a primeira estação espacial construída por Bernard Griffin.
Um dia, houve uma invasão na estação. Thierry interveio contra os invasores, mas durante a luta, foi atingido por uma faca em seu olho esquerdo. O corte provocou problemas fisiológicos em sua córnea, dando uma cor branca ao olho de Thierry. O evento também lhe rendeu uma cicatriz em formato de risco atravessando seu olho.
Apesar de esconder o acidente com um tapa-olho durante um tempo, Thierry achou que a cicatriz e a cor leitosa do seu olho deram a ele um visual mais sério, que ele completou deixando sua barba crescer no estilo "lenhador". Thierry passou a se orgulhar do novo estilo de visual que adotara.
— Ei, Thierry! — disse Kayla, levantando o braço mecânico para chamar a atenção do ex-soldado. — Por que está tão isolado aí, não está ansioso para o resultado dos testes?
— Estou sim, Neve, estou sim. — respondeu, e depois virou novamente o rosto para o outro lado.
— Thierry é mesmo um homem de poucas palavras. — disse Antony. — Quem dera que Tom fosse assim também.
Kayla e Susan riram alto.
— Acho melhor parar com essas brincadeirinhas. Lembrem-se que a seriedade dessa missão é grande. — falou Tom.
— Só porque a missão é séria, não quer dizer que a gente deva ter uma postura sisuda o tempo todo. — respondeu Susan. — Não há nenhum problema em ter um momento de descontração de vez em quando.
— Ouviu isso, Thierry? — disse Antony, tentando provocar o colega.
Thierry dá uma leve virada em seu rosto, voltando para a postura de antes imediatamente.
Nesse momento, um auto-falante passa a seguinte mensagem para as pessoas que estavam na sala: "Atenção, aqueles que fizeram o teste para a missão D459."
— Somos nós! — disse Tom, chamando a atenção dos outros.
"Todos os cinco integrantes foram aprovados nos testes físicos e psicológicos. Repito. Todos os cinco integrantes foram aprovados nos testes físicos e psicológicos.", disse a voz no auto-falante, completando a mensagem.
Todos os cinco comemoraram a aprovação da equipe nos testes.
*
Observando todo o movimento na sala através de uma câmera de segurança, estava Bernard na sala de observação juntamente a outros dois cientistas que já o acompanhavam desde a palestra onde ele havia apresentado a ideia da missão e o projeto SIDRA.
— Então essa é a equipe que será mandada para o planeta Kepler-22b? — perguntou um dos cientistas.
— Afirmativo. — respondeu Bernard.
— E por que não envia astronautas experientes para tão importante missão? Por que montou uma equipe apenas com astronautas iniciantes? — perguntou o outro cientista do lado de Bernard.
— Todos eles são melhores que muitos experientes que já vi. Está na hora de fazer as estrelas desses cinco astronautas brilharem.
— Não acha que seria uma boa ideia mandar o soldado Oliver Hayes nessa missão? O senhor mesmo disse que ele já realizou uma missão de importância igual ou talvez maior do que essa que levará o homem a um exoplaneta. Afinal, que missão foi essa? E por que não convocar o soldado Hayes?
— Tudo que posso dizer sobre a missão em questão é que foi graças à ela que tive acesso ao projeto Another Way e que também foi graças à ela que Oliver Hayes passou a ter estresse pós-traumático. Por isso ele não está adequado para participar desta missão.
*
Thierry, Kayla, Tom, Antony e Susan se dirigem até uma sala forrada onde receberam seus trajes de astronautas. Bernard entra no local para felicitá-los.
— Fico feliz que cada um tenha tido êxito nos testes preparatórios. — disse o Dr. Griffin. — Principalmente você, Tom. Achei que seria reprovado nos testes psicológicos por sua arrogância. — completou com um sorriso irônico.
Tom fez uma careta, revirando os olhos.
— E você, Sr. Jones? Espero que não tenha espancado nenhum dos médicos.
— Muito engraçado, Dr. Griffin. — disse Thierry, respondendo também com ironia.
— Nós vamos direto ao assunto ou vamos ficar ironizando uns aos outros? — perguntou Susan.
— Vejo que está com muita pressa, minha querida Susan. Tudo bem, vocês cinco, me sigam.
Bernard os leva até a pista de pouso da estação espacial.
— Dr. Griffin, eu tenho uma dúvida. — disse Antony.
— Pergunte, Sr. Lee.
— O senhor projetou esta estação espacial sozinho, assim como a Heavely Miracle?
— Na verdade, quem projetou esta estação foi o meu grande amigo Danilo Oliveira, eu apenas financiei, junto com a NASA, a construção.
— Está dizendo que toda essa estação foi pensada pelo Dr. Oliveira? — perguntou Kayla, intrometendo-se na conversa.
— Sim. Você pode perceber que ele deu o belo toque brasileiro dele na estrutura. — disse Bernard, apontando para as dobras em alguns detalhes da parede, que lembravam muito os traços de Oscar Niemeyer.
Bernard leva a equipe até uma área isolada da pista de pouso, onde estava a nave que faria a viagem.
— Essa é a Eagle. A nave em que vocês viajarão.
A Eagle tinha uma estrutura semelhante à dos antigo ônibus espacial Discovery, com algumas diferenças: não possuía asas e sua cor era de um azul escuro que podia até se camuflar no espaço. Possuía apenas algumas turbinas, sem os enormes propulsores que toda as naves da época tinham, pois ela não precisaria viajar à grandes velocidades, pois o próprio SIDRA cuidaria de levá-la até onde precisaria.
Os cinco astronautas olhavam maravilhados para a Eagle.
*
No dia seguinte, estavam todos vestidos com suas roupas espaciais. Formavam uma fileira e esperavam a autorização para subir a bordo da nave.
Enquanto isso, alguns homens traziam o disposto que acionava o SIDRA, era um parecido com o que Bernard tinha mostrado na conferência do dia anterior, onde teletransportou uma simples pedra para a órbita de Marte.
Estavam no local vários cientistas, inclusive alguns que haviam visto a palestra de Bernard, que agora queriam ver o SIDRA teletransportar uma nave tripulada.
Também estavam presenciando o momento alguns soldados da Tropa Heavely. O grande amigo de Bernard, o general Patrick Baker estava lá para ver tal acontecimento.
— Bernard Griffin, você é incrível! — disse Patrick, saudando o amigo.
— Fico feliz que tenha vindo, Patrick.
— Nunca perco um evento onde você mostra uma tecnologia nova. Será que você não cansa de me surpreender?
— Acho que gosto de surpreender as pessoas. — disse com sarcasmo. — E aí? Notícias do soldado Hayes?
— Está na Terra.
— Na Terra?
— Achei melhor tirá-lo da Tropa Heavely e colocá-lo para cumprir seu ofício em um local que exista atmosfera. Você sabe... ele não reagiu muito bem ao evento de cinco anos atrás.
— O melhor a fazer é deixá-lo descansar mesmo.
Patrick assente. Bernard dá um abraço em seu amigo e sai para operar o dispositivo.
— Estão prontos? — Thierry pergunta para os outros membros da equipe.
— Acho que sim. — Kayla responde.
— Estou um pouco nervoso, mas acho que isso é normal. Não é? — Antony pergunta.
— Muito bem. Está na hora. Entrem na espaçonave. — diz Bernard, dando permissão para entrarem.
Um a um, os astronautas entram na Eagle. A cabine onde ficavam era um local cheio de computadores, radares e outros dispositivos que realizavam análises dos locais para averiguar se era seguro.
Apesar de ter confiança em seus dons, Bernard estava um pouco receoso. Essa era a primeira vez que o SIDRA seria usado em humanos.
— Todos em seus lugares? — Bernard perguntou.
— Afirmativo. — respondeu Tom.
— Ótimo. Vocês estão vendo que as viseiras dos capacetes de vocês são feitas com lentes de sombra.
— Estamos vendo, Dr. Griffin. — respondeu Thierry.
— Sugiro que abaixem a viseira quando o SIDRA for ativado. Mesmo que o feixe de luz só dure alguns segundos, ele pode ser forte o suficiente para cegá-los.
— Entendido.
— Vamos iniciar a contagem regressiva. Estão prontos?
— Estamos. — Susan disse.
— Iniciando a ativação do SIDRA. Contagem regressiva. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis.
Bernard começa a dar ignição no dispositivo de teletransporte.
— Cinco.
Todos os cientistas olhavam atenciosos.
— Quatro.
Os astronautas dentro da Eagle abaixam suas viseiras.
— Três.
Os soldados assistiam atentamente tudo aquilo. O general Patrick Baker nem sequer piscava.
— Dois.
Era possível ver o brilho nos olhos de Bernard Griffin.
— Um.
O feixe de luz gerado pelo SIDRA é direcionado para a nave Eagle. Os astronautas lá dentro não podiam esconder sua inquietação. Seus pulsos aceleraram-se. Mesmo com as viseiras escuras, não conseguiam abrir os olhos direito, tão forte era o raio de luz emitido pelo SIDRA.
Aos poucos, a estrutura da nave começa a se desmaterializar, um processo que demora alguns minutos. A nave vai desaparecendo aos poucos, igual a tudo dentro dela, inclusive os tripulantes.
Toda a nave e o seu interior são transformados em dados, que são enviados para uma área próxima ao exoplaneta Kepler-22b.
*
Passou-se aproximadamente duas horas desde que foram transformados em dados até finalmente serem "reconstruídos" no sistema da estrela Kepler-22, mas para os astronautas que estavam dentro da Eagle, foram apenas alguns segundos desde que viram a forte luz, e depois, quando ela desapareceu não estavam mais na estação espacial.
— Funcionou? — perguntou Antony.
— Parece que sim. — respondeu Thierry.
— Olhem lá! — disse Susan, apontando para um ponto distante na frente.
Todos ficaram maravilhados ao ver aquele enorme planeta verde.
Fale com o autor