Ambição
1 algumas ambições são maiores que tudo
Malcolm não tinha medo de sujar as mãos. Na verdade, estava acostumado a isso. Crescera no convés de navios imundos, nas ruelas abandonadas das cidades-estado mais famosas, no meio de poeira e terra e sangue. Não lembrava exatamente quando pegara sua primeira arma, ou quando aprendera onde golpear para ferir e onde golpear para matar. Em sua mente, parecia que era algo com o qual nascera, algo do qual sempre precisara.
Nas horas vagas, porém, ele trapaceava. Às vezes dava certo, e ele ganhava dinheiro; às vezes dava errado, e Malcolm precisava brigar para consegui-lo. Naquele dia, porém, a sorte lhe sorrira e tudo parecia correr bem.
Ele deu um sorriso abusado ao mostrar os quatro ases em sua mão, e o homem na sua frente repetiu o gesto ao mostrar os dele. Seu sorriso desapareceu numa batida de coração, enquanto a plateia se perguntava qual dos dois havia trapaceado.
Ah!, a plateia inocente.
xXx
Não fora um começo auspicioso, mas Malcolm sabia reconhecer um talento. Roubar nos jogos era lucrativo, e nesse ramo não havia ninguém melhor que Twisted Fate. O homem era, literalmente, o mestre das cartas, e elas se moviam ligeiras entre os seus dedos. Os dois passaram a se infiltrar silenciosamente nas casas de jogos, Fate nas mesas, Malcolm para garantir que os desconfiados não se exaltassem.
No final do dia, os dois se reuniam nos hotéis de estrada, nos quartos bolorentos, para dividir o dinheiro e rir da cara dos perdedores.
Aquele, em particular, era grande e fedorento. Tinha só uma janela que dava para a parte menos favorecida da cidade, que se encontrava fechada, mesmo que sem cortinas, e que permitia que a luz do lado de fora entrasse esmorecida, muito embora o quarto tivesse iluminação própria. Havia, também, duas camas e um armário de madeira, que cheirava tão mal que ele suspeitava que algo morrera ali dentro. Provavelmente um rato.
Fate estava sentado em uma das camas, as cartas espalhadas perto do pé, as moedas de ouro tilintando na sacola de couro enquanto ele as separava em dois montes iguais. Aquele dia não tinha sido muito produtivo, porque tinham sido descobertos, mas isso não significava que estavam em má situação. Na verdade, até mesmo aquele dia pouco produtivo tinha sido melhor que seus tempos áureos de solidão, quando trabalhava sozinho.
Ele sorriu quando seu parceiro o entregou sua metade, e seu sorriso se alargou quando sentiu o peso familiar das moedas no bolso de seu casaco. Ele se sentou na própria cama e colocou sua pistola recém-utilizada debaixo do travesseiro. Logo em seguida se deitou, e lançou um olhar para o teto. Fate estava estranhamente quieto. Geralmente, tinha a mania de se gabar das vitórias ou de implicar com a falta de talento de algum dos oponentes que enfrentara, mas até então não dissera uma palavra. Malcolm suspeitava que era culpa do homem que ele tivera que matar.
— Nós mostramos para ele, não mostramos? Achou que podia me peitar com aqueles truques baratos, mas nada supera uma boa arma de fogo. — Ele colocou a mão debaixo do travesseiro, para ter certeza de que a arma estava ali, como se pudesse, de alguma forma, não estar; e então continuou: — só me pergunto como é que ele descobriu que você estava trapaceando.
Twisted Fate ainda estendeu o silêncio por quase um minuto antes de encarar seu parceiro de crime.
— Ele era um mago — e, diante da não-resposta de Graves, continuou: — você sabe, um cara que tem acesso à magia — suspirou. Passou a mão pelo cabelo negro e tirou o chapéu, o que derrubou a carta que costumava deixar presa ali. — Eu daria qualquer coisa para ser um mago também.
Malcolm riu. Um riso profundo, daqueles que alguém dá quando houve uma besteira enorme. Riu tanto que precisou segurar a barriga, que começava a doer. Só depois que parou de rir foi que percebeu que Fate estava falando sério, e que seu riso o deixara com o humor ainda pior.
— Ora, Fate! — Ele se sentou, o cabelo castanho escuro bagunçado, uma queimadura recém-conseguida logo abaixo de seu olho esquerdo, consequência do embate com o mago, e lançou um olhar profundo para o homem que encarava o teto. — Fate — chamou, e o mestre das cartas transferiu o olhar para o seu rosto. — Pessoas como você e eu… nós não nascemos para realizar nossos sonhos, não nascemos para ter desejos complicados. Nós nascemos para percorrer ruelas e casas de aposta clandestinas, nascemos para fugir da polícia e ter como desejo mais alto uma boa cerveja gelada no final do dia. Eu poderia passar o dia sonhando, olhando para a minha velha pistola e desejando que ela fosse maior e mais mortal, como uma bazuca. Você não me vê fazendo isso, não é?
O apostador murmurou alguma coisa, o olhar alternando do chão para os olhos verdes de Malcolm.
— Quanto mais cedo aceitar isso, mais feliz você vai ser. Pessoas como eu e você… nós nascemos para ter os pés no chão. Deixe os sonhos para os grandes heróis das histórias.
Graves não sabia, mas Fate não queria felicidade. Não, ele tinha uma ambição, e ela era maior que qualquer outro desejo.
xXx
Malcolm Graves encarou Twisted Fate talvez pela última vez. Havia um brilho sombrio em seu olhar, e um tom acusativo em sua voz enquanto ele falava. Malcolm roubara da pessoa errada, mas confiara na pessoa errada também. Homens como Fate — Twisted Fate, agora, já que não se atrevia mais a chamá-lo pelo velho apelido — eram ambiciosos demais para se importar com qualquer coisa além dos próprios desejos egocêntricos.
— Foi você quem trouxe isso para si mesmo. — Twisted Fate tentou soar distante, e qualquer pessoa teria percebido a falsidade em seu tom de voz. Mas Graves não era qualquer pessoa, e nunca fora particularmente bom com sutilezas.
— Sim. Ao confiar em você. — Havia mais que acusação na sua voz, agora. Havia um tom de dor, um de traição. Havia um de ódio, também, que refletia em seus olhos. — Eu espero que valha a pena, Twisted Fate — ele cuspiu o nome com raiva, e o mestre das cartas deu um passo para trás, como se ouvir seu nome saindo da boca dele fosse um golpe. Ele não duvidava que seria, se Graves tivesse com as mãos livres.
Fate suspirou. Por um instante, quase desistiu de tudo aquilo, mas então a possibilidade de conseguir sua tão sonhada magia o impediu. Além disso, ele já colocara suas cartas na mesa, e nunca desistia de uma jogada depois de já tê-la começado. Precisava levar aquilo até o fim, quaisquer que fossem as consequências.
Os bons jogadores sabiam quando fazer sacrifícios, e Twisted Fate era o melhor.
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