Amarras

1 Capítulo único


Notas iniciais
Desaprendi a escrever tragédia. Só acho. qqq
No meio de milhões de textos para revisar, encontrei esse. Uma mistura de velho com novo, antigo com algumas modificações. E... Sei lá. q

Helena sempre havia sido uma menina exemplar. Bem comportada, bela, graciosa e talentosa. Ninguém tinha nada para reclamar. Ela sempre fora um amor de pessoa, atenciosa, amável e quieta. Não incomodava ninguém.

Os pais diziam aos filhos que eles deveriam ser como a menina loira da escola. Aquela que andava sempre arrumada, não se sujava, era educada e sorria para todos. E nem pegava pirraça. Uma criança adorável.

A menina, por outro lado, sempre tentava se manter na linha. Ser a garota perfeita dava trabalho e ela sempre se concentrou nisso. De tanto tentar ser o que agradava a todos, Helena se esqueceu de si mesma e do que realmente queria e precisava. Transformou-se num fantoche. Cada movimento determinado pelas cordas que sustentavam seu corpo ágil de bailarina.

Um clichê inevitável é aquele que diz que sempre seguimos a rotina. Com Helena não foi diferente. Tornou-se escrava da comodidade que sempre teve em não mudar, em não arriscar. Seguiu por anos tudo o que já era confortavelmente monótono, todo o roteiro que haviam escrito em seu lugar. Esqueceu-se de que a única autora da própria história era ela mesma.

Desde a mais tenra idade, induzida a caminhar como ditavam. Na ponta dos pés, graciosamente, sem transparecera dor que tomava conta de cada um dos seus movimentos, com um sorriso no rosto. Deveria ignorar os lamentos do seu corpo e tocar a alma dos outros.

“Você pode voar, conquistar o mundo!”

Como poderia ela voar com as asas cortadas?

Uma boneca que fazia tudo o que queriam. Toda a liberdade e elasticidade que adquirira com anos de treinamento se transformaram na sua prisão. Um pássaro engaiolado por cetim e música clássica. Daqueles mais belos e raros. Mas, ainda assim, engaiolado. E triste. Lamentavelmente triste. Derrotado.

Olhos de um melancólico e profundo castanho, expressão desolada que emocionava enquanto seus passos, seus saltos e piruetas eram observados pelos olhos de águia da plateia implacável. Ela era como uma deusa, bela e elegante, dona dos teatros mais caros e bem frequentados do mundo inteiro.

Quantas vezes não amaldiçoou a graciosidade dos cisnes?

Um enfeite de porcelana que ficava exposto nas vitrines do mundo sem nunca poder realmente conhecê-lo. Já tinha seu caminho trilhado e definido pelos professores, parentes, críticos... Eles a criaram, eles a guiaram e seriam eles seus assassinos se algum dia ousasse desafiá-los. Eram os carcereiros da sua falsa liberdade.

Porém, um dia, tudo tem fim. As fitas de cetim se soltaram e a dama dos palcos jogou no lixo suas sapatilhas. Pela primeira vez resolveu não dançar conforme a música e se surpreendeu quando gostou. Um novo ritmo, outra postura, sem a rigidez do gesso na ponta do pé e sem a obrigação de parecer serena. Ignorar a melodia nunca havia sido tão bom. Ela nunca havia sido tão espontânea.

Nada de renda, tule ou seda, estava farta dos olhares críticos que a seguiam... Sua carreira poderia ser destruída, mas se libertar, ignorar o que os outros diziam, fugir da prisão, fora sua salvação.

Agora, Helena anda descalça, saltitando pelas ruas ferventes do inferno dos suicidas.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!