Amar o Caos

34 Dias Calmos ou Corações em Chamas


No fim de semana, Yuna decidiu visitar os pais em Busan.

Sozinha dessa vez.

Do-yun ficou em Seoul resolvendo os últimos detalhes do projeto importante que finalmente entrava na fase final. E, honestamente… aquilo acabou sendo um alívio para ela.

Porque Yuna precisava respirar.

Precisava tentar colocar os próprios pensamentos no lugar antes que eles acabassem engolindo ela inteira.

Quando chegou em frente à casa dos pais, sentiu aquele aperto familiar no peito.

A mesma varanda.

As mesmas flores perto da entrada.

O mesmo cheiro de comida vindo da cozinha.

Coisas pequenas.

Mas que sempre faziam ela se sentir mais segura.

Mal teve tempo de abrir o portão e sua mãe já apareceu na entrada.

— Yuna!

Ela veio abraçá-la imediatamente, apertando a filha com força como fazia desde a adolescência.

E por um instante… Yuna quase desmoronou ali mesmo.

Porque fazia dias que parecia emocionalmente cansada demais.

A mãe segurou o rosto dela entre as mãos, analisando imediatamente cada detalhe como só mães sabem fazer.

— Você tá magra de novo.

Yuna soltou uma risada fraca.

— Mãe…

— E o Do-yun? Não veio?

A pergunta saiu natural.

Carinhosa.

Porque a mãe dela gostava muito de Do-yun.

Como não gostaria?

Do-yun era educado.

Estável.

Gentil.

O completo oposto de Félix.

Com ele, Yuna parecia segura.

Protegida.

Como alguém finalmente vivendo uma vida tranquila depois de anos difíceis.

— Ele ficou em Seoul — Yuna respondeu enquanto entrava. — O projeto dele tá quase terminando.

A mãe assentiu compreensiva.

— Aquele menino trabalha demais.

Yuna sorriu pequeno.

E então ouviu a voz do pai vindo da sala:

— Quem chegou?

Quando entrou, encontrou ele sentado de frente para a televisão como sempre, os óculos baixos no nariz e um programa qualquer passando sem realmente prender sua atenção.

Mas assim que viu Yuna…

abriu um sorriso sincero.

Que fazem alguém se sentir em casa instantaneamente.

— Finalmente resolveu visitar esses velhos aqui.

Yuna riu pela primeira vez em dias de forma realmente natural.

— Drama. Eu vim mês passado.

— Muito tempo.

Ele abriu os braços numa exigência silenciosa de abraço.

E Yuna foi até ele sem pensar.

Porque, naquele instante…

ela percebeu o quanto precisava daquela paz antiga.

Daquelas pessoas que amavam ela antes mesmo do mundo começar a bagunçar tudo.

Só que no fundo…

nem Busan parecia silenciosa o suficiente agora.

Porque, mesmo longe de Seoul…

Félix ainda continuava dentro da cabeça dela.

A mãe de Yuna saiu pouco depois, reclamando o caminho inteiro até a porta.

— Você devia ter avisado antes que vinha! Agora eu não preparei nada direito pra você comer.

Yuna tentou rir.

— Mãe, eu literalmente como a mesma comida todo mês aqui.

— E continua magra igual um palito. Isso claramente não tá funcionando.

Ela pegou a bolsa apressada.

— Vou comprar ingredientes pro almoço. E nada de pedir delivery escondido enquanto eu estiver fora!

A porta bateu logo depois.

E a casa ficou silenciosa.

Só o som baixo da televisão preenchia a sala enquanto o pai de Yuna diminuía lentamente o volume com o controle remoto.

Ele olhou para a filha por alguns segundos.

Observando.

Esperando.

Sabia quando alguma coisa estava errada.

— O que aconteceu?

A pergunta veio calma.

E talvez justamente por isso tenha sido impossível esconder.

Yuna baixou os olhos para as próprias mãos por alguns segundos antes de falar baixo:

— O Félix saiu da prisão.

O silêncio na sala mudou imediatamente.

O pai dela ficou imóvel por um instante antes de perguntar:

— Ele foi atrás de você?

Yuna balançou a cabeça devagar.

— Não… a gente acabou se encontrando por acaso.

Ela soltou um pequeno suspiro cansado.

— Numa oficina.

O pai observou ela em silêncio.

Experiente o suficiente para perceber que aquela história já tinha ido longe demais emocionalmente.

Então perguntou mais baixo:

— E parece que esse encontro deixou você abalada… não é?

Aquilo desmontou qualquer tentativa dela parecer forte.

Yuna abaixou a cabeça imediatamente.

Quase envergonhada.

Porque parte dela odiava admitir aquilo em voz alta.

Depois de tudo.

O pai suspirou devagar antes de se ajeitar no sofá.

— Yuna…

A voz saiu tranquila.

Gentil.

Mas firme como sempre.

— Você tem uma vida estável agora.

Ela permaneceu em silêncio.

— O Do-yun é um ótimo rapaz.

— Ele te respeita.

— Te ama de verdade.

Cada palavra parecia escolhida com cuidado.

Como alguém tentando proteger a filha de uma dor que já conhecia bem demais.

— Filha… deixa a vida te fazer feliz.

Aquilo apertou o peito dela instantaneamente.

Porque era simples.

Tão absurdamente simples.

E talvez fosse justamente isso que a assustava.

O pai continuou:

— O passado só vai trazer tristeza e desilusão de novo.

Ele apoiou os braços nos joelhos, olhando diretamente para ela agora.

— É isso mesmo que você quer?

Silêncio.

Pesado.

— Viver outro caos?

A pergunta ficou parada entre os dois.

E Yuna não conseguiu responder.

Porque essa era a pior parte.

Félix sempre foi caos.

Dor.

Instabilidade.

Mas também tinha sido amor da forma mais intensa que ela já conheceu.

Enquanto Do-yun…

Do-yun era paz.

Era futuro.

Era a vida que qualquer pessoa escolheria sem pensar duas vezes.

Então por que…

por que o coração dela ainda parecia tremer daquele jeito só de lembrar os olhos de Félix outra vez?

Porque talvez… no fundo… Yuna amasse exatamente o caos.

E perceber aquilo foi quase sufocante.

Ela permaneceu em silêncio na sala, encarando as próprias mãos enquanto o pai aguardava uma resposta que não vinha.

Mas a verdade gritava dentro dela.

A vida ao lado de Do-yun era boa.

Estável.

Leve.

Confortável.

Com Do-yun, Yuna conseguia dormir em paz.

Conseguia imaginar futuro.

Casa.

Casamento.

Dias tranquilos.

Uma vida bonita do jeito que as pessoas consideram certo.

E ela tinha sentimentos por ele.

Carinho.

Admiração.

Confiança.

Talvez até amor.

Mas então por que…

por que nada dentro dela incendiava daquele jeito?

Por que bastou olhar Félix novamente para o coração parecer enlouquecer?

Aquilo era injusto.

Cruel até.

Porque Félix nunca trouxe paz.

Trouxe noites mal dormidas.

Medo.

Lágrimas.

Mas também trouxe outra coisa.

Frenesi.

Intensidade.

A sensação absurda de estar viva o tempo inteiro.

Com Félix, tudo queimava.

Os olhares.

As brigas.

Os toques.

O amor.

Era errado.

Caótico.

Destrutivo.

Mas nunca morno.

E talvez fosse justamente isso que assustava Yuna agora.

Perceber que, mesmo depois de oito anos…

parte dela ainda sentia falta daquele incêndio.

Só de pensar nisso, ela já se sentia culpada.

Como se estivesse traindo não apenas Do-yun…

mas a mulher que passou anos tentando reconstruir a própria vida longe daquele caos.

Porque admitir aquilo em voz alta pareceria absurdo.

Patético até.

Quem escolhe o caos quando finalmente encontra paz?

Quem sente falta da dor?

Mas talvez essa fosse a verdade mais feia sobre amores intensos:

eles machucam tanto…

que acabam se misturando com a própria ideia de viver.

E Yuna odiava perceber que, no fundo do coração…

uma parte dela ainda pertencia completamente a Félix.