Amargo Prazer
28 Cap. 28 - O Sabor da Verdade
Notas iniciais
Espero que gostem do cap., mas me perdoem qualquer coisa, sério. Como eu já disse, sei que estou em falta com vocês e por mais que tente sempre recompensar, nunca consigo.
O nyah sempre foi muito importante para mim de uma forma inexplicável. Conheci cada gente aqui que... Nossa,! fizeram toda a diferença na minha vida. Alguns eu nunca cheguei a falar realmente. Nunca passei do contato nos comentários ou por mensagem privada, mas, já há algum tempo eu percebi que, mesmo com as minhas falhas, eu ainda tenho as melhores leitoras do mundo, as mais fieis e que estão sempre aqui, puxando minha orelha ou então me elogiando, mas estão sempre aqui. Obrigada meninas, vocês não fazem ideia do quanto me ajudam.
Tah, eu to carente :(
Até breve ^^
Eu não sabia exatamente o que ocorria depois de morrermos. Nunca acreditei em nenhum mantra espírita que falasse sobre isso, mas, a meu ver, simplesmente morríamos e não havia mais nada após disso. Bem, era o que eu esperava. Caso contrário, se depois de morta eu tivesse que ter um bate-papo com Deus, eu duvidava de que ele fosse ao menos olhar em minha ficha. Ele provavelmente me reconheceria logo de cara. Sem direito a nenhuma espiadela no paraíso.
Felizmente, quando eu acordei, o paraíso era tudo o que eu podia ver. E a cor dele era castanho chocolate.
- Olá – Dimitri murmurou, afastando seu rosto do meu e com um genuíno sorriso dançando em seus lábios. Aquele mesmo sorriso que parecia iluminar meu dia.
- Oi – minha voz saiu rouca, confusa. Eu certamente não esperava que Dimitri fosse a primeira pessoa que eu veria quando acordasse.
- Você nos deu um belo susto, sabia? – perguntou e só então percebi que ele segurava minha mão esquerda.
- Hey, calçadas são para pedestres, sabia camarada? – perguntei, virando a palma da minha mão para cima e segurando a de Dimitri. Seu cabelo estava preso em um curto rabo de cavalo e, pela primeira vez desde que o conhecera, eu via a barba de Dimitri começar a crescer.
Eu não sabia o que dizer a ele e Dimitri parecia entender, já que não fez nenhuma outra tentativa para falar comigo. Apenas ficou aqui, segurando minha mão, do meu lado. A única coisa em que pensava era no que havia acontecido antes do acidente. Não a parte de Janine, mas no que eu estava pensando. Perguntei-me se Dimitri ainda estaria ali se soubesse o quão vaca minha irmã havia sido com ele. Talvez. Ele havia conhecido meu passado sujo e ainda sim estava ao meu lado. Conhecia-me tão bem quanto eu própria, mas talvez aquilo fosse demais para ele lidar. Estava sendo para mim. Eu não o culparia se, no meio disso tudo, Dimitri quisesse pular fora. Claro, imaginar que ele faria aquilo doía como o diabo, mas, ainda sim, eu respeitaria sua decisão.
Ele tocou minha bochecha com a ponta dos dedos e eu senti uma leve ardência no lugar, mas eu entendi o que aquilo significava. Dimitri estava ali, esperando pelo momento em que eu contaria a ele o que tanto me incomodava. O toque do seu celular acabou com qualquer coisa que pudesse ser dita. Ele o tirou do bolso e olhou na tela, ficando completamente sério em seguida.
- Rose – apenas pelo tom que ele usou ao pronunciar meu nome eu compreendi. Ele tinha que atender.
- Tudo bem, pode ir. Eu espero – falei, tentando soar indiferente com aquilo. A verdade era que eu não pude deixar de me sentir aliviada. Eu ainda não estava cem por cento certa de minha decisão.
Dimitri me deu mais um olhar de desculpas antes de ir até a porta e abri-la, dando de cara com Sydney que segurava uma pequena bandeja branca de plástico.
Eles se cumprimentaram e Syd entrou, fechando a porta.
- Como você está? – perguntou, sentando na cadeira em que Dimitri esteve sentado instante antes e colocando a bandeja em meu colo enquanto pegava o café que estava nela.
- Bem – respondi, em meio a um suspiro – Ajude-me a levantar isso? Eu odeio camas de hospitais!
Syd pegou um aparelhinho que estava ao lado, em uma mesinha com algumas tulipas em um vaso que só então eu notei.
- Não são do Dimitri – ela se pronunciou, quando eu sorri naquela direção, enquanto erguia a cabeceira da cama de forma que eu ficasse quase sentada.
Eu fiz uma careta.
- André – falei em meio a um gemido de frustração. Eu me perguntei quando ele me deixaria em paz. Se tudo o que havia acontecido não havia sido o suficiente para que ele deixasse aquela obsessão de lado. Obviamente eu esperava que alguma hora ele fosse me procurara para falar sobre Carly, mas eu adiaria aquilo tanto quanto pudesse. Uma coisa era contar aquilo a adultos. Outra seria explicar a uma criança que de repente ela tinha um pai. Ainda mais quando ela já havia me visto junto de André antes de conhecer Dimitri.
Sydney riu.
- A menos que André tenha peitos, não foi ele – ela riu de novo, pegando o cartão que estava em meio às tulipas vermelhas e me entregando.
Melhoras. Precisamos conversas.
Com carinho,
J.H
- J.H? Quem é J.H? – indaguei, tentando me lembrar de alguém que eu conhecia e me mandaria tulipas. Eu não demorei a juntar tudo e quando o fiz, coloquei o cartão de lado. Eu sabia que Janine era rápida e direta, mas não pensei que fosse tanto assim.
Não era a primeira vez que eu recebia tulipas. Meu pai sempre me dava elas em qualquer data. Elas eram da Turquia e combinavam perfeitamente comigo — não mais que as rosas, segundo ele próprio. Era algo nosso as tulipas, então pela primeira vez eu me perguntei qual seria o significado as tulipas para o meu pai, já que Janine não as escolheria do nada. Não se achava aquelas flores por ali facilmente...
- Eu a conheci. Parece-me alguém legal.
- Aposto que é, mas não foi você quem ela destratou.
- Eu falava da sua mãe e pelo que eu saiba, ela apenas te tratou mal antes de saber que você era filha dela.
- Eu não sou filha dela – peguei a gelatina verde que estava na bandeja e assim que senti o gosto sem graça a coloquei de volta lá – Eu nem ao menos a conhecia. Nunca tinha sequer ouvido falar dela. Abe teria me dito que ela sempre esteve morando na mesma cidade que a gente, não acha?
Sydney deu de ombros, terminando de beber seu café que chegava a soltar fumaças de tão quente. Ficamos em silêncio. Ela brincando com seus dedos ao redor do copo e eu pensando se Abe realmente me diria que minha mãe estava tão perto. Ele sabia que eu sempre quis conhecê-la quando era menor. Que eu sempre esperava que ela chegasse ao natal. Mas, conforme os anos foram se passando, eu cansei de esperar. Abe e Megan era minha única família — antes de eu saber o que essa última havia feito eu e meu pai passarmos.
Eu perguntei sobre Carly, e ela me disse que estava tudo bem. Carly estava ficando na casa de Adrian até que eu me recuperasse. Ela me disse que não tinha o que se preocupar, mas, era o Adrian. Eu fiz uma nota mental para conseguir um telefone e ligar para ela mais tarde. Depois disso, ela ficou calada, apenas me olhando parecendo querer falar algo, mas continuou em silêncio. Eu sabia que não ia gostar do que seja lá que ela tivesse para me dizer, mas ainda sim decidi arriscar.
- O que foi? Vai me dar uma bronca por não prestar atenção enquanto andava? – ela balançou a cabeça, negando, mas a forma como seus olhos se estreitaram me fizeram crer que não demoraria muito para que ela me desse uma bronca justamente por isso. – O que é, então?
Ela deu de ombros, fazendo pouco caso, quando eu sabia que ela estava apenas escolhendo as palavras certas. Ela não era de ficar dando voltas em algo a menos que fosse realmente importante.
- Eu não faço ideia do que está acontecendo com você agora, Rose – ela começou, falando em um tom solene – E eu gostaria muito de saber para poder te ajudar, mas entendo que precisa de um tempo antes de tudo.
- Por que está me dizendo isso? – eu perguntei antes que ela prosseguisse. Era a segunda vez que Sydney insinuava algo sobre isso. Do jeito que tudo andava de cabeça para baixo, não seria um golpe tão dolorido se ela me dissesse que sempre soube de tudo.
- Eu não sei – ela disse, pegando minha mão que descansava sobre a cama – mas seja lá o que esteja de preocupando, não guarde isso com você como se pudesse aguentar tudo sozinha. Não se feche em sua própria bolha, Rose. Você se lembra do que aconteceu da última vez que fez isso.
Claro que eu me lembrava. A última vez que eu havia me fechado em meu próprio mundo foi quando Megan morreu. Olha onde eu estou agora...
Alguém bateu na porta e Sydney endireitou sua postura, fazendo uma fraca pressão em minha mão antes de soltá-la e dizer para que entrassem. Eu agradeci, quase respirando em alivio. Não costumava ser fácil esconder as coisas dela.
Dimitri entrou novamente, guardando o celular no bolso do casaco. Atrás dele estava um homem com um jaleco.
Sydney se levantou, mas não antes de me lançar um olhar que deixava um aviso claro: voltaríamos a falar sobre aquilo.
O médico tomou a frente, falando sobre quanta sorte eu havia tido. Não havia sofrido muitos danos, pequenos cortes pelo corpo e alguns pontos na perna esquerda — o que, se você for levar em consideração a maré que minha vida anda seguindo, aquilo era realmente uma tremenda sorte. Fora isso, uma dor atrás da cabeça, mas isso não era nada grave, segundo o médico havia sido causada pela pancada de quando eu caí.
Ele disse que eu teria que ficar apenas mais uma noite no hospital apenas de praxe e então saiu junto com Syd, me deixando a sós com Dimitri.
- Era Janine – falou, explicando sobre a ligação – Ela queria saber se já tinha acordado e como estava. – ele ficou ao meu lado, tirando a bandeja do meu colo e a colocando de lado.
E então eu senti novamente toda aquela raiva que havia sentido antes do acidente. Não apenas de Janine, mas de tudo o que estava acontecendo ao meu redor. Talvez eu não devesse ter corrido do que Janine tinha para me dizer. Talvez, eu pensei, tivesse sido melhor ficar e ouvir o que ela tinha a me dizer. Às vezes não havia forma "certa" ou o melhor momento para se dizer algo. Às vezes simplesmente devia ser dito e as consequencias encaradas.
Eu me desviei do toque de Dimitri quando ele tentou segurar meu rosto, vendo uma expressão culpada tomar sua face. Eu não queria que ele se sentisse daquela forma. Não era culpa dele. Nem minha. Nós éramos as consequencias, apenas isso. Estava na hora de nos encararmos como tal.
Calei aquela maldita voz que me dizia para esperar mais um pouco. Todos aqueles anos haviam sido suficientes.
- Eu queria te contar uma história – falei, engolindo o nó que se formou em minha garganta.
Dimitri me olhou divertido.
- Uma história?
Apenas assenti e, quando ele pareceu ver quão sério eu falava, sua fisionomia também mudou.
- Você sabe que eu tive uma irmã e como sempre fomos próximas...
Eu via, no início, a expressão de confusão e incerteza dele, sem saber onde eu queria chegar com tudo aquilo. A cada nova frase eu sentia meu coração se apertar ainda mais e mais e prendia as lágrimas. Aquele não era o momento para choro. Ele permanecia paciente, em silêncio, ouvindo atento cada palavra dita, mas enquanto eu falava sobre a minha irmã, percebia que ele parecia cada vez mais confuso. Isso só aumentou quando eu falei sobre André, Malory e ele, mas logo que eu juntei as histórias, me referindo a Megan e Malory como sendo as mesmas pessoas, de confusão e incerteza, ele foi mudando para outra coisa. Primeiro, mágoa, depois raiva e evoluindo até que seu rosto era um misto de sentimentos.
Dimitri me olhava cético, com os lábios entreabertos e parecendo fazer um tremendo esforço para me ouvir até o final. Mas ele pareceu não conseguir mais se segurar quando eu envolvi Samantha e Carly, a mesma criança na história e disse que André que era o pai dela
Suas mãos apertavam com força o ferro da cama, deixando os nós de seus dedos brancos enquanto seus olhos encaravam o nada, parecendo procurar por algo. Eu conhecia aquilo. Ele procurava por uma explicação para que tudo fosse mentira. Procurava uma brecha para saber que não era verdade.
- Dimitri – eu disse, sabendo que tinha feito a coisa certa, mas sabendo que agora lidaria com as consequencias, sejam elas quais fossem – Dimitri, olha pra mim.
Ele balançou a cabeça, a abaixando em seguida. Ouvi o barulho de sua respiração rápida, se acalmando aos poucos, mas ainda de maneira pesada.
- Eu não sei o que pensar – ele disse, ainda mantendo a cabeça baixa – Não sei se devo acreditar nisso. Não sei se devo dizer que você está errada e que foi inocente por ter confiado em André... Eu não sei se...
Ele não completou, como se fosse demais para ele lidar. E era. Eu sabia como era. Eu queria abraçá-lo e dizer que eu sabia como ele se sentia. Sabia como era aquela sensação de você ter toda uma história escapando por entre seus dedos porque aquilo nunca foi real. A dor de ser apunhalado por uma pessoa que você amava. Eu conhecia aquilo tão bem... Mas quando eu fiz menção de tocar em Dimitri e me aproximar dele, ele próprio se afastou, dando alguns passos para longe.
- Eu a amava, você sabia?! – ele havia levantado a cabeça novamente e agora me fitava – E agora você me diz que isso não foi real! Que eu amei alguém que não existe, Rose. O que você espera que eu faça? Que fique feliz por isso?
- Ela era minha irmã, como você acha que eu fiquei quando soube?
Ele abriu a boca para dizer algo, mas a fechou como se decidisse que seria melhor ficar calado. Naquele momento, eu teria preferido ouvir qualquer coisa ao silêncio.
- Não me culpe por Megan. Eu não tenho culpa se me apaixonei pelo mesmo homem que ela passou anos enganando. Eu fui tão cega nessa história quanto você. Faz ideia de como está sendo olhar para Carly nos últimos tempos? Olho para ela e me pergunto se no futuro ela pode fazer o mesmo comigo, me enganar exatamente como a mãe. Mas, antes de tudo, eu olho para ela me pergunto se vou dizer algum dia a verdade.
Eu não devia fazer aquilo. Eu devia deixá-lo quieto e que aquilo passasse. Dizer como eu estava me sentindo apenas pioraria ainda mais para ele. Eu sabia como era, mas Dimitri parecia tão vulnerável e frágil que eu tive dúvidas sobre realmente saber como ele se sentia.
Ele massageou as têmporas, dando alguns passos para o meio do quarto enquanto eu secava as lágrimas que haviam caído sem minha permissão.
- Você tem certeza sobre isso, Rose?
Eu o olhei como se ele fosse uma criança que via todos os seus maiores sonhos desmoronando. Era aquilo que estava acontecendo. Meia hora antes ele pensava que era viúvo e que chegou a ter uma filha. E então ele descobria que nunca houve esposa porque Malory havia forjado a sua morte quando na verdade nem havia existido. A filha que ele pensava ser dele, na verdade estava viva e era de outro.
Eu puxei os fios que me prendiam a uma máquina e ignorei a dor que alguns deles me causaram, me arrastando para fora da cama e indo até Dimitri. Eu o abracei, enquanto ele parecia desmoronar a minha frente.
Ali estávamos nós, tentando ajudar um ao outro a superar o mesmo sentimento. Era uma sensação amarga aquela que eu sentia. Amarga misturada a sensação de ter tirado um peso de cima de mim. Eu não precisaria mais lidar com aquilo sozinha. Eu não estava sozinha.
Notas finais
Espero que tenham gostado do cap, pke... Honestamente? Nunca achei tão dificil escrever algo como foi esse cap, por isso, perdão se não estiver do agrado de todo mundo. Eu me esforcei...
Bjs ninas, novamente obrigada por tudo.
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