Amanhã Será um Recomeço
1 Não Irei Embora.
Notas iniciais
Pela primeira vez na história da Rainha do Café os negócios e a sua vida pessoal estavam indo bem, andando em perfeita sintonia. A população do Vale do Café começou a confiar nela e a vender as terras para a mesma. Mãe e filho haviam se reconciliado e para a sua surpresa toda a família Benedito a acolheu de uma maneira inesperada e encantadora. Desenvolveu uma amizade forte, sem pretensões ou interesses com Elisabeta, apenas baseada na confiança e na troca de confissões. E para o seu próprio espanto, assumiu publicamente o relacionamento amoroso com Aurélio Cavalcante.
Julieta estava se sentindo completa pela primeira vez em sua vida. Sentia-se amada e feliz, era como se tivesse achado a sua família. Havia encontrado o seu lugar no mundo nos jantares cheios de risadas e travessuras com os Beneditos, nas conversas profundas e reflexivas com Elisabeta e Darcy e nos abraços e beijos que dava em Camilo e Ema. Ela encontrou a paz nas carícias de Aurélio, no enlace dos seus braços e nos seus beijos carinhosos, apressados e apaixonados, ele é a luz que foi capaz de eliminar toda a escuridão da sua alma.
Mas é claro que novamente a vida tinha que dar uma rasteira em Julieta, nada poderia ser tão simples ou fácil para ela. Camilo havia descoberto sobre a farsa do casamento dele e de Jane, e que tudo tinha sido planejado pela própria mãe. A sua vida que estava tão perfeita subitamente desmoronou, como em um piscar de olhos. Sentia que tinha acabado de acordar de um sonho e voltado para a sua antiga, triste e vazia vida.
A família Benedito não suportava nem olhar para a Rainha do Café. Elisabeta e Darcy não acreditavam que a mulher poderia ter decido a tal nível e feito o que fez. Ema estava chocada e desapontada, mal sabia como reagir. A doce e meiga Jane chorou como uma criança que havia se machucado enquanto brincava. Camilo tinha gritado com ela, dito que Julieta não sabia amar e que jamais a perdoaria. Enquanto Aurélio, este estava com o sentimentos de decepção e tristeza estampados em seus olhos e feições.
Todos viraram as costas para ela e foram embora magoados e machucados, sem ao menos olharem para trás, inclusive Aurélio. Mais uma vez estava ela no chão da sua casa, chorando e implorando para não irem, mas dessa vez sem ameaças, apenas súplicas com pedidos de perdão.
Eles se foram, todos se foram. E ela ficou largada no chão frio, derramando lágrimas que encharcavam parte do piso. Não sabia quanto tempo tinha ficado ali perdida em suas próprias lágrimas e arrependimentos, mas imaginava que já fazia mais de meia hora. Levantou-se do chão com dificuldade, precisando até mesmo se apoiar no sofá que ficava atrás dela para conseguir fazer tal ato. Seu corpo apresentava o peso que a sua alma estava carregando nesse momento.
Chamou a criada que olhava com olhos arregalados e assustados para a patroa que naquele momento estava com uma aparência devastada e desgrenhada. Ordenou para que todos se retirassem da casa imediatamente, queria ficar sozinha, apenas ela e o seu remorso. Reuniu todas as forças que possuía e subiu as escadas para ir ao seu quarto.
Ao chegar no quarto colocou água na banheira, retirou as vestes, soltou os cabelos que em ondas tristes caíram sobre os ombros e entrou na banheira. Parecia que todas as suas forças haviam sido arrancadas. Sentia-se fraca, exposta, indefesa e o pior, sozinha. Agarrou com os braços as próprias pernas e assim ficou, desorientada em sua própria melancolia. Havia perdido todos aqueles que amava e a culpa era única e exclusivamente sua.
Se retirou da banheira, secou o seu corpo e colocou a camisola mais suave e confortável que possuía. Arrastou-se até a cama e lentamente se deitou. As lágrimas escorriam involuntariamente pela face e percebia a dor de cabeça se aproximar por causa do choro incessante. Sabia que nesta noite ela não seria capaz de dormir. Continuava a se perguntar como é que poderia voltar a viver sozinha e infeliz depois de conhecer verdadeiramente a felicidade? Teria que descobrir, pois, agora não teria mais chances daquelas pessoas a perdoarem, principalmente Camilo, Jane e Aurélio.
Estava deitada sozinha naquela cama espaçosa e lembrou-se de quando tinha dezesseis anos e acabara de se casar com Osório Bittencourt. Todos os dias eram tristes, cheios de violência, dor e sofrimento. Estava sozinha no mundo. Quando chegava a noite, ela se deitava na cama e chorava até o dia amanhecer, sem ter ninguém para a consolar, dizer o quanto a amava ou a abraçar.
Novamente estava ela deitada em uma cama solitária, acompanhada apenas pela solidão, dor e tristeza.
Alguns minutos se passaram e os seus pensamentos foram interrompidos por uma leve batida na porta. Quem ainda estava ali? Tinha deixado claro que não queria ninguém na residência, não tinha condições nenhuma de lidar com alguém esta noite. Só podia que era Susana, sempre tão insistente, querendo ficar por perto o tempo todo.
— Vá embora, Susana. Deixei claro que não quero ninguém aqui. — A voz da mulher saiu fraca, quase inaudível para quem estava do outro lado da porta. Um silêncio se perfez e Julieta acreditou que a pessoa do outro lado tinha ido embora.
A porta se abriu lentamente, sem fazer barulho. Aurélio entrou no quarto e viu o desenho do corpo de Julieta repousado sobre a cama e os cabelos negros espalhados pelo travesseiro. Ela estava deitada de costas para a porta, por isso não foi capaz de perceber o homem.
A principio, quando toda a verdade veio a tona, Aurélio se sentiu decepcionado e magoado. Como a mulher que ele amava tinha sido capaz de fazer tamanha crueldade? Mas então se lembrou que eram dias diferentes. Julieta era uma pessoa ferida e frustrada com vida, queria proteger tanto Jane quanto Camilo e achou que esta era a única saída. Ela errou, todos eles já erraram. Ele não poderia deixá-la sozinha naquele momento, por isso voltou para a casa dela e encontrou a criada saindo sob a ordem expressa da patroa. O botânico convenceu a mulher de o deixar entrar para ver Julieta e depois a criada se retirou.
O filho do Barão adentrou mais ao quarto e silenciosamente fechou a porta.
— Nem mesmo se for eu? — Aurélio disse e observou o pequeno corpo vagarosamente se virar para a sua direção. Julieta continuou deitada e com a cabeça no travesseiro, mas olhava diretamente para ele.
Observou como o rosto da mulher que amava estava inchado. As bochechas e o nariz estavam vermelhos e úmidos. Os olhos também estavam avermelhados e brilhavam com as lágrimas que bravamente tentavam segurar. Os lábios estavam pálidos, assim como o resto do corpo. Pela primeira vez Aurélio a viu daquela maneira, tão frágil, tão vulnerável, como se qualquer toque pudesse quebrá-la.
— Você não deveria estar aqui. Não deveria me procurar nunca mais. — Ela disse com a voz trêmula. — Afinal, eu sou uma pessoa horrível, não é mesmo? — Não era uma pergunta retórica. Julieta estava dizendo isso mais para si mesma do que para o filho do Barão. Aurélio suspirou tristemente e aproximou-se da cama, pronto para se deitar. — Aurélio, vá embora.
— Eu não vou embora, Julieta. — O botânico disse firme, estava decidido. Ela resolveu que não iria discutir. Não argumentaria porque estava emocionalmente fraca e também porque queria ele ao seu lado mais do que nunca.
Aurélio se deitou ao lado de Julieta e ficaram com os rostos frente a frente. Os traços dela estavam ainda mais tristonhos e ele achou que a tristeza não combinava com ela. Levou a sua mão até o rosto da mulher e secou uma lágrima silenciosa que insistia escorrer pelo rosto delicado. Vagarosamente ele a puxou para perto e ela encaixou perfeitamente o seu corpo dentro do abraço do homem que amava. Deitou sua cabeça no peito de Aurélio e ali deixou as lágrimas escorreram livremente. O choro veio muito mais forte dessa vez. Soluçava como uma criança e o pranto molhou toda a camisa do filho do Barão.
Ela sentia o abraço de Aurélio se apertar mais e mais em torno dela, assim como ele acariciava de maneira delicada as suas madeixas e depositava um beijo ou outro no topo da sua cabeça. Palavras de conforto saiam da boca do homem em uma tentativa infrutífera de acalmá-la.
Após algum tempo, de maneira lenta o choro foi cessando, mas as carícias de Aurélio nunca pararam. Ele continuou a segurando firme, como se a estivesse protegendo. A verdade é que ele queria a proteger de todas as dores de mundo se possível fosse.
— Eu era uma pessoa completamente diferente da que sou hoje quando planejei e executei a farsa do casamento de Camilo e Jane. — A voz de Julieta saiu rouca e baixa. Aurélio deslizou as suas mãos nos braços finos da mulher, como uma forma de carinho e depositou um beijo demorado e carinhoso na têmpora dela.
— Eu sei. — O botânico disse de maneira rápida e compreensiva. Ele realmente sabia disso, a mulher tinha mudado da água para o vinho nesses últimos tempos. Já não era mais fria, dura e distante, pelo contrário, se mostrava sorridente, empática e muito amável. Ela já não era mais a Rainha do Café que todos conheciam, era simplesmente Julieta. — Você mudou e Camilo sabe disso, todos nós sabemos. É só questão de tempo e tudo isso irá se resolver.
— Não, não irá, Aurélio. — A voz dela indicou o princípio de choro novamente e ela esperou alguns segundos para conseguir se recuperar, pois seu corpo já estava cansado de chorar. — Eu perdi Camilo para sempre dessa vez. Ele nunca será capaz de me perdoar. Eu nunca serei capaz de me perdoar.
Com os pés Aurélio puxou a manta que estava na beirada da cama, levou a sua mão direita até a manta que agora estava mais próxima e os cobriu. Enrolou novamente o seu braço em torno de Julieta, e com as pontas dos dedos fazia pequenos círculos nas costas dela, como uma forma de carícia.
— Ele irá lhe perdoar, assim como você também se perdoará. Talvez vá demorar algum tempo até as feridas cicatrizarem, mas tudo isso vai passar. — A voz suave do filho do Barão afirmou mais uma vez e Julieta admirou a certeza que ele possuía. — E eu vou estar aqui do seu lado, passando por isso junto com você. Todos os dias vou te segurar em meu colo, te consolar, te beijar e te ajudar a resolver toda essa bagunça. Você não esta e nunca mais estará sozinha novamente, meu amor.
Julieta exibiu um sorriso triste em seus lábios. Como ele poderia a tratar dessa maneira mesmo depois de descobrir todas as coisas ruins que fez? Ele era o único que a conhecia verdadeiramente, que aceitava os seus defeitos e continuava a amando mesmo sabendo dos seus erros e imperfeições.
— Eu te amo, Aurélio. — Ela disse suavemente. Essas palavras eram as únicas coisas que Julieta tinha certeza nessa noite. — Obrigada por me perdoar e não desistir de mim.
— Eu jamais poderia desistir da mulher da minha vida. Eu te amo, Julieta. — Isso fez com que ela levantasse a cabeça e olhasse para ele com um leve sorriso nos lábios. Aurélio depositou um selinho demorado nos lábios dela, que estavam salgados pelas lágrimas derramadas. Era um beijo simples mas cheio de sinceridade, companheirismo e de amor. — Agora tente dormir um pouco, amanhã é um novo dia. Um dia perfeito para recomeçar. — Ela seguiu o conselho e repousou a cabeça novamente no peito de Aurélio.
Julieta estava enganada, não era a mesma situação que passou quando tinha dezesseis anos. Agora ela tinha alguém para a abraçar, a consolar e dizer o quanto a ama. Ela não estava mais sozinha, tinha Aurélio ao seu lado. Ele a ajudaria a passar por tudo isso e ainda lhe ensinaria como ser uma pessoa melhor.
Após alguns minutos, Julieta pegou no sono com a esperança de que o dia de amanhã seria um grande recomeço.
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