Amargo
1 Amargo.
Ela mordeu a pizza amanhecida, lembrando-se de como era agradável comer pizza depois de uma madrugada festeira. Estranhamente a pizza estava com um gosto tóxico e intragável. Victorie a largou no prato de prata.
Era uma esplendorosa manhã de sábado. Pela pequena janela de sua cozinha, sentiu o cheiro salino e úmido do mar chegar-lhe às narinas. As ondas travavam batalha contra as pedras e morros de areia na praia, que era seu quintal. Seu vai-e-vem titilava como um relógio.
Uma mesmice tediosa, Victorie deu-se conta.
Pensou em todas as memórias que tinha do último mês. As entrevistas supérfluas que teve que fazer para o Semanário das Bruxas. Todas as perguntas superficiais para as mulheres.
“Quem assinou seu vestido?”.
“Como está sua vida amorosa?”.
“E o que você tem a dizer sobre a citação do baterista d’As Esquisitonas que afirmou que você é uma delícia?”.
A vida das bruxas parecia um eterno ciclo de mesma coisa. Nunca era sobre quem elas eram, quem queriam ser ou quem estavam se tornando. Era sempre sobre seus vestidos, seus acessórios caros e enfeitiçados, seus maridos ou namorados famosos ou fofocas infundadas sobre suas vidas pessoais.
E Victorie era obrigada a escrever sobre cenas escandalosas para suas assinantes cujas vidas eram tão tediosas quanto às das celebridades, só que menos glamorosas.
Fulana foi vista em Hogsmeade na maior intimidade com Ciclano! Será que o Senhor Famoso está traindo a Senhora Sua Esposa? Beltrana é flagrada comprando ingredientes para o preparo de Amortentia! Os convidados do casamento foram vistos usando galeões como chaves de portal!
Victorie estava tão cansada daquela rotina profissional que os dias não lhe provocavam nem raiva. Ela já se considerava em estado de apatia.
Ted entrou na cozinha, vestido apenas com a roupa de baixo, os cabelos numa cor verde desgastado, os olhos cheios de grude, coçando o corpo. Provavelmente estava de ressaca da noite anterior. Victorie sempre era convidada para as melhores festas. Ted as adorava. Victorie não podia culpá-lo pela falta de ânimo em sua vida matrimonial.
Ele lhe beijou a testa sem escovar os dentes e seu hálito era amargo. Foi a única palavra que Victorie concebeu para descrever o cheiro. A um aceno de varinha do marido, o café dele começou a se preparar sozinho. Ele pingou algumas gotinhas de Poção Sacebak em seu café aguado para lhe curar a dor de cabeça. Victorie adorava seu café forte e achava que Ted tinha um gosto péssimo ao deixar seu café fraco.
O marido sentou-se ao lado dela num balcão que era sua mesa de comer as refeições. As cadeiras eram altas, de modo que nenhum dos dois alcançava os pés no chão.
— Boa festa. – Ted resmungou. A cor marrom do líquido que ia à sua garganta enojou Victorie.
Victorie analisou o marido seminu. Em sua cabeça, rolaram as lembranças mais marcantes que tinha dele naquele momento, como se tivesse mergulhado numa Penseira.
Ted tentando ser elogioso.
“Seus cabelos estão lindos”.
“Adoro quando você mexe o corpo desse jeito”.
Em nada nada nada os elogios eram sobre a verdadeira Victorie. Os lábios de Ted tinham ficado assim depois de anos daquelas tardes apaixonadas em Hogwarts. Amargos.
As conversas diminuíram bastante. Os risos. Os toques eram tão sincronizados que lembravam a Victorie o nado de uma sereiana. Ou um lobisomem em sua transformação selvagem. Rotineiros e mecânicos.
Ted se gabava de sua profissão. Auror como o padrinho. Combatente das artes das trevas. Protetor da bruxidade. Sobre a profissão de Victorie, ria-se. Ria sobre as especulações da revista. Gargalhava com as perguntas que Victorie supostamente tinha feito aos entrevistados quando era apenas o editorial da revista. Adorava as fofocas, os ângulos das fotos, os anúncios publicitários para bruxas donas de casa.
Poções contra espinhas. Dez melhores feitiços para limpar o banheiro. Aprenda a transfigurar aqueles móveis velhos. Defesa Contra as Artes das pragas domésticas. Como sobreviver à distância dos filhos durante o período escolar?
Ted pegou um pedaço de pizza e subiu para o quarto, provavelmente para o terraço incrivelmente claro para ler seu jornal sério, o Profeta Diário.
Victorie rememorou como ele deixava as roupas espalhadas pela casa. Como a gaiola de sua Coruja das Torres fedia por dias até ele se lembrar de limpa-la. Como seus fios coloridos ficavam pelo banheiro cada vez que ele inventava de mudar a cor. Como ele entulhava a casa com quinquilharias contra artes das trevas que nunca eram usadas, mas que ele continuava colecionando. Como suas tentativas de poções eram falhas e fediam por dias. Ted sempre fora melhor com a varinha.
Victorie passou as mãos pelos fios dourados, que perdiam cada vez mais o brilho e a vaidade. Fez um patrono no mês anterior só para lembrar-se de algum feitiço que não fosse para uso doméstico ou daquela profissão asquerosa. Não era mais um lobo, como gostava de chamar Ted, mesmo que ele fosse um metamorfomago. Seu patrono agora era um camaleão.
A moça subiu uma escada em formato de caracol e entrou em seu quarto de casal. Havia uma cama dossel. Ted estava deitado em uma espreguiçadeira no terraço. As cortinas brancas estavam abertas e flutuavam com o vento fraco. Ted nem percebeu sua presença.
Victorie abriu uma gaveta na cômoda com uma chave de ouro. Havia um punhado de cartas lá dentro, algumas amassadas, outras dobradas. Todas da mesma remetente. Victorie sabia o sentimento que as cartas traziam, mas não gostava de reconhecer. Algumas, mais velhas, estavam quase mofadas e tinham o mesmo cheiro do hálito de Ted. Mofo amargo. Ela releu algumas cartas.
—_
Vic,
“Veneza é incrível! Você tem que ver com seus próprios olhos! Mamãe e papai vão te apoiar se ... “
Dominique
—_
Vic,
“Já faz quase um ano que estou viajando. Nós prometemos fazer essa viagem juntas, bem antes de você e ...”
Dominique
—_
Vic,
“Desculpe não passar o natal com vocês. Estive com alguns amigos ...”
Dominique
—_
Vic,
“O que você está esperando para dizer a ele? Basta deixar-lhe a aliança e ...”
Dominique
—_
Victorie gargalhou com a simplicidade do pensamento de Dominique e com a perturbação que aquele gesto lhe significava. Tirar a aliança de casada do dedo. Visitar países, aparatando, pegando chaves de portal, passando por redes de Flu de estalagens vagabundas como Dominique fazia a dois anos, desde que se formou em Hogwarts. Dominique causou extremo choque em Victorie quando terminou seu namoro de dois anos com um estudante da Corvinal e partiu sem rumo. Seus pais não ficaram tão surpresos assim. Dominique sempre tivera aquela alma livre e espontânea.
E Victorie?
O próximo passo para Victorie era um bebê. Um bebê de cabelos verdes como as algas do mar de seu quintal, Victorie imaginou e gargalhou mais uma vez.
Que criança feiosa será, pensou.
A festa da noite anterior tinha sido tão monótona como as outras. Os garçons pareciam enfeitiçados com Imperius para agirem todos da mesma forma. As celebridades bruxas se amontoavam ao redor de Victorie, sedentas para conseguir uma página no Semanário das Bruxas, mesmo que Victorie não estivesse trabalhando. O consumo de whisky de fogo era alto. Todos pareciam num torpor exercido por uma brisa de Felix Felicis. Muita euforia, barulheira, felicidade, risos, conversas altas, beijos e discussões. Ted se separou dela no começo da noite para ficar bêbado com o time de quadribol Montrose Magpies.
A vida de Dominique tinha gosto de brisa, livre e flutuando no ar.
E a vida de Victorie?
A vida de Victorie tinha o gosto do café forte que ela tanto amava.
Amargo, amargo, amargo.
Ela soube o que fazer.
— Abaffiato! — lançou sobre a divisa do quarto e do terraço que estava Ted.
Encheu duas malas com pressa. Os cabelos caíam no rosto enquanto ela sorria.
Colocou um blusão de frio, tênis e um par de luvas por cima dos pijamas. Era frio no Alasca. Victorie não sabia exatamente o nível do frio. Só sabia que era muito gelado por informações nos livros, comentários de viajantes e pela última carta de Dominique.
Ela pegou um dos pergaminhos que era uma carta amassada de sua irmã. Molhou a pena no tinteiro e deixou um bilhete para trás. Depois aparatou.
Meia hora mais tarde, Ted encontraria a carta pousada na cama de casal.
—_
Ted,
Se você ainda estiver ai quando eu voltar, por favor, escove os dentes.
Seu hálito está amargo.
Com amor,
Vic
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