Amante Amado
28 Vinte e oito - Vishous
Butch estava me esperando no sofá, olhando fixamente para a porta, com a TV desligada. O silêncio reinava no Buraco. Era óbvio que Rhage não estava ali, pois ele não seria capaz de manter tal silêncio.
Bom... Como eu sei disso? Desmaterializei-me no quarto, e, percebendo o clima tenso no ar, decidi averiguar antes de se fazer notada minha presença. Butch achava que eu entraria pela porta... Eu não tenho certeza do quanto ele sabe, pois ele pode ouvir várias coisas pela Irmandade, mas acho que ele não sabia desse nosso... Poder.
Decido quebrar o silêncio, entretanto não enceno com o esperado por Butch, o que o deixa desconcertado quando pergunto:
— Esperando alguém?
Ele fixa seu olhar em mim, mas diferente de quando olhava para a porta, a neutralidade se desfaz. Enxergo seus sentimentos como se fossem listras, dançando através dos seus olhos.
— O que aconteceu? O... O que aconteceu com José?! — José. De novo, José. Só se sabe de José.
— Nada — fecho o olhar, — não aconteceu nada a ele. Está são e salvo.
— Então o que você foi fazer?
— Propor um acordo. — Resmungo.
Ele parece pensar: — e ele aceitou?
— Tecnicamente, sim.
Butch se levanta, seus pensamentos estão a mil até para eu acompanhar. Assim, decido fazer como as pessoas “normais”, e esperar o que tem por vir no seu tempo certo.
— Qual é a do sumir? Porque eu estou começando a me irritar com isso.
Eu rio. — Sumir?
— É... Uma hora você estava me olhando... E na outra: pluft! — Ele gesticula com a mão, se aproximando.
— Se chama “desmaterializar”, é como se nossas moléculas se transportassem de um lugar para outro. Precisamos de concentração, e não funciona em um lugar fechado, precisa de uma brecha para sair.
Ele resmungou um sonoro “aaah”, e se aproximou mais um pouco.
— Lembra quando estávamos quebrando toda a minha casa? Por que você não usava luvas? E não tomou esses tipos de cuidados?
— Não tenho impressões digitais.
Novamente, ele resmunga um sonoro “aaah”, e, novamente, se aproxima mais um pouco.
Subitamente, tomo consciência do quão perto ele está. Sinto seu cheiro, uma mistura de cerveja e perfume masculino forte. Só que, havia uma parte de mim, interessada no seu algo mais.
Seu sangue.
Butch congela no lugar, e arregala os olhos. Estamos a dois passos de distância.
— O que aconteceu com seu olho? — Ele pergunta, quase sem mexer os lábios.
Eu sei o que aconteceu. Estão vermelhos: prontos para o ataque, considerando Butch meu próximo almoço. O que é ridículo por “N” fatores.
Eu definitivamente não pretendo morder Butch. Mas todo meu autocontrole parece se esvair com sua proximidade.
Eu o quero.
— Não! — Grito, dando vários passos para trás. — Saia daqui Butch, saia daqui AGORA!
Ele me deu um olhar ferido que partiria meu coração se eu não estivesse a ponto de matá-lo.
— Se é isso que você quer... — Ele diz, retirando-se com aquela cara amargurada estampada na sua face.
Eu me preocuparia com isso mais tarde. Agora, eu deveria achar uma vampira que me satisfaz-se, mesmo sabendo que falta pouquíssimo para o amanhecer.
Eu quase poderia ter matado Butch, mas sua expressão depois que eu, tecnicamente, o salvei de mim mesmo, parecia matar mais do que qualquer adaga.
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