Notas iniciais
Esse capítulo saiu bem rapidinho.

Os outros estão saindo ainda mais rápido!!

Espero que gostem!

Beijos! Tilda

E... Virei freak show do hospital.

Aquela já era a terceira equipe de médicos e internos que vinha ao meu quarto e olhava admirada os registros da pressão intracraniana. Porque, é claro, meu cérebro não foi cedendo aos poucos. Ele simplesmente voltou ao normal de um segundo pro outro. E isso era tão estranho quanto o inchaço louco que apareceu do nada também.

Para piorar minha situação a equipe de neurocirurgiões queria me manter no hospital para continuar observando se algum evento bizarro voltaria a acontecer ainda. Os remédios podiam estar suspensos, mas eu estava longe da alta.

Tudo o que eu queria era que o pessoal me deixasse em paz alguns minutos para eu falar com Eve a sós.

E tome catucada, tiração de sangue, medição de pressão pra lá e pra cá.

E duzentas vezes:

— Como você está se sentindo, Adam? — e um sorriso profissional do médico.

— Muito bem doutor. — eu respondia no automático.

— Alguma dor?

— Não, doutor.

E ele vinha com a lanterna para olhar minhas retinas. Depois sorria novamente e colocava a lanterna e as mãos nos bolsos do seu jaleco branco.

Respirei fundo quando a última equipe saiu do meu quarto. Eve estava o tempo todo sentada na ponta da poltrona, ansiosa e agitada. Sabia que ela queria me tocar pra saber se era verdade que eu tinha sobrevivido à noite e parado de sentir dor.

— Irmão... — ela veio imediatamente para o meu lado e pegou minha mão ainda com o oxímetro. — Como você está...

— Ah, não, Eve. Até você com essa ladainha? Faltam uns oito anos ainda pra você ser médica, sabia? — cortei antes que ela continuasse, mas sorri no final.

Ela sorriu de volta e relaxou os ombros.

— Então é sério que não está mais sentindo nada?

— Nadinha. Não sinto minhas mãos, não sinto meus pés...

Os dois rimos da nossa piadinha do pintinho doidão de maconha que não sentia nada.

— Cadê o resto do pessoal? — perguntei.

— A visita começa às cinco. Eles vêm depois.

Queria perguntar, mas não queria parecer tão óbvio. Ah, foda-se. Eles estiveram certos desde o início. Minha irmã, uma hora ou outra, saberia que eu estava louco pelo Blaylock.

— Falou com o Blay? — tentei ao menos que a pergunta parecesse casual. Eve, ou foi discreta, ou realmente fui bem sucedido, porque só balançou a cabeça.

— Ele disse que vem te ver mais tarde.

Eu concordei e lembrei novamente de todos os detalhes do sonho vívido que tive com ele ontem. O beijo que ele me deu e a sensação de tê-lo tão perto.

— Eve? — perguntei depois de um tempo os dois calados.

Ela levantou imediatamente seus grandes olhos turquesa, alerta como um cão de guarda.

— Que horas o pessoal foi embora?

— Umas nove. Na hora em que acabou a visita, por quê?

— E foram todos juntos?

— Sim, ué. Kris levou o Mitsuo pros dormitórios e o Paul foi para sua casa em Caldwell.

— Não voltou aqui? — perguntei em dúvida.

— Quem? Paul? Não. Foi embora como eu falei.

— Ah. — fiz. Como eu gostaria que ele realmente tivesse estado comigo.

Mas, um beijo como aquele, só mesmo nos meus sonhos...

***

Quaaaaaatro longos dias e muito exames depois eu fechava a mochila que Eve tinha trazido com algumas roupas. Tinha tomado banho e trocado a bata verde do hospital por calças jeans, camiseta e casaco.

E que alívio...

Nos dias em que estive internado Blaylock apareceu religiosamente às seis. Todos os dias ele vinha e sentava-se na cadeira ao lado pra conversar comigo. Não ficava me importunando com perguntas idiotas. Trouxe livros pra mim, revistas Sport Illustrated com matérias sobre vôlei e remo.

Ele continuava o mesmo. Tão educado e adequado como sempre. Às vezes eu achava que ele parecia estar evitando se aproximar. E quando pensava nisso, coincidentemente ele sentava-se mais perto.

Não toquei novamente no assunto de estar apaixonado por ele. Até porque Eve e Mitsuo estavam sempre no quarto também. Os dois cúmplices como se se conhecessem a vida inteira.

— Vê se não esquece nada. — Eve disse impaciente. Havia voltado ao seu modo habitual.

— Tá louca. E ter que voltar aqui? — dei mais uma olhada pra ver se tinha pegado tudo. Mais importante, se tinha pegado as coisas que Blay havia trazido pra mim. Meus pequenos tesouros.

— Então chega dessa lenga-lenga e vamos logo que eu já estou cansada de te paparicar.

Ela foi saindo na frente.

Essa era sua maneira de mostrar que tudo voltava ao normal. Não iria me tratar como um cristal dali pra frente porque sabia que eu não iria gostar disso.

A alcancei e puxei a loka para um abraço. Apertei ela forte nos meus braços esperando que ela me empurrasse de volta e dissesse que eu estava amassando seu casaco.

— Você realmente me assustou, seu escroto. Nunca mais faça isso, ouviu? — ela disse. Sua voz abafada contra o meu peito.

A soltei e fui andando na frente. Ignorando as lágirmas que escaparam dos seus olhos, como sabia que ela gostaria.

***

Os médicos, aqueles filhos-da-puta, me fizeram o favor de recomendar à minha irmazinha que eu deveria ser monitorado pelo menos pelo proximo mês. Pra eles o fato do edema ter desaparecido misteriosamente era tão perigoso quanto o fato de ele ter aparecido em primeiro lugar. Então ela e sua trupe se organizaram, como um bando de escoteiros, para passar a noite comigo. Todas as noites.

Sério, eu tinha achado um saco saber que, mesmo fora do hospital, eu estaria sendo vigiado o tempo todo. Nas minhas aulas era fácil: meu cão de guarda particular, a loira de 1,70m e 65 quilos mais braba que existe, me vigiava com seus olhos caninos, atenta a cada movimento meu.

Se eu coçava a cabeça, ou aparentava cansaço:

— Que, foi, Adam? Tudo bem? Sua cabeça tá bem? — esticando a mão para minha testa.

No início eu até retrucava com uma resposta malcriada.

— Me deixa Eve!

Ou:

— Me esquece, porra!!

Ainda melhor:

— Cacete, você não é minha mãe!

Por fim:

— Ah! Que inferno!! — e suspirava, deixando ela exercer seu lado materno, despertado recentemente.

Sei que era cansativo não só para mim, como para ela. E mesmo contrariado, aceitei o arranjo, porque, afinal, era escroto ela abrir mão de um mês inteiro para ficar acordada enquanto eu dormia.

Nos três primeiros dias ela foi para meu quarto no dormitório. É claro que o Japonês ficou acordado também. Afinal era Eve que estava derreada na nossa poltrona, seus cabelos loiros abertos em leque no braço da cadeira enquanto ela olhava a televisão. Mitsuo não conseguia tirar os olhos dela. Quando ela não estava olhando, é claro.

No quarto dia ela estava exausta, seus olhos fechavam de cansaço. O Japa foi até onde ela estava, acho que reunindo toda a coragem que ele tinha, para lhe tocar o braço, abaixando-se ao nível da sua cabeça deitada.

— Eu fico com ele, Eve. Não se preocupe. Juro pela minha honra que tomo conta dele.

O cara, quando falava, sempre soava como um lorde feudal japonês. Ela abriu os olhos e sorriu agradecida, mal tendo força de vontade para se erguer do sofá desconfortável. Eles se olharam por uns instantes. De onde eu estava, recostado na cabeceira da minha cama, lendo um livro de neurocirurgia, observava tudo pelo canto do olhos. Não pude deixar de franzir minhas sobrancelhas diante de um silêncio tão intenso entre os dois.

Mitsuo quebrou o contato primeiro, levantando-se. Eve terminou de se levantar e pegou seu casaco atrás da porta. Tinha seu habitual semblante irônico quando girou a maçaneta. Realmente achei que ela havia voltado completamente ao seu estado normal e iria partir sem falar nada, mas ela não era mais a mesma em relação à mim. Quer dizer, mais ou menos.

— Se cuida, zé bundinha. — e saiu.

Só depois o Japa respirou de novo.

— Você gosta dela. — falei olhando as figuras detalhadas e as fotografias em close do meu livro.

É claro que ele não me respondeu. Estava muito ocupado dobrando o edredom impecavelmente e se ajeitando para deitar-se sobre sua cama. Sem estudo noturno para o Japa esses últimos dias. E ele deveria estar tão ou mais cansado do que Eve. Mas é claro que Nacional Kid não iria demonstrar.

Desde que me mudei percebi que seus hábitos eram de uma rotina precisa: sua higiene era impecável, as roupas sempre em excelentes condições de limpeza e estado. Nada de calças surradas, camisetas furadas. Sequer amassadas. Apesar de no nosso banheiro parecer ter sido desenhado para anãos anoréxicos, dado o tamanho minúsculo, Mitsuo sempre saía de lá completamente vestido, barbeado e penteado. Nunca vi alguém escovar os dentes tantas vezes no dia!

Eu não estava nem aí. Saía de toalha, trocava-me na sua frente. Ele fazia questão absoluta de não demonstrar nenhuma reação. Na verdade sequer olhava para onde eu estivesse enquanto eu não colocasse minhas roupas propriamente.

Mas hoje, talvez fosse um ato falho por causa da presença de Eve, Mitsuo tirou sua camisa na minha frente, dirigindo-se, como se estivesse perdido nos seus pensamentos, para seu lado do armário.

— Caralho, Japa!! Você é um monstro!! — estava surpreso. Realmente surpreso. O cara, por baixo dos seus suéters marrons de vovô, calças sociais de cintura alta, camisas quebradiças de tanta goma, era uma lasanha. Os compridos braços envolvidos de músculos fortes, o peito largo, costas imensas, a barriga um tablete de chocolate.

Ele se virou, pego em flagrante, vestindo a camiseta do pijama, cara PIJAMA!!, rapidamente, baixando os olhos, vermelho como um pimentão.

— Eu achei que você era um jogador de xadrez, não um lutador de vale-tudo!! — eu disse.

É claro que ele não me respondeu. Estava no seu modo sou-uma-ilha.

Ignorei.

— É sério, Japa, tu é muito forte!! Você luta?

Com um esforço tremendo ele balançou a cabeça afirmativamente.

— Jura?!?! Jamais poderia imaginar.

— Sou sétimo dan em caratê, godan (quinto dan) em judô e sandan (terceiro dan) em kendô.

Minha testa se enrugou completamente, as sobrancelhas se esconderiam sob minha espessa franja loira, se eu ainda a tivesse.

— Praticamente um samurai. — eu disse baixo. Estava com medo desse cara pacífico um dia se revoltar e sair por aí metendo a porrada em todo mundo com seu shinai, aquela espada de bambu que deve doer pra caralho quando alguém te acerta com aquela porra.

A partir da noite seguinte, então, eles resolveram se revezar.

— Ô, Adam. — Eve falou na saída da aula de bioquímica. — Tá foda ficar só eu tomando conta de você. Eu tenho vida também, sabia?

— Eu nunca pedi porra nenhuma, que eu me lembre. — respondi meio chateado.

— E daí? Quem mandou resolver ter aquele piripaque na cabeça e quase ir pra casa do cacete? Agora fica aqui dando trabalho pra mim. — ela ajeitou a mochila com o notebook nos ombros. Finalmente consegui convencê-la de que nem mesmo ela conseguiria anotar à mão tudo o que acontecia nas aulas.

Ela dava um sorrisinho sinistro.

Continuei calado. Olhando para frente enquanto a gente andava para os dormitórios no final do dia.

— Ei! Espera aí, porra! — ela disse. Eu já tinha tomado uma dianteira de uns cinco passos. — Estamos esperando sua nova babá, imbecil.

Revirei os olhos.

— Mitsuo já deve estar no dormitório, Eve. Minha babá me espera em casa.

— Mitsuo tem compromisso pra hoje, não tem tempo pra ficar limpando a baba do seu queixo. — ela respondeu.

— Compromisso? O Japa? Só se for pra algum desfile de moda primavera-verão de roupas para asilo. — respondi. O Japa? Compromisso? Pffff. Tá bom.

— Ah, então tá. Problema seu. — se virou para o outro lado.

Eu fiquei olhando o fluxo de estudantes entre as aléias arborizadas do campus. No verão seria muito bom deitar durante a tarde naquele gramado, que agora estava seco e marrom, mas ficaria verde esmeralda e muito convidativo sob o Sol.

— Oi. — ouvi Eve falando para alguém. Me virei entediado para enfrentar doze horas de Kirstin, porque só ela aceitaria a tarefa de ficar acordada no meu quarto enquanto eu dormia. Em consideração à Eve, é claro. Elas duas eram uma instituição.

Abri minha boca como um peixe quando me deparei com dois metros de beleza chocante, coroados por uma linda cabeleira espessa e vermelha.

— Oi. — Blaylock respondeu com um sorriso discreto de olhos apertados. Aquele azul profundo e brilhante tirava meu fôlego. Sem brincadeira. Meu pulmão congelou.

— Oi. — respondi quando consegui. Meu coração resolvendo que eu deveria estar disputando a maratona de Nova Iorque e acelerando a uns mil batimentos por segundo.

Minha irmã se virou pra mim. Um sorriso arrogante nos lábios. Safada... Tinha armado tudo porque sabia que eu iria adorar essa companhia em especial. Eve nunca disse, mas ela me amava. Com certeza e muito.

— Paul e eu conversamos e ele se ofereceu pra revezar com a gente essa tarefa desagradável de ter que ficar contigo, Adam. — e sorriu maléfica. Ela era uma putinha manipuladora, isso sim.

— Ahnnn... — eu sou um idiota. Ficava olhando para ele e para ela. Os dois rindo para mim.

E educação mandava que eu dissesse : “Que isso! Não precisa se incomodar... Bla bla bla...” mas nunca que eu iria tentar dissuadir ele de ficar uma noite inteira comigo. Sério. Sou idiota, mas não sou burro.

— Mas eu só posso ficar até umas cinco horas, como eu te falei, Eve. Tem certeza de que não tem nenhum problema? — Blay falou com aquela voz... Como é que o cara conseguia arrepiar minha nuca só falando?

— Nahh. Acho que o bebê consegue se virar sozinho por uma hora ou duas, não é Adam?

— Ahn? — dei minha brilhante contribuição.

— Paul, ele tá com a placa mãe avariada, você sabe, né? Mas ele nunca foi muito brilhante antes mesmo... — Eve sorria e passou seu braço no braço de Blay. Eu os olhava com cara de babaca. Eles saíram andando e conversando com a maior naturalidade. Amigos de infância.

Só me restou segui-los.

Eve olhou sobre o ombro pra mim e sorriu. Não foi com escárnio, não foi com indiferença ou cinismo. Ela deu um lindo sorriso sincero. Ela sabia o quanto eu estava surpreso e o quanto eu estava jubilante com aquela companhia.

Quando chegamos ao final da rua ela ficou na ponta dos pés para dar um beijo na bochecha de Blay, soltando-se do seu braço. Pra mim foi só um “Se cuida” e ela se virou para o lado contrário de onde iríamos.

Blay ficou parado olhando pra mim. E eu olhando para ele.

Ele sorriu. Eu sorri.

Ele levantou as sobrancelhas. Eu fiquei pensando em alguma coisa pra dizer.

Não o via desde que saí do hospital. A última vez que conversamos foi rápida e superficial. Ele jamais voltou a abordar o fato de eu ter dito que estava apaixonado por ele quando achei que ia morrer. Ele não se modificou, não deixou de ser educado, não deixou de ser atencioso. Mas estava bem claro que eu não era correspondido.

— Adam? — sua voz profunda me despertou enquanto eu olhava para sua cara como um viadinho que eu sou. — Eu não sei onde é seu dormitório. — ele riu.

Eu ri também.

Relaxei os ombros. Será que conseguiria respirar durante as horas que ele passaria comigo?

Depois de uma caminhada rápida, chegamos ao prédio de dormitórios, subimos as escadas. Em poucos minutos estávamos no meu quarto. Só ele e eu.

Cara, eu tinha que relaxar senão teria uma síncope.

— Esse é meu castelo. — disse abrindo a porta para Blay entrar. — Fica à vontade.

— Claro. — ele respondeu e sorriu para mim. Foi tirando o cachecol e o sobretudo. Por baixo um suéter de caxemira cor de vinho tinto. A pele do seu pescoço era branca e luminosa em contraste com a gola vermelha. Suas bochechas estavam rosadas de frio. Ele era lindo de perfil. E de frente também. Virou de costas pra mim pra pendurar suas roupas no cabide de trás da porta. Bem, ele era lindo de costas, afinal de contas.

— Ahn... Quer um café?

— Não, Adam, quero que você siga sua rotina como se eu não estivesse aqui. — ele disse andando em direção ao sofá, muito pequeno para suas looooongas pernas grossas sob a calça jeans escura.

Tá bom... Como se eu conseguisse.

— Por que você não vai tomar um banho e se ajeitar pra dormir? Eu vou ficar bem enquanto houver uma televisão pra mim. Fica tranquilo. — ele disse sentando-se. O sofá chiando com seu peso.

— Hum, ok.

Fui para o banheiro. Não tinha vontade de tomar banho, mas também não tinha outra coisa pra fazer. Ficar encarando o Blaylock não era uma opção, apesar de ser algo que eu poderia realmente fazer por horas.

A água do chuveiro demora a esquentar, então virei a torneira, a primeira água gelada escorrendo para o ralo, enquanto tirava minhas roupas. Olhei meu reflexo no espelho sobre a pia, pensando se deveria deixar o cabelo crescer ou ficar com esse visual skin head pra sempre. Blay tinha dito que um irmão dele também usava o cabelo assim. Será que ele gostava desse irmão? Se gostava eu podia considerar ser careca.

Fui chutando o monte de tecido embolado pro lado e entrei sob o jato já quente. Imagina se quando eu saio do banheiro ele está nu deitado sobre minha cama? O que eu faria com aquele gigante? Onde tocaria? Onde beijaria sua pele?

Queria ver toda a extensão de pele branca que recobria suas coxas grossas, os músculos graciosamente desenhados da perna descendo para pés certamente perfeitos. Julgando pelo antebraço, que era uma tora, seus braços deviam ser compatíveis, trabalhados. Sua barriga um conjunto de perfeitos quadrados de músculos.

Beijar seus pequenos mamilos... Isso seria o paraíso. Vê-los se encolhendo arrepiados. Talvez ele soltasse um suspiro de contentamento, aproximando o quadril do meu. E ele já estaria pronto. Reto e longo como o monumento de Washington. Gostaria de chupar cada um de seus dedos, e os lóbulos de suas orelhas. Morder seus lábios vermelhos, enterrar a mão nos fios ruivos da sua cabeça.

A água batendo sobre a minha ereção estava ajudando tudo a ficar mais vívido. Era quente, macio e úmido, como seria sua boca. Minha mão tinha vida própria e eu não queria mesmo tentar me controlar. O cheiro dele, meio de sândalo, meio de cravo, era tão presente que, fechando os olhos, eu podia jurar que ele estava comigo ali.

Mordi os lábios para não gemer quando a liberação chegou à ponta, voando em jatos até a parede em frente. Eu continuava apertando a cabeça, segurando seus espasmos, o resto do meu corpo sem controle, contraindo-se no mesmo ritmo.

O ar entrava em haustos pela minha boca aberta. Levaria uma eternidade para eu conseguir me acalmar.

Quando eu me senti um pouco mais humano, desliguei a água, esticando o braço para minha toalha que estava pendurada no alto do vidro blindex. Enxuguei a pele e saí do box. Então olhei para a graaande extensão do banheiro e percebi que não tinha levado roupa para trocar.

Parabéns, campeão.

E agora? Sair pelado para um quarto onde estava o cara pelo qual eu estava apaixonado, mas que não estava nem um pouco interessado em mim? Eu realmente não tinha muita opção, tinha?

Esfreguei o rosto uma última vez pra tomar coragem e abri a porta para fora.

Eu estava com vergonha, óbvio, mas tinha mesmo de tentar parecer natural. Tudo o que eu não queria era que Blaylock achasse que eu estava tentando um truque velho como aquele para tentar seduzi-lo.

Quando olhei para sua poltrona, ele estava me olhando de volta, seus olhos azuis faróis luminosos sobre mim. A boca aberta, respirando rápido, bochechas ainda mais vermelhas do que a hora em que ele chegou do frio. Apertou os olhos e tomou ar para falar alguma coisa, mas no instante seguinte estava olhando novamente para a tv.

Descongelei de onde estava e voltei a respirar.

O primeiro passo foi mais difícil, depois os outros em direção ao armário foram quase parecidos com passos naturais e descontraídos.

Blay olhava para a televisão como se estivesse vendo aquele aparelho pela primeira vez. Havia tensão demais naquele quarto. Apesar de não termos voltado a falar sobre os meus sentimentos, pra mim era cristalino que ele se lembrava muito bem.

Estava de costas pra ele, tentando pegar uma calça de moletom e uma camiseta o mais rápido possível quando senti a picada da atenção na nuca. Virei rapidamente para ele, mas ele continuava olhando estoicamente para a tela.

Rumei novamente para o banheiro sobraçando as roupas e as vesti. Escovei os dentes, respirei fundo e tornei a entrar no meu quarto.

Dessa vez Blaylock estava recostado na poltrona, seu peito subindo e descendo na cadência tranquila da sua respiração. Ele deu um sorriso. Toda a tensão de cinco minutos atrás desvanecida como se jamais tivesse acontecido.

Ou será que eu estava imaginando tudo com minha mente superexcitada?

— Vou comer alguma coisa. Você quer um sanduíche? — perguntei indo para o frigobar e o armário-copa que nós tínhamos no quarto.

— Não precisa se incomodar. — ele respondeu tranquilo.

— Que isso. Vou fazer pra mim. Qual o problema de fazer um pra você também?

Peguei o pão de forma e escolhi umas fatias do meio, que eram bem mais macias do que as da ponta. Na geladeira tinha presunto defumado. Imaginei que ele gostaria disso. Passei generosas camadas de maionese e dividi a quantidade de presunto em três partes: uma para o meu sanduíche e as outras duas para o dele. Tirei a casca do seu pão. Quando terminei ficou claro que tinha tido muito mais cuidado em preparar o sanduíche dele do que o meu.

Evitei levantar minha cabeça, mas tinha certeza de que ele acompanhou todo o processo atentamente.

Dei os dois passos que separavam minha “cozinha” da minha “sala” e entreguei um prato com o sanduíche dele. Ele recebeu o prato com deferência, como se fosse uma grande coisa eu ter feito aquilo, então levantou os olhos para mim, realmente intenso.

— Obrigado. — disse baixo.

Engoli em seco. Sei que ele não fazia por mal, mas cada movimento dele, cada respiração, enviava um choque para minha espinha.

— Não foi nada. Coma. — respondi indo me sentar na minha cama em frente.

Ele olhava para o pão, como se quisesse dizer ainda mais alguma coisa.

Não iria comer?

— Você quer que eu te dê na boca? — falei com ironia. Meu coração já tamborilava no peito, precisava ainda ficar fazendo questão de me deixar ainda mais confuso com seu comportamento ambíguo?

Ele riu como se eu tivesse contado uma piada que só ele entendesse.

Então, olhando para mim, bem dentro dos meus olhos, ele abriu a boca e deu uma grande e gulosa mordida no pão.

Oh, merda... Meu pau duro de novo.

O olhar de fome e a visão de seus dentes entrando na maciez do pão... Puta-que-pariu, quente como o inferno!

Meu pescoço. Ele morderia meu pescoço assim, com essa fome, com essa volúpia.

Meu sanduíche, por sua vez, suspenso a meio caminho da minha boca, enquanto eu olhava ele de volta mastigando, as bochechas cheias. A ponta da sua língua fez uma aparição espetacular lambendo a maionese de seus lábios. Deixa que eu lambo pra você, Blay...

Gostaria de acompanhar o caminho que a comida fazia através de seu lindo corpo. Descendo pela garganta, o pomo de adão movendo-se para cima e para baixo. Então a comida sumia pela gola do suéter vermelho.

E outra mordida sensual daquele filho da puta gostoso.

Será que eu sobreviveria essa noite?

Em poucas mordidas ele terminou seu jantar. E recostou-se como um leão saciado, ainda olhando para mim, suas pálpebras baixando preguiçosamente. Limpou os restos dos cantos da boca com o guardanapo.

Meu jantar quase intacto. A primeira mordida ainda rolando dentro da minha boca.

Ele deu um profundo suspiro e voltou a olhar para a televisão.

Ok, agora eu conseguiria comer.

Depois que terminei, levantei da cama e fui até onde Blay estava para pegar seu prato. Ele levantou os olhos para mim, segurando minha mão no prato. O toque era morno e macio. Não era possível que ele tivesse mãos tão macias malhando como um condenado para manter aquele corpo.

— Obrigado. — disse rouco.

Bastardo, assim eu não conseguiria mais fingir essa educada indiferença. Seria culpa sua se eu pulasse no seu colo de uma vez e fizesse tudo o que minha mente fértil imaginava.

Deixei os pratos sobre o frigobar, voltando para minha cama com a intenção de tentar dormir. Minha pele formigando como se tivesse sido esfolada. Dolorosamente consciente da sua presença e dos seus olhos me acompanhando.

Porra, Blay! Faz alguma coisa, caralho!!!

Você já sabe como eu me sinto. É cruel ser assim tão delicioso e sensual se sabe que não vai me dar aquilo que eu quero.

Ás vezes eu odeio você.

Deitei na cama e me cobri com o edredom. Virei pra parede porque não adiantava ficar olhando para aquela cara perfeita, aqueles lábios cheios vermelhos, os longos cílios escuros nos olhos amendoados.

Um suspiro.

Ele suspirou profundamente e tristemente atrás de mim.

Fechei meus olhos com força. Essa noite seria muuuito loooonga.

Notas finais
Gentem, não sei quanto a vocês, mas imaginar a cara linda do Blay mordendo o pão pra mim é muito quente!!

Huahahaha

Deixem reviews!!

Beijos.

Tilda