Minha cabeça lanteja de dor.

Tomo um bom banho e decido faltar ao trabalho. Quando liguei pra delegacia José não pareceu surpreso:

— Tá bem, se cuide. Aliás, aprenda a se cuida, O'Neal.

Na primeira parte da tarde tentei juntar os pontos, mas minha cabeça não colaborou nem um pouco. Desisti, e abri uma cerveja.

Beth... Beth... Minha última lembrança com ela foi quando... Ela me interrogou! Eu precisava tirar aquela história a limpo. De que havia alguém atrás dela a meu mando.

Algo me diz que o assunto já havia sido resolvido... Mas não me lembro. Só lembro-me de beber até desmaiar ontem à noite.

Coloco minha melhor roupa e vou até a casa de Beth, já é tarde e ela tem que estar em casa.

***

Duas batidas. E depois mais duas.

Curtas e seguidas.

Ninguém atende.

Beth só pode estar muito brava pra não atender.

— Beth! Abra, sou eu, Butch!

Fico em silêncio aguardando resposta e escuto um choramingo. Tento novamente:

— Beth?! Poxa, não me deixe aqui.

O choramingo aumenta e decido por um basta. Esmurro a porta até arrebentar a fechadura e entro. Beth estava se contorcendo no chão, parecia que estava a caminho do telefone, em vão.

— Beth, o que aconteceu? Vou ligar para a ambulância.

Enquanto procurava o telefone celular da bolsa dela, ela murmurou:

— Não, isso não vai adiantar. Eu preciso dele... Preciso dele...

Olho para ela, deve estar falando do traficante que vendeu a droga.

— Butch me escute, eu preciso dele...

Observo a vida se esvaindo dela, definitivamente morrendo. Não chegaria até o hospital.

— Butch... Me leve...

Droga! Eu ia matar o cretino que tinha feito isso com ela.

Tão rápido quanto pude peguei-a nos braços e a levei. Beth estava tão fraca que quase não conseguiu me mostrar onde era.

E quando chegamos ao local, soquei o portão da mansão com toda a fúria que eu podia.

Ora, fazer isso com Beth! Ele me paga!

Um homem alto de cabelos compridos que usava óculos de sol, em pleno meio-dia, abriu a porta. Nem olhou para mim, apenas para ela.

Foi tudo rápido e sem trocar uma palavra sequer.

Ele tirou-a dos meus braços e ladrou as ordens:

— Ninguém exceto eu matará ao humano. E ele não sairá desta casa até que eu volte.

Ele entrou em disparada para dentro da casa, levando Beth.

Durante um momento, fiquei preso na necessidade de fazer algo por ela, algo realmente eficaz. Mas não havia nada que eu pudesse fazer. Isso só aumentava minha vontade de gritar e esmurrar algo.

Quando a porta atrás de mim se fechou, dei-me conta que estava na sala com os cinco bastardos mais enormes que jamais vira na vida.

Uma mão pousou no meu ombro com o peso de uma bigorna.

— Você gostaria de ficar para o jantar?

Quem se pronunciou foi um sujeito com cavanhaque e aparência relativamente normal, usava um gorro de beisebol.

— Você gostaria de ser o jantar? — Entrecortou outro, que parecia uma espécie de modelo. Reconheci ele do ZeroSum.

Analisei os outros dois no canto da sala: um deles tinha um cabelo extravagante e o outro era cheio de cicatrizes com um olhar perverso acima do normal, definitivamente eu não iria mexer com esse.

Voltando o olhar para o loiro modelo, pensei: bom, quer brincar? Eu posso fazer isso.

Com um movimento brusco, livrei-me da mão que estava no meu ombro.

— Digam-me meninos — pronunciei lentamente as palavras. — Usam todo esse couro para se excitar mutuamente? Quer dizer, vocês todos curtem um macho?

Não vi, ou percebi, apenas senti o momento de “baque” do meu corpo em choque com a parede violentamente.

O loiro modelo aproximou seu rosto perfeito diante mim, e cuspiu as palavras para mim:

— Se eu fosse você, tomaria cuidado com sua boca.

Loiro metido, e é essa sua carinha linda que eu quero socar.

— Para que me incomodar se você já cuida dela? Qual é, agora quer um beijo?

Um... Rosnado escapou pelos lábios do modelo.

— O.k., o.k. Vamos aquietar os ânimos. Rhage, relaxe um pouco. — Diz o Sr. Normal. — E você — diz, virando-se para mim — faça um favor a si mesmo e fecha a boca.

Eu só precisava provocar mais um pouquinho... E voilà.

— O Loirinho está doido de vontade de colocar as mãos em mim. Não posso evitá-lo.

O intitulado Rhage, desvia-se do Sr. Normal e marcha na minha direção. Em primeiro momento, o Sr. Normal deixa sua exasperação fluir apenas com olhar, e depois se controla.

O murro chega à altura do queixo, lançando minha cabeça para o lado. Ao sentir a dor, deixei minha ira brigar por mim.

O Rhage surpreendeu-se momentaneamente com o meu contra-ataque rápido e isso foi uma brecha para eu revidar. Acertei-o no lábio, e tentei segurá-lo pelo pescoço.

Mas, novamente, não vi o momento em que a luta em pé virou em eu indefeso no chão com um mamute com rostinho bonito em cima.

— Quem sabe eu encontre sua família, e transe com sua esposa. O que acha, humano?

— Não tenho família.

— Pois então, sua noiva.

— Nem noiva.

— O que o faz pensar que eu o quero se nem as mulheres o querem?

— Queria lhe zangar.

Seu olhar se mirou em mim como flechas.

— Por que queria que eu me zangasse?

— Se eu atacasse primeiro não teria chance de brigar, me matariam antes de eu lhe tocar.

Isso pareceu diverti-lo. Dei uma olhada na minha visão privilegiada do chão para os tipos que estavam aqui. No meu campo de visão, podia apenas ver o Sr. Normal, que estava extremamente tenso.

— Sabe? Até que gosto desse grandalhão.

Um cara pequeno vestindo preto irrompeu no cômodo:

— Desculpe-me rapazes. Mas o jantar está pronto. E, por favor, não quero bagunça na sala.

Notas finais
Eu adorei quando li essa parte em Amante Sombrio, então resolvi manter. Mas tive que "adequar" a história portanto não são as mesmas palavras de Ward (até porque ela narra em terceira pessoa). Ficou um pouco maior do que o usual porque tive que acompanhar o desfecho do capítulo no passo de Ward, por mais que tivessem alterações. ~ xoxo