Amante Amado
35 Trinta e cinco - Vishous
Butch estava se culpando. E eu deixei que ele se culpasse.
Marissa e José pareciam radiantes, nem sentiam o impacto dos próximos acontecimentos se aproximando. Eu fiquei feliz por eles e pela tranquilidade que eles me transmitiam.
Estávamos no escritório de Wrath. Nada se passou desde então, eu e Butch não trocamos uma palavra sequer, e quando nos encontramos com José e Marissa, eles também não insistiram em ter uma conversa, mesmo que de teor amigável.
— Quais são as soluções mágicas que vocês encontraram, garotos? — Inicia Wrath com escárnio. Eu não tinha encontrado solução nenhuma, só mais problemas, mas parece que essa não era a questão.
Marissa toma a dianteira — vou morar com José. Ele tem casa própria.
— Irá conversar com Havers?
— Infelizmente.
— Bom, ele esteve aqui na Irmandade ontem. E muito provavelmente voltará hoje. Pode tirar essa história a limpo o mais rápido possível, não acha?
Não posso conversar a sós com Havers! Ou ele vai me manipular. E não posso dizer isso à Wrath. Que droga, José é humano, de si próprio não basta.
— Eu e Marissa falaremos com Havers hoje. Minha presença é decisiva. — Intrometo-me.
— Tudo bem então. — Ele parecia louco para se livrar do assunto, e se concentrar no meu caso. — Você pode instalar sistema de segurança na casa de José também, Vishous?
— Sem problemas. — Resmungo. Os pensamentos de Marissa vão a mil, decido, portanto, dar-lhe privacidade. Dou uma checada em Butch, e ele está mortalmente silencioso. Já Wrath divaga sobre quais são minhas possibilidades.
— Agora, “com problemas”. E você, Vishous? — Wrath me lança um sorrisinho amistoso. Ele está mais curioso do que quer me ferrar, e posso usar isso ao meu favor.
Eu nunca demonstrei minha sexualidade abertamente, e rolam pelas bocas tudo que é tipo de suposição sobre minha pessoa. E a maior parte está certa.
Dou de ombros e decido bancar o difícil. — Simples, Butch fica comigo no Buraco, Rhage certamente não se importará.
Butch está ainda mais congelado em seu lugar.
— Vou providenciar uma cama king size para os dois. — Wrath não consegue segurar a risada. Nem eu consigo, quando completo:
— Um escravo sexual muito bonito, eu admito.
— Ei, ei, ei — Butch grita, com a voz falhando. Eu e Wrath ainda estamos dando risadinhas — vocês não podem estar falando sério. — Não consigo identificar no seu tom de voz se foi uma pergunta ou não.
— Diga-me você, Vishous. É uma piada? — Wrath apaga qualquer resquício de risada do rosto e me encara.
Dou uma coçadinha na minha barba ralinha, — talvez seja... talvez não.
— Acho que o clima está um pouco pesado — José interrompe — e que isso é assunto particular, então eu e Marissa podemos esperar do lado de fora. Não é, Marissa?
Ela olha assustada para ele, mas afirma. Wrath dá de ombros, e os dois se retiram. Butch está se desdenhando mentalmente que “ele sabia desde o começo que eu ia estupra-lo” e que “José é um traidor de deixa-lo ali sozinho”.
— Para eu considerar Butch como meu companheiro e ele ser poupado, eu terei de ser fiel a ele e vice-versa, correto? — recomeço.
— Correto.
— Entre nós, a relação precisa ser forçada?
Wrath pensa um pouco, e decidi ceder. — Entre nós, não.
— Ótimo. Agora vou ajudar Marissa a se instalar em seu novo lar. Butch já sabe como as coisas funcionam mesmo. Se me dão licença.
— Toda, Irmão.
Largo Butch com Wrath propositalmente. Quando saio da sala, noto que Marissa e José já não estão mais lá. Analiso se eles querem ou não ser encontrados, e decido procura-los. Ando por um dos corredores centrais, que dão à sala onde, normalmente, os Irmãos ficam no seu dia de descanso.
Hoje, apenas Zsadist e Phury estão na mansão. Era para eu ter ido com Rhage, mas estamos em condições anormais.
Eu, espontaneamente, ia conversar com Phury, porém eu me parei a tempo. Com certeza eles estão por dentro da minha situação, e de repente me senti compelido.
Droga.
Esse pensamento não era meu. Rapidamente dou um giro 180° graus no lugar, e me deparo com Butch vindo furiosamente na minha direção.
— Não vá embora Vishous, precisamos conversar. — Ele diz alto.
Ouço umas risadinhas no vindo da sala, que estava a poucos passos da minha posição atual. As pisadas do Butch ressoavam fortes contra o piso, e dava a impressão de um toro vindo em minha direção.
— O que foi?
Ele suspira, fortemente. Como todo e qualquer movimento que ele faça aparenta, nesse momento. Ele para e parece ouvir as risadinhas também. Isso o deixa ainda mais raivoso.
Então, reassumiu suas passadas, passando por mim e indo enfrentar quem quer que esteja rindo na sala. Eu confesso que achei hilária sua reação e que não interferiria se não precisasse.
Acompanho, timidamente, o caminho feito por ele.
Phury estava sentado no canto mais longe, e Zsadist de pé em frente a uma lareira desligada.
— Qual é o motivo da risada? — Butch profere.
Ninguém diz nada, e as risadas cessam. Phury me lança um olhar malicioso, e eu tento retribuir com um olhar “santo”. Butch encontra com meu olhar travesso, e pensa um “me siga e ignore-os”.
Caminhamos para fora da Irmandade, onde a Lua está a pino.
— Olha, Vishous... — ele começa. — Precisamos deixar algumas coisas claras.
Já estava me cansando de ouvir ele tentando dar um jeito e não saindo do lugar. Quem ia deixar as coisas claras dessa vez era eu.
— Olha aqui você, Butch. Você se meteu nessa sozinho. Você quis isso. Você precisa de mim, e me quer, mas não admite. Quer ficar colocando pingos em J’s, sendo que esses J’s estão escritos de letra maiúscula. Eu não vou fazer nada com você, nem quero. Eu posso ter quem me queria — o.k. era mentira, mas meu ego falou mais alto. — Vamos apenas conviver juntos. E essas piadas — apontei por onde tínhamos vindo, que dava em direção a sala, — são as primeiras de muitas.
Ainda que aqui, na Irmandade, fosse de brincadeira. Eles não estavam realmente tirando sarro. Mas eu ia conceder a ele o benefício da dúvida.
Assim, me retirei para os meus aposentos. E Butch não tentou me impedir.
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