Notas iniciais
Demorou, mas chegou! Finalmente resolvi tomar vergonha nessa minha cara e escrever a segunda temporada de Sangue Maldito, espero que não estejam muito irritadas com minha demora e me desculpem se esse primeiro capitulo ficou muito chato, prometo que no próximo colocarei um pouco mais de ação! Agora eu vou parar de falar e deixar vocês lerem o primeiro capitulo de uma história que reserva muitas surpresas! :P


Um... Dois... Três... Aos poucos as batidas do meu coração se tornavam mais fortes e mais espaçadas que as de um ser humano comum. Eu não sabia que o coração de vampiros podia bater, se bem que eu não era totalmente vampira então fazia um pouco de sentido. Respirei fundo a fim de confirmar que estava realmente viva, quer dizer, quase. Levei minha mão até meu peito e senti a prova do meu renascimento, sorri de leve, agora nada mais poderia me matar.

Espreguicei-me como se estivesse acordando em um dia comum e não simplesmente acordando da morte, minha mente estava um pouco nublada, contudo ao apertar meus olhos senti uma pontada no olho esquerdo e algo parecido com lágrima escorreu pela minha bochecha, logo me lembrei de tudo que havia passado para me tornar o que me tornei.

Flashes das cruéis torturas que sofri e que acabavam com meu corpo e com minha mente passaram pela minha cabeça, sob minha pele eu ainda podia sentir cada uma das dores pelas quais me fizeram passar, ainda podia ver em minha memória cada pessoa importante na minha vida sendo torturada e assassinada, ainda podia sentir as mãos e a boca daquele homem tocando meu corpo me sujando com sua podridão.

E o pior de tudo era que eu ainda podia ver o corpo deformado do Edgar sobre a terra da clareira, ainda podia ver minha mãe sobre mim perfurando meu olho com uma tesoura de costura, eu ainda podia sentir toda a crueldade, todo o sadismo e toda a frieza que brotou de dentro de mim me fazendo cravar a tesoura por todo o corpo daquela mulher. Eu a matei, eu a assassinei e simplesmente senti prazer em ouvir seus gritos desesperados, em ver seu sangue jorrando de seu corpo como uma cascata. Eu adorei ter o poder para mata-la e adorei ver a vida deixando sua face.

Sim, eu tornei-me uma pessoa cruel, mas esse é o objetivo do Despertar, agora eu sei que tudo que ele quer é afastar as pessoas de sua compaixão, ele quer torna-las menos humanas e mais demônio e quem não tiver a capacidade de trazer à tona o mal que existe em si jamais passará por ele. O Despertar não tem nada a ver com se tornar vampiro, mas sim com acordar o seu lado mais cruel e sádico, pois é esse lado que te torna um vampiro. Ainda assim, nós podemos escolher quanto desse lado deixaremos que tome conta de nós.

Respirei fundo mais uma vez e me levantei da cama rapidamente, minha visão escureceu e senti uma forte tontura, precisei me apoiar no criado-mudo até me recuperar, quando voltei a me sentir estável novamente fui até o espelho, precisava ver o meu estado. Tudo estava exatamente como deveria ser, exceto meu olho esquerdo, não havia um buraco nele, até porque quem lutou com aquela coisa foi minha alma e não meu corpo, porém a lágrima que havia escorrido dele era de sangue e meu olho não era mais azul.

Aproximei-me do espelho pensando que estava alucinando, pisquei algumas vezes, mas o azul não voltava minha íris continuava simplesmente roxa, quase violeta.

— Que coisa mais bizarra! – sussurrei para mim mesma. Não sabia que os olhos mudavam de cor depois do Despertar, mas talvez ele tenha mudado somente porque aconteceu alguma coisa durante ele, que foi ter uma tesoura enfiada no meu olho.

— Muchi-chan, você voltou! – Laito disse aparecendo atrás de mim com um sorrisinho pervertido que carregava algo mais que apenas perversão, virei-me rapidamente e vi que todos os moradores da casa estavam ali espalhados pelo meu quarto, os encarei incrédula, acho que eu ainda não estava acreditando que voltei mesmo à vida. Só saí de meu torpor quando senti alguém lambendo o sangue da minha bochecha.

— Seu sangue está ainda mais delicioso do que antes, Ningyo-chan. – Kou falou satisfeito com um pequeno sorriso, o fitei por um segundo e depois fitei todos dentro do quarto tentando acreditar no que estava vendo.

Encarei cada um deles separadamente a fim de gravar seus rostos em minha memória, queria lembrar para sempre dos cabelos dourados e macios do Kou, do sorrisinho cruel e pervertido do Laito, da pose de delinquente do Yuma, da pequena cicatriz na ponte do nariz do Azusa, do olhar falsamente carente do Kanato, do jeito como o Ayato amarra a gravata, dos olhos mais azuis que o mar do Shu, do raríssimo sorriso do Subaru, do modo como Ruki é tão apegado a um livro que está sempre carregando, da mania que o Reiji tem de ficar ajeitando os óculos e da forma como Yui está sempre me dando forças. Eu iria imprimi-los em minha memória para que ninguém pudesse tirá-los.

— Você está bem, Tora-chan? – Yui perguntou-me preocupada e meus olhos se encheram de lágrimas, mas eram lágrimas de felicidade. Eu abri o maior sorriso da face da Terra.

— Estou, eu estou ótima! – respondi com a voz embargada por tantas emoções misturadas. Os vampiros se entreolharam de um jeito meio surpreso e eu franzi as sobrancelhas desfazendo o sorriso. – O que há? – perguntei confusa.

— Por que seu olho mudou de cor, Jujuba? – Ayato perguntou curioso, eu tapei o olho violeta na mesma hora.

— Bem... – falei meio apreensiva dando uma pausa.

— Responda de uma vez! – Subaru mandou com raiva, revirei os olhos. Parece que as coisas não mudaram nem um pouco por aqui.

— Eu acho que foi por causa de algumas coisas que aconteceram no Despertar, mas não tenho como ter certeza. – respondi calmamente deixando novamente o olho à mostra.

— Não acho que tenha sido isso, senão os olhos da Yui teriam mudado de cor também. – Ruki disse pressionando os lábios, eu abri a boca para responder, porém Reiji foi mais rápido.

— Na verdade, devemos considerar essa possibilidade. O Despertar dela foi diferente de todos os outros. – explicou com indiferença ajeitando os óculos. Ahh, como eu estava com saudade de ver as manias de todos esses vampiros!

— O que pode ter acontecido no Despertar da Tora-chan que não aconteceu no da Yui-san para fazer isso com o olho dela? – Kanato questionou um pouco confuso, ele estava sentado na poltrona do meu quarto com Teddy no colo.

— Deve ter sido algo bem doloroso se chegou até mesmo a se manifestar no corpo da Tora. – Shu constatou sonolento se referindo à lágrima de sangue. Todos no quarto me encararam.

— O que aconteceu, Tora-san? – Azusa perguntou incisivo, eu passei meus olhos pelo quarto e pensei que talvez não fosse uma boa ideia contar tudo pelo que havia passado, no entanto eu sabia que não teria escolha, uma hora precisaria contar o que houve. Eu suspirei e me sentei no banco que ficava em frente à penteadeira.

— Antes de começar a contar o que aconteceu eu gostaria de fazer duas perguntas. – avisei lentamente, alguns pareceram ficar irritados e outros somente reviraram os olhos com impaciência. – Onde está o Edgar? – falei, eu precisava saber se a morte dele foi somente uma alucinação do meu Despertar ou se ele realmente havia morrido, essa dúvida estava me corroendo desde que acordei.

— O mordomo? – Yuma perguntou com estranheza, eu apenas assenti e eles me olharam como se eu fosse idiota. – Alguns minutos atrás ele estava na cozinha fazendo o jantar. – respondeu cruzando os braços.

— Tem certeza? – insisti esperançosa.

— É claro que tenho, idiota! – retrucou com irritação, eu soltei todo o ar que nem percebi que estava prendendo e coloquei as mãos sobre o coração aliviada, agradecendo silenciosamente.

— Por que você está tão aliviada em saber que o serviçal está na cozinha, Muchi-chan? – Laito questionou desconfiado.

— Daqui a pouco vocês irão saber. – respondi e encarei a Yui. – Yui-chan, o que você se lembra do seu Despertar? – fiz a segunda pergunta de uma vez.

— Bem, eu me lembro de levar muitas chicotadas em um lugar que me disseram ser o Inferno, eu ficava acorrentada em uma sala muito escura e um homem veio e me levou para uma sala onde fui chicoteada, depois ele me acorrentou na sala escura novamente e só me lembro de sentir minha alma flutuando até o meu corpo e eu acordando. – respondeu tentando manter a voz em um tom estável, parece que as lembranças que ela tinha do Inferno a abalavam muito, ainda bem que ela não precisou ficar muito mais tempo lá.

— Inferno? Não me faça rir, Chichinashi! – Ayato debochou com um sorriso zombeteiro.

— Não é para rir, Ayato-kun, ela estava mesmo no Inferno e eu também estive, acredite, não é um hotel cinco estrelas e a dor que eu senti lá é bem pior do que se você me trancasse cem vezes na Dama de Ferro. – falei seriamente sem desviar meu olhar do dele nenhuma vez, suspirei e encarei a todos. – Vocês pediram para ouvir o que aconteceu comigo durante o Despertar, não sei se irão acreditar em tudo que eu falar, mas garanto que tudo que falar será verdade. Não tem nada de fácil em se tornar vampira por conta própria e a Yui-chan teve muita sorte de ter ajuda para voltar, caso contrário ela não teria sequer passado do primeiro estágio. – acrescentei.

Eu não estava sendo cruel com a Yui, muito menos estava desprezando a força de vontade dela, mas pela expressão dela quando estava falando das chicotadas creio que não conseguisse aguentar nem a segunda tortura sem perder toda a sanidade.

— Como você pode ter certeza que ela não teria passado? – Ruki desafiou-me erguendo uma sobrancelha.

— Porque ela não passou pela Dama de Ferro, porque ela pareceu muito abalada quando falou das chicotadas e, principalmente, porque ela não tem os mesmos objetivos que eu e não morrerei antes de completar cada um deles. – respondi calmamente, ninguém seria capaz de contestar minhas palavras. – Desculpe, Yui-chan, não é que eu esteja desprezando sua determinação, aliás você tem muito disso. Porém, não acho que você tenha vocação para crueldade e no Despertar essa é a única coisa que te mantém viva. – acrescentei um rápido pedido de desculpas, não queria que ela ficasse chateada comigo, ela assentiu avisando que me compreendia.

— Espere, você disse que a Yui teve ajuda para passar pelo Despertar? – Subaru questionou franzindo as sobrancelhas.

— Sim, o coração da vaca a ajudou. – respondi e todos me olharam confusos, somente Yui deu uma risadinha então eu percebi que havia falado “vaca”, deve ser o costume. – Desculpem, eu quis dizer que o coração da Cordelia a ajudou. – corrigi-me meio envergonhada, espero que não fique em problemas por chamar a mãe dos trigêmeos de vaca na frente deles. Também resolvi omitir o que Teddy me contou sobre Cordelia também ajuda-la.

— Como você sabe sobre Cordelia? – Reiji perguntou ríspido.

— Sei somente o que Yui-chan me contou, que ela era uma das três esposas do Karl Heinz, que era mãe do Ayato-kun, Laito-kun e Kanato-kun e que tentou roubar seu corpo com a ajuda do ex-amante, Richter, que por acaso era irmão do marido dela. Bela família a que vocês tinham! – expliquei dando uma boa e velha ironizada no final.

— Você deu um bom apelido para ela, Jujuba. – Ayato concordou comigo dando um sorriso.

— Eu sei! Sou ótima com apelidos ofensivos. – falei alegremente lhe retribuindo o sorriso, estava feliz por ter agradado pelo menos um trigêmeo.

— Estamos desviando do assunto. – Shu avisou me olhando pelo canto do olho, estava deitado na minha cama.

— Você disse “primeiro estágio”, Ningyo-chan, então quantos estágios tem o Despertar? – Kou perguntou interessado.

— Apenas dois. O primeiro estágio é padronizado para todos que passam pelo Despertar e o segundo estágio se baseia no psicológico de cada um, não é muito complexo, mas há algumas exceções. Por exemplo, o Lorde Demônio pode te ajudar a passar pelo Despertar sem qualquer problema, ele só precisa dever um favor a um vampiro que queira transformar um humano, ou, como no caso da Yui-chan, ter um coração poderoso de um demônio, afinal Cordelia era filha do Lorde Demônio. – respondi calmamente.

— Como você sabe todas essas coisas, Tora-san? – Azusa perguntou curioso.

— Eu sei que a Cordelia é filha do Lorde Demônio porque o Kanato-kun me contou uma vez, mas sobre os favores eu acabei descobrindo sozinha. – respondi calmamente, somente porque Azusa era o meu ursinho, pois eu já estava saturada de ser interrompida. – Agora, se vocês me permitirem eu gostaria de começar a história sem ser interrompida, por favor. – pedi, eles assentiram e eu contei.

Contei como descobri que estava no Inferno, contei sobre as torturas físicas e psicológicas que me fizeram – menos, é claro, a parte sobre eu vê-los morrer, porque eles ficariam se achando e a parte sobre o Teddy, pois eu não queria parecer louca e muito menos queria arranjar encrenca com o Kanato. Depois falei sobre Richter e a última tortura que quase se concluiu, estremeci ao revelar esse assédio, lembrando-me das mãos e da boca dele pelo meu corpo, me encolhi.

— Foi terrível. Ele me beijou e me... tocou... – falei abalada encarando minhas mãos sobre o colo, eles sabiam sobre qual o sentido que eu estava dando à palavra “tocou”. – Ficou deslizando suas mãos pelo meu corpo e eu me sentia tão suja! Ainda bem que consegui quebrar as correntes a tempo, antes que... – não consegui terminar a frase, eu não queria nem pensar no que poderia ter acontecido de Richter tivesse conseguido terminar o trabalho.

— Esse maldito não pode nos deixar em paz nem mesmo morto! – Subaru disse com raiva e todos os Sakamaki concordaram. Percebi que Yuma estava me observando, encarei-o e lembrei-me da noite anterior quando passamos a noite juntos na estufa, corei e ele deu um sorriso quase imperceptível já sabendo sobre o que eu estava pensando. Ele tirou minha virgindade ontem, mas parece que foram décadas atrás.

— O que aconteceu depois, Tora-chan? – Kanato perguntou curioso tirando-me de minha distração, eu pigarreei tentando espantar o rubor e as lembranças inapropriadas para o momento. Logo continuei minha história, contando sobre o período de tempo que passei perambulando pela mansão como fantasma, não entrei em muitos detalhes, porém todos já devem ter relacionado algumas coisas estranhas que aconteceram com eles a mim.

Por fim, falei sobre minha mãe e como ela estava completamente fora de si, descrevi a aparência dela com o corpo coberto de sangue e segurando uma tesoura de costura. Disse que precisei correr atrás dela pelo bosque e acabei encontrando o corpo do Edgar todo estraçalhado com o desenho de uma rosa-cruz no peito, depois falei sobre ela ter me atacado e arrancado meu olho com a tesoura. Contudo, na hora de contar sobre o que fiz com ela, perdi toda a coragem e omiti essa parte dizendo que acordei no meu corpo. Eu ainda não estava pronta para admitir meu lado maligno para nenhum deles.

— Você acha que foi por isso que seu olho mudou de cor? – Ruki perguntou inexpressivo.

— Talvez tenha sido e talvez não. Eu não posso ter certeza, pois mesmo que o Despertar não seja complexo, compreender todos os seus aspectos é muito complicado. — respondi dando de ombros, acho que eu era a menos interessada em saber sobre a mudança de cor do meu olho. Todos continuaram calados refletindo sobre minha história e eu resolvi quebrar essa tensão, acabei de voltar e clima de velório não é comigo. – De qualquer forma, quem se importa? Eu estou muito mais bonita assim, não acham? – brinquei dando um rodopio e fechando o olho verde ao parar em frente deles.

— Poupe-me de seus comentários inadequados. Mesmo tendo se tornado vampira continua com a mesma mentalidade de um humano qualquer. – Reiji criticou-me, eu dei língua para ele igual a uma criancinha birrenta de cinco anos. Ele não sabia, entretanto minha mentalidade agora era muito mais parecida com a de um vampiro do que com a de um humano.

— Ningyo-chan, você está parecendo criança. – Kou disse, ele não estava me repreendendo somente se divertindo com minha reação imatura.

— Hai, hai! – desdenhei revirando os olhos. – Agora eu vou tomar banho, mais tarde a gente conversa. – informei-os dando um leve toque de sarcasmo na palavra “conversa”, eu já sabia que quando eu encontrasse algum deles depois do meu banho não teríamos conversa nenhuma, eles iriam era recuperar as horas que passaram sem beber meu sangue.

Fui até a cômoda pegar algumas roupas e quando me virei todos já tinham sumido. Tudo bem, isso foi estranho, sempre tem algum que tenta fazer alguma gracinha, acho que estou até decepcionada por ninguém tentar fazer nada, provavelmente nenhum deles estava ligando muito para minha volta. Dei de ombros para mim mesma, mesmo que eles não liguem é muito bom estar de volta.

Enquanto seguia em direção ao banheiro lembrei-me que precisava arrumar a parte abandonada do jardim antes que o Karl Heinz chegasse e ele chegaria daqui a três dias, eu perdi um dia devido ao Despertar e o pior é que eu ainda não sabia como matar o infeliz.

Suspirei e abri a porta do banheiro, na mesma hora eu paralisei.

Notas finais
Eu, finalmente, voltei e agora ninguém será capaz de me deter na minha jornada. Não há nada que alguém possa fazer para me impedir. Mas isso não quer dizer que eu não possa fazer pequenas paradas durante o caminho, afinal eu tenho deliciosas distrações. Eu não sou uma garota apressada... Então, quem será o primeiro a me parar? Tora Takayama