Amante Infernal

15 Gostosuras e Travessuras


Notas iniciais
Olá, meus amores! ♥ Como prometido aqui está o especial de Halloween totalmente fora de época, mas o que vale é a intenção e a minha é pedir desculpas, por isso aproveitem esse capítulo cheio de gostosuras e ainda mais cheios de travessuras que celebra o fato de eu e Tora sermos duas bruxas que adoram maltratar vocês! ;P MAS ANTES EU QUERO FAZER ALGUNS ESCLARECIMENTOS! I. Isso aqui é um capítulo bônus, ou seja, todo o conteúdo dele é paralelo à história principal e não será citado ao longo dos próximos capítulos, porém os personagens são os mesmos, obviamente, afinal é um bônus daqui... Vocês entenderam! @~@ II. Esse foi um projeto especial de Halloween que estava na promessa desde 2016, foi um pedido de uma leitora muito fofa do Spirit - o outro site que eu posto - chamada LunaCullen1 que eu prometi que atenderia , mas isso aconteceu pouco antes do meu sumiço geral, por isso o especial só saiu em 2017 e agora serve como um mísero consolo para vocês aqui do Nyah! >—< III. Vocês já devem ter percebido pela contagem de palavras que esse capítulo ficou ginórmico, sinceramente eu nunca fiz um capítulo tão grande na vida, saporra deu 33 páginas! T-T Mas eu não queria postá-lo por partes e, como eu sei que tem gente que não tem tempo pra ler tudo de uma vez ou não gosta de capítulos desse tamanho, coloquei marcadores estrategicamente espalhados ao longo do capítulo assim você pode parar em um deles e deixar para ler o resto mais tarde, ahh, e eles são diferentes um do outro o que significa que você não vai se confundir! ^-^ É isso, minhas preciosas! Espero que aproveitem esse capítulo porque infelizmente não há previsão de quando sairá um próximo! XOXO, Natia-sama

Espreguicei-me longamente sobre a cama enquanto criava forças para me levantar. O café da manhã seria servido em pouco tempo, mas minha vontade de sentar numa mesa com Karl Heinz e os irmãos Tsukinami era equivalente à zero. Fazia uma semana que eles estavam ali e eu ainda não conseguia me acostumar com aquelas refeições deprimentes em família.

Suspirei e, por fim, me levantei, de um jeito ou de outro eu não tinha escolha mesmo. Fui até o banheiro no meu corredor e tomei um banho rápido, fiz tudo que precisava e voltei para o quarto. Coloquei minha calcinha e meu sutiã e penteei os cabelos, fui até o guarda-roupa e decidi que meu estilo de hoje seria Lolita, afinal seria divertido provocar os vampirinhos com essa roupa.

Escolhi um vestido preto de mangas compridas e gola alta, ele era justo até a cintura e se estendia rodado com uma camada de tecido negro que envolvia vários babados de tecido branco que desciam até acima do joelho, as mangas possuíam o punho na cor branca bem como os detalhes no busto e a gola que carregava um laço negro com uma pequena rosa ornamental no centro. Coloquei meias ¾ negras com babados brancos costurados com linha preta nas extremidades e uma sapatilha igualmente preta com tiras que se cruzavam antes de serem presas no tornozelo.

Hoje minha disposição permitiu que eu fizesse uma maquiagem básica e, após fazer um delineado bem marcado nos olhos, ouvi batidas na porta do quarto. Presumi que era Edgar vindo me chamar para o café, porém quando fui atender dei de cara com Teddy.

— Doces ou travessuras? – perguntou-me com um grande sorriso que eu prontamente retribuí enquanto dava passagem para ele entrar.

— O que faz aqui tão cedo, Teddy-kun? – questionei curiosamente enquanto fechava a porta. Voltei para a penteadeira para passar o rímel que era a última coisa que faltava já que não faria sentido usar batom para ir comer.

— Hoje é Halloween. O Kanato-san sempre me deixa livre nesse dia. – explicou alegremente e eu entendi o motivo dele ter chegado com o bordão dessa data, eu não fazia ideia que hoje era Dia das Bruxas.

— Que maravilha, Teddy-kun! Você realmente merece um dia de descanso. – falei com franqueza enquanto terminava de passar o rímel.

— E então, Tora-san, vai escolher doces ou travessuras? – desviou o assunto com um tom de desafio. Pressionei os lábios, ele realmente queria que eu escolhesse alguma coisa?

— Que tal se eu escolher doces e travessuras? – retruquei atrevidamente e lhe sorri divertida, Teddy devolveu o sorriso e se aproximou como um felino à espreita da sua presa.

— Ótima escolha, minha dama! – aprovou satisfeito e tirou uma bala do bolso, segurando-a em frente ao meu rosto. – Primeiro o doce, depois a travessura. – acrescentou brincalhão, arqueei uma sobrancelha.

— Não era eu que deveria te dar um doce? – perguntei confusa com sua ação, porém peguei a pequena bala esférica embalada em papel negro.

— Faremos algo diferente dessa vez. – respondeu simplista e eu assenti, tirei a bala da embalagem e coloquei na boca, ela era de cor laranja e extremamente azeda, acabei fazendo uma careta embora realmente estivesse gostando do sabor da guloseima.

— E a travessura? – interroguei com a língua enrolada, tive vontade de rir da forma como havia falado. Teddy deu um sorriso a la Cheshire e eu soube que ele tramava alguma coisa.

— Você logo verá. – falou misteriosamente e, nesse momento, eu comecei a sentir uma tontura absurda, a bala derreteu-se em minha língua tornando-se amarga e Teddy me pegou nos braços quando fiz menção de cair no chão. Queria perguntar o que ele tinha feito comigo, mas simplesmente não tinha forças para tal. – Não se esqueça, Tora-san, se precisar de mim é só falar: “Lanterna de Jack”. – instruiu calmamente, perdi a consciência assim que ele terminou a frase.

Minha cabeça latejava e eu me sentia como se estivesse flutuando, coloquei a mão na cabeça e abri os olhos, porém não vi nada ao meu redor, eu estava envolta por um completo breu. Tentei me sentar, mas na hora senti um solavanco e acabei batendo minha cabeça no chão, fiquei desnorteada por um momento.

— Que droga! Onde diabos eu estou? – pensei alto enquanto tentava me levantar mais uma vez. – Teddy! – rosnei com raiva ao lembrar que era culpa dele o fato de eu estar nessa situação. Quando finalmente consegui ficar em pé comecei a andar cambaleante pelo lugar em que estava, entretanto sempre batia em alguma coisa no meio do caminho.

Depois de andar às cegas por alguns minutos consegui avistar uma luz, eram apenas alguns feixes e eu não hesitei em me aproximar. Ao chegar mais perto percebi que se tratava de uma porta e logo tentei abri-la, a luz ofuscou meus olhos quando consegui o que pretendia e instintivamente usei o braço para cobri-los. Após acostumar-me à súbita claridade, vi que precisava subir uma rampa para sair de onde estava, olhei para trás e vi que as coisas nas quais havia esbarrado durante a caminhada eram barris e baús. Que estranho!

Subi a rampa e finalmente entendi o motivo do meu enjoo e do meu desequilíbrio motor, sem contar minha tontura. Eu estava em um navio, um enorme navio de madeira escura com mastros e velas, cordas pra todo lado e muitos homens correndo para lá e para cá. Kami-sama! Aonde eu vim parar? Parece que eu estou em um daqueles navios piratas de histórias de aventura.

Balancei a cabeça com incredulidade e fui perguntar para algum dos homens onde eu estava, toquei o ombro dele e me preparei para falar, porém, ao me ver, o homem ficou espantado e gritou.

— CLANDESTINA! – berrou desesperado chamando a atenção de todos, agarrou meu braço com uma força descomunal e começou a me arrastar pelo convés enquanto os outros marujos se juntavam para segui-lo. Eu me debatia e gritava tentando me soltar daquele brutamonte, dei vários chutes nas pernas dele, no entanto ele parecia um bloco de aço, nem se movia.

— Capitão! Encontrei um clandestino a bordo, ainda por cima é uma mulher! – o homem gritou para alguém no tombadilho¹ do navio, eu não conseguia ver quem era, apenas estava visível para mim o topo da cabeça do indivíduo.

— Quem trouxe uma mulher a bordo? Nós teremos azar em nossas expedições! – revoltou-se um dos marujos.

— O navio pode até afundar por culpa dela! – reclamou outro pirata.

— Vejam as roupas! Ela é uma bruxa! Vai nos amaldiçoar! – acusou-me um terceiro e, assim, deu-se início a uma discussão acirrada entre os subordinados do “capitão”. Vi, então, uma ótima oportunidade para fugir deles, acho que era melhor se perder no mar do que ser molestada por um bando de piratas.

Pisei com toda minha força no pé do homem que me segurava e, enquanto ele ainda estava desnorteado pelo meu movimento brusco, dei-lhe uma cotovelada bem dada nas costelas, quando o aperto em meu braço ficou mais fraco o puxei, corri desesperada até a murada do navio e subi pronta para me jogar, entretanto ao pular senti algo envolvendo minha cintura com força e me puxando de uma vez através do ar.

Gritei pelo susto e coloquei minhas mãos naquelas coisas percebendo que se tratavam de cordas, comecei a puxá-las na esperança de me livrar delas, porém paralisei quando meu olhar encontrou o do capitão.

— Yuma-kun? – sussurrei totalmente confusa com a situação. O que diabos Yuma estava fazendo ali como capitão de um navio pirata? Antes que eu pudesse sequer assimilar o que estava acontecendo, senti as cordas deslizarem da minha cintura para meus pulsos e tornozelos onde se fixaram fortemente amarrando-me, em seguida eu caí no chão.

— Voltem ao trabalho, porcos! Eu vou dar um jeito na clandestina! – ordenou autoritário, no mesmo instante a gritaria cessou e a tripulação voltou aos seus afazeres. – Leo, assuma o leme. – falou para seu imediato, um homem todo tatuado que estava atrás dele, após isso ele se voltou para mim com um sorriso maldoso.

Yuma estava a personificação dos piratas de histórias de aventura, seus cabelos estavam soltos e eram adornados por um lenço com uma listra preta, ele usava um tapa-olho preto que escondia o olho esquerdo, em seu rosto havia uma sutura malfeita que seguia longitudinalmente do tapa-olho até o outro lado do rosto. Ele usava uma camisa branca sobrepondo uma blusa preta, ambas deixavam à mostra boa parte de seu peitoral e uma rosa laranja estava presa a sua camisa; usava uma calça marrom surrada presa por um cinto que comportava sua arma e sua espada e calçava botas de bucaneiro pretas.

Não vou mentir, ele estava uma perdição vestido assim, mas pressionei os lábios ao constatar que ele não me reconhecia e amaldiçoei Teddy por me colocar nessa situação. Eu iria brigar tanto com ele quando arranjasse um jeito de voltar para casa! Logo senti um aperto no meu braço, fui erguida com violência e praticamente arrastada por Yuma, ele podia não ser um vampiro agora, contudo continuava um bruto.

Ele parou em frente a uma porta e a destrancou me puxando para dentro, estávamos num cômodo logo abaixo do tombadilho. Ele me largou no chão e trancou a porta, a única luz do cômodo provinha de duas janelinhas no canto da sala que dava para o mar.

— Deixe-me ir. – pedi educadamente encarando o chão. Yuma aproximou-se de mim e se agachou a minha frente, segurou meu queixo e me obrigou a olhar para ele.

— Você invadiu meu navio, clandestina. Eu não poderia deixá-la ir tão facilmente sem saber de algumas coisas. – negou meu pedido me encarando com raiva, eu assenti em concordância e ele soltou meu queixo, enquanto Yuma levantava as cordas deslizaram para longe até eu estar livre. Massageei meus pulsos e tornozelos antes de me erguer, não entendia como ele fez aquele truque com as cordas, mas sabia que era inútil tentar fugir.

— Desculpe-me, capitão, não era minha intenção invadir o seu navio, mas eu desmaiei e quando acordei já estava aqui. – expliquei-me resumidamente para adiantar a conversa. Yuma estreitou os olhos.

— Está me dizendo que alguém te colocou dentro do meu navio. – conjecturou categórico e eu confirmei com um aceno de cabeça. – Quem te trouxe até aqui?

— E-eu não sei. – gaguejei ao mentir, não via motivo para contar que foi o Teddy, afinal eles nem se conheciam.

— Como não? Uma prostituta deve saber para quem se vende. – falou provocativo e foi minha vez de ficar com raiva.

— Eu não sou prostituta, capitão! – contestei em um tom carregado de desprezo. – Não me vendo para ninguém, mas se me vendesse não seria para piratas sujos em tavernas mais sujas ainda. – cuspi com ódio, pelo jeito meu relacionamento com Yuma continuava o mesmo até em outro universo. Assim que terminei de falar senti algo afiado e gelado pressionando minha bochecha esquerda, presumi ser a lâmina de uma faca ou espada, porém o capitão nem se moveu para fazer isso.

— Cuide sua língua, porca! – advertiu com raiva, eu estreitei os olhos e segurei a lâmina do que quer que fosse apertando-a ainda mais contra o meu rosto, senti o corte se abrindo e o sangue escorrendo pelo meu queixo e pescoço.

— Eu não tenho medo da morte, Yuma. – avisei num desafio implícito, mantive o contato visual até mesmo quando ouvi o som da lâmina se chocando com a madeira do assoalho. O Mukami finalmente aproximou-se de mim e deslizou o polegar ao longo do corte em minha bochecha sem o mínimo de delicadeza o que provocou um gemido de dor da minha parte, embora eu não tenha me afastado dele.

— Você tem muita audácia, clandestina. – constatou insatisfeito e me prensou na parede com seu corpo, ele mantinha meu rosto voltado para cima de forma a manter o contato visual. – Qual é o seu nome?

— Tora. – respondi ríspida, ele deu um meio sorriso travesso antes de colar os lábios nos meus. Arregalei os olhos surpresa com aquele movimento inesperado, mas não resisti, no fim das contas aquele ainda era o Yuma. Enlacei o pescoço dele e me ergui na ponta dos pés para facilitar o beijo, logo o capitão envolveu minha cintura com um dos seus braços apertando-me contra si e sua mão que estava em meu rosto se dirigiu para minha nuca de forma a aprofundar o ato.

Fechei meus olhos e entreabri os lábios para dar passagem à língua impaciente e voluptuosa dele, explorei sua boca seguindo o mesmo ritmo de Yuma, acompanhando-o em seus movimentos desejosos e percebi que sua boca sempre tão doce agora estava com gosto de rum. Arrepiei-me da cabeça aos pés quando ele finalizou o beijo com uma mordida no meu lábio inferior e notei que ele estava quente, ou melhor, que ele era quente, era uma sensação boa e estranha ao mesmo tempo. Após isso ele me largou e afastou-se.

— Bem-vinda a bordo, porca. – falou cheio de ironia e uma bacia com água flutuou à minha frente juntamente com um espelho, presumi que deveria limpar o sangue do meu rosto já que dentro da bacia havia um pano encardido. Prendi meu cabelo em um coque e comecei a me limpar, havia sangue até na minha nuca, quando terminei a água estava vermelha e eu estava limpa.

— Você vai me deixar presa aqui dentro, capitão? – perguntei casualmente, era tão estranho chamá-lo dessa maneira.

— Não, você vai ficar comigo. – respondeu prontamente e me encarou ameaçador. – Mas não me atrapalhe, entendeu? – acrescentou e eu assenti em concordância, logo o acompanhei para fora da cabine dele e voltamos para o tombadilho. Durante o caminho vários piratas brigaram e contestaram Yuma, contudo ele deu um basta e todos ficaram quietos.

Ao longo do dia eu fiz algumas tarefas simples que o Mukami me mandava fazer e ficava sempre perto dele, pois nas duas vezes que me afastei muito fui quase linchada pela tripulação, sem contar que toda hora um ou outro me insultava chamando-me de coisas que eu nunca tinha ouvido antes. Embora Yuma não me deixasse ir muito longe e me protegesse do toque de seus homens, não se importava quando me xingavam.

Logo que anoiteceu o tempo começou a fechar, várias nuvens carregadas estavam vindo em nossa direção ou éramos nós que íamos em direção à elas e os piratas pareciam aflitos por ter que enfrentar uma tempestade naquele trecho do mar, pelo que eu entendi havia muitas escarpas por ali e se o mar ficasse agitado demais o navio poderia bater em alguma delas e afundar. Não preciso nem dizer que todos já estavam me culpando por essa desgraça.

Quando a tempestade finalmente começou eu ouvia Yuma gritando ordens sem parar e seus subordinados correndo de um lado para o outro, várias vezes ele deixou o leme sob controle de Leo para usar aquele poder bizarro para evitar que o navio batesse em alguma coisa. Ele mandou que eu não saísse de perto dele, mas no momento em que fomos até a proa² para o capitão firmar a embarcação com seu poder um dos piratas me puxou para longe dele. Eu gritei tentando chamar sua atenção, no entanto assim que os olhos dele me encontraram eu fui jogada no mar.

Senti a queda e senti meu corpo bater com força na água gelada, debati-me tentando ficar na superfície só que o mar estava muito agitado e logo fui imersa pelas ondas, ainda consegui emergir umas duas vezes antes de ficar cansada e ser engolida por outra onda, sem mais forças para qualquer coisa deixei-me afundar, meus pulmões queimaram com a entrada repentina de água e eu só tive tempo de amaldiçoar Teddy antes de perder a consciência.

ಠ_ಠ

Algo como lava ardente subiu pela minha traqueia e eu comecei a tossir desesperadamente tentando expelir a água dos meus pulmões enquanto o ar entrava, entretanto percebi que não havia água para ser expulsa. Eu estava perfeitamente normal e seca. Abri meus olhos já imaginando que todos os acontecimentos anteriores eram fruto de um sonho, todavia quando fiz isso me deparei com uma cabine de avião, eu estava dentro de um daqueles enormes aviões de viagem.

— Teddy! – rosnei furiosa. Ele ia me pagar muito caro por essa travessura. Levantei-me e fui procurar uma forma de sair dali, embora meu instinto dissesse que eu só conseguiria sair dali quando morresse.

Percorri toda a classe executiva do avião, vasculhei os banheiros minúsculos, invadi o espaço das aeromoças e a cozinha e rodei a primeira classe inteirinha. Não havia nada. Realmente não havia nada nem ninguém em toda aquela maldita aeronave, eu estava completamente sozinha.

Joguei-me em uma das poltronas confortáveis da primeira classe e suspirei. Pelo menos eu não estava sozinha quando estava no navio. Fechei os olhos tentando lembrar o que Teddy me dissera antes de eu desmaiar, mas não estava dando certo. Quando abri os olhos deparei-me com uma silhueta no fim do corredor, não pensei duas vezes antes de ir conferir. Assim que me aproximei o suficiente percebi que a silhueta era, na verdade, Yui.

— Yui-chan! Que bom que você está aqui! – exclamei alegremente por finalmente ter companhia e tentei abraçá-la, mas simplesmente passei direto e quase bati a cara na parede. Isso mesmo, eu não consegui tocá-la. Pisquei várias vezes tentando assimilar o que estava acontecendo e procurei a loira com os olhos pensando que talvez ela tenha sido coisa da minha imaginação, porém ela estava realmente ali.

— Como você me conhece? – perguntou inexpressiva e seu corpo tremulou, franzi as sobrancelhas e tentei tocá-la, mais uma vez minha mão atravessou seu corpo que virou vapor por um segundo antes de voltar ao normal, eu não senti nada ao fazer isso. Arregalei os olhos. Yui era um fantasma? – Eu não consigo entender. Minha família se foi. Quem é você? – despejou de uma vez.

— Yui-chan, você morreu? – questionei confusa. – Que família? Pensei que você fosse órfã. – retruquei sem entender absolutamente nada. Será que nesse outro universo ela não me conhecia assim como o Yuma?

— Morri? – sussurrou para si mesma. – Não, eu não morri. Ninguém morreu. Minha família ainda está aqui... em algum lugar... – começou a falar consigo mesma como que para se convencer de que aquilo era verdade e, de repente, tinha sumido.

Desesperei-me, eu não queria ficar sozinha naquele avião de novo, por isso comecei a correr pelo lugar tentando encontrar a loira, gritava o nome dela e não obtinha resposta. Então, enquanto a procurava deparei-me com a porta que dava para a cabine do piloto e deduzi que deveria ter alguém lá dentro já que o avião estava em movimento. Não me importei se seria Yui ou não, apenas não queria ficar sozinha.

Peguei o interfone que ficava ao lado da porta e parei um segundo pensando no que poderia falar para convencer o comandante a me deixar entrar.

— Hum... Sr. Comandante, eu gostaria... Érr... quer dizer... – enrolei-me toda ao perceber que não havia um meio de convencer o piloto a deixar uma mera “passageira” entrar. Ainda assim, a porta se abriu no segundo em que desisti de formular alguma frase coerente. Coloquei o fone no gancho e empurrei a porta entrando na cabine, de primeira não encontrei ninguém, por isso me aproximei do painel com aquele monte de botões, não havia ninguém na poltrona do copiloto, no entanto, antes de virar para a poltrona do piloto, fui puxada e caí em cima de alguém.

— Quem é você? – uma voz rouca de sono me questionou, ergui meu olhar e encontrei um rosto muito conhecido, franzi as sobrancelhas. Por que o Shu está aqui?

— Shu? – chamei perplexa e o olhei de cima a baixo, ele usava um quepe negro com detalhes dourados, típico de pilotos de avião; seu olho esquerdo e parte do seu rosto estavam enfaixados com ataduras manchadas de sangue; sua camisa amarela escura não era fechada nos primeiros botões e a gravata negra estava frouxa, sobrepondo-se a elas havia um blazer cinza com detalhes negros, transpassando o peito dele havia uma corrente prateada que começava no bolso do lado esquerdo e terminava em uma rosa dourada; além disso, ele usava luvas brancas que também estavam manchadas de sangue e uma faixa negra com o mesmo detalhe dourado do quepe no braço esquerdo.

— Não. Eu sou Shu. Quem é você? – repetiu agora mais convicto e eu tentei me levantar, porém ele me apertou contra si, suspirei em desistência, ele também não me conhecia nesse mundo.

— Eu sou Tora. – respondi calmamente enquanto segurava nos ombros dele para me apoiar, ele tocou meu rosto no lugar em que me cortei e percebi que, embora não tivesse morrido, o corte ainda estava lá.

— Como chegou aqui? Não me lembro de você nesse avião. – disse fitando-me profundamente com seu único olho bom.

— Não faço ideia, eu estava me afogando e quando acordei estava aqui. – expliquei resumidamente, omitindo a parte sobre estar em um navio pirata de uma época na qual nem sequer existia aviões.

— Então, você também está morta. – constatou precipitadamente com um sorriso de canto, ainda assim preferi deixá-lo pensar dessa forma.

— Como assim “também”? – questionei hesitante e o loiro fechou o olho apoiando a cabeça em sua poltrona.

— Todos aqui estão mortos. Eu, você, aquela garota de olhos cor-de-rosa. – redarguiu num sussurro inexpressivo e eu arregalei os olhos. Ele estava morto? Mas isso não faz sentido. E ele também não conhecia a Yui nesse mundo?

— Mas se você também está morto, como eu consigo tocá-lo sendo que quando tentei tocar a garota loira não consegui? – indaguei curiosa franzindo as sobrancelhas, o loiro me olhou por um segundo e voltou a fechar os olhos.

— Aquela garota é apenas um sopro de consciência, ela não aceitou a morte e por isso fica vagando por aqui atrás de algo em que se segurar. Eu, pelo contrário, fui condenado a ficar no meu corpo físico e a viver nesse avião para sempre. Pelo jeito aconteceu o mesmo com você. – explicou-me calmamente, porém eu só consegui ficar ainda mais desnorteada.

— Mas por que você foi condenado? E por que ficamos presos nesse avião? – interroguei tentando entender o motivo de ele estar ali, porém ao invés de me responder ele apenas deu um meio sorriso e permaneceu calado.

Bufei com raiva de seu silêncio e o empurrei com força libertando-me de seu aperto, assim que consegui me pôr de pé senti um solavanco e a aeronave começou a sofrer uma forte turbulência. Gritei assustada e me desequilibrei caindo em cima do Shu novamente, ele ajeitou-me em seu colo e me abraçou com força como se fosse meu cinto de segurança. Encarei-o em questionamento enquanto me agarrava ao seu corpo, prendi seu quadril com minhas coxas e envolvi sua cintura com meus braços tentando me firmar para não acabar machucada.

— Começou. – anunciou parecendo distante e não entendi o que ele queria dizer com isso, iria perguntar se o loiro não tivesse selado meus lábios com os seus. Fiquei sem reação com o movimento repentino e senti uma das mãos dele que envolviam minha cintura subir vagarosamente até minha nuca onde acariciou delicadamente, em seguida senti sua língua deslizando pelo meu lábio inferior e, instintivamente, permiti-me relaxar sobre ele fechando os olhos e entreabrindo a boca para aprofundar o beijo.

Nossas línguas se entrelaçaram sem pressa e eu notei que seu beijo continuava igual embora estivéssemos em um mundo diferente. Afastamo-nos um do outro com um pouco de relutância e nos encaramos.

— Fique comigo. Estou tão cansado de estar sozinho. – pediu roucamente e eu vi a súplica reluzir em seu olhar, meus olhos marejaram e eu o apertei em meus braços sabendo que não podia dizer que ficaria, meu lugar não era ali.

A turbulência tornou-se mais forte e, subitamente, eu soube que o avião estava caindo. Enterrei meu rosto no pescoço do Shu e desculpei-me baixinho, sabendo que ele provavelmente não ouviria. O piloto me pressionou contra si mais intensamente e beijou o topo da minha cabeça, em contrapartida os solavancos ficaram cada vez mais frequentes até que ouvi um estrondo absurdamente alto e senti como se estivesse flutuando, um segundo depois tudo ficou escuro.

Quando recobrei a consciência minha cabeça latejava e meu joelho direito doía como o inferno. Respirei fundo e abri os olhos, por sorte o local não era muito iluminado e eu logo me acostumei a pouca luz percebendo que – mais uma vez – estava em um lugar completamente desconhecido que não era minha casa, parecia uma sala de jantar num daqueles castelos medievais.

As paredes eram de pedra bruta, havia uma mesa enorme cheia de guloseimas de cabo a rabo e apenas uma cadeira – que mais parecia um trono – encostada na borda. Eu estava deitada em um sofá de veludo violeta e algo me dizia que eu iria encontrar outro vampirinho ali, se eu levasse em conta as comidas da mesa poderia dizer que seria um garotinho muito bipolar que carregava profundas olheiras.

Espreguicei-me e me sentei para olhar o que estava errado com meu joelho, ao analisá-lo vi que uma mancha roxa cobria toda sua extensão, presumi que aquele hematoma deve ter sido causado em algum momento enquanto o avião caía. Bom, se essa viagem continuar desse jeito eu vou voltar pra casa toda ferrada, balancei a cabeça com irritação, o Teddy estava encrencado.

— Pelo visto, você finalmente acordou. – uma voz baixa e rouca ecoou de um canto da sala, vasculhei o local em busca do garoto e tomei o maior susto ao olhar para o lado e dar de cara com Kanato. Soltei um breve gritinho agudo colocando a mão sobre o coração e puxando o ar com força. – Ehh... O que houve? – perguntou abismado e eu tive uma enorme vontade de batê-lo por fazer um questionamento tão absurdo, mas aí me lembrei de que aquele era o jeito dele.

— Você me assustou. – respondi suavemente e ele ergueu uma sobrancelha, somente nessa hora reparei em como ele estava naquele universo. Kanato usava uma camisa branca de mangas compridas com suspensórios negros que firmavam sua calça capri de mesma cor, calçava mocassins roxos como a rosa que decorava o laço que prendia a capa negra com um capuz decorado com dois chifres de diabinho vermelhos que ele usava. Aquilo estava parecendo fantasia de Halloween.

— Me diga seu nome. – ordenou calmamente, encarando-me com visível interesse. Pressionei os lábios com muita desconfiança, mas decidi que era melhor responder antes que ele desse um daqueles surtos e quebrasse meu pescoço.

— Tora. – respondi simplesmente, não havia necessidade de falar meu sobrenome. – E o seu? – perguntei apenas para não ter que explicar depois como eu sabia seu nome, pois embora Yuma e Shu não tenham se importado muito sobre como uma desconhecida os conhecia tinha a impressão que com Kanato não seria a mesma coisa.

— Kanato. – disse indiferente e levantou-se indo até a mesa de guloseimas e se sentando, parece que ele perdeu o interesse em mim.

— Como eu cheguei aqui? – questionei curiosamente enquanto ele ainda parecia disposto a responder minhas perguntas.

— Você sabe onde é aqui? – retrucou encarando-me com uma sobrancelha erguida, eu balancei a cabeça negativamente e ele começou a gargalhar histericamente, claramente estava rindo da minha cara só não entendi o motivo. – Como você quer saber como chegou a um lugar que nem sabe onde é? Você é tão idiota! – debochou entre risos e eu fechei a cara com raiva.

— Então me diga onde estou! – ralhei entredentes, infelizmente eu não estava com a menor paciência para lidar com o Kanato hoje, principalmente pelo fato de saber que foi o amiguinho dele que me colocou nessa situação. Por falar nisso, o Teddy não deveria estar aqui? Ou será que nesse universo alternativo o senhor bipolar não ficava grudado naquele ursinho?

— Quem você pensa que é pra me dar ordens?! – exaltou-se e apareceu na minha frente com um semblante furioso, senti uma de suas mãos apertando meu pescoço e ele me puxou para ficar em pé. Ótimo! Eu mal tinha me recuperado do enforcamento do Shin e já ia ficar com o pescoço roxo de novo, além disso, eu estava praticamente suspensa do chão e isso fez meu joelho doer tanto que meus olhos marejaram.

— Kanato, posso saber o que está fazendo? – uma voz baixa e familiar ecoou pelo ambiente e o “diabinho” me soltou bruscamente no sofá, eu choraminguei com a pontada que o impacto provocou no meu joelho. Endireitei-me rapidamente a tempo de ver a expressão de desgosto do garoto a minha frente antes dele se virar, em seguida procurei o dono da voz que interviu no meu enforcamento e qual não foi meu choque ao me deparar com Azusa.

Assim como todos os outros vampiros que encontrei nessa jornada, ele vestia-se de maneira excêntrica e com uma roupa que mais parecia fantasia de Dia das Bruxas. Usava uma longa capa negra presa ao seu pescoço por um laço listrado em preto e cinza adornado por uma rosa violeta, ele usava o capuz que ela possuía e parte de sua franja era usada para cobrir bem parcialmente a falta do olho esquerdo que parecia bem recente devido ao sangue fresco que escorria como lágrimas, teria me desesperado se não fosse a indiferença de Azusa em relação a isso. Sua roupa era um simples terno preto e branco e sapato social combinando, no entanto o que mais me chamou atenção foi a enorme foice prateada que ele carregava, não pude deixar de associá-lo a imagem da morte.

— Apenas me divertindo um pouco, a culpa não é minha se você a trouxe para cá. – Kanato justificou-se desdenhoso e o Mukami revirou os olhos antes de andar até mim.

Encolhi-me quando ele sentou ao meu lado depositando sua foice no chão, afinal, mesmo que fosse o meu ursinho ali, eu não sabia do que ele era capaz nesse universo paralelo. Porém, ele apenas tocou meu joelho machucado delicadamente enquanto uma luz negra envolvia sua mão, eu senti um calor reconfortante naquele local e suspirei com a sensação deliciosa, no entanto ao encarar o moreno encontrei um semblante de dor. Não entendi, o que ele fazia em mim lhe causava dor? Aquela expressão não era fofa, não queria vê-lo sofrendo. Sem demora coloquei minha mão sobre a sua que emitia aquela estranha luz e retirei-a dali.

— Não se preocupe. Eu apenas quero curar seu machucado. – explicou-me serenamente e eu percebi que meu joelho não mais doía como anteriormente, possuía somente uma mancha arroxeada como resquício do machucado, provavelmente se eu tivesse-o deixado continuar não restaria nem isso.

— Obrigada, mas eu não quero minha cura à custa do seu sofrimento. – retruquei seguramente e soltei sua mão dando-lhe um leve sorriso, ele franziu as sobrancelhas num misto de confusão e surpresa. Reparei que tudo isso aconteceu com os olhos de Kanato sobre nós quando ele começou a gargalhar como se estivesse num espetáculo de palhaçadas.

— A ironia de ver uma humana que um ceifeiro resgatou da morte rejeitar seus cuidados é impagável. Você é patético, Azusa! – zombou sem cessar o riso. Eu franzi as sobrancelhas tentando processar a informação de que meu ursinho era exatamente o que aparentava no momento: um ceifeiro, ou seja, algo que “colhe” as almas das pessoas que morreram e as guia aos seus devidos lugares. Levando isso em consideração é justo eu querer saber o motivo dele ter me salvado da morte.

— Não mais patético que um demônio que foi expulso do inferno por ser um completo inútil que só sabia se entupir de doces. – rebateu Azusa sem sequer olhá-lo e eu previ a explosão que estava por vir.

— COMO OUSA?! Eu te empresto minha casa para acomodar essa humana estúpida que você salvou e você me insulta? EGOÍSTA! – vociferou exatamente como eu imaginei que faria, todos continuam os mesmos apesar dos diferentes papéis.

Assustei-me quando uma aura violeta começou a envolver o corpo de Kanato e, imediatamente, Azusa pegou sua foice, levantou-se e se pôs a minha frente, com certeza coisa boa não ia vir daquilo.

— O único egoísta aqui é você, Kanato, que até hoje não reconheceu o sacrifício que fiz para te salvar quando foi condenado. – o Mukami disse lentamente sem se abalar perante a fúria do Sakamaki. Parece que eles dois tinham uma história muito mais complicada nesse mundo e isso não parecia bom já que a aura do demônio só ficou ainda mais densa, em contrapartida a mesma luz negra de anteriormente envolveu dessa vez todo o corpo do ceifeiro.

A atmosfera desse lugar estava tão pesada e cheia de negatividade que eu nem conseguia respirar corretamente, por isso eu soube que se não saísse dali bem rápido acabaria morta sem nem mesmo ser atacada diretamente, eles eram extremamente fortes e não precisava ser um gênio para saber que nenhum ser humano sobreviveria àquilo. Com isso em mente eu tentei traçar uma estratégia para sair dali o mais discretamente possível e lembrei que o maldito Teddy era o culpado por eu estar nessa situação de merda, então fechei os olhos e me forcei a recordar o que ele havia me dito antes de eu cair no sono.

“Não se esqueça, Tora-san, se precisar de mim é só falar...”, a voz dele ecoou na minha cabeça e eu teria gritado de alegria, mas gritei outra coisa.

— Lanterna de Jack!

Nesse momento tudo ao meu redor simplesmente parou, tudo ficou estático como se o tempo tivesse parado, um enorme rosto maquiavélico idêntico àqueles que se esculpe em abóboras de Halloween formou-se a minha frente e foi crescendo cada vez mais até o lugar ter sido completamente consumido. Arregalei os olhos completamente espantada e fiquei de pé num pulo, porém ao fazer isso fui engolida pela escuridão que o rosto formou e fui arremessada numa velocidade absurda para o alto, comecei a subir e parecia que jamais ia chegar a algum lugar, já estava ficando enjoada quando caí sobre algo macio e áspero, o mundo pareceu girar e eu esperei até o enjoo passar para abrir os olhos.

⊙﹏⊙

Assim que o fiz percebi que havia caído sobre um solo de terra fofa coberto por folhas em decomposição, tudo parecia muito úmido e o cheiro de chuva só provava isso. Tirei o cabelo do rosto e me sentei para observar melhor o lugar onde me encontrava, não precisei de muito para concluir que estava em uma floresta e que não era a mesma dos arredores da casa dos Sakamaki, ou seja, ainda estava em algum mundo estranho. Eu ia acabar com a raça do Teddy!

Levantei-me bruscamente enquanto bufava de raiva.

— Maldita hora em que fui querer travessura! Quem será o puto que vou encontrar dessa vez? – resmunguei tentando dissipar a irritação que estava sentindo.

Olhei ao redor e tudo o que eu via eram árvores e mais árvores enormes e tão cheias de folhas – apesar do chão coberto por elas – que a floresta ficava mergulhada num breu profanado apenas pela luz da lua que se esgueirava por todos os lugares que encontrava, isso dava um aspecto bem sombrio àquele lugar e a falta de qualquer mínimo ruído colaborava para a atmosfera obscura. Dessa forma, agradeci imensamente por ter uma visão aguçada graças ao Despertar, senão não iria conseguir dar dois passos ali sem bater de cara com uma árvore ou tropeçar em algum tronco coberto de musgo no chão.

Caminhei por aquele lugar congelante até perceber que não chegaria a lugar nenhum, então praticamente joguei-me em um daqueles troncos revestidos de musgo e abracei a mim mesma antes de espirrar, apesar das mangas compridas do vestido eu ainda sentia frio e a umidade da floresta também não ajudava muito, a essa altura eu só rezava para não chover.

Encolhi-me e apoiei minha testa nos joelhos a fim de manter o pouco de calor que ainda me restava.

— Eu juro pelo Lorde Demônio que vou te estripar quando sair daqui, Teddy! – praguejei para mim mesma entredentes. Assim que terminei de falar ouvi um farfalhar de folhas próximo de onde me encontrava, meu coração acelerou com o susto e eu ergui-me num rompante, vasculhei o local com o olhar e captei quatro pontos luminosos alguns metros distantes à minha esquerda. Pisquei duas vezes antes de estreitar os olhos e dois dos pontos simplesmente sumiram. – Mas o que...?

Agachei-me apoiando uma mão no chão e não tirei os olhos daquelas estranhas luzinhas, elas estavam totalmente direcionadas para mim e pensei que se eu abaixasse não ficaria tão vulnerável, além de ser uma ótima posição para fitar melhor os dois pontos que ficavam quase naquela altura. Dei um pequeno passo para me aproximar um pouco mais, grande erro, eu nem tive tempo de assimilar o que estava acontecendo quando os dois pontos moveram-se em minha direção numa velocidade absurda.

Percebi que se tratava de um lobo enorme assim que a luz da lua iluminou o corpo do animal, ele havia dado um salto e agora estava exatamente na minha frente, eu gritei e acabei me jogando para trás a fim de me distanciar o que claramente não deu certo e só ocasionou uma porcaria de dor nas minhas nádegas. Para completar eu ainda senti uma respiração quente na minha nuca e ao virar a cabeça dei de cara com outro lobo gigante atrás de mim. Era agora que eu ia ser devorada e digo no sentido literal da palavra.

Ambos possuíam olhos dourados, o que estava a minha frente tinha a pelagem ruiva bem clara e todo o pelo parecia eriçado o que dava um aspecto intimidador para o animal, sem contar que o focinho dele ficava bem na altura do meu rosto, ele era realmente grande. Quanto ao que estava atrás não pude ver muito bem, mas pelo jeito ele era negro com as extremidades brancas, não parecia feroz, era sua imponência que dava medo e ele era ainda maior que o outro sendo que precisava abaixar um pouco a cabeça para cheirar minha nuca. Sempre achei lobos animais belíssimos e aqueles dois realmente eram lindíssimos, porém definitivamente não era uma boa encontrá-los nessa situação.

Agarrei algumas folhas e comecei a respirar com dificuldade, eu não tinha muita opção, então fechei os olhos e me preparei para gritar a frase que Teddy disse que me ajudaria.

— Você tem um cheiro tentador. – uma voz baixa e profunda sussurrou ao meu ouvido e eu abri os olhos em alerta, assim que o fiz deparei-me com o rosto de Shin a poucos centímetros do meu e o de Karura ao lado do meu. Eu não acredito que fui parar em um universo paralelo com eles. Que merda, Teddy! E o que diabos eles eram nesse mundo? Lobisomens? Só podia!

— Vamos prová-la, Nii-san! – Shin sugeriu impaciente e agarrou meus joelhos puxando-me em sua direção bruscamente, acabei me desequilibrando e caí sobre o peito de Karura que envolveu minha cintura e braços de forma a me imobilizar. Debati-me numa tentativa vã de me desvencilhar deles, no entanto, bem como no mundo original, eles eram extremamente fortes. Não dá pra esperar menos de lobisomens. – Não adianta relutar, humana, você deve saber que não é páreo para nós. – advertiu arrogantemente, eu rangi os dentes, realmente eu odiava o jeito prepotente desse Tsukinami maldito!

— Kitanai! – exclamei irritada.

— Uhh, veja só, Nii-san, temos uma gata selvagem em nossas mãos. Isso será divertido! – comemorou parecendo bem excitado por ter uma presa difícil, soltou uma risada enquanto ajeitava minhas pernas de forma a deixar meus joelhos dobrados e separados de forma que ele ficasse entre minhas pernas, a saia do meu vestido subiu simplesmente se amontoou no meu quadril e deixou minha calcinha a mostra.

— Seja uma boa menina e talvez possamos te matar bem rápido e causando pouca dor, hm. – o albino mais uma vez murmurou rente ao meu ouvido, a frieza em seu tom deixou bem explícita a crueldade que ele tentava esconder. Arfei assustada e, sem muita escolha, apenas assenti em concordância, mas entreabri os lábios para tentar chamar pela ajuda do Teddy mais uma vez. – Uma palavra e vou te fazer sofrer como nunca imaginou. – avisou categórico e aquilo soou tão convicto que todos os meus pelos se arrepiaram em puro terror e eu cerrei os lábios sem nem pensar duas vezes. A partir de agora eu precisaria de uma estratégia se quisesse escapar viva desses dois.

— Você cedeu bem rápido, gatinha medrosa. – Shin zombou cheio de escárnio e eu precisei trincar os dentes para não dar uma resposta atravessada, porém não consegui evitar fuzilá-lo com olhar.

— Shin, ande logo com isso! Eu também estou com fome. – Karura ordenou impaciente e o mais novo bufou irritado.

— Você sempre estraga minhas brincadeiras, Nii-san! – reclamou insatisfeito, mas agarrou minhas coxas para mantê-las imóveis e se debruçou sobre minha perna direita deslizando seu nariz lentamente pela minha pele até estar próximo da minha virilha, então vi um sorriso perverso abrir-se em sua face e tentei empurrá-lo para longe, mas imobilizada daquela maneira eu jamais conseguiria algum resultado, assim Shin não teve a menor dificuldade em chupar minha pele sem a menor delicadeza, ele foi bruto e minhas sensações amplificadas apenas aumentaram a dor me obrigando a soltar um gemido esganiçado. – Você é mesmo tentadora, gatinha. – afirmou provocativo e me mostrou o seu melhor sorriso sádico, apenas nesse momento eu percebi que todos os dentes dele eram afiadíssimos, exatamente como os dos animais carnívoros devem ser, arregalei os olhos e me desesperei. Comecei a me debater nos braços de Karura e a chutar o ar com meus pés, tudo o que consegui com isso foi um aperto mais forte por parte dos dois e logo os dentes do loiro estavam cravados na carne da minha coxa, precisou de um único puxão para arrancar um pedaço e meu berro ecoou pela floresta silenciosa.

A dor de ter minha pele e músculos arrancados daquela maneira era indescritível, ela apagou minha mente por completo como se todos os meus nervos tivessem concentrados naquele local, eu não conseguia me mover e tremores percorriam meu corpo, a ardência no machucado só parecia piorar com o sangue escorrendo dele até manchar minha calcinha e pingar sobre a saia do meu vestido. Estática, eu encarava o Tsukinami mais novo mastigar minha carne calmamente com os olhos fechados e uma expressão de satisfação suprema, a boca e queixo completamente sujos com meu sangue.

— Minha vez. Segure-a firme, Shin. – disse ansiosamente jogando-me sobre o irmão que me pegou prontamente e me colocou ajoelhada na sua frente antes de agarrar minha cintura e prender firmemente meus braços às minhas costas, eu ainda estava em choque por ter um pedaço de minha própria carne arrancado dessa maneira, tudo em que conseguia pensar era no sangue escorrendo da cratera que Shin deixou, então não consegui ter qualquer reação.

Logo o albino segurou meu quadril e me ajeitou de forma a ficar empinada em sua direção e debruçada sobre o loiro que me acomodou para deixar minha cabeça apoiada em seu ombro e meu rosto praticamente colado em seu pescoço. A saia do meu vestido foi erguida até deixar minha bunda descoberta e minha calcinha foi rasgada, ao perceber o que ia acontecer comecei a ofegar e tremer.

— Sabe, gatinha, você é uma das comidas mais gostosas que já provei. – sussurrou cruelmente. – E eu e meu Nii-san gostamos de apreciar iguarias como você bem lentamente enquanto ainda está viva, por isso começamos sempre com as carnes nobres³, elas ficam mais gostosas assim.

Eu apenas fiquei calada enquanto ele contava os detalhes sórdidos das suas caçadas, não havia o que retrucar, eu seria devorada aos poucos e sentiria toda a dor até estar morta. Que animador, não é? Assim que eu voltasse para casa ia descontar todas essas torturas naquele urso desgraçado, afinal eu bem sabia que ele não podia me deixar ali para sempre e que eu não podia realmente morrer. Apesar disso, essa tortura de ser comida viva não doía tanto como aquelas que sofri no Inferno, na verdade eu duvidava que algum dia pudesse sentir algo parecido com o que senti lá, por isso, embora eu gritasse, não chorava. A dor física não mais provocava meu pranto.

— Shin, deixe-me vê-la. – Karura ordenou altivo, um segundo depois meus cabelos foram agarrados brutalmente e meu rosto estava na direção do albino. Seu olhar era profundamente sádico e combinava perfeitamente com seu cruel sorriso enviesado. – Você é a primeira presa que não desaba em lágrimas e implora por misericórdia. O que acha de mudarmos isso? – sugeriu enquanto deslizava os dedos pela minha coxa machucada capturando o sangue que escorria por ela até alcançar o buraco deixado por seu otouto e enfiar seus dedos ali sem qualquer cuidado. Gritei e continuei gritando ao senti-los se movendo na ferida, meus olhos queimaram com as lágrimas que não caíam e tudo estava quente demais, meus nervos ardiam. – Não vai falar nada? – a voz dele parecia um eco, as palavras não faziam sentido, minha mente estava nublada pela dor. O que ele estava dizendo?

— Por favor, acabe com isso... – as palavras escaparam, mas o que eu estava pedindo? Por que ele parecia tão intrigado?

Seus dedos me deixaram, o alívio clareou meus pensamentos e minha cabeça voltou ao lugar que estava antes. Senti uma leve ardência na minha nádega esquerda, tão leve que mais parecia uma carícia, algum lugar do meu cérebro registrou aquilo como um tapa. Então veio a pressão dos dentes afiados, minha pele foi perfurada e senti as fibras dos músculos se rompendo quando eram puxadas; não lembro se gritei, mas sei que não chorei, pois a sensação de algo escorrendo não estava em meu rosto.

A dor não foi tão intensa quanto eu esperava ou talvez eu não estivesse prestando atenção nisso já que no momento todas as minhas funções estavam voltadas para o cheiro que tomava conta da floresta, aquele cheiro ferroso e sem qualquer atrativo: o cheiro do meu próprio sangue. Eu podia ouvi-lo escorrer e pingar, podia visualizá-lo naquele tom carmesim e até mesmo sentir seu gosto metálico em minha boca. Imaginei o deleite que se apossava do corpo do Tsukinami enquanto ele provava minha carne e pude escutar o som de sua lenta mastigação.

Fome.

Todas essas sensações me provocaram uma fome sedenta. Minha garganta secou de uma única vez, meu estômago se retorceu implorando por comida, minhas presas alongaram-se tão rapidamente que o atrito fez minhas gengivas sangrarem e, de repente, outro cheiro se sobressaiu: um aroma doce e completamente inebriante, não precisei de nem um segundo para perceber de onde ele vinha e, quando notei, não hesitei – eu estava com tanta fome – cravei minhas presas naquele pescoço tão acessível e foi uma delícia sentir meus dentes afundando naquela carne macia e – num golpe de sorte – acertando exatamente uma de suas jugulares.

O líquido espesso preencheu minha boca, a sua calidez aplacou todas as minhas dores, minhas papilas captaram os mínimos detalhes de seu gosto e ele não era tão doce quanto o perfume fazia parecer, estava mais para agridoce. Suguei com vontade, sabendo que aquele momento poderia durar pouco, dei goles maiores do que poderia imaginar aguentar e o êxtase que tomou conta do meu corpo foi tão intenso quanto um orgasmo, porém muito mais duradouro. Nada mais importava, somente o gosto do sangue e como eu ficava saciada ao senti-lo descendo por minha garganta.

Eu ainda consegui beber três goles antes de ter meus cabelos puxados com força e me afastar do Shin rasgando sua pele com minhas presas, fui jogada contra o albino atrás de mim, no entanto estava muito ocupada limpando meus lábios para prestar atenção nas reações de qualquer um dos dois. Eu não via nada, não ouvia nada, todos os meus sentidos estavam voltados para aquele gosto, então nem me dei conta do que estava acontecendo quando Karura torceu minha cabeça tão fortemente que eu ouvi um estalo e um estremecimento percorreu minha coluna antes de tudo apagar.

(◣_◢)

Minha consciência foi voltando aos poucos, a primeira coisa que captei foi que estava em movimento e que dois apoios bem firmes me seguravam no ar. O que estava acontecendo? Eu ainda estava entorpecida demais para conseguir abrir os olhos e meus lábios estavam tão secos, lambi-os e minha língua roçou em algo estranho dentro da minha boca, me dei conta que se tratavam das minhas presas e não entendi o motivo delas estarem ali até lembrar que havia bebido sangue. Isso significa que eu fiz a transição? Não pode ser! O que eu vou dizer para os meninos quando voltar para casa? Eu não teria como explicar. Entretanto, agora entendi o motivo das presas dos vampirinhos estarem sempre ali, antes da transição elas são retráteis e aparecem somente quando a fome atiça já depois da transição elas se tornam permanentes, prontas para qualquer situação.

Suspirei frustrada. Isso não teria acontecido se o Teddy não tivesse feito essa brincadeira idiota, ainda assim eu não entendia como os ferimentos que eu sofria sumiam de um cenário para o outro e o fato de eu ter virado vampira permanecia, se bem que os resquícios dos piores machucados sempre continuavam em mim: o corte na bochecha esquerda, o hematoma no joelho direito e isso significava que... Abri meus olhos desesperadamente e procurei minha coxa direita, minhas pernas estavam cobertas com a saia do vestido e eu não pensei duas vezes antes de tirá-la da frente, fiquei aliviada ao ver que a única coisa que havia restado da cratera que o Tsukinami mais novo havia feito era a perfeita marca de seus dentes, presumi que o que Karura fez também havia ficado daquela maneira e só então percebi que minha calcinha estava de volta ao seu devido lugar.

— Mal acordou e já quer tirar a roupa, cadelinha, você vai ter muito tempo para fazer isso na lua de mel, hm! – voltei minha atenção para o homem que me carregava e deparei-me com o Laito, fiquei boquiaberta e confusa.

— Onde eu estou?

— No reino da Transilvânia, a profecia se cumpriu e você será a nova rainha, cadelinha. – explicou com um sorriso debochado e eu franzi as sobrancelhas.

— Transilvânia? Profecia? Você por acaso é o conde Drácula? – interroguei completamente incrédula, o que diabos eu estava fazendo na “terra natal” dos vampiros?

— A profecia diz que o último rei da linhagem Dracul* só poderia se casar com a mulher de outro tempo vinda de uma fenda negra, por acaso você é essa mulher, cadelinha. – respondeu detalhadamente. – E se com “conde Drácula” você quer dizer rei eu sinto informar que não, eu não sou o rei, não é comigo que você vai se casar. Eu sou apenas um espião real. – acrescentou e me mandou uma piscadela sacana.

Mas o quê? Eu não vou casar com ninguém! Tenho que voltar para casa! E se o Laito não é o rei, quem é? Se eu não estivesse tão curiosa para saber onde essa história ia dar, chamaria a ajuda do Teddy agora mesmo.

— Você está me levando para o rei. – conjecturei convicta, ele apenas acenou com a cabeça e parou em frente a enormes portas duplas, dois guardas abriram as portas e, assim que ouvi o som delas se fechando atrás de nós, o meu queixo caiu. – Ayato? – resmunguei para mim mesma chocada.

Ele estava lá sentado num enorme trono de ouro estofado com veludo vermelho, uma capa de seda de mesma cor com bordas de lã descia por seus ombros, boa parte de seu peito ficava a mostra pela gola de babados da sua camisa branca que ficava por cima de outra preta com um detalhe de corda, dois colares – um de ouro e outro de prata – adornavam seu pescoço bem como uma grossa pulseira dourada o seu braço esquerdo, além disso ainda havia uma corrente se ligando de seu ombro até uma rosa vermelha presa em sua roupa do outro lado, ele usava uma calça preta, estava descalço e sua linda coroa estava torta. Era o rei mais desleixado que eu já tinha visto na vida, ele definitivamente não servia para esse cargo, embora seu ego combinasse perfeitamente.

Laito me colocou no chão e, imediatamente, eu agarrei seu braço para impedi-lo de sair do salão, não queria ficar sozinha com o Ayato de jeito nenhum, de acordo com a profecia eu era sua futura esposa e sinceramente não estava a fim de saber o que ele faria comigo se ficássemos sozinhos no mesmo cômodo. Se estivéssemos em qualquer outra situação eu provavelmente pensaria esse tipo de coisa do Laito, porém ali era outra história.

— Está com medo, cadelinha? – ele perguntou divertidamente e só então prestei atenção em sua aparência. Ele usava uma camisa branca de mangas longas por baixo de um colete preto transpassado por um cinto de mesma cor, luvas e capa negras presas por fivelas amarelas sendo que naquela que segurava a capa havia um detalhe de babados também amarelados, sua calça preta era sustentada por um cinto que também abrigava sua espada embainhada, seus sapatos eram amarelos como as fivelas e ele usava um chapéu do qual descia uma plumagem avermelhada que era segurada por uma rosa verde adornada de pérolas. Ele estava mais para mosqueteiro que para espião e estava muito elegante para ser apenas isso, será que ele e Ayato tinham parentesco nesse mundo?

— Não me deixe sozinha com ele, por favor. – pedi num murmúrio, ele apenas arqueou uma sobrancelha me deixando na dúvida sobre o que iria fazer.

— Então você achou minha noiva, Laito. Traga ela aqui! – o rei ordenou e o ruivo ao meu lado soltou um muxoxo desgostoso.

— Não me trate como um servo, Ayato, eu ainda sou um príncipe. – reclamou insatisfeito antes começar a andar em direção ao trono. Então ele realmente era da nobreza.

— Vocês dois têm algum parentesco? – assim que paramos diante de Sua Majestade a questão escapou antes que eu pudesse controlar minhas cordas vocais, soltei-me de Laito e meu olhar ficou vagando entre os dois. Ayato me analisou por um momento antes de olhar para seu espião e dar um sorriso suspeito que foi prontamente retribuído, crispei os lábios.

— Somos gêmeos, framboesa. – quem falou foi o rei, com isso conclui que o Sakamaki narcisista havia nascido primeiro e, por isso, assumiu o trono e também que seu fetiche por comida era algo que ultrapassava universos.

— Então, teoricamente, se você morrer o Laito assume a coroa o que significa que ele é o último rei e não você. – constatei com esperteza e mandei-lhe um sorriso desafiador. Eu sabia que estava brincando com fogo, mas já que estava aqui não custava eu me divertir um pouco e eu estava apenas esclarecendo os fatos. Ayato fechou a cara parecendo bem irritado e seu irmão gargalhou com vontade, eu dei um risinho discreto só pra não colocar mais lenha na fogueira e sentei de lado no colo do rei envolvendo seu pescoço com meus braços. – Mas sabem o que seria mais apropriado à situação? – indaguei provocativa, meu olhar vagando entre os dois para indicar o que eu queria dizer.

— Você é bem puta, framboesa. – sentenciou agressivamente, apesar da leve curvatura de seus lábios que indicavam seu divertimento. Alarguei meu sorriso claramente concordando com sua fala, se ser puta era desejar aqueles que me desejavam então eu seria com muito prazer.

— Você não é mesmo desse tempo, cadelinha... – o mais novo deu um meio sorriso sacana e se aproximou de mim, segurou meu queixo e voltou minha face para a sua. – Por que suas presas são assim?

— Eu sou uma vampira, sabem o que significa? – incentivei olhando de um para o outro a espera de uma reação, Ayato afastou a mão do irmão do meu rosto e entrelaçou minha cintura com um braço.

— É claro que é algum tipo de aberração. – afirmou o mais velho com um brilho zombeteiro no olhar, eu ri.

— Exatamente. – confirmei alegremente, sinceramente não me senti ofendida, parecia muito interessante ser algo do tipo, bem mais divertido. – Mas eu sou uma aberração bem específica, senhores... Vou mostrar. – anunciei num tom coberto de segundas intenções antes de colar minha boca na de Ayato, vi seus olhos se arregalarem pelo meu gesto antes de fechar os meus e apenas chupei seu lábio inferior bem levemente, meus sentidos ficaram em alerta e eu mal podia esperar para sentir seu sangue na minha boca, ele era tão quente nesse mundo.

Separei-me lentamente do Sakamaki e ele ainda parecia surpreso, soltei uma risadinha e agarrei o braço do Laito puxando-o para bem perto de mim, segurei os babados de enfeitavam a gola de sua capa trazendo seu rosto para perto do meu. Ele estava perplexo, no entanto eu não tirava sua razão, afinal nesse mundo ele não era exatamente o mesmo e acabou de conhecer uma garota bem incomum. Dei-lhe um selinho bem breve antes de roçar minha boca por seu queixo e lamber sua bochecha devagarinho, uma euforia ansiosa percorreu minhas veias ao notar que ambos tinham gostos diferentes um do outro mesmo sendo gêmeos.

— O que está fazendo, framboesa? – Ayato perguntou categórico ao se recuperar da minha brincadeira, afastei-me de seu irmão e o fitei de canto de olho.

— Estava provando, Majestade, agora vou mostrar. – rebati misteriosamente enquanto encaixava minha mão na nuca do mosqueteiro que apoiou um joelho no chão para ficar mais acessível para mim. Voltei meu olhar para ele e seu olhar brilhante me dizia o quanto estava gostando daquela brincadeira, lógico que ele seria o primeiro a entrar no jogo, ainda era o meu ero-kyüketsuki ali. Aproximei minha boca de sua orelha roçando-a em sua pele e senti-o se arrepiar, agora eu entendia porque meus vampirinhos gostavam de provocar. – Se você ficar bem quietinho eu prometo que não vai doer muito. – avisei num sussurro rouco acariciando sua nuca suavemente, ele apenas assentiu e eu sorri satisfeita.

Minha mão que estava em sua nuca tratou de soltar aquela capa incomoda que atrapalhava meu objetivo, abri um pouco sua camisa para tirá-la do meu caminho, minha boca deslizou pela sua pele até a curva de seu pescoço onde suguei delicadamente fazendo-o arfar e então fui afundando minhas presas pouco a pouco. Ouvi o som de Laito rangendo os dentes pela dor e olhei de relance para Ayato que parecia realmente interessado na cena, sorri involuntariamente, porém não foquei muito nisso, pois logo o sangue quente do ruivo invadiu minha boca e domou meus sentidos.

Ele era doce como uma amora madura e muito quente, era denso e dissolvia como mel na língua, era perfeito. Dessa forma, não consegui evitar o gemido de puro prazer que ecoou da minha garganta, agarrei os cabelos dele e vi o chapéu caindo no chão ao inclinar sua cabeça de forma a ter mais espaço, suas mãos apertaram uma das minhas coxas graças ao meu movimento e à minha avidez sorvendo um pequeno gole atrás do outro, eu queria apreciar muito bem o seu gosto. No entanto, não me demorei muito, não queria que Laito desmaiasse ou algo do tipo e logo removi minhas presas de sua pele, duas gotas de sangue tentaram escorrer dos furos, mas eu não admitia esse desperdício, assim minha língua capturou o que tentava escapar e eu pude aproveitar mais um pouco daquele gosto.

— Você é um tipo de sanguessuga. – Ayato balbuciou encarando todos os meus movimentos como se estivesse hipnotizado, afastei-me do mais novo e assenti para confirmar que era basicamente aquilo mesmo. Enquanto isso Laito estava se recompondo meio atordoadamente do que eu acabei de fazer e o outro resolveu aproveitar a chance para me puxar e colar sua boca na minha, nossas línguas se encontraram no mesmo instante que nos encaixamos e exploravam uma a outra procurando pelos menores sabores. Porém, tão repentinamente como começou o beijo terminou, procurei o gêmeo mais novo de imediato e ele parecia totalmente recomposto já que nos olhava com um brilho perverso no olhar.

— Não vai deixar ela te morder, irmão? Está com medo? – desafiou debochadamente e o mais velho bufou desdenhoso, em seguida seu pulso direito estava erguido diante de meus olhos como um convite silencioso. Ele continuava com a terrível mania de querer competir com os outros, bom, ainda era o Ayato—sama ali.

— Tem certeza? Dói um pouco mais aqui. – informei mais por obrigação que por realmente ver necessidade, era provável que ficar ciente disso só o deixaria ainda mais determinado e foi exatamente o que aconteceu, pois ele encostou seu pulso em meus lábios como confirmação.

Laito deu um risinho zombeteiro sendo respondido por um revirar de olhos, eu somente soltei os cabelos do príncipe e segurei o antebraço do rei firmemente, fitei-o divertidamente e dei um beijinho no local que pretendia morder, o meio sorriso que ele deu durou apenas o segundo antes de eu enfiar minhas presas na sua carne sem o mínimo de cuidado. Ayato xingou e seu irmão gargalhou, já eu me senti indiretamente vingada pelas atrocidades que seu outro eu havia me infligido no meu mundo, só que a sensação não durou muito, pois o sangue dele jorrou para minha boca enchendo-a rapidamente e seu sabor capturou minha atenção.

Ironicamente, seu sabor era parecido com o da framboesa, adocicado e bem suave, era quente como o do irmão, porém menos denso o que possibilitava que ele preenchesse cada mínimo espaço da minha boca de forma que eu sentia seu gosto perfeitamente bem. Respirei fundo e fechei os olhos deixando-me ser levada por aquele êxtase indescritível que tomava conta do meu corpo toda vez que bebia aquele líquido escarlate.

Enquanto me controlava para dar goles pequenos e evitar um provável desmaio de Ayato, senti as mãos de Laito levantando a saia do meu vestido até deixar minhas coxas completamente expostas, seus lábios foram de encontro a minha pele e distribuíram beijos e por toda a extensão das duas, provavelmente ao ver isso o mais velho também resolveu tomar uma iniciativa e delicados chupões foram espalhados pelo meu pescoço. Eu gemi pela sensação de ter duas bocas sobre mim e soltei o pulso do Sakamaki dirigindo minhas mãos para os cabelos de cada um, fiquei tão absorta nas carícias dos dois que tomei um enorme susto quando as portas foram abertas bruscamente e os soldados gritaram alguma coisa que não entendi.

— Merda! – o rei gritou furioso e se levantou, seu irmão já estava em pé e agarrou meu braço com força. – Rápido! Precisamos tirá-la daqui, Laito! – mandou afobado, mas antes que o espião pudesse responder inúmeros soldados esqueleto invadiram o salão.

Isso mesmo! Eram malditos esqueletos, eu paralisei completamente pasma com a visão. Os irmãos praguejaram alguma coisa e se colocaram a minha frente em posição de batalha, eu me encolhi e quando os soldados chegaram perto observei os dois lutando corajosamente. Laito havia pegado sua espada e, apesar de sofrer alguns cortes, eu via os vários crânios caindo no chão; Ayato, porém, não possuía armas e lutava com seu corpo em algum tipo de arte marcial, ele era realmente bom e um após outro os corpos dos esqueletos se desfaziam aos seus pés. Concluí que, embora os soldados fossem muitos, eles eram bem frágeis o que era uma ótima vantagem.

Ainda assim, enquanto os gêmeos lutavam para me proteger dos soldados algo conseguiu me agarrar por trás e me jogar como um saco de batatas sobre seu ombro, gritei para chamar a atenção dos dois, porém minha visão estava obstruída pelas costas da pessoas que me capturou, ele definitivamente não era um esqueleto.

— Deviam cuidar melhor da futura rainha! – disparou cheio de escárnio e eu só tive tempo de ouvir os irmãos gritando algo inteligível antes de sentir um vento familiar percorrer meu corpo e saber que estava sendo teleportada para algum outro lugar bem longe daquele palácio. Quando decidi ouvir minha curiosidade e ver até onde ia aquela história jamais poderia imaginar que seria sequestrada por algum tipo de rebelde controlador de esqueletos.

Assim que paramos fui bruscamente jogada sobre um sofá duro e puído, o ar escapou dos meus pulmões de uma vez e eu praguejei irritada tentando sentar. Depois que consegui encontrar um pouco de conforto encarei o meu sequestrador, franzi as sobrancelhas ao me deparar com Ruki vestido exatamente como um comandante de exército daquela época com uma rosa arroxeada na lapela e tapa-olho preto com bordados dourados cobrindo o olho esquerdo. Ele se aproximou e apertou minhas bochechas com força de forma a abrir minha boca, observou-me por alguns segundos antes de me soltar.

— O que você é?

— Uma vampira, ou melhor, uma sanguessuga já que o primeiro termo não existe no vocabulário de vocês. – respondi azedamente enquanto massageava meu rosto dolorido pelo seu agarre.

— Interessante. Tem alguma habilidade especial? – interrogou curiosamente, porém altivo. Eu fiz uma careta, essa mania dele de me analisar era uma porcaria.

— Por que você me sequestrou? – retruquei incisivamente, encarando-o com olhos estreitos. Ele fechou a expressão, claramente insatisfeito por eu deixá-lo sem resposta.

— Tcs! Você é minha moeda de troca. – redarguiu a contragosto.

— E pretende me trocar pelo quê?

— Não é da sua conta! – replicou com desdém e me deu as costas saindo do cômodo onde me encontrava, suspirei ao ouvir a porta sendo trancada e deitei-me no sofá desconfortável. Pensei em chamar Teddy para me tirar dali, contudo acabei pegando no sono, todas essas viagens de um mundo a outro me exauriram totalmente. Acordei sendo chamada por alguém, minha visão foi recepcionada pelo belo rosto de Ruki agora com uma expressão mais suave e esfreguei os olhos me sentando.

— O que houve? – perguntei roucamente, provavelmente eu havia dormido bem mais do que esperava, talvez tivesse até se passado algumas horas. Ele estendeu a mão para mim e meu queixo quase foi ao chão, há pouco ele estava me tratando rudemente. Apesar da surpresa aceitei sua mão como apoio para me ficar de pé.

— Coma alguma coisa. – pediu suavemente enquanto me guiava até uma pequena mesinha de dois lugares com uma cesta de pães e duas tigelas de sopa, minha boca encheu de água, eu realmente estava com fome afinal não comi nada desde que acordei e vim parar nesse mundo. Eu não considerava o sangue que bebi como uma verdadeira refeição, por isso não hesitei em sentar num dos lugares disponíveis e atacar a sopa fumegante, ela possuía um cheiro maravilhoso, mas eu me esqueci de esfriar e acabei queimando a língua e a garganta, meus olhos marejaram e eu puxei o ar pela boca a fim de conseguir algum alívio. – Vá com calma, menina. – aconselhou me estendendo uma taça cheia de água a qual eu bebi de uma só vez.

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— Obrigada. – resmunguei sem olhá-lo e comecei a assoprar a sopa na tigela, Ruki sentou-se na cadeira a minha frente e também começou a comer. – Foi você quem fez a sopa? – questionei após uma colherada bem sucedida.

— Sim. Como você deve ter visto o meu exército não precisa se alimentar e, por isso, não há necessidade deles cozinharem também. – explicou pacientemente.

— Está muito bom. – elogiei com um sorriso, era a primeira vez que um dos vampirinhos cozinhava para mim, ele apenas se limitou a assentir e uma dúvida surgiu. – O que houve com seu olho? – assim que terminei de falar ele me encarou indecifrável e eu quase me arrependi por perguntar.

— Ayato o arrancou. – foi direto e eu precisei de um minuto para processar a frase, então o Sakamaki era um tirano sem escrúpulos, agora sim ele combinava com o cargo.

— Por quê? – a questão escapou antes que eu pudesse controlar, esperei por uma fúria que não veio, o Mukami apenas parecia ponderar minha pergunta. Ficamos alguns minutos em silêncio até que ele resolveu se pronunciar.

— Eu era conselheiro real, mas acabei me apaixonando pela mesma mulher que o rei e ela por mim. Quando ele descobriu sobre isso ela foi mandada para alguma prisão nos confins de algum lugar e eu fui torturado pelas mãos dos dois irmãos até conseguir escapar. – contou amargamente. Não fiquei nem um pouco satisfeita em saber que Ruki amava outra mulher, apesar dele não ser exatamente a pessoa que eu conhecia não consegui evitar a onda de ciúmes que me consumiu.

— É por essa mulher que você pretende me trocar. – conjecturei seguramente, ele não me respondeu e eu só fiquei ainda mais irritada. Não admitiria que ele ficasse com outra, não ficaria aqui nem mais um segundo se fosse para trazer a vadia de volta pra ele, Ruki era meu não importava o universo e eu não o dividiria, então decidi que iria embora e o deixaria sofrer aqui como castigo por amar outra. Também castigaria Ayato por ter sido um filho da puta tirano deixando-o sem esposa. Ahh, sim! Isso era perfeito! Corri até Ruki e o abracei, ele ficou confuso e acabou não me retribuindo antes de eu sussurrar com a frase que me tiraria dali. – Lanterna de Jack...

Então aconteceu exatamente a mesma coisa que aconteceu da primeira vez que eu pronunciei aquela frase, dessa vez, porém, em vez de ser arremessada para o alto fui caindo e ganhando cada vez mais velocidade na medida em que caía, eu estava indo tão rápido que no meio do caminho acabei perdendo a consciência.

(╥_╥)

Algo úmido e áspero deslizava repetidas vezes pela minha bochecha, aquilo era agoniante, eu balancei a cabeça tentando fazer parar e foi o que consegui. Cocei um olho e percebi que estava deitada em algo muito macio e confortável, espreguicei-me lentamente enquanto bocejava.

— Vejo que finalmente acordou. – a voz inconfundível de Reiji adentrou meus ouvidos e eu abri um enorme sorriso ao pensar que poderia estar em casa finalmente e que tudo havia sido somente um sonho louco, todavia assim que me acostumei à luz do local percebi que não estava em casa coisa nenhuma. Parecia que eu estava em uma cabana de madeira no meio de uma floresta pelo que a vista da janela indicava, aquela coisa áspera e molhada que me acordou era a língua de um gato preto e branco de olhos vermelhos o qual não demorei observando e, então, meu olhar encontrou o dono da voz.

Ele usava um longo sobretudo negro de gola alta e bordas douradas preso por correntes de ouro em seu abdômen que se sobrepunha a uma camisa bordô e as suas calças pretas, como acessórios possuía apenas luvas brancas e uma gravata com babados de mesma cor, uma rosa azul marinho presa em seu sobretudo e um monóculo que pendia de uma corrente de ouro, seus sapatos também eram negros e estavam sujos de lama.

— Onde estou? – indaguei confusa e o moreno jogou as madeixas para trás antes de se sentar ao meu lado na cama.

— Em minha casa. Pretendo te usar como ingrediente para algumas experiências, há algum tempo espero sua queda, estrela. – respondeu curto e grosso e eu fiquei ainda mais confusa. Ingredientes? Experiências? Estrela? Do que diabos ele estava falando? – A propósito, me chamo Reiji. – acrescentou polidamente e segurou minha mão delicadamente levando-a até seus lábios para beijá-la, corei profundamente com o gesto, eu jamais esperaria isso dele apesar de toda sua educação. – É um prazer conhecê-la, Tora.

— Como sabe meu nome? – perguntei espantada, cogitando a hipótese dele já me conhecer nesse mundo.

— Descobri através de meus cálculos e previsões para a queda da próxima estrela. – retorquiu objetivamente, meus olhos se arregalaram e ele soltou minha mão. Então ele achava que eu era uma estrela e descobriu meu nome apenas fazendo cálculos, o Reiji é mais inteligente do que eu pensei, não, é um gênio.

— Eu não sou uma estrela, sou uma vampira. – corrigi-o prontamente, ele tinha que saber que eu não seria o melhor “ingrediente” para suas experiências. Entretanto, o moreno apenas sacudiu a mão em sinal de desdém.

— Não importa. Eu preciso de algo celestial e você vai servir muito bem, já que foi do céu que veio. – esclareceu me dando as costas e pegando um chapéu que eu não havia visto sobre o criado mudo, era literalmente um chapéu de bruxo decorado com uma faixa listrada de bordô e preto sobre outra azul marinho e um cordão de pérolas. Ele o colocou e se dirigiu a uma porta no canto do quarto. – Subaru, cuide para que ela não cometa nenhuma loucura. – ordenou e desapareceu pela porta, só tive tempo de me perguntar com quem ele estava falando antes de ver o gato se transformar no próprio Subaru diante dos meus olhos.

Fiquei completamente paralisada olhando em choque para o albino, tanto por ele ter surgido de um gato quanto pelas costuras que se espalhavam por seu rosto, braços e pernas – possivelmente elas se espalhavam por todo o seu corpo – como se suas partes houvesses sido remendadas. Ele usava um moletom sem mangas preto com o capuz cobrindo suas orelhas e uma bermuda que fazia conjunto, estava descalço e uma correntinha de prata se ligava de um bolso no lado direito de seu peito até uma rosa branca do outro lado, reparei que a parte negra de sua pelagem como gato provinha de suas vestes. Além disso tudo ainda havia sua cauda branquinha balançando de um lado para o outro.

— C-como você...? – nem consegui formar a frase corretamente de tão chocada que eu estava. Subaru revirou os olhos impacientemente, andou até mim rapidamente e se deitou na cama de bruços apoiando a cabeça no meu colo sem um pingo de hesitação.

— Fique quieta. Me dê um carinho. – mandou com a voz baixa, rouca e irritada, o tom contrastando com as ordens. Acabei rindo pela forma como ele agia, aquele Subaru era tão fofo, esse e o do meu mundo eram iguais e diferentes ao mesmo tempo. Isso era um pouco estranho, mas a verdade é que todas as cópias que encontrei nesses universos paralelos eram assim.

Obedeci às suas ordens apenas porque eu sabia que não teria outra oportunidade como essa de fazer carinho em um Subaru gatinho, uma de minhas mãos acariciava toda a extensão de suas costas enquanto a outra entrou debaixo de seu capuz para mexer em seus cabelos, ele ronronou e eu sorri. Como ele podia estar tão adorável dessa forma? E olha que “adorável” seria o último adjetivo adequado para descrever esse albino. Arrisquei colocar a mão que estava em suas costas por baixo de seu moletom, eu devo ter acertado, pois ele relaxou e fechou os olhos com o contato, contudo – exatamente como eu havia pensado – as costas dele possuíam algumas costuras e toda vez que eu roçava em alguma delas um arrepio de horror subia pela minha coluna.

— O que houve com você? – interroguei intrigada enquanto deslizava meus dedos por uma costura, ele suspirou parecendo insatisfeito pelo meu questionamento.

— Reiji me criou, ele costurou cada parte e depois me fez viver, mas ele não esperava os efeitos colaterais. – revelou brevemente e eu demorei um pouco para processar a informação. Aquilo era basicamente uma versão Frankenstein de alquimia e transmutação, o que significava que os efeitos colaterais era o Subaru virar um gato. Bizarro... – Eu sou uma aberração. – ele emendou baixinho e eu vi o meu vampirinho ali, exatamente igual, com os mesmos medos e visão distorcida de si mesmo. Eu quis protegê-lo, assim como fiz com o do meu mundo.

— Eu também sou e não acho que seja tão ruim assim. – comecei serenamente, ele me olhou cheio de escárnio, eu sorri. – Está vendo essas presas? – mostrei meus dentes para ele. – Elas servem para sugar o sangue das pessoas, minha sobrevivência depende dos outros e as vidas deles estão em minhas mãos. É um destino cruel, não acha? Por isso sou uma aberração. – expliquei e logo o albino estava sentando me encarando curiosamente.

— E você acha que isso não é tão ruim? – soltou incrédulo.

— Acho, porque antes de ser assim eu não tinha nada de muito importante além da minha mãe, quando comecei a caminhar para essa transformação acabei a perdendo, porém ganhei várias outras pessoas e um objetivo. Eu não tinha nenhuma perspectiva até ser assim. Sem contar que ser normal é muito chato, pessoas normais são hipócritas e não se importam com nada além de si mesmas, mas aberrações como eu e você são muito interessantes, não acha? Podemos ser quem quisermos. – concluí seguramente enquanto Subaru me olhava intrigado. – Você devia começar a procurar as vantagens de ser quem é, em vez de se agarrar aos pontos negativos.

Ele sorriu minimamente antes de retornar a sua forma felina, esfregou-se em mim e deitou no meu colo. Voltei a acariciá-lo e reparei que as costuras permaneciam em seu corpo apesar da pelagem macia disfarçar boa parte delas.

Ficamos nessa inércia durante pelo menos uma hora até Reiji entrar pela mesma porta que havia saído anteriormente, ele estava sem o chapéu e nos observou atônito, supus que sua criação não costumava ficar na forma animal perto das pessoas, afinal era uma forma bem vulnerável.

— O que você fez? – questionou exigente indicando o gato deitado preguiçosamente em minhas coxas, eu entreabri a boca dar um esclarecimento, porém Subaru pulou do meu colo e se transformou em humano antes que eu pudesse pronunciar alguma coisa.

— Ela não fez nada, Reiji. – afirmou tranquilamente fazendo seu dono/criador franzir as sobrancelhas. Eles se entreolharam por alguns segundos como se estivessem se comunicando em silêncio, o moreno deu um sorriso suspeito que me deixou mais confusa do que eu estava pela troca de olhares deles.

— Já está tudo pronto, Subaru, pode trazê-la. – avisou enquanto nos dava as costas e andava de volta para o cômodo do qual viera, o albino suspirou e eu o fitei interrogativa, não obtive resposta, tudo o que ele fez foi agarrar meu braço e me puxar bruscamente para fora do quarto.

Entramos no local onde Reiji se encontrava, ele havia colocado o chapéu mais uma vez e usava o monóculo, estava preparando algum tipo de poção em cima de uma bancada abarrotada de instrumentos estranhos que eu nunca havia visto na vida. Apesar de desconhecer boa parte das coisas espalhadas por aquela sala eu sabia que estávamos em seu “laboratório” – por falta de palavra melhor para descrever o que era aquele cômodo.

— O que vocês vão fazer comigo? – perguntei receosa. O protótipo de Frankenstein nem sequer me olhou, já o bruxo alquimista veio até mim segurando um frasco cheio de algo parecido com vinho e com um brilho empolgado no olhar.

— Beba isso. – ofereceu o frasco que segurava, encarei-o desconfiada e sacudi a cabeça em negação enquanto pressionava os lábios fortemente. Sem chances que eu iria beber de boa vontade aquele líquido desconhecido, podia ter qualquer efeito sobre mim.

Estranhamente, Reiji não pareceu irritado pela minha negativa, apenas virou o conteúdo do recipiente em sua própria boca, segurou meu rosto para cima na direção do seu e grudou nossos lábios. Eu sabia perfeitamente o que ele ia fazer e relutei, no entanto era óbvio que eu não conseguiria me livrar dele e com um aperto mais forte de sua parte meus lábios se entreabriram deixando passagem livre para a poção do moreno. Ele não desgrudou a boca da minha até conferir se eu tinha engolido todo o líquido, para isso usou sua língua e – já que parecia que eu estava prestes a passar desse mundo para outro – aproveitei a oportunidade para beijá-lo, minha mão livre agarrou sua nuca trazendo-o mais para perto enquanto eu entrelaçava minha língua na sua, porém não consegui ir mais longe, pois ele me empurrou e se afastou de mim com uma carranca enquanto eu ria copiosamente.

— Não seja ranzinza, Reiji, pensei que acharia um privilégio beijar uma criatura celestial. – zombei sarcasticamente, agora sim ele estava com raiva já Subaru, que não me soltou em nenhum momento, divertia-se com a situação silenciosamente.

— Tsc! Se eu não houvesse te visto caindo do céu constataria que era uma criatura infernal. – alegou irritado e foi até um caldeirão no fundo da sala, ele estava fumegante e me perguntei como não o havia notado antes.

— E quem disse que o Inferno fica embaixo? – provoquei com um sorriso divertido recebendo um revirar de olhos.

— Venha. – ordenou o moreno e logo o albino estava me levando até o lado do bruxo.

— Vou sentir sua falta, Tora. – Subaru sussurrou para mim durante nossa caminhada, infelizmente eu não tive tempo de responder, pois logo estávamos ao lado de Reiji.

— Segure os braços e os cabelos dela. – instruiu severamente, meus cabelos foram organizados em um rabo de cavalo, meus braços foram imobilizados e fui debruçada sobre o enorme caldeirão. O vapor quente me obrigou a fechar os olhos, o calor que emanava do metal era terrivelmente desconfortável e eu só queria que eles acabassem com isso de uma vez. – Você é extraordinária, Tora. Foi um enorme prazer conhecê-la. – disse parecendo realmente sincero e eu só tive tempo de sentir uma coisa gelada sendo deslizada pelo meu pescoço, uma dor aguda percorreu o caminho do que presumi ser uma lâmina, em seguida meu sangue penetrou na minha traqueia e eu comecei a engasgar, depois disso tudo se apagou.

Quando abri meus olhos fui ofuscada por tantas cores brilhando e piscando ao meu redor, fiquei desnorteada, duas luzes brancas fortíssimas vieram em minha direção e eu não consegui assimilar o que era até que estava praticamente na minha cara, graças a Kami-sama meus reflexos vampirescos me fizeram abaixar antes de eu ser atingida pelo automóvel voador. Espera! Voador?

— É melhor sair do meio da rua, ruivinha! – alguém me aconselhou e eu imediatamente resolvi seguir a voz, precisava saber onde diabos eu estava. Assim que pisei na calçada dei de cara com o Kou, era mesmo só ele que faltava encontrar nesse circo que o Teddy armou. – Eu pensei que você ia morrer ali mesmo, mas seus reflexos são muito bons, hein! – comentou divertidamente aproximando-se de mim.

Observei-o e ele usava uma roupa até bem comum: camisa listrada sobre blusa púrpura, blazer preto dobrado até os cotovelos, calça jeans azul escura, coturnos da mesma cor da blusa, um laço lilás com uma rosa púrpura enfeitava a lateral de seu quadril e parte de sua franja estava presa para evidenciar sua linda heterocromia. Tudo isso era muito normal até você chegar às orelhas de gato negras em sua cabeça ou reparar em seu rabo preto balançando de um lado para o outro, sem contar as manchas rosadas espalhadas pelo seu corpo no mesmo padrão dos leopardos.

— Você também é um gato? – deixei a pergunta escapar sem esconder a curiosidade.

— Também? – salientou me olhando de cima a baixo. – Você não é uma híbrida de gata. – objetou convicto encarando minha expressão enleada. – De onde você é?

— Quando estou? – rebati com outro questionamento vendo o loiro arregalar os olhos.

— Você é uma viajante do tempo? Veio do passado, com certeza. – concluiu espantado, depois agarrou minha mão e me puxou até um beco escuro onde ninguém pudesse nos ouvir já que as ruas estavam abarrotadas de gente. – Escuta, essa não é uma boa época para visitar, ruivinha, o governo caça viajantes do tempo como cães farejadores. A essa altura eles já devem saber que está aqui. – avisou aos sussurros, ele parecia bem tenso e eu acabei ficando assustada.

— Eu não quero ser presa! – exclamei apavorada e já ia chamar a ajuda de Teddy quando Kou segurou minha cintura e começou a me levar com ele de volta à calçada abarrotada.

— Eu vou te levar até minha casa e você poderá pensar em como vai dar o fora daqui com calma, entendeu? Até chegarmos lá finja que somos um casal. – esclareceu num sussurro com sua boca colada em minha orelha enquanto seguíamos para sua casa, eu assenti e também passei meu braço pela sua cintura.

Ao longo do caminho eu comecei a reparar nas pessoas daquele mundo, todas elas pareciam alguma mistura bizarra de ser humano com animal e animais diferentes, diga-se de passagem. Todos estavam muito confortáveis com isso e eu cheguei à conclusão de que aquilo devia ser algum tipo de evolução da raça humana naquela época, provavelmente, todos adquiriam as habilidades dos animais com os quais se misturavam.

Enquanto divagava sobre as peculiaridades daquele futuro estranho, Kou me prensou contra a vitrine de uma loja e juntou nossas bocas, de primeira não entendi o que ele estava fazendo, mas assim que avistei cyborgs com um emblema indicando que eles eram a polícia passando por nós captei o que ele pretendia e imediatamente fechei os olhos e retribui o beijo.

Inicialmente a intenção era só esperar os policiais passarem, só que aqueles lábios eram tão familiares que eu simplesmente não resisti. Entrelacei o pescoço dele com meus braços mordendo seu lábio inferior bem levemente, sua mão que não segurava minha cintura foi até meu rosto e sua língua deslizou de encontro à minha. Elas se moveram numa dança lenta e sensual até Kou se separar e descer distribuindo beijos e lambidas pelo meu pescoço, suspirei anestesiada levando uma mão para uma de suas orelhas e esfregando-a delicadamente enquanto guiava a outra até sua cauda que se enrolou em meu braço quando a acariciei. Ele era tão macio e o gemido que deu assim que afaguei essas partes foi muito excitante.

— Vamos. Minha casa não está muito longe. – anunciou separando-se de mim com relutância, voltamos a andar mais rapidamente e logo paramos em frente à um prédio quase caindo aos pedaços. Pelo jeito nesse mundo o estilo de vida do Mukami não era tão melhor do que quando ele morava naquele orfanato.

Subimos alguns lances de escada antes de entrarmos no apartamento dele que era modesto, mas cheio de estilo, bem como deveria ser algo que pertencia ao Kou. Ele me deixou na sala de estar dizendo que ia buscar algo para eu beber e eu observei o lugar, havia alguns móveis comuns a qualquer casa e outras coisas completamente futuristas que eu nunca imaginaria ver, uma dessas coisas chamou minha atenção. Era uma máquina toda feita em material transparente que possuía uma pequena tela e algo como uma agulha bem afiada, aproximei-me dele para tocá-lo e quando o fiz a tela se acendeu em azul claro e a agulha se iluminou de vermelho, nesse instante o híbrido voltou para sala com dois copos cheios de um líquido verde, ofereceu-me um antes de se sentar ao meu lado.

— O que é isso? – perguntei curiosamente dando um gole na bebida em seguida, era azeda e ardente, devia ser algum drink feito com kiwi.

— É um “hibrididor”, ele mede o nível de hibridismo do seu sangue e informa quais são as espécies misturadas. Quer ver, ruivinha? – explicou brevemente e eu assenti empolgadamente, quando mais eu teria a chance de ver outro aparelho como aquele de novo? O loiro riu e espetou o dedo na agulha da máquina, um pouco de seu sangue escorreu por dentro dela e as informações apareceram na tela assim que uma fumacinha vermelha saiu da agulha, eu soube que era o sangue vaporizado de Kou só porque o cheiro se espalhou pela sala, eu até fiquei com vontade de prová-lo, mas já tinha bebido tanto que consegui me controlar.

Debrucei-me sobre a tela animadamente para ver os dados que ela fornecia, havia uma foto do Kou com a porcentagem de 55% na frente, embaixo várias barras indicavam a quantidade de cada espécie diferente de Homo sapiens. Havia quatro espécies ali, na ordem decrescente ficava: Panthera pardus (leopardo) com 27%, Panthera tigres (tigre) com 12%, Panthera onca (onça-pintada) com 9% e Panthera leo (leão) com 7%. Conclusão, Kou não tinha absolutamente nada de gato.

— Sempre tem que usar espécies do mesmo gênero? – indaguei vendo-o sorrir pela minha questão sagaz.

— Não necessariamente. Mas quanto mais diferentes as espécies misturadas, menos humana a pessoa parece. Você deve ter visto algumas assim na rua. – elucidou e eu concordei. Isso era estranho tanto quanto era incrível. – Por que não tenta? Suas presas não são as mais humanas que eu já vi. – ofereceu esperto, dei outro gole na bebida e sorri.

— É porque não sou humana. – retruquei misteriosamente e furei meu dedo na agulha muito ansiosa para ver qual seria o resultado.

O mesmo processo de anteriormente ocorreu, no entanto, antes que qualquer um de nós pudesse ver os dados, o apartamento foi invadido por inúmeros cyborgs. Eu gritei e soltei a bebida, o Mukami me puxou para ficar em pé e nós corremos, acabamos na varanda de sua casa, ambos sabíamos que não havia escapatória. Era minha hora de partir, mas ao invés de gritar pelo Teddy subi na mureta da sacada e pulei sem sequer pensar, ainda fui capaz de ouvir o loiro gritando antes de ficar inconsciente.

Senti-me flutuando e pousando sobre algo deliciosamente macio e muito agradável, eu não sentia mais nenhuma dor, porém o cansaço mental era enorme. As presas com as quais eu havia me acostumado tinham sumido, por isso forcei-me a abrir os olhos. Deparei-me com um local familiar, eu conhecia aquele cômodo, aquele cheiro, aquela atmosfera, finalmente estava em casa.

— Bem-vinda de volta, minha dama! – o urso maldito recebeu-me com um grande sorriso, totalmente alheio ao que estava por vir. Levantei-me da cama bem calmamente, sempre mantendo a cabeça abaixada, coloquei-me de frente para aquela criatura desprezível e o fuzilei com o olhar, ele assustou-se tentando recuar, mas eu fui mais rápida e agarrei sua gola puxando-o para colocar seus olhos na altura dos meus.

— TEDDY!

FIM (ᅌᴗᅌ*)

Notas finais
"O diabo, quando acuado, vocifera. O que é ruim por si mesmo se destrói. Uma bruxa nunca consegue ser perfeita num disfarce de princesa. Nem um lobo é convincente em pele de cordeiro. Coloque-os à prova e todos falharão, irremediavelmente." — Augusto Branco Recomendo essa música para essa data sombria que eu tanto amo: This Is Halloween - Marilyn Manson: https://www.youtube.com/watch?v=MC85yH07_TQ (AMV de Soul Eater porque sim! ♥) Roupa da Tora: http://3.bp.blogspot.com/-N_zvCTeqhC8/T9FeyhC29FI/AAAAAAAAAEY/27OQONPF2W4/s1600/Another-Dakimakura.png (A roupa que ela está usando é a segunda) 1. Tombadilho é uma estrutura mais elevada do navio, geralmente na popa, onde fica o timão, na maioria das vezes a cabine do capitão também se encontra abaixo dessa estrutura, pelo menos nos navios da época descrita no capítulo. 2. Proa é a parte dianteira de uma embarcação e a popa que eu citei na definição acima é a parte traseira. 3. Diz-se carnes nobres todos os cortes do animal que são consideravelmente mais macios e se encontram em pouca quantidade. *Dracul foi a denominação dada à Vlad II - monarca do território correspondente a atual Romênia - pela sua participação em uma sociedade cristã romana chamada Ordem do Dragão, nesse capítulo, porém eu o usei como nome da linhagem de reis que governam a Transilvânia. Yay! Olha eu aqui de novo! @-@ O que vocês acharam desse especial? Pegaram as referências? Viram alguma coisa intrigante? Gostaram ou detestaram? Eu adoraria saber! ^-^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.