Amante Inalcançável - Ian
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Todo mundo sabe como adoro drama e conflito.
Particularmente achei esse capítulo muito emocionante.
Espero que gostem!!
Boa Leitura.
Tilda
Blaylock saía do banheiro enrolado numa toalha branca e fofa, cortesia do sempre solícito doggen Fritz. Dirigiu-se para dentro do quarto, onde Quinn estava deitado na cama completamente nu, as longas e musculosas pernas cruzadas na canela, meio sentado contra a cabeceira da cama, controle remoto na mão, assistindo ao UFC. Ele olhou o ruivo com seus olhos desiguais e deu seu sorriso torto irresistível, batendo com a mão esquerda no espaço vazio no colchão ao seu lado.
Blay teve de sorrir, e foi ao encontro de Quinn, deitando-se onde o outro lhe indicava. Quinn largou o controle sobre a mesinha, virando-se de lado para seu companheiro. Correu os dedos pelo peito do ruivo, onde a pele se arrepiava, circulou o umbigo e chegou até o nó da toalha, desfazendo-o com seus dedos frios e tirando aquele pano indesejável.
— Bem melhor agora. — ronronou no ouvido de Blay, enquanto descia os beijos pelo pescoço branco, chupando a pele levemente.
Trouxe o corpo quente de Blay para colar-se inteiramente ao seu, esmagando o quadril contra o do ruivo, mostrando o quanto estava contente em tê-lo em casa.
Blay tinha os olhos fechados, tomado pela sedução sempre infalível de seu pyrocant, reagindo da maneira mais natural aos toques precisos de Quinn.
— Quinn? — falou rouco.
— Humm? — o outro respondeu sem parar de alisar as nádegas cremosas de Blay, sem parar de beijar sua pele da clavícula.
— Você fez direito, não foi? Na faculdade?
Sentiu a cabeça de Quinn concordar contra sua pele, a ponta do nariz esfregando a curva do seu pescoço.
— Harvard. Mas não terminei, você sabe.
— Como as pessoas reagiam à você? — perguntou se afastando um pouco para poder olhar o rosto de Quinn. Ele tinha os cabelos pretos bagunçados e olhou com seu incrível par de olhos, um azul e um verde, divertido, para o rosto concentrado de Blay.
— Como assim?
— O que queria saber é se todas as pessoas ficavam prestando atenção demasiada em você.
Quinn franziu a testa rindo de lado.
— Na verdade prestavam. Afinal de contas, eu tinha vinte anos, mas parecia um moleque de doze. Tinha de ficar explicando que tinha problemas com o hormônio do crescimento e essas besteiras que a gente inventa pra poder se misturar ao humanos. Por quê? Está com ciúmes?
— Não é isso... — Blay disse e abaixou a cabeça. — Não está sendo assim pra mim, sabe? Na verdade está ficando difícil me concentrar com toda aquela gente pensando o tempo todo.
— Maas... Elas pensam sobre você? — Quinn perguntou, dando ênfase à palavra “sobre”, inclinando o rosto para o lado.
— Éé... Mais ou menos...
— Elas desejam você, é isso?
— É. — Blay hesitou, mas disse a verdade.
A vinculação de Quinn saturou o ar imediatamente. E ele trouxe Blay de volta para perto, esfregando nele o seu almíscar.
— Você é só meu, cê sabe, né?
— Claro que sim... — olhou a boca aberta e rosa, que se oferecia à sua frente e mordeu o lábio de Quinn com seus incisivos, sem cortar a pele. — Mas é realmente chato tentar estudar com um monte de gente em volta pensando alto, me deixando surdo... Nem os fones de ouvido com hip-hop estão adiantando.
— É que você é delicioso e irresistível. Me transformou de um hétero galinha em um viado fiel.
Blay riu.
— Esse cara com quem eu saí hoje...
— Tá louco por você, adivinhei? — Quinn voltou a beijar o peito de Blay, descendo pelo seu corpo.
— É... — e suspirou quando sentiu a língua molhada circulando um dos seus mamilos.
— E o que você vai fazer pra resolver isso? — Quinn beijou e sobrou sobre a pele molhada.
— Já fiz.
— Bom garoto... — e desceu a mão pelo lado do quadril, chegando bem perto da ereção do ruivo, sem tocá-la. — Então deixa eu fazer contigo o que ele não pode.
Quinn levantou o rosto, dando sua risada mais safada para Blay, lambeu os lábios, deixando-os molhados e vermelhos, e se encaminhou ainda mais para baixo pela sua barriga.
Blay deitou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos para desfrutar o talento sem igual de Quinn.
***
Tinha um elefante de duas toneladas sentado na minha cabeça. Só podia ser.
Eu estava deitado de bruços, a acara afundada no travesseiro. Estiquei o braço para a direita procurando mais alguém na minha cama estreita. Não havia ninguém. Eu não estava em Dallas. Não havia uma beldade loira de peitos grandes dormindo comigo.
Abri os olhos para um mundo estranho que rodava. Achei que ia vomitar. Respirei fundo e deitei de costas na cama esperando que minha pressão se normalizasse.
Na escrivaninha sob a janela o Japonês já estava estudando, o que não me surpreendeu. Eu olhei pra baixo e percebi que ainda estava vestido com meu casaco de capuz, calças jeans e ainda tinha os tênis calçados.
— Japa, que horas são? — perguntei grogue, a saliva uma pasta grossa na minha boca. Ele se surpreendeu com o som da minha voz. Devia estar muito concentrado estudando. Como sempre.
— Ahn... Quase uma.
— Quase uma?!?! — levantei de uma vez. O que só me fez ter o trabalho de deitar de novo quando o mundo escureceu e minha pressão foi à zero. — Caralho!
A porta se abriu de uma vez.
Sem bater, sem se anunciar, quem era? É claro que minha irmã estava vindo para me dar seu bom dia habitual, assim como fazia na nossa casa em Dallas, sempre na esperança de encontrar uma garota comigo e deixá-la constrangida.
— Caralho, seu inútil! Estou te ligando desde manhã e você não atende essa porra de celular!
— Me esquece, Eve. Nem sei onde está a merda do aparelho. — falei sem muita empolgação. O elefante dançava polca russa na minha têmpora.
Ela veio e jogou-se sentada na minha cama. O que fez com que minha cabeça desse uma pontada particularmente forte. Kirstin tinha vindo com ela e estava na porta, com a cara muito contrariada, sem olhar para mim.
— Aaaaii... — gemi, apertando a testa com os dedos.
— Desembucha logo!! — ela disse. Sua voz era aguda demais e alta demais.
— O quê, cacete?
— Como foi ontem? Seu encontro com o Paul. Como foi?
Me sentei novamente. Estava sem paciência para começar com aquela besteira de encontro novamente. Kirstin revirou os olhos bufando de onde estava.
— Eve, às vezes penso que minha mãe jogou o bebê fora e criou a placenta. Você é muito chata, cara! Um encontro é quando, eu: o cara, chamo uma garota pra sair. Depois eu trago ela para meu quarto, mando o Japonês pastar e trepo a noite toda. — respirei. — Ontem, eu: o cara, chamei o Blay: outro cara, para tomar uma cerveja num pub. O nome disso é “ir à um pub com um colega de faculdade pra catar mulher”.
— Mas você está afim do Paul.
— Não, Eve. Você está afim do Paul. Isso de você achar que eu estou afim se chama projeção. Você vai aprender no sexto período em “Psicologia Médica”. — falei e me levantei para ir ao banheiro lavar o rosto.
— E não aconteceu nada? — ela perguntou da minha cama, virando-se para olhar meu ritual. Nessa hora vi pelo espelho que Kirstin, disfarçando muito mal, prestava atenção no que a gente estava falando.
Tentei me recordar dos pontos, mas tudo ficou embaralhado e minha cabeça começou a doer alucinadamente. Lembrei vagamente de entrar no pub, sentar no balcão e pedir duas cervejas, depois não lembrava nada. Só uns flashes confusos de Blay e eu conversando e rindo. Ele falou um palavrão, coisa que me deixou surpreso, disso lembrei corretamente. Depois não tinha mais nada.
— Não sei. Não me lembro. Acho que bebi demais. — a ressaca estava me matando. De verdade.
— E quem te trouxe pra casa?
— Sei lá! Talvez eu tenha conseguido chegar sozinho. Cê sabe, deus protege as crianças e os bêbados.
— Um cara gigante de cabelo vermelho te trouxe. — o Japa falou da sua escrivaninha.
— Que vergonha, Adam. Agora mesmo é que não vai conseguir nada com ele. — Eve disse. Ela sabia ser desagradável.
— O que ele falou? — perguntei em seguida, indo até o Japonês, que tinha parado de escrever e se virado para nós. E, mais incrível que isso, ele nos olhava sem abaixar a cabeça. Acho que estava começando a virar ser-humano.
— Nada. Disse que você estava passando mal. Eu mostrei qual era sua cama, ele te deitou ali e se despediu.
— Jura? — tentei lembrar de algum coisa, então tive de sentar porque senti um soco de dentro pra fora do meu cérebro.
— Adam!! — Eve gritou. Segurou meu rosto com as duas mãos e seu semblante, sempre sarcástico e desdenhoso estava mesmo assustado. — Você está sangrando!!
Senti um líquido quente saindo do meu nariz. A gota de sangue atingiu meus lábios e eu cuspi aquele gosto ferroso e agridoce.
— Não estou me sentindo muito bem... — disse antes de desmaiar.
O cheiro do éter me acordou antes de eu abrir os olhos. Em seguida percebi as vozes sussurradas, passos delicados em volta de mim. Alguém choramingava, fungando baixo. Era Eve. E Eve chorando era um acontecimento e tanto.
— O que aconteceu? — perguntei. Minha voz saiu raspando da garganta.
Pigarreei e apertei os olhos contra aquela luz mortiça dos quartos de hospital.
Ela levantou-se da minha cabeceira, onde segurava minha mão, e com os olhos muito vermelhos me deu um sorriso.
— Oi Adam. Como você se sente?
— Com sede. — respondi àquela solícita irmã. — Por que estou no hospital?
— Você teve um sangramento no nariz e depois desmaiou, então Mitsuo, Kris e eu te trouxemos para cá.
— E...?
— Ainda bem que você teve esse sangramento, porque assim aliviou a pressão intracraniana.
O Japa estava parado em pé na porta como um segurança olhando para nós. Kirstin estava sentada no sofá de frente com uma caixa de Kleenex quase vazia ao lado, sua cara inchada e vermelha.
— Eve. — Mitsuo chamou, os braços cruzados no peito, o olhar duro, maxilar trancado. — Vamos lá fora?
Ela o olhou e assentiu, em seguida me deu um sorrisinho, se levantou e saiu. E eu fiquei com uma cara de idiota sem ninguém ter esclarecido porra nenhuma.
***
Blaylock vinha alarmado pelos corredores do hospital universitário. Sua testa perfeita tensionada pela preocupação. Foi até o balcão da recepção pedindo pelo quarto do Adam.
— Trezentos e doze. — e enfermeira falou no seu tom automático e profissional, sem desgrudar os olhos da tela.
Ele agradeceu. A mulher não ouviu ou ignorou. E ele subiu os degraus para o terceiro andar, sem paciência de esperar pelo elevador.
Na porta do quarto o colega de Adam o esperava. Deu um passo à frente para impedir Blaylock de entrar, colocando seu corpo como anteparo. É claro que ele jamais seria impeditivo para Blay entrar se quisesse. Com uma única mão Blay poderia esmagar a traqueia daquele humano e jogá-lo através da janela, mas não iria fazer nada parecido. Respeitaria aquela atitude protetora em relação à Adam. Afinal de contas ele era o culpado pelo cara estar no hospital.
O colega de quarto de Adam apontou o dedo para o peito do ruivo, sem sequer desconfiar da atitude potencialmente perigosa que tomava, e mandou-o ficar do lado de fora, enquanto entrava no quarto de hospital onde o loiro recebia tratamento. Voltou em seguida.
A irmã de Adam, Eve, saiu logo depois, fechando a porta suavemente, rindo para dentro do quarto de forma tranquilizadora. Mas foi só a porta se trancar que toda a sua feição angélica se transformou.
— O que você fez com meu irmão, seu lixo? — praticamente pulou sobre o pescoço do ruivo de quase dois metros de altura, agarrando o colarinho do seu casaco e chegando seus dentes arreganhados perto de sua cara chocada. Falava baixo para que Adam não conseguisse ouvir de dentro da unidade de tratamento.
A culpa amarga apertava seu peito, mas não havia nada que ele pudesse dizer para a garota que fosse diferente do que disse em seguida.
— Eu? Você tá maluca, porra?!? Acabei de descobrir que ele estava no hospital quando você me ligou há meia hora atrás! — arregalou seus olhos azuis e olhou diretamente nos outros olhos, mostrando sua consternação e preocupação.
— Não sei o que aconteceu ontem, mas o que quer que você tenha feito com ele, deixou seu cérebro mole como um pudim. Eu quero saber agora o que aconteceu! — ela exigia, apertando ainda mais o tecido entre seus dedos finos.
— Eve, — Blaylock disse tentando manter a calma. — até eu o deixar em casa nada tinha acontecido de mais! Fomos ao Jack’s, tomamos cerveja, e só cerveja, até umas duas e meia, três da manhã. Saímos de lá e ele parecia bem, mas na rua ele mal conseguir andar de tão bêbado. Me preocupei com a sua condição de chegar em casa e o levei para o seu dormitório. O cara ali — apontou para Mitsuo que continuava olhando crítico para os dois conversando, com seus braços ainda fortemente cruzados no peito e uma expressão neutra. — me viu quando entrei e coloquei Adam perfeitamente bem na cama!
A furiosa mulher soltou o casaco de Blay, ainda olhando seus olhos desconfiada. Todo o encanto por Blaylock desfeito a partir do momento em que ele tinha magoado sua família.
O ruivo conseguia farejar cada pensamento raivoso que ela lhe jogava. Mas era insensato responder às suas indagações não verbalizadas. Respirou fundo esperando pelo próximo round de ofensas.
Mas elas não vieram.
O rosto de Eve se suavizou um pouco, mas ela continuava preocupada. Blaylock não suportou mais e perguntou.
— E então, Eve? Não vai me dizer o que aconteceu com ele? Estou tão preocupado quanto você!
— Tão preocupado quanto eu, que sou irmã? Me poupe, Paul. — ele continuou calado. Falar só iria fazer com que ela perdesse o foco e ficasse cada vez menos inclinada a lhe colocar à par da situação real.
Eve respirou fundo. E foi para um dos sofás da sala de espera. Blay a seguiu, porém Mitsuo continuou de pé guardando a porta do quarto de Adam.
— Os médicos disseram que foi como se ele tivesse a Síndrome do Bebê Sacudido. Seu cérebro estava inchado e sangrando, porém sem lesões externas que explicassem o porquê disso. — ela disse passando as mãos pelos cabelos loiros que lhe caíam sobre o rosto.
— Só que um adulto não pode ter a Síndrome do Bebê Sacudido porque não há mais o espaço intracraniano para que o cérebro ricocheteie. — Blay completou.
— Exato. Não tem explicação.
— Então como é que você acha que eu posso ter alguma coisa a ver com isso? — Blay engoliu em seco e tentou a sua cara de inocente mais convincente que tinha.
Eve apertou os olhos, avaliando o ruivo, mas respondeu mesmo assim.
— Você foi o último que esteve com ele quando ele ainda estava bem. Vai que deu alguma coisa pra ele que fudeu os miolos do Adam? Não sei!
— Com certeza os médicos fizeram exame toxicológico nele pra ver que substâncias ele tinha no sangue, não fizeram?
— Fizeram. — Eve respondeu simplesmente, enquanto abaixava a cabeça e apoiava na mão.
— E...? — Blaylock estendia a mão esperando que a resposta fosse dada como um presente.
— Só álcool. E nem era muito.
— Eu tô falando. Não tenho nada a ver com isso — “mentiroso”, sua consciência sussurrou. — Você pode deixar eu entrar e ver como ele está?
Mitsuo descruzou os braços na porta, se ajeitando em pé.
— Ok. — Eve balançou a cabeça para os lados. — Olha, desculpa aí eu ter te acusado. Mas é que quando mexem com meu irmão eu simplesmente não me controlo.
— Eu te entendo. Quando mexem com um dos meus irmão também, é como se fosse comigo.
— Tá, que seja. — ela se levantou. Por um lado era bom ter menos uma pessoa enviando seus pensamentos carregados pera a sua cabeça, Blaylock pensou.
Ele se levantou em seguida e a seguiu de volta para a porta do quarto de terapia intensiva.
— E aí, vai entrar ou vai ficar só olhando a porta? — Eve tinha a cara de desdém mais engraçada para Blay. Ele quase riu, porque no seu rosto bonito, de maçãs rosadas, nariz arrebitado e boca cheia, essa expressão era quase cômica.
Mitsuo cedeu passagem para Blay.
— Oi. — o ruivo disse quando entrou no quarto.
Kirstin estava sentada na poltrona, ainda os olhos vermelhos, os cachos largos dos cabelos escuros em volta do rosto, caindo como cascatas pelo colo. Blay notou que ela era muito bonita e que olhava com muito carinho o loiro que repousava, respirando calmamente, naquela cama impessoal de hospital.
Em volta de Adam aparelhos de monitoramento, pressão intracraniana sendo medida a intervalos curtos através de um parafuso que entrava no seu crânio, alguns fios grudados na cabeça, agora careca, do rapaz. Uma imagem certamente perturbadora. Adam deu um sorriso quando Blay entrou e isso foi suficiente para que uma culpa do tamanho do Grand Cânion caísse sobre o ruivo. A garota morena se levantou murmurando algo como “Vou deixar vocês à sós” e saiu pela porta sem olhar para nenhum dos dois.
***
Eu estou me sentindo meio grogue com esse monte de remédios que estou tomando. Porra, hospital é um troço realmente chato. Ainda mais com todo mundo me olhando como se eu fosse morrer a qualquer minuto. A Kirstin fica me lançando esse olhares de piedade totalmente contrários à sua natureza. Até ela parece outra pessoa.
Falando nela, foi lá pra fora com o Japa. Eu estou ouvindo eles cochichando alguma coisa, mas não dá para saber o que é.
Ai cacete, que merda fodida... Pelo menos tem uma janela pra eu olhar o céu escuro. Pelo menos não sinto mais dor.
De repente a porta se abre e ninguém mais, ninguém menos que Paul Blaylock entra. Meu sangue esquenta no mesmo minuto e eu não tenho como evitar um sorriso.
— Oi. — ele diz com a cabeça vermelha cabisbaixa. Passa os dedos pelos cabelos ajeitando o que já está perfeito.
Kirstin teve a decência de ir embora. Eu queria muito ficar à sós com Blay. Espero que ele não tenha notado isso, porque duvido que esse cara seja chegado em homens como eu descobri que sou. Ou melhor, que sou chegado pra cacete a esse ruivo especificamente.
— Gostou do meu cabelo? — perguntei passando a mão na pele da cabeça que era áspera dos pelos raspados. — E do chifre?
Ele riu. Tão lindo... Puta-que-pariu... Esse cara era um tesão. Mesmo todo fudido como eu estava, sentia que me endurecia de pensar nele.
Veio sentar-se na poltrona ao meu lado, as costas curvadas, apoiando os cotovelos sobre os joelhos.
— Ficou legal. Tá igual meu irmão Z... Zachary. — deu um suspiro profundo e, eu juro, pareceu que ele ia pegar minha mão, mas parou no último momento antes de fazer o movimento. — Como você está?
Sei que pode ser exagero da minha parte por causa da vontade tremenda que tinha de ter aquele ruivo pra mim, mas achei que ele me olhava como se realmente se importasse comigo e aquilo não fosse só uma visita social.
Poderia ter respondido que estava bem, como estava respondendo para todas as pessoas, mas não dava pra mentir ou ser reticente com ele. Porra, eu queria gritar que estava louco por ele e não podia. Então não hesitei em falar a verdade.
— Na verdade estou me cagando de medo. — falei olhando dentro dos seus incríveis olhos azuis. — Você e eu sabemos que isso que está rolando no meu cérebro não é legal.
Ele me encarava sem piscar. E eu pude ver perfeitamente as lágrimas se formando na sua pálpebra inferior. Foi muito chocante, como um soco direto no peito. E toda a fortaleza que eu estava segurando desde que o médico tinha vindo falar comigo explicando que a pressão e o inchaço no meu cérebro não estavam cedendo e que eles não podiam fazer nada mais senão esperar, arrebentou-se naquela hora.
Minhas lágrimas desciam como pequenos rios nas minhas bochechas. E os meus soluços estavam assustando atá a mim. Cobri meus olhos com as mãos porque realmente não queria parecer ainda pior do que já estava em frente ao Blay.
Eu senti meu tempo realmente se esgotando. Pareceu tão surreal que, de um dia para o outro, minha vida fosse algo tão frágil e tão efêmero. Algo que poderia acabar dali a poucas horas. E eu realmente tinha muito o que fazer antes de partir. Claro que não achava justo.
Senti primeiro o perfume e depois o calor. Então seus braços delicados e gentis estavam em volta de mim apesar dos fios todos. Ele me surpreendia com o jeito preciso e suave apesar da enorme força física, que eu podia comprovar naquele momento quando pude sentir músculos de aço em volta de mim. Ele era aquele tipo de cara contra o qual você não quer estar numa briga de bar, mesmo se você tivesse mais três amigos contigo.
— Paul...
— Me chame de Blay. — ele falou com sua voz de barítono contra o alto da minha cabeça careca.
— Não tenho certeza se vou conseguir sair dessa...
— É claro que vai. — ele respondeu imediatamente.
— Quer calar a boca, por favor e me escutar? — empurrei ele delicadamente — Olha pra mim.
Sei que eu não era a melhor pessoa para se olhar naquele instante. Minha aparência não devia estar das melhores, com olheiras e sem cabelo, mas algumas coisas precisam ser ditas cara-a-cara.
— Você e eu, a gente não se conhece a muito tempo, Blay. Mas não tenho muito tempo de ficar rodeando as coisas. — disse percorrendo seu rosto vermelho com os olhos. Ele tinha o nariz congentionado e os olhos inchados, mas não chorava mais. — Estou assustado com tudo. Com esse troço inexplicável que está acontecendo no meu cérebro, mas também com esse troço que está acontecendo aqui. — coloquei a mão sobre meu peito. Ele me ouvia calado, sentado na cama, segurando uma das minhas mãos com força. — Não sei por que, mas acho que estou apaixonado por você.
Ele piscou os olhos novamente para derrubar as gotas penduradas nos seus cílios inferiores. Isso me fez voltar a chorar.
— E é uma bosta saber que posso não ter tempo de ouvir sua resposta.
Ele voltou a me abraçar. Dessa vez com mais força. Ouvi ele falando algumas palavras numa língua estrangeira, que pareciam algum tipo de oração. Imediatamente me senti mais calmo. Minha respiração foi cada vez se desacelerando mais e mais. Então meus olhos se fecharam definitivamente.
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