Amante Amado

30 Trinta - Butch


Marissa estava inquieta ao meu lado, mas isso era de se esperar. Na verdade, eu achava que ela iria sair correndo logo de primeira.

Eu não sabia se Vishous ainda estava lá, não sabia nem se eu estava correto em afirmar que ele estava faminto.

Sentia-me humilhado e envergonhado, por ter me exposto no momento errado, e não ter previsto isso antes de agir.

Mas isso não importava agora, enquanto caminhava até o Buraco com Marissa. Como se eu carregasse a cura da AIDS na mão.

— Hum, então... Não quero te ofender, mas porque estava aqui, na Irmandade? — indago. Estávamos há alguns passos do Buraco, porém eu não queria que houvesse um silêncio entre nós.

— Wrath me chamou. — Ela diz, e acrescenta rapidamente — ele queria me informar algo pessoalmente, somente isso.

Resmungo outro “hummm”, não que eu fosse perguntar o que Wrath quis informar, mas nem teria tempo. Já tínhamos chegado ao Buraco, e eu estava com a mão hesitante na maçaneta.

Marissa pareceu perceber minha hesitação.

— Você pode entrar também, Butch O’Neal. — Ela complementa, como se esse fosse o problema.

Mal desconfia ela que o “guerreiro” não a espera.

Abro vagarosamente a porta, atiçando todos meus extintos para perceber qualquer sinal de Vishous. Dou alguns passos adentro, e Marissa me acompanha, ao meu encalço, nervosa.

Vishous?

Eu o chamo baixo, e isso descarrilha uma série de reações. Primeiramente Marissa solta um gritinho, um gritinho de reconhecimento. Depois, ela se dá o luxo de ficar ainda mais apreensiva, e com medo. Intercaladamente Vishous solta um palavrão, sua voz vinda do quarto, enquanto até poucos instantes ouvíamos barulho de coisas sendo reviradas, e logo sua voz vira berros compreensíveis, gritos. Gritos dirigidos a mim:

— Porra, Butch! Eu não mandei você ir embora daqui? Qual seu problema? Não pode nem obedecer a uma simples ordem? Você... — Ele se interrompe.

Marissa estava encostada no batente da porta entre a sala e a saída, e Vishous no batente entre o quarto e sala. Eu estava ridiculamente parado no meio do caminho entre cada porta.

Há um momento de reconhecimento entre os dois, ao qual sou excluído. Toda barulheira de minutos antes sumiu.

— Marissa... ? — Ele mira seu olhar exclusivamente nela. — O que você está fazendo aqui?

Ela solta a respiração, que parecia estar presa há muito tempo.

— E... Eu... Butch O’Neal pediu ajuda. — Ela desvia o olhar de V. para me encarar em busca de auxílio. — Eu achei curioso um humano dentro da Irmandade pedir este tipo de ajuda... Então eu decidi... Decidi...

— O.k., já entendi. — V. a corta, — eu não sei como essa situação ficou desse jeito, mas eu preciso sair, antes do amanhecer, sendo assim, tenho menos de trinta minutos.

— Vishous, espere. — Marissa retruca, tomando fôlego. — Eu posso ajudá-lo, não precisa ser assim.

— Não lhe sujeitarei a isso, não depois de tudo que você passou.

— Mas eu vim até aqui por que quis, por mais que duvidasse das intenções de Butch O’Neal, eu aceitei a isso. Deixe-me te ajudar. — Marissa suplica.

Ela suplicando por ajudá-lo? Quem deveria estar suplicando é você, Vishous. Penso, sabendo que ele me ouviria, mas não querendo dizer em voz alta para não insultar Marissa.

— Eu acho que não estou em posição de negar. — Vishous concluí. Seu olhar retorna a mim — não sei o que você quer com essa bagunça toda tira, mas ainda teremos uma conversinha.

Ele falou “conversinha” como se fosse minha mãe me repreendendo.

Afff! Além de te ajudar, tenho que ouvir um infame desses!

Marissa se aproxima de Vishous, e eu decido ficar onde estou. Com o olhar, Vishous conduz Marissa para o quarto. Eles não fecham a porta.

Sinto um clima diferente, quase sexual, no ar. Isso me deixa curioso sobre como é esse “barato de morder”. Só que eu não tinha certeza se era bem-vindo, e nem se eu realmente queria ver aquilo.

Utilizo a técnica infalível: unidunitê. Meu polegar vai da porta do quarto à porta da sala. Eu tento trapacear para cair do lado da porta da sala, mas fracasso.

Dou então alguns passos hesitantes, tentando escutar o diálogo baixo que se segue entre eles. Paro na batente da porta, onde antes estava Vishous, e vejo V. ajoelhado em frente à Marissa, que estava sentada na ponta da cama.

Ela tenciona seu pescoço para o lado, e tira o cabelo do ombro. Vishous invade seu espaço pessoal, tão próximo quanto uma vez esteve de mim. Não consigo ver suas presas, que só despontuam quanto vão se alimentar, mas observo Marissa.

Ela fechou os olhos com a proximidade de V., e no momento que ele realmente a morde, ela solta um gemido. O sentimento de invasão ficou ainda mais forte, mas ao mesmo tempo estava hipnotizado pela cena.

Repentinamente, Marissa abriu os olhos e mirou direto ao meu olhar. O embaraço venceu a curiosidade, além do mais já havia visto o suficiente. Fiquei profundamente envergonhado de ter sido pego no flagra.

Então sai rapidamente do Buraco, e decidi visitar José. Não me importando muito com a segurança. O único pensamento que me ocorreu de tudo isso, era que Marissa poderia dar a V., algo que eu nunca poderia dar.

***

O sol precipitava no horizonte, atingindo minha pele em cheio. Depois de passar alguns dias no fuso horário vampiresco, era difícil se adequar ao dia. O sol parecia queimar minha pele dez vezes mais.

Estava indo de ônibus até a casa de Jo, e graças a Deus a rota para sua casa era acessível de transporte público. Nesses momentos, lamentava perder a viatura. Liguei para ele do fixo de sua própria casa, após uma invasão meio atrapalhada pela janela.

José estava quase saindo para o trabalho, e não se importou em me deixar dormir lá, se eu o esperasse até o fim do expediente. Ele queria muito conversar comigo.

Achei justo.

A casa de José era organizada e limpa demais para um homem solteiro. Bem decorada. Então, mesmo que de contragosto, eu dobrei os lençóis em vez de apenas me atirar na cama.

Tirei minhas coisas do bolso e coloquei em cima do criado-mudo. Estava me adaptando ao quarto, aquele sentimento de “estou-dormindo-num-lugar-estranho” que normalmente se tem quanto viaja.

Soltei um suspiro e afundei minha cara no travesseiro. Não conseguia dormir, minha mente trabalhava a mil.

O toque de celular me tira da minha concentração em não pensar nada para conseguir dormir. Escuto tocar e tocar sem atender, mesmo sabendo que estou a um palmo de distância, e a ligação cai na caixa postal.

Era um celular que o Vishous havia me dado, estava grampeado e protegido de possíveis invasões.

“Porra, Butch! Onde você está? Não faça nenhuma besteira e volte para a Irmandade antes de amanhecer, ou vão pensar que você fugiu, ou sei lá. Eu ainda preciso entender o que acabou de acontecer. E... Preciso pedir desculpas. — A linha fica muda, e, depois de muito tempo, ele termina com: — até mais.”

Notas finais
Terça tem mais!!! xoxo ♥