Amanhecer Sombrio
5 Um novo Sonserino
Notas iniciais
O feitiço dizia revelar os inimigos escondidos, mas não mencionava o que poderia significar se ele não mostrasse nada. Havia algumas semanas que eu testava um feitiço que tinha pegado na biblioteca, mas a única coisa que eu via no espelho encantado era meu próprio reflexo. O que me fazia pensar, se meu maior inimigo sou eu mesmo. Talvez.
Joguei o livro e o espelho no chão, devia admitir, nunca fora bom com feitiços e encantamentos. Eu era bom em combates, mas isso não conta para se garantir uma boa nota. Alguém bateu na porta do meu quarto, interrompendo meus pensamentos.
– A diretora que vê-lo agora. — era uma aluna do terceiro ano, devia ser mais nova do que os outros pois não parecia ter mais que dez anos.
– Sabe sobre o que se trata? — perguntei. Ela pareceu feliz em ser útil.
– Ela não me disse, mas tem outro menino na sala dela. Acho que quer conversar com os dois, juntos. — ela deu um sorrisinho conspiratório e saiu.
O que a diretora poderia querer comigo, afinal desde o incidente da Granger, eu não havia me metido em encrenca. O que só poderia significar, que o Santo Potter estava com ela tentando me culpar por algo que não fiz de novo. A pesada porta de madeira do escritório estava aberta, ouvi uma voz masculina mas não era a de Potter.
– Entre senhor Malfoy, estávamos aguardando o senhor. — ela não parecia zangada, então pelo menos eu estava fora de perigo.
– A senhora queria me ver? — foi aí que reparei no cara que estava com ela. Era da minha idade, com cabelos e olhos negros, a pele tão clara que eu podia ver as veias azuis de seu pescoço. Não era tão alto, mas era forte.
– Draco, eu queria lhe apresentar o senhor Kol Driffus. Ele é o novo membro da Sonserina. — o garoto me estendeu a mão e a apertei. Ele não parecia estar muito a vontade naquela situação, assim como eu. Que porra estava acontecendo?
– Não estou entendendo, o que eu tenho a ver com isso? — perguntei.
– Senhor Malfoy, um dos termos que aceitou para voltar a Hogwarts foi o de prestar serviços a escola. E como tenho certeza de que não foram palavras vazias... O senhor vai acompanhar Driffus por um tour pela escola. Considere como um punimento por ter matado aula, outra vez.
– Eu não tinha nada melhor para fazer mesmo. — resmunguei.
Antes de sair me virei para ela, a raiva borbulhava em minha pele. Eu não estava sobre controle.
– Quem me dedurou? — perguntei, mantendo minha voz baixa.
– Não se preocupe com isso, nem todos nessa escola o odeiam Malfoy. — ela tinha um sorriso inigmático nos lábios finos. Os olhos rápidos e perspicazes me analisavam.
Assenti, batendo a porta ao sair. Kol me esperava encostado na parede, tinha afrouxado a gravata e colocado óculos escuros.
– Sei que não quer fazer isso tanto quanto eu não estou afim de ficar nessa escola. Então vamos fingir que fizemos um ótimo passeio e viramos amiguinhos, que tal? — sua voz era rápida e inconstante, ele parecia capaz de convencer qualquer pessoa a fazer qualquer coisa.
– Bem, seria um ótimo plano se as paredes deste castelo não tivessem ouvidos. — apontei para as figuras sorridentes nos quadros pendurados pela extensão de todas as paredes. — Não dá para manter segredo e muito menos fugir das punições. Acredite, eu já tentei.
Ele soltou um suspiro de decepção e começou a me seguir pelos corredores. O castelo estava vazio, a não ser por alguns alunos que decidiram não voltar para casa no feriado.
– O que têm de legal para se fazer nesse lugar? — perguntou, acelerando o passo para me acompanhar.
– Quase nada, mas se você se esforçar pode conseguir vaga em um time de quadribol de outra casa. — a ideia saiu com amargura da minha boca. Eu queria voltar a jogar, sentia falta da adrenalina e da pressão dos jogos de quadribol. Mas nunca me humilharia a ponto de implorar uma vaga no time de qualquer outra casa que não fosse a Sonserina.
– Não sou do tipo esportista, mas aprecio um tipo de esporte em particular. — minha sombrancelha se ergueu e o encarei.
– E qual seria esse esporte?
– A caça, sobretudo, a caça a desafios. — ele sorriu. — Vi uma garota hoje, no campo de morangos perto de uma cabana incendiada. Acho que ela pode ser meu novo projeto.
– Pelo menos você encontrou algo que goste. Para mim, todos nesse lugar não merecem nem ao menos minha atenção. — não reparei, mas já haviámos dado a volta no castelo. Conversar com Kol parecia fácil, mais fácil do que achei que poderia ser.
– Se odeia tanto esse lugar, por que ainda está aqui? — ele perguntou enquanto observava a lareira da sala comunal da Sonserina.
– Porque todos nesse lugar me odeiam mais. — era simples, uma fato consumado. — É mais doloroso para eles do que para mim, ou talvez seja mais divertido para mim do que para eles.
Kol se jogou no sofá, seus olhos reluziam com as chamas refletida neles. Seu rosto assumiu uma expressão sombria, enquanto ele jogava a gravata no chão.
– Acho que vamos nos dar bem. — ele disse. — Pense pelo lado positivo, pelo menos eu não odeio você ainda.
Fui para meu quarto, tranquei a porta e tirei o aparelho celular de dentro do baú com minhas outras coisas. Meus pais estavam morando num subúrbio trouxa, se escondendo de membros do antigo ministério que possam querer vingança. Não podiam usar magia, então tinham que recorrer a tecnologia, mas isso não quer dizer que eles gostavam da ideia de conversar por um pedaço de plático.
– Como ousa não aparecer para o jantar de família, sua mãe está muito irritada por não ter vindo. — a voz de meu pai falhava no final de cada frase como se apesar de irriatado, ele temesse que eu desligasse o telefone a qualquer minuto.
– A diretora me deixou de babá para um aluno novo, não tive culpa. Mas prometo que volto mais cedo da próxima vez. — me desculpei.
– Não prometa nada Draco. Nunca se sabe se poderá cumprir tais promessas. — havia um ressentimento escondido sob aquelas palavras, mas não me prendi a isso.
Meu pai havia se trancado num mundo de auto-piedade depois de conseguir escapar de uma passagem só de ida para Askaban, e os momentos de lucidez que ele tinha eram regados a conselhos proféticos de como as coisas iriam piorar.
– Mamãe está bem? — perguntei.
– Sua mãe está preocupada, os Greengrass vieram aqui noite passada. Falaram sobre firmar uma aliança por casamento com uma das filhas dele. — uma raiva me percorreu.
– Isso só pode ser coisa da Astória, eu devia saber que ela estava tramando alguma coisa. Mas casamento? É demais, até para ela. — as palavras saíam atropeladas da minha boca.
– Draco, não foi Astória que eles ofereceram. — Ele parecia confuso, e por um momento até eu fiquei. — Foi a filha mais velha, Esther.
Eu havia visto Esther apenas algumas vezes, e nunca passara tempos suficiente com ela para que púdessemos ter uma conversa válida. Mas eu me lembrava perfeitamente dela. Tinha a pele tão clara quanto a minha, os cabelos loiros e longos de um liso perfeito, olhos verdes elétricos e um corpo exuberante. Não era como Astória, falante e provocante. Esther era refinada e contida, sua fala era baixa e seus modos impecáveis. O que me fazia perguntar, era por que ela estaria querendo se casar comigo?
– O que vocês conversaram? — perguntei, retomando o raciocínio.
– Você vai levá-la para sair e vai conversar com ela, se for do seu gosto que o casamento seja realizado. Não vou me opor. — eu tinha certeza disso.
– Preciso desligar agora. — não esperei que respondesse, desliguei o telefone e o joguei na parede vendo-o se estilhassar em mil pequenos pedaços.
Casamento??? Eu não iria me casar tão cedo e não seria meu pai nem as irmãs Greengrass doidas que me obrigariam.
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