Amar o Caos

38 Só o Caos


Félix soube da separação poucos dias depois.

Na verdade, quase imediatamente.

Velhos hábitos eram difíceis de abandonar.

Durante anos, ele viveu cercado de informações, favores, contatos e pessoas que sempre acabavam sabendo de tudo antes dos outros. Mesmo agora, levando uma vida muito mais tranquila, algumas coisas simplesmente chegavam até ele.

E quando soube que Do-yun tinha saído da vida de Yuna...

Seu coração disparou.

Porque aquilo só podia significar uma coisa.

Ela tinha escolhido.

Ou estava prestes a escolher.

Então Félix esperou.

Um dia.

Dois.

Três.

Uma semana.

E Yuna não apareceu.

Não telefonou.

Não mandou mensagem.

Não procurou a oficina.

Nada.

Naquela noite, ele estava sentado com Jim num bar perto do rio Han.

O lugar era simples.

Luzes baixas.

Cheiro de carne grelhada.

Garrafas de soju espalhadas sobre a mesa.

A cidade brilhava enquanto o movimento seguia vivo lá fora.

Jim serviu mais um copo antes de observar o amigo.

— Você tá me irritando.

Félix ergueu uma sobrancelha.

— Essa cara.

— Que cara?

— Cara de cachorro abandonado.

Félix revirou os olhos.

Jim apontou o copo para ele.

— Faz meia hora que você olhou pro celular.

— Mentira.

— Vinte e oito minutos então.

Félix soltou um suspiro cansado.

Jim conhecia ele tempo demais.

Era impossível esconder qualquer coisa.

— Ela ainda não veio.

A frase saiu antes que ele pudesse impedir.

Jim ficou alguns segundos em silêncio.

Então soltou uma risada curta.

— Ah...

— Então era isso.

Félix tomou um gole de soju.

— Não começa.

— Você estava esperando ela vir atrás de você.

Não era uma pergunta.

Era uma constatação.

Félix desviou os olhos para a rua.

Porque, no fundo, era exatamente isso.

Uma parte dele acreditava que, depois de tudo, Yuna apareceria.

Como fazia antigamente.

Como a garota que atravessava a cidade só para vê-lo.

Como a Yuna que sempre insistia quando ele fugia.

Jim balançou a cabeça devagar.

— Meu amigo...

A voz saiu mais tranquila agora.

— As coisas mudam.

Félix permaneceu em silêncio.

— E as pessoas mudam ainda mais.

Aquilo incomodou.

Porque ele sabia que era verdade.

Yuna mudou.

O tempo muda qualquer pessoa.

Ela já não era a garota apaixonada que colocava o mundo inteiro em segundo plano.

Era uma mulher.

Com escolhas.

Limites.

Orgulho.

Jim serviu mais um pouco de bebida.

— Você passou anos a evitando.

— Anos fazendo ela correr atrás de você.

— Anos decidindo por ela.

Félix apertou o maxilar.

Sem responder.

Porque não havia defesa possível.

Jim tomou um gole antes de completar:

— Se você quer mesmo ficar com ela agora...

O olhar dele encontrou o de Félix.

— É você que vai ter que correr atrás.

Silêncio.

Pesado.

Desconfortável.

Porque aquela ideia parecia estranha.

Félix Park nunca teve medo de brigas.

De prisão.

De violência.

Mas a simples ideia de procurar Yuna por vontade própria...

Sem saber qual seria a resposta...

Aquilo o deixava mais nervoso do que qualquer luta.

Jim sorriu de canto.

— Tá com medo?

— Vai se ferrar.

— Então vai atrás dela.

Félix ficou olhando o copo por alguns segundos.

Pensativo.

Porque talvez Jim estivesse certo.

Talvez, pela primeira vez na vida deles...

Não fosse Yuna quem precisasse atravessar a distância entre os dois.

Talvez fosse a vez dele.


Depois de dias tentando respeitar a decisão de Yuna, Félix finalmente percebeu que estava falhando miseravelmente.

Ele tentou trabalhar.

Tentou se ocupar na oficina.

Tentou sair com os amigos.

Tentou convencer a si mesmo de que ela apareceria quando estivesse pronta.

Mas cada dia de silêncio parecia durar uma eternidade.

E Félix nunca foi um homem paciente.

Naquela tarde, pegou a moto sem avisar ninguém.

Sem plano.

Sem discurso preparado.

Só dirigiu.

Quando percebeu, já estava estacionando em frente ao prédio onde Yuna vivera com Do-yun.

Aquilo foi estranho.

Mais estranho do que imaginava.

Porque aquele lugar não era apenas um apartamento.

Era a prova concreta de uma vida que existiu sem ele.

Uma vida onde outro homem acordava ao lado dela.

Tomava café com ela.

Dividia os dias comuns.

As contas.

As alegrias.

Os problemas.

Félix ficou alguns segundos parado na calçada, observando as janelas do prédio.

Sentindo uma pontada desagradável no peito.

Ciúme.

Talvez.

Arrependimento também.

Porque durante anos ele tinha deixado aquele espaço vazio.

E alguém ocupou.

Naturalmente.

Como deveria ter acontecido.

Ele soltou um suspiro pesado antes de apertar o interfone.

Os segundos pareceram longos demais.

Então a voz dela surgiu no aparelho.

— Alô?

O coração dele falhou uma batida.

Mesmo agora.

Mesmo depois de tudo.

Ainda acontecia.

— Sou eu.

Silêncio.

Curto.

Mas suficiente para fazê-lo imaginar mil possibilidades.

Então a resposta veio.

Calma.

Sem surpresa.

— Eu sei.

Félix fechou os olhos por um segundo.

Porque, de alguma forma, aquilo parecia ainda mais perigoso.

Ela sabia.

Claro que sabia.

Yuna o conhecia bem demais.

Conhecia sua teimosia.

Sua impaciência.

Sabia que, mais cedo ou mais tarde, ele apareceria.

A voz dela voltou pelo interfone.

— Sobe.

O portão destravou.

Félix entrou.

O elevador pareceu subir devagar demais.

Quando as portas se abriram, ela já estava esperando do lado de fora do apartamento.

E aquilo tirou o ar dele por um instante.

Yuna usava roupas simples.

Nada especial.

Cabelos presos de qualquer jeito.

Sem maquiagem.

Mas parecia mais bonita do que todas as lembranças que ele guardou durante anos.

Os dois ficaram alguns segundos apenas se olhando.

Como sempre acontecia.

Como se ainda precisassem reaprender a presença um do outro.

Foi Yuna quem falou primeiro.

— Você demorou.

Aquilo arrancou um sorriso pequeno do canto da boca dele.

— Engraçado.

— Eu tava pensando exatamente a mesma coisa.

Yuna balançou a cabeça, quase rindo.

E pela primeira vez desde o reencontro deles...

o silêncio não pareceu pesado.

Pareceu familiar.

Como uma porta antiga que finalmente voltava a se abrir.

— Entra.

Félix atravessou a porta devagar.

O apartamento era diferente do que ele imaginava.

Moderno.

Organizado.

Linhas simples.

Cores claras.

Nada extravagante.

Nada caótico.

Era fácil perceber que aquele lugar tinha sido construído por duas pessoas que valorizavam tranquilidade.

Uma mistura perfeita de Yuna e Do-yun.

Aquilo provocou uma sensação estranha nele.

Talvez arrependimento.

Porque durante alguns segundos ele conseguiu enxergar a vida que ela teve sem ele.

A vida que poderia ter dado certo.

Os olhos dele percorreram discretamente a sala.

Os livros na estante.

A mesa de jantar.

Os pequenos detalhes que transformavam um apartamento em lar.

Então se sentou no sofá.

Yuna permaneceu de pé por alguns instantes antes de ocupar uma poltrona à frente dele.

Os dois ficaram em silêncio.

Mais uma vez.

Mas dessa vez não parecia um silêncio cheio de perguntas.

Parecia um silêncio cheio de respostas.

Yuna cruzou os braços.

Observando ele.

— Então...

A voz saiu calma.

— O que você veio fazer aqui?

A pergunta fez Félix soltar um pequeno riso pelo nariz.

Daqueles sem alegria.

Ele passou a mão pela nuca.

Respirou fundo.

Pesado.

Porque os dois sabiam a resposta.

Mesmo assim, ele resolveu dizer.

— Bem...

Os olhos encontraram os dela.

— Você não apareceu.

Yuna sustentou o olhar.

Sem desviar.

Félix continuou:

— Então eu vim.

O silêncio voltou a ocupar o espaço entre eles.

Mas durou pouco.

Porque Félix parecia cansado demais para esconder qualquer coisa agora.

— Eu esperei.

— Dei espaço.

— Tentei respeitar seu tempo.

Ele soltou uma risada curta.

— Foi uma merda.

Aquilo arrancou um sorriso involuntário dela.

Pequeno.

Quase imperceptível.

Ele apoiou os antebraços nos joelhos.

Inclinado para frente.

Mais vulnerável do que costumava permitir.

— E eu conheço você.

— Se tivesse escolhido ficar com ele...

— Eu nem estaria sentado aqui agora.

Yuna abaixou os olhos por um instante.

Não porque discordava.

Mas porque parte dela sabia que ele estava certo.

Félix observou cada reação dela.

Cada silêncio.

Cada hesitação.

E então falou a verdade que vinha carregando havia dias.

— Eu não vim te pedir nada.

Yuna ergueu os olhos novamente.

— Não?

— Não.

A resposta veio imediata.

Sincera.

— Porque eu já fiz isso uma vez.

Ela franziu levemente a testa.

Félix sustentou o olhar dela.

— Eu fui embora por você.

— Decidi por você.

— Escolhi o que achava melhor pra sua vida.

A voz ficou mais baixa.

Mais séria.

— E foi o maior erro que eu cometi.

O apartamento mergulhou num silêncio absoluto.

Félix passou a mão pelo rosto.

Cansado.

Como alguém finalmente largando um peso que carregava há anos.

— Então eu não tô aqui pra convencer você de nada.

Os olhos escuros encontraram os dela mais uma vez.

Firmes.

Honestos.

— Eu só tô aqui porque, pela primeira vez na minha vida...

Ele soltou o ar devagar.

— Eu quero que a decisão seja sua.

Yuna sentiu algo apertar dentro do peito.

Porque aquela talvez fosse a coisa mais difícil que Félix já tinha oferecido a ela.

Não proteção.

Não promessas.

Não paixão.

Mas liberdade.

E, ironicamente, aquilo fez o coração dela disparar mais do que qualquer declaração de amor.

Yuna permaneceu alguns segundos em silêncio depois das palavras dele.

Os olhos baixos.

Os dedos entrelaçados sobre o colo.

Como se estivesse organizando pensamentos que vinham se acumulando havia anos.

Então respirou fundo.

E encarou Félix.

— Sabe...

A voz saiu calma.

Mais firme do que ele esperava.

— Durante muito tempo eu quis ouvir isso de você.

Félix permaneceu imóvel.

Escutando.

— Quis ouvir você dizer que a escolha era minha.

Um pequeno sorriso triste apareceu no rosto dela.

— Engraçado como o tempo realmente muda as pessoas.

O coração dele apertou.

Porque havia algo naquela frase que parecia despedida.

Ou talvez apenas maturidade.

Yuna continuou:

— Eu não escolhi o Do-yun.

O peito de Félix se encheu de esperança por um breve instante.

Mas ela completou:

— Isso não significa que escolhi você.

Aquilo acertou em cheio.

Félix sentiu algo travar dentro do peito.

Não demonstrou.

Mas sentiu.

Porque parte dele acreditava que aquelas duas coisas fossem a mesma.

E claramente não eram.

Yuna sustentou o olhar dele.

Honesta.

Sem crueldade.

Sem intenção de machucar.

— Você ainda é muito forte em mim.

— Na minha vida.

— Nos meus pensamentos.

A voz dela ficou mais baixa.

— Talvez mais forte do que deveria.

Félix não desviou os olhos.

Nem por um segundo.

— Mas eu também não sou mais a mesma pessoa.

O silêncio tomou conta da sala.

— Se as coisas entre nós já não eram fáceis antes...

Ela abriu levemente as mãos.

Como se estivesse mostrando uma verdade inevitável.

— Por que seriam agora?

A pergunta ficou suspensa entre eles.

Pesada.

Real.

— Eu mudei.

— Você mudou.

— Nós dois carregamos marcas que não existiam naquela época.

Os olhos dela percorreram o rosto dele por um instante.

As cicatrizes.

O cansaço.

Os anos.

— Somos pessoas diferentes agora.

Yuna respirou fundo.

— Como a gente pode saber se daria certo?

Pela primeira vez desde que chegou ali, Félix ficou sem resposta imediata.

Porque ela estava fazendo a pergunta certa.

A pergunta que ele vinha evitando.

Não era mais sobre amor.

Era sobre futuro.

E as duas coisas nem sempre eram iguais.

O silêncio durou vários segundos.

Até que ele finalmente soltou o ar devagar.

Os olhos ainda presos nos dela.

— Eu não sei.

A honestidade pegou Yuna de surpresa.

— Não sei se vai dar certo.

— Não sei se vamos brigar.

— Não sei se vamos cometer erros.

Ele deu um pequeno sorriso cansado.

— Porque a verdade é que ninguém sabe essas coisas.

Yuna ficou em silêncio.

E Félix continuou:

— Mas tem uma coisa que eu sei.

A voz saiu mais firme.

Mais profunda.

— Não importa o quanto você mudou...

Os olhos dele suavizaram.

— O que eu sinto por você não mudou em nada.

Aquilo fez o coração dela tropeçar.

Félix apoiou os braços nos joelhos.

Sem esconder nada agora.

— Eu admito que mudei.

Um riso breve escapou.

— Talvez pra melhor.

— Talvez pra pior.

Ele deu de ombros.

— Ainda não descobri.

Yuna quase sorriu.

Mas ele continuou antes.

Mais sério.

Mais vulnerável.

— Só que existe uma coisa da qual eu tenho certeza absoluta.

O apartamento ficou silencioso.

Como se até as paredes esperassem a resposta.

Félix sustentou o olhar dela.

Sem fugir.

Sem armaduras.

Sem ironias.

— Um futuro sem a sua presença...

A voz falhou levemente.

Quase imperceptível.

— Seria pior do que a prisão.

Yuna sentiu o ar prender nos pulmões.

Porque sabia o peso daquela comparação.

Sabia o que aqueles anos tinham custado a ele.

E Félix não estava tentando impressioná-la.

Nem convencê-la.

Estava apenas dizendo a verdade.

— Eu sobrevivi à prisão.

Os olhos dele não deixaram os dela.

— Sobrevivi à solidão.

— À culpa.

— Aos erros que eu cometi.

Então um pequeno sorriso triste surgiu.

— Mas passar o resto da vida fingindo que você não importa...

Ele balançou a cabeça devagar.

— Isso eu não consigo mais.

E pela primeira vez desde que ele entrou naquele apartamento...

Yuna percebeu que aquele não era o Félix impulsivo de anos atrás.

Era um homem que finalmente tinha parado de fugir.

E isso talvez fosse o que mais a assustava.


Félix ficou olhando para ela por alguns segundos.

Silêncio.

Pesado.

Quente.

Perigoso.

Yuna sustentou o olhar dele sem desviar.

— Eu não vou te prometer nada — ela repetiu. — A gente precisa reaprender quem somos agora. Eu não quero me machucar de novo. Não quero me jogar de cabeça como fiz antes.

Um sorriso apareceu no canto da boca de Félix.

Pequeno.

Descrente.

— Eu confesso que nunca imaginei ouvir você dizer que quer ir devagar.

Yuna cruzou os braços.

— As pessoas mudam.

— Mudam.

Ele assentiu.

— Mas nem tudo muda.

Os olhos escuros permaneceram presos aos dela.

Intensos demais.

— Você pode dizer que não é mais a mesma garota de anos atrás.

A voz dele ficou mais baixa.

— E eu acredito.

Félix deu mais um passo.

— Mas também sei que o que existia entre nós não morreu.

O coração de Yuna acelerou.

Maldição.

Ainda acontecia.

— Félix...

— Não.

Ele balançou a cabeça.

— Não mente pra mim.

O tom não era agressivo.

Era certeza.

Daquelas irritantes.

Perigosas.

— Eu vi seus olhos quando me encontrou naquela oficina.

Yuna engoliu seco.

— Vi você naquela cafeteria.

Mais um passo.

— Vi você olhando pra mim como os anos nunca tivessem existido.

O ar parecia pesado demais dentro do apartamento.

— E eu sei.

A voz dele falhou pela primeira vez.

Só um pouco.

— Eu sei porque aconteceu exatamente a mesma coisa comigo.

Silêncio.

O tipo de silêncio que fala mais que qualquer discussão.

Yuna deveria responder.

Deveria dizer alguma coisa inteligente.

Sensata.

Madura.

Mas não conseguia.

Porque uma parte dela estava cansada de lutar.

Cansada de fingir que aquele incêndio tinha virado cinza.

Félix observou a hesitação.

Observou a respiração presa.

Observou o conflito.

E então sorriu.

Aquele sorriso que sempre foi problema.

— Tá vendo?

Yuna fechou os olhos.

— Você continua impossível.

— E você continua fingindo que não sente.

Quando ela voltou a abrir os olhos, ele já estava perto demais.

Perto o suficiente para que o mundo parecesse menor.

Perto o suficiente para que ela lembrasse exatamente por que nunca conseguiu esquecê-lo.

O coração batia forte.

Rápido.

Violento.

Como antigamente.

E aquilo deveria assustá-la.

Mas não assustava.

Porque talvez a verdade mais cruel fosse essa:

uma parte dela tinha sentido falta disso.

Félix ergueu a mão devagar.

Encostando os dedos no rosto dela.

Como se precisasse ter certeza de que era real.

Que ela estava mesmo ali.

Depois de tantos anos.

Depois de tantas perdas.

— Eu passei oito anos sobrevivendo sem você.

A voz saiu rouca.

— Mas nunca aprendi a viver sem você.

Yuna sentiu os olhos queimarem.

E pela primeira vez desde que ele reapareceu...

não recuou.

Não fugiu.

Não tentou escapar.

Apenas ficou ali.

Entre a razão que construiu com tanto esforço...

e o caos que nunca deixou de amar.

E, no fim...

aconteceu do jeito que sempre acontecia com eles.

Sem planos.

Sem estratégia.

Sem promessas cuidadosamente ensaiadas.

Bastou um olhar.

Um toque.

Um instante de fraqueza ou coragem — talvez os dois.

Yuna foi a primeira a encostar a testa na dele.

Como se quisesse confirmar que Félix estava realmente ali.

Que não era mais uma lembrança.

Que não desapareceria quando ela piscasse.

Félix fechou os olhos.

Respirando fundo.

Absorvendo a presença dela.

Depois de tantos anos.

Depois de tanta distância.

Depois de tantas escolhas erradas.

Ela soltou uma pequena risada nervosa.

— A gente é um desastre.

— Sempre foi.

— Isso não me tranquiliza.

— Nem a mim.

Mas, pela primeira vez, nenhum dos dois parecia disposto a fugir.

O beijo veio logo depois.

Intenso.

Familiar.

Como voltar para casa depois de uma viagem longa demais.

Não apagou os erros.

Não apagou os anos perdidos.

Não apagou as cicatrizes.

Mas, por alguns instantes, fez tudo aquilo parecer suportável.

Lá fora, Seoul continuava viva.

As luzes da cidade brilhavam além das janelas.

Os carros seguiam seus caminhos.

As pessoas continuavam suas vidas.

Mas dentro daquele apartamento existiam apenas eles.

Dois corações teimosos.

Duas pessoas transformadas pelo tempo.

E um amor que se recusou a morrer.

Talvez o futuro ainda fosse uma incógnita.

Talvez ainda existissem desafios.

Discussões.

Medos.

Dias difíceis.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, Yuna não estava escolhendo entre passado e futuro.

Estava escolhendo a si mesma.

E, naquele caminho, Félix fazia parte da escolha.

Quando a madrugada chegou, os dois permaneceram abraçados em silêncio.

Sem pressa.

Sem precisar provar mais nada.

A saudade finalmente tinha encontrado descanso.

E, enquanto observava as luzes da cidade pela janela, Yuna percebeu uma coisa.

A paz não era a ausência do caos.

Às vezes, a paz era encontrar alguém capaz de atravessar a tempestade ao seu lado.

E, gostasse ou não de admitir...

aquele alguém sempre tinha sido Félix.

Fim.

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