Amante Inalcançável - Ian
4 Capítulo 4
Biblioteca.
Era o lugar onde o Japonês mais gostava de ir no mundo inteiro.
Adivinha por quê?
Que pensou “Eve” ganhou um ingresso pro Central Park com direito a sentar no banco, rolar na grama, falar com o guarda e dar comida pros patos.
Eve estava gloriosa no seu moletom de capuz verde escuro grande demais, apesar de hoje estar mais quente, os cabelos loiros lisos jogados de qualquer jeito sobre os ombros, enquanto gritava com um calouro sobre o prazo estourado de devolução de um livro.
Mitsuo suspirou. Eu não tinha nem coragem de desfazer aquela ilusão de que o coração de Eve estava completamente comprometido por um gigante de cabelos vermelhos.
E como se fosse conjurado por mim, o diabo apareceu pela porta dupla.
Sei lá, mas até parecia que o tempo parava quando ele vinha pelo corredor.
Eve falou que ele sempre chegava por volta das seis horas para devolver seus livros e alugar novos ou renovar o que quer que estivesse lendo. Desconfiei que isso fosse unicamente por conta do charme irresistível da minha irmã e pelo fato do turno dela estar acabando. Talvez eu estivesse enganado.
Ele veio e estava tão perfeito como sempre. Acho que tinha inveja da perfeição do cara. O cabelo estava sempre vermelho e brilhava como se ele fizesse aquelas merdas que a mulherzinhas fazem no salão. Nunca vi o cara com uma roupa amassada ou velha, a não serem as calças Seven stonadas de propósito. O cara tinha os olhos mais azuis do mundo, com a franja ruiva sombreando a pele perfeita do rosto. Como ele era tão ruivo, com a pele tão imaculadamente branca e sem sardas, pra mim era um mistério.
— Oi Eve. — ouvi ele falando para minha irmã no balcão enquanto colocava seus livros sobre o mármore sem fazer barulho.
— Paul. — ela respondeu. Sua voz era tão melada que eu não reconheci.
Eu tentava ser discreto e olhar com o canto do olho. Outras pessoas não eram tão educadas e ficavam prestando atenção à conversa com atenção exagerada. Será que era assim onde quer que ele fosse?
— Histologia e bioquímica estão disponíveis?
— Ahn... Deixa eu olhar pra você. — ela disse, se atrapalhando com as fichas.
Patética... Patética! Eu jamais estaria assim tão nervoso se fosse pra mim que ele estivesse pedindo alguma coisa! Eu jamais estaria vestido como um mendigo, com a cara desenxabida, sem maquiagem...
Mas que porra!! Que diabos eu estou pensando?...
Levantei deixando o Japonês no mesmo lugar. Ele nem notava que eu estava ali. Era só Eve para o cara.
— Paul! — falei assim que encostei no balcão. Eve estava do lado de dentro, com certeza procurando o que Blaylock queria. Se eu fosse ela já teria separado. Ela era meio obtusa às vezes.
— Adam! E aí, cara, todo bem? — ele falou enquanto trocava a mochila de lado pra apertar minha mão. A mão dele era quente e firme.
— Tranquilo... Eve disse que você vem aqui todo dia.
— Quase todo dia. Sempre tem alguma coisa que eu preciso estudar. Não dá para comprar todos os livros.
— Eu devia ser mais como você.
— Que isso... Com certeza não deve precisar estudar tanto como eu. — ele riu. O sorriso de lábios fechados.
— Quem me dera... — não consegui, juro, desgrudar os olhos da sua boca. Estava tão vermelha que me lembrava de Kirstin com seu gloss de cereja Victoria’s Secret. Mal distingui o que saía da minha boca em seguida. — Escuta, você não quer sair um dia desses pra tomar alguma coisa?
— Claro! Pode marcar. — ele respondeu. E sorriu de novo. Eu abri minha boca mas minha mente estava meio vazia. — Amanhã depois da aula? — ele falou.
— Ahn... Certo. Perfeito. — caralho... Que gosto devia ter a língua dele que aparecia tão rosada entre os lábios quando ele falava?
— Tô indo agora. Adiantei Sistema Nervoso do próximo semestre e se eu não prestar muita atenção vou me ferrar. — ele disse ajeitando novamente a mochila nos ombros. — Então amanhã a gente se fala.
— Telefone? — perguntei quando deveria ter dito “Quer meu telefone?”
— Oh, claro! Tem um papel?
Sacudi minha cabeça. Ele tinha aceitado meu convite?
— Esquece, me dá sua mão. — ele estendeu a sua e puxou a minha palma de cima do balcão. Escreveu oito números com uma caneta que fazia cócegas, apertando o botão no mármore escuro. — Aqui. Pode me ligar amanhã à noite pra marcar o lugar.
— Claro. — Engoli seco. Minha garganta estava estranha, arranhando as palavras.
Minha irmã voltou dos corredores das estantes trazendo os dois livros que Blaylock tinha pedido. Ele sorriu pra ela, em seguida sorriu para mim, os olhos apertados e o azul ainda mais destacado pelos seus cílios vermelho-escuros.
— Amanhã a gente se vê, então. Tchau. — disse com os livros embaixo do braço, saindo meio de costas, como se estivesse tão feliz em sair comigo como eu com ele.
Depois que passou pelas portas Eve me olhou com seu olhar maligno.
— Onde você pensa que vai com ele?
— Vai se fuder, Eve. Vamos tomar uma cerveja! — respondi, me afastando do seu balcão para voltar pra mesa onde o Japonês ainda olhava para ela de rabo de olho.
— Adam. Aqui. Agora.
Voltei, porque quando ela falava assim com os dentes trincados era potencialmente perigoso. Principalmente se você não estivesse particularmente interessado em perder um membro ou dois.
— Dá a volta no balcão que eu quero falar contigo em particular.
Suspirei. Contornei a bancada de mármore e fui para trás das prateleiras onde Eve tinha ido se esconder. Quando cheguei lá ela apontou o dedo para meu peito.
— Que porra é essa, Adam, você tá afim do cara!
— Vai se fuder, Eve!! — repeti indignado — Eu sou homem, que porra!
— Homem ou não, você tá afim do Paul.
— Ah, não vou ficar discutindo isso contigo. Imbecil. — me virei para sair e Eve segurou meu braço.
— Adam. Olha pra minha cara e diz que você não tá afim do Blaylock.
— Qual parte do “eu não sou gay” você não entendeu? — falei revoltado enquanto ela continuava segurando meu braço.
— Caralho, seu animal, você não precisa ser gay. Eu não estou dizendo isso, mas você está se sentindo atraído por ele. Sim ou não?
Sim.
— Não. E me solta. — respondi.
Saí da biblioteca como se um cachorro com raiva estivesse querendo morder meus calcanhares. O Japa ficou na sua mesa eterna e eu nem liguei. O “sim” que eu quase disse martelava na minha cabeça.
Como assim eu estava afim de um cara?!?!
Eu estava afim? Pior que estava. Que merda...
Que merda, que merda...
Meu pai iria me matar... Esse era o tipo de paixão que eu teria coragem de levar em casa. Eu lutaria por ele. Até com minha irmã se fosse preciso. E talvez fosse. E Eve era desleal, mas eu conhecia cada truque na sua manga. Isso era uma vantagem, sem dúvida.
Mas que merda eu estava pensando!! Caralho!
Era um cara!!!!
E mesmo assim eu não conseguia parar de pensar na boca vermelha e como seria seu gosto, e como seria o sabor da sua língua, e o seu cheiro entrando no meu nariz. Afundar meus dedos naquele cabelo vermelho, puxando ele para cada vez mais perto até eu não saber mais onde ele terminava e eu começava.
Será que sua pele era tão perfeita pelo resto do corpo como era no rosto? Será que era tão branca e macia? Será que ele tinha pelos vermelhos no peito? Nas pernas? Na virilha?
Minha calça apertava a ereção dolorida que eu estava tendo. Tive de entrar num banheiro e me acalmar pra não andar por aí com aquele volume evidente na frente.
Respirava rápido. O ar entrando e saindo me deixando ainda mais nervoso.
Fui para um reservado em dúvida se devia abrir a calça ou não. Abri. Meu pau pulou pra fora duro e grande, meio pulsando. E o que eu deveria fazer com aquilo que doía e pulsava?
Fiz o óbvio. Apertei a cabeça, segurando a pele macia em volta para escorregar ela para a ponta e de volta. E novamente. Devagar.
Respirava no mesmo ritmo da minha mão. Queria tirar toda a roupa, mas estava frio naquele banheiro impessoal. A qualquer momento entraria alguém. Não ia me ver, mas eu queria só por uns momentos estar sozinho. Sozinho com meus pensamentos e minha fantasia sobre Blaylock. Só por um momento eu queria imaginar que fosse real ter a sua boca contra a minha e a pele quente e elástica para eu beliscar e morder.
Estava ficando cada vez mais gostoso ele ali comigo. Quase sentia seu cheiro amadeirado e quase ouvia ele gemendo. Minhas mãos eram quase sua boca. E eu quase sentia sua língua duelando com a minha.
O orgasmo chegou destruindo meu autocontrole. As minhas pernas fraquejaram e eu ia caindo no chão mais ou menos limpo do reservado se não fosse minha mão esquerda que se apoiou na parede atrás do vaso. Os jatos acertaram a tampa aberta escorrendo viscosos para baixo. E eu continuava a mover a mão, mordendo os lábios para não soltar um palavrão.
E quando acabou me senti meio ridículo.
Que vergonha, meu deus! Assim por causa de outro cara!!
Que nojo!
Arranquei o papel do rolo gigante da parede para limpar a tampa e sua arte moderna em alto relevo de gosma branca. Esfreguei meus dedos com força e fechei o zíper da calça antes de sair do reservado.
O banheiro continuava tão vazio como quando eu entrei.
Fiquei olhando para minha cara no espelho enquanto lavava a mão com aquele sabão anêmico de banheiro público. Conhecia aqueles olhos azuis claros e as sobrancelhas e cílios loiro escuros, o cabelo liso demais e sempre difícil de arrumar que eu mantinha bem curto pra sua franja não cair nos olhos. Conhecia aquela cicatriz sobre o supercílio direito de quando eu tinha dado com o chifre na borda da piscina durante uma exibição de saltos mortais para trás há dez anos. Mas aquele que me olhava por trás do rosto familiar era um estranho. Era a porra de um macho que estava afim de outro macho.
Dei as costas e saí dali antes que minha cara me enlouquecesse.
Eve estava sentada na minha cama, apertando meu travesseiro entre os dedos enquanto me observava entrando e saindo do banheiro, me arrumando para sair com Blaylock.
O Japonês estava tão duro que eu acho que se derrubasse ele no chão ele quebraria em mil pedaços. Segurava a caneta com tanta força que seus dedos estavam brancos e nunca, jamais, se virava para onde Eve e eu estávamos.
— Que horas você marcou com ele? — ela perguntou entre um dos meus vais-e-vens.
— Meia noite. — respondi.
— Pra onde vocês vão?
— Pra qualquer lugar. Na hora a gente vê. — falei como se meu estômago não estivesse se revirando.
— Ele vem te buscar?
— Não. Vou encontrar com ele lá embaixo em... — olhei para meu relógio de pulso Swatch — ...sete minutos.
— Hum. — ela resmungou.
— Porque você não parou de reclamar e perguntar e se arrumou. Aposto que ele não iria se importar se você fosse junto.
— Porque é um encontro seu e eu não quero atrapalhar. — ela disse com a cara afundada no travesseiro.
— Para de falar idiotice! — olhei para o Japonês. Se ele não suportava ficar à vontade num quarto com uma garota, muito menos com um colega bicha. — Cismou com isso de encontro. Por que tomar uma cerveja com o cara tem de ser algo tão complicado?
— Porque você gosta dele. — ela disse ainda com a cabeça abafada pelas penas de ganso.
— Ah!! — bufei. — Ok, tô saindo. — peguei minha chave no gancho. — Vou deixar você tomando conta do Japonês. E, Mitsuo, por que você não conta pra Eve aquela estória do seu nome? Ela iria gostar.
Falei e saí. Sabia que Eve iria importunar o Japa para saber do que eu estava falando e me deixaria em paz. Até eu voltar, pelo menos.
Desci as escadas e tinha certeza de que ele era daquelas pessoas que jamais se atrasam. Ele chegava pelo outro lado da porta quando em desci no hall.
— Oi. — falei primeiro antes que minha capacidade de articular ficasse muito prejudicada pela garganta se apertando.
Ele sorriu franzindo ou olhos, as mãos ainda nos bolsos.
Meu coração tinha palpitado quando o vi da mesma maneira que palpitou antes de Peg Sue ter deixado eu dar meu primeiro beijo no caminho da escola pra casa quando eu tinha doze anos. Por quê Eve sempre tinha razão?
— Vamos? — ele perguntou, ainda sorrindo.
— Cara, não precisava ter vindo até aqui pra me acompanhar. Eu poderia ter te encontrado no pub ou em qualquer outro lugar mais perto pra você.
— Ih, não esquenta. Você não tem ideia de como é rápido para mim vir de Caldwell pra cá. — ele soltou uma risada pelo nariz.
Era muito charmoso ele se conter e não sair por aí gargalhando com a boca aberta como o resto dos mortais comuns.
Estávamos no balcão do bar. Era de vidro e tinha aquelas luzes azuis por baixo. E se fosse possível, Blaylock estava ainda mais lindo apoiado nos cotovelos com a luz vindo por baixo. Ele olhava para mim diretamente. Eu é que nem sempre tinha coragem de sustentar seu olhar.
— Cidade? — ele perguntou.
— Nova Iorque. — respondi.
— Nova Iorque? Achei que seria Dallas.
— Não mais. E você?
— A boa e velha Caldie. — ele riu e deu um gole na sua cerveja direto do gargalo. Eu estava hipnotizado pelo movimento do seu pomo de adão.
— Não conheço Caldwell.
— Quer conhecer? A gente podia sair por lá uma noite, o que você acha?
Ele me levaria para a cidade dele... E depois para a casa dele? Tomara que sim. A desculpa seria perfeita. Eu acho que ele estava flertando comigo e esse pensamento foi o suficiente para esquentar minhas bochechas.
— Quero sim. Do jeito que você fala Caldwell é uma excelente cidade.
— Nah. Nem tanto assim. Mas é um lugar de onde não tem como eu sair, então a solução é gostar de lá.
— Ué, por quê?
— Por que eu não posso sair de lá? — ele sorriu para si mesmo — Negócios da família.
— Você trabalha com sua família.
— É. Mais ou menos isso.
— Fazendo o quê?
— Ah... Esse assunto é tão chato, vamos pra próxima pergunta. Sua vez. — ele desconversou evidentemente.
O que será que sua família fazia? Será que ele era de uma família de mafiosos? “Blaylock” parecia um nome russo, sei lá. Será que estava saindo com um cara procurado? Ao invés de estar preocupado achei ainda mais excitante.
— Música?
— Jazz. — ele respondeu de bate pronto.
— Sabia!
— Como?
— Você tem cara de quem não iria responder algo óbvio como hip-hop.
— Poderia ter dito heavy metal.
— Não. Muito clichê.
— E você?
— Jazz também. Apesar de caipira tenho bom gosto.
Ele riu só pra mim.
— Eu também já sabia. — apontou o gargalo da cerveja.
— É? E como?
— Você estava usando uma camiseta do Milles Davis no primeiro dia de aula. Eu sorri pra você e apontei. Mas você meio que me ignorou.
Senti meu rosto queimar. Ele tinha me notado mesmo.
— Cara, sério. Ninguém te ignora. — tomei coragem. O álcool era excelente para isso e eu já estava na quarta cerveja. — Na aula inaugural cada pessoa daquela sala estava olhando pra você. Até aqui nesse bar, um monte de gente está olhando para cá agora.
Ele olhou em volta e deu um sorriso. O barman trouxe outra cerveja antes de ele pedir, com um descanso e a chapinha já aberta. Blaylock agradeceu, em seguida voltou a olhar para mim.
— É impressão sua.
— Não é não, Blay. — olhei para ele diretamente e meu rosto se avermelhou novamente. Eu sabia que as mulheres solteiras queriam cair no seu colo, as acompanhadas não se seguravam e olhavam para cá sem parar. Os homens se sentiam incomodados pela necessidade de acompanhar o que aquele ruivo fazia, sem entender que porra de sensação estranha é essa nas vísceras que retorce e contrai o estômago a cada vez que ele se mexe.
Ele olhou para mim sério e foi como se lesse cada pensamento meu.
Em seguida voltou a dar seu meio sorriso e virou para a frente.
— Você me chamou de Blay. — ele disse depois de uns minutos tensos.
— Desculpe.
Ele riu pelo nariz.
— Que porra, Adam. Para de ser tão formal. Isso não é a porra de uma entrevista de emprego!! — ele gargalhou pela primeira vez. E falou palavrão pela primeira vez também. Meus ombros relaxaram e eu ri junto, acompanhando sua boca e os dentes muito brancos. Os caninos ligeiramente maiores que os incisivos laterais. — Todo mundo me chama de Blay. Achei engraçado você adivinhar que essa era a maneira mais comum de alguém se referir a mim.
— Esporte. — continuei.
— Os estranhos. Basquete e futebol americano, não sei... Não fazem muito minha cabeça, sabe. Gosto de futebol, soccer, você sabe.
— Você joga vôlei?
— Porra, adoro. Só não tenho quem jogue comigo porque meus irmãos são uns idiotas. Só sabem se bater.
— Você tem muitos irmãos?
— Não sei o quanto você chama de muitos, mas eu tenho... — fez as contas mentalmente, separando cada dedo. — ...seis. Comigo sete.
— Seis!! Caralho! E é todo mundo grande assim como você?
— É, bem grandes.
— E fortes?
— Bastante.
— Puta-que-pariu, a quantidade de comida na sua casa deve ser imensa.
— É. Dá para um batalhão.
— Caramba! E ninguém joga vôlei contigo.
— Não. Butch e Vi... Victor só gostam de beisebol. São fanáticos pelos Sox. Meus outros irmãos praticam artes marciais e nisso se resumem seus interesses esportivos.
— Canal UFC.
— Canal UFC. — ele repetiu balançando afirmativamente a cabeça.
— Tédio.
— Eu até que gosto, sabe.
— Ah, ok. Um cara que gosta de jazz e luta de chão.
— Ei! — ele disse já na quinta cerveja. — Eu sou muito bom em luta de chão, sabia?
— Consigo imaginar. — e conseguia mesmo imaginar ele nu no chão lutando comigo. Ou sua língua rosa lutando dentro da minha boca.
Um perfume irresistível entrou no meu nariz. Uma mistura meio indiana, de temperos e almíscar. Fechei os olhos e respirei fundo e foi como se uma fome aumentasse em mim. Alguma coisa me puxava. Era impossível dizer não.
Abri os olhos e soube que o cheiro que eu sentia era dele.
Meus ouvidos zumbiram e eu deixei de ouvir o burburinho de vozes em volta, mas ouvia as batidas rápidas do meu próprio coração nos tímpanos. Sabia que meu rosto corava, minhas mãos suavam e uma sensação febril amolecia minhas juntas.
Eu não estava só bêbado. Eu estava inebriado e iria pular sobre aquele ruivo e atacar sua boca sem me importar com quem estive em volta para ver.
— Adam? — tomei um susto. Ele me despertou de certa maneira, mas eu ainda não conseguia deixar de olhar para sua boca vermelha pronunciando cada letra do meu nome. — Tá ficando meio tarde. Eu... Preciso ir.
Não!
— Eu também. Estou me sentindo estranho. — “estou com tesão em você e quero te comer agora”.
— É a cerveja.
Não é não, parceiro.
Levantamos quase ao mesmo tempo. E, de pé, eu estava mais tonto do que imaginava. Quase fiz a cena de cair pra ver se ele me segurava. Eu estava apelando até para clichês de filmes água-com-açúcar.
— Ei. — falei antes de ele tomar seu rumo. — Por que você não vem para um treino com a equipe de vôlei um dia desses?
— Você é da equipe? — ele perguntou. Aqui fora estava mais frio. Era bom para acordar a mente.
— Sou. E a sangue novo é sempre bem-vindo.
— Que horas vocês treinam?
— Seis da manhã.
— Hummm... Não dá para mim.
— A gente faz um treino à noite por semana também.
— Bem, à noite eu posso. Que dia?
— Quartas. Ás oito.
— Perfeito. Minhas aulas de quarta só começam às dez.
— Aparece essa quarta, então. — eu disse batendo os punhos um sobre o outro.
— Apareço. Até mais. — ele se virou e simplesmente saiu andando.
Eu virei para o outro lado.
O que eu esperava?
A gente tinha saído. Passamos horas agradáveis conversando, tomamos umas cervejas, falamos de uma monte de besteiras... No fim do assunto cada um toma seu rumo e ponto final.
Meus pés avançavam pela calçada úmida. O tênis fazendo um barulhinho na água a cada passo que me levava pro meu dormitório. Cada vez mais longe. Algo martelava pum-pum-pum na minha têmpora. Um pensamento fixo. Uma vontade não saciada. Eu precisava. Precisava. Precisava de uma coisa muito importante.
Um beijo.
Eu queria um beijo.
Eu não iria conseguir dormir sem um beijo dele.
Voltei correndo no sentido oposto para ver se o alcançava. Dobrei a esquina e ele estava ainda andando na calçada deserta.
Meu peito subia e descia. Eu não pensava no que iria fazer, deixei que a parte mais instintiva do meu cérebro tomasse conta da situação.
— Blay. — chamei baixo assim que parei ao seu lado.
Ele se virou pra mim. Acompanhei em câmera lenta o movimento do seu rosto para a direita e o momento em que ele focou seus dois olhos azuis Índigo no meu rosto.
Segurei as lapelas do seu casaco, usando o peso do meu corpo para empurrá-lo contra a parede e alcancei sua boca com a minha.
Os lábios eram mais macios do que eu imaginava, suaves e molhados. Ele os entreabriu para que eu pudesse entrar e chegar até a sua língua morna e doce. Eu sugava seu hálito, respirando o que ele respirava. E era fresco como hortelã e doce como açúcar mascavo com um toque de cravo. Sentia as pontas da sua barba ruiva, que nascia no queixo, arranhando minha mão. Enterrei os dedos nos cabelos da sua nuca, trazendo ele ainda mais pra perto, colando meu corpo ao dele completamente.
Não me importava se estávamos no meio da rua, se a duas quadras estavam os dormitórios, se alguém conhecido pudesse passar e me ver beijando um homem. A única coisa que importava naquele momento era Blaylock e a necessidade destruidora de ter ele para mim.
Eu o queria. E queria agora.
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