Amar o Caos

36 Dois Homens, Um Coração


A conversa não terminou como Do-yun havia imaginado.

Na verdade, ele saiu daquele bar com mais dúvidas do que respostas.

Durante o caminho de volta para casa, as palavras de Félix continuaram ecoando na cabeça dele.

"Se ela escolher você... eu não vou ficar no caminho."

Aquilo deveria trazer alívio.

Mas trouxe desconforto.

Porque Do-yun percebeu uma verdade difícil de ignorar:

Félix não era apenas um ex-namorado.

Era o tipo de homem que deixa marcas.

O tipo de amor que não desaparece completamente, mesmo quando a vida segue em frente.

Talvez fosse por isso que Yuna ainda parecesse tão ligada a ele.

Talvez não fosse apenas saudade.

Talvez fosse história.

Tempo.

Feridas.

Partes dela que tinham sido construídas ao lado daquele homem.

Mas, mesmo assim, Do-yun se recusava a desistir.

Porque também existia outra verdade.

Ele esteve ali.

Nos últimos anos.

Nos dias comuns.

Nas manhãs corridas.

Nas noites tranquilas.

Nas conquistas.

Nos fracassos.

Nos momentos em que Félix não estava.

E aquilo precisava significar alguma coisa.

Precisava.

Quando estacionou o carro diante do apartamento, permaneceu alguns minutos sentado em silêncio antes de desligar o motor.

O coração ainda pesado.

Mas um pouco mais decidido.

Porque, no fim das contas, a escolha nunca seria dele nem de Félix.

Seria de Yuna.

E, apesar do medo que sentia agora...

Do-yun ainda tinha esperança.

A vida que sonharam lado a lado.

Fossem suficientes.

Suficientes para que, quando chegasse a hora de escolher...

Yuna escolhesse ficar.


Yuna ficou imóvel por alguns segundos.

Como se não tivesse entendido direito o que ele acabara de dizer.

A cozinha ainda estava silenciosa.

A luz da manhã atravessava as cortinas do apartamento enquanto o café esfriava sobre a mesa.

Mas dentro dela alguma coisa começou a ferver.

— Você fez o quê?

A voz saiu baixa.

Perigosa.

Do-yun sustentou o olhar dela.

Sem recuar.

— Eu conversei com o Félix.

O choque virou indignação imediatamente.

Yuna levantou da cadeira tão rápido que ela arrastou no chão.

— Você não tinha esse direito.

Do-yun fechou os olhos por um segundo.

Já esperava aquela reação.

— Yuna...

— Não!

Ela passou a mão pelos cabelos, nervosa.

— Você simplesmente resolveu procurar uma pessoa do meu passado sem me avisar?

— Uma pessoa que faz parte da sua vida até hoje.

Aquilo fez ela travar.

Por um segundo apenas.

Mas travou.

Do-yun percebeu.

E aquilo doeu mais do que deveria.

Ele também se levantou.

— Você pode ficar brava comigo o quanto quiser.

— Porque talvez eu realmente tenha passado dos limites.

A voz dele saiu firme.

Mais firme do que normalmente era.

— Mas você me deu esse direito no momento em que decidiu dividir sua vida comigo.

Yuna encarou ele incrédula.

— Não. Eu não dei.

— Deu, sim.

O silêncio pesou entre os dois.

Do-yun respirou fundo.

Tentando controlar a própria frustração.

— Eu sou um homem apaixonado, Yuna.

A voz falhou levemente pela primeira vez.

— Acha mesmo que eu ia ficar sentado assistindo você se afastar de mim um pouco mais a cada dia?

Ela desviou os olhos.

Porque aquela frase acertou onde doía.

Do-yun continuou.

— Eu vi você desaparecer.

— Vi você parar de me ouvir.

— Vi você ficar distante.

— Vi você olhar pro nada durante minutos inteiros.

Ele balançou a cabeça.

Cansado.

— E tudo isso começou depois que encontrou ele.

Yuna sentiu o peito apertar.

Porque não tinha como negar.

Do-yun deu um passo mais perto.

Não agressivo.

Machucado.

— Eu não fui atrás do Félix porque tenho raiva dele.

— Nem porque queria brigar.

— Eu fui porque estava tentando entender se ainda existia espaço pra mim nessa história.

Aquilo fez os olhos dela baixarem lentamente.

O apartamento ficou silencioso.

Pesado.

Do-yun passou a mão pelo rosto.

Exausto.

— Eu amo você.

A confissão saiu simples.

Sem drama.

Talvez por isso tenha sido tão difícil de ouvir.

— E eu estava começando a sentir que estava perdendo você sem nem saber contra quem estava lutando.

Yuna engoliu seco.

Porque aquela era a parte cruel de tudo.

Do-yun não estava lutando contra Félix.

Estava lutando contra uma versão dela mesma que ela acreditava ter deixado para trás há oito anos.

Yuna estava diante dele com os olhos cansados, visivelmente abalada, como alguém tentando ser honesta mesmo sabendo que a verdade machuca.

Ela respirou fundo antes de continuar:

— Eu preciso de um tempo.

A voz saiu baixa.

Frágil.

— Eu não consigo pensar direito agora.

Do-yun fechou os olhos por um instante.

Sentindo o peso de cada palavra.

Yuna apertou as próprias mãos.

— Meus sentimentos estão confusos.

— Eu gosto de você.

— Respeito você.

Os olhos dela encontraram os dele.

— E não quero te machucar.

Aquilo fez alguma coisa apertar dentro do peito dele.

Porque acreditava nela.

Sabia que Yuna não estava mentindo.

Ela continuou:

— O Félix mexe comigo.

É um fato.

Eu não vou negar isso.

Do-yun desviou o olhar para a janela.

Como se precisasse de alguns segundos para absorver a frase.

Ouvir aquilo em voz alta era diferente.

Mais doloroso.

Yuna engoliu seco.

— Mas voltar para ele ainda não é uma opção para mim.

— Eu só...

Ela passou a mão pelos cabelos.

Exausta.

— Eu só preciso de tempo, ok?

O silêncio que veio depois pareceu durar uma eternidade.

Do-yun ficou parado.

Pensativo.

Olhando para ela como se estivesse tentando decidir alguma coisa dentro de si.

Quando finalmente falou, a voz saiu mais baixa.

Mais triste.

— Sabe o que me assusta?

Yuna não respondeu.

— Não é você voltar pra ele.

Os olhos dele voltaram para os dela.

— É você precisar pensar sobre isso.

Aquilo atingiu Yuna em cheio.

Porque ela entendeu imediatamente.

Se estivesse completamente apaixonada por Do-yun, não haveria dúvida.

Não haveria conflito.

Não haveria escolha.

Do-yun soltou um pequeno sorriso cansado.

Sem alegria.

— Mas eu também não quero te prender.

Ele respirou fundo.

— Então eu vou te dar esse tempo.

Yuna sentiu os olhos arderem.

E, pela primeira vez, Yuna percebeu que a indecisão dela já não estava machucando apenas seu próprio coração.

Estava machucando o dele também.

E desde que Félix reapareceu...

ela entendeu que não poderia adiar essa escolha para sempre.