Amar
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Admito que sempre tive vontade de escrever algo relacionado à O Mágico de Oz, então foi terrivelmente relaxante escrever a fic! :) Só a escrevi porque aquela justificativa que ele deu no livro (escreverei-a nas notas finais, no panic) não me convenceu, senti que era insuficiente, então fiquei encucada o livro todo, desde a primeira vez que o li! (perto dos meus setes anos, old)
Enfim, espero que gostem do que eu escrevi, sempre fico nervosa antes de postar qualquer coisa ahsjajdhajskadjjasa
Boa leitura!
O Homem de Lata saiu mais cedo de sua cabana aquele dia. Fez tudo o que geralmente fazia: poliu suas patelas, lubrificou pescoço, ombros, cotovelos, pulsos; desamassou um cantinho ali, tirou uma sujeirinha de lá, realçou o brilho daqui…
Quando julgou estar pronto, olhou-se orgulhosamente no espelho, vendo seu reflexo brilhoso e esplêndido sorrir para ele. Pegou seu machado que estava encostado num canto da cabana e saiu antes mesmo do Sol nascer.
Mesmo com tantos ajustes, seu joelho ainda insistia em encrencar; fazia alguns sons agudos e estranhos enquanto caminhava em direção ao bosque ali perto. Não irritou-se, porém; era até acolhedor ter alguma companhia, nem que seja o som de um joelho encrencado, enquanto andava entre um bosque bem escuro e um pouco assustador.
Não gostaria de ir muito a fundo; queria apenas dar de cara com uma árvore grande o suficiente para lhe dar trabalho por pelo menos algumas cinco horas.
A verdade era que queria ter afazeres suficientemente eficientes para fazê-lo parar de pensar na donzela Munchkin. Mesmo não nutrindo sentimentos amorosos pela garota agora, sentia que tinha uma obrigação para com ela, pois deixou-a de coração partido. E, se tivesse um coração, não gostaria de tê-lo partido, quebrado ou remendado.
Sentia culpa, remorso, raiva.
Queria voltar a amá-la, pois se lembrava de como era feliz nos tempos em que conseguia amar alguém. Lembrava-se do sorriso amável da donzela, de seu cheiro doce, de seus abraços apertados que faziam-o sentir-se como açúcar em água; lembrava-se de como era prazeroso ouvi-la dando uma risada, de como era sufocante vê-la chorar, e de como era libertador acariciá-la em sua face e repetir que tudo iria ficar bem.
Queria amar novamente.
Queria amá-la novamente.
Queria se sentir amado.
Não importava se iria sofrer, se iria chorar ou adoecer; todos os preços a se pagar eram pequenos se o que estivesse em jogo era poder ter um coração novamente. Não se importava com bruxas, com velhas ou o que quer que seja.
Não mais.
Se pudesse senti-la em seus braços, se pudesse se casar com ela, nada mais importava. Seu desejo por amar era maior do que tudo, e nada neste mundo iria tirar isso dele.
Já tiraram o suficiente.
Chegou em uma parte do bosque onde o que predominavam eram Cedros majestosos, que acabaram por ficarem tímidos sob a presença do machado afiado do lenhador. O Homem de Lata subiu com o olhar, tentando ver o quão alta eram as árvores.
A única coisa que viu foi escuridão.
Andou por mais alguns metros e tocou num tronco à sua frente. Pôde sentir a textura áspera, grossa e indelicada passeado por seus dedos também nada delicados. Suspirou e decidiu que aquela ali seria sua vítima.
“Me desculpe…” pediu num fio de voz, segurando o cabo do machado com ambas as mãos. Ensaiou duas vezes seu golpe num ponto específico, dando, por fim, a primeira machadada. Algumas farpas voaram, e apenas a metade do machado conseguiu adentrar na madeira.
A cada golpe dado, o lenhador se lembrou das expressões de nojo da velha que vivia com sua donzela. Lembrou-se do quanto ela explorava a pobre moça, de quantos momentos felizes atrapalhou, de quantos corações partiu. As machadadas tornaram-se mais intensas, e, no lugar do tronco da árvore, o Homem de Lata colocou a imagem da velha quase que automaticamente.
Parou o que estava fazendo quando de fato prestou atenção. Era isso que tanto queria? Vingar-se? Fazer o mesmo o que a criatura que tanto repudiava fez?
Suspirou e apoiou uma de suas pernas no tronco, puxando o machado com a ajuda do impulso de sua lataria encrencada. Encarou a árvore, que estava até sua metade cortada, praticamente desabando sozinha. Deu dois passos para trás, encarando logo em seguida seu afiado machado.
Olhou para cima mais uma vez, percebendo que, dessa vez, era possível enxergar a copa das árvores. O céu acima estava completamente nublado, com nuvens prontas para descarregar sobre sua cabeça. Caso ele tivesse glândulas lacrimais, provavelmente iria chorar de desgosto; mas a única coisa que possuía era lataria e a vontade de ter novamente seu coração.
Algo começou a irritar seus olhos de repente, como se acendessem uma lâmpada em cima de sua face, e o Homem de Lata pôs seu machado na frente do rosto, tampando seus olhos para poder ver o que tanto o incomodava. Ficou surpreso ao perceber que, mesmo com o tempo tão fechado, o crepúsculo pôde acontecer, com alguns raios solares iluminando o bosque. O céu diurno misturou-se com o noturno, formando uma paisagem incrivelmente bela, meio alaranjada, meio cor-de-rosa.
“É incrível…” murmurou ele, boquiaberto. “As coisas parecem ficar mais bonitas à medida que sua situação piora…” agora parecia mais entristecido do que surpreso.
Sentiu algo gélido em sua cabeça, ao mesmo tempo em que ouvia um som de pingo. Fechou os olhos ao sentir a chuva caindo: gélida, solitária, absoluta, turbulenta. Não dava para fugir agora; a tempestade havia o pego definitivamente.
Era terrivelmente solitário tomar um banho de chuva sozinho, principalmente se você for feito de um material que enferruja com facilidade. O Homem de Lata tentou inclinar seu joelho, para tentar ouvir aquele barulhinho encrencado. Não houve resultados: sentia uma aguaceira invadir todas as suas juntas, impossibilitando quaisquer movimentos, pois estava sentindo tudo endurecer.
Agora ele estava sozinho num bosque, sem coração, sem movimentos, sem fuga. Sentia um desgaste e alguma coisa a mais — algo que nunca havia experimentado antes -, invadir seu ser mais do que a própria água.
Gemeu porque julgou que estava sentindo dor.
Ele só queria amar novamente. Só queria ser amado. Era pedir demais? Será que nunca conseguiria pegar seu coração de volta?
A tristeza o dominava. Sentia que tudo sob os seus pés estava desfalecendo; tudo perdeu-se, apenas a vontade de fazer algo restou.
E ele só queria amar.
Gemeu em dor, fechando os olhos de maneira penosa logo em seguida. Decidiu, naquele exato instante, que só os abriria novamente quando percebesse que a chance de ter seu coração de volta apareceria.
Não se importaria se demorasse um, dois, quatro anos ou décadas; alguma hora esse momento teria de chegar.
Notas finais
HUEUHUEHUEHE Enfim, foi assim que eu imaginei a cena toda... Agora só falta ele casar com a donzela (só falta ela ter abandonado ele, eita).
Aqui o trecho onde ele cita o que aconteceu com ele:
"Meu corpo brilha tanto no sol que sinto orgulho dele, e não me importo se meu machado escorrega, porque não pode me cortar. Só há um perigo agora: que minhas articulações enferrujem; mas guardo a lata de óleo na minha cabana e cuido de me lubrificar sempre que preciso. Entretanto, houve um dia em que me esqueci de fazer isso, e quando uma tempestade me pegou, minhas juntas enferrujaram e fiquei parado no bosque até você vir me ajudar." - página 46.
Aham, senta lá :v Só admite que você passou pouco óleo porque tava apressado querendo decapitar, digo, lenhar uma árvore :B
É um texto talvez bem bobinho, mas eu admito, adorei escrevê-lo! ;)
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