Amando um amigo
23 Alfa e Ômega - Último Capítulo
Notas iniciais
As sobras de João Lucas pelo quarto, foram o que restaram. Ela se jogou na cama, como alguém que se joga num abismo. Não existia mais vida para ela, sem ele. O travesseiro de João Lucas, impregnado com o cheiro dele, a fez ter paz por poucos segundos, mas logo aquela paz foi substituída por uma dor enorme que ela sentia.
Como viver sem ele? Ele é tudo pra mim.
Era mentira, ele não era tudo pra ela. Ele era tudo e mais um pouco. Ele era o alfa e o ômega na vida dela.
Ela pôs-se a observar um poster enorme pregado na parede do quarto deles. Era uma foto gigantesca dos filhos. Ela sorriu. Ao fechar seus olhos, sentiu uma escuridão tomar conta de si. Suas pálpebras pesavam, mas ela não conseguia dormir. Seus pensamentos estavam concentrados nele.
João Lucas, num quarto qualquer de hóspedes, fechava o guarda-roupa, depois de ter deixado ali suas roupas. Ele estava cansado. Péssimo.
Na cama enorme, se jogou. Aquela cama seria o lugar dele, se Eduarda estivesse ali, presente com ele. Mas ela não estava. As lágrimas desciam constantemente de seus olhos que procuravam por ela.
Ela, sua Eduarda.
Ele sentia falta do corpo dela grudado no dele, sentia falta dos lábios dela movimentando na sua boca, sentia falta dos olhos dela o olhando. Falta do vermelho de seu cabelo, aquele vermelho que tanto o encantava. Falta do cheiro dela, aquele perfume único que ela tinha. Falta da pele de porcelana, aquele tom de branco que se destacava sobre a dele. Das unhas dela cravadas em sua pele. Da voz. De tudo que era dela.
Ele estava prestes a pegar no sono, quando ouviu alguém chamar seu nome na porta.
– Filha? — era Martinha. Ela vestia um leve vestido curto floral, os olhos ingênuos da menina, procurou as íris do pai.
– Papa, poquê você naum ta com a mama? — João Lucas ficou sem ação. O pouco desenvolvimento das palavras, o fez sorrir, embora a vontade era de chorar.
– Entra aqui, filha. — ela deu alguns passos em direção à cama, e colocou sobre ela um pequeno urso. Era o xodó dela, levava para onde ia. — Olha... — ele começou, se ajoelhando para olhar sua filha nos olhos.
– A mama tava cholando! — ela exclamou, interrompendo as palavras do pai.
– Tava? — ele perguntou, sua voz fraca, sendo derrotado pela tristeza.
– Tava.
. . .
– Filha? Martinha, cadê você? — Eduarda procurava sua filha pelo longo corredor.
– Mama! — o rosto da pequena foi revelado, saindo do quarto de hóspedes.
– Tava fazendo o que aí, filha? — ela abaixou, colocando Alfredinho no chão. Ele estava no colo dela.
– Com o papa. — foi o que ela respondeu.
Ao erguer seus olhos, Eduarda avistou João Lucas, de pé na porta. — Fala com ela, papa. — Martinha pedia um diálogo, mas ainda não era a hora. Ele nem teve tempo de pensar.
– Lekinhos, já tá tarde! Vão pro quarto de vocês, vão... — os pequenos saíram dali, e Eduarda se levantou, ficando de pé.
– Tu tem certeza, lek? — ela o perguntou.
– Certeza de quê? — a voz dele saiu baixa, mais do que ele gostaria.
– Que tu vai dormir aí, cara. — ela fez um gesto, gesticulando com as mãos. — Volta pro nosso quarto...
– Tenho, sim. — ele não tinha certeza. — Boa noite. — não havia mais mágoa na voz dele. Ela estaria louca?
Parecia que Martinha havia tirado aquela mágoa dali de dentro dele. A pequena os uniu? Martinha lembrava o jeito doce da mãe, mas também o jeito mandão do qual pouco demonstrava.
Mas, afinal, não havia pessoa melhor pra os unir. Qualquer um dos seus dois filhos o fariam enxergar a verdade. Como ele pôde desacreditar de Du? Logo ela que fora sempre sua amiga. Existia amor. Martinha e Alfredinho eram a prova disso.
– Boa noite, lek. — a voz dela, aos ouvidos de Lucas, sensual. Ele queria jogá-la na cama daquele quarto.
Eduarda se aproximou. Na bochecha de Lucas, depositou um beijo, ela fez uma trilha de beijos da bochecha até o canto da boca. Quando finalmente ia se aproximar da boca dele para um beijo, Du esperou ele.
Ele queria beijá-la, queria muito, mas hesitou em cometer tamanho erro.
Du, por fim, ao ver que ele não iria tomar a iniciativa, lhe roubou um selinho. Ela deu as costas.
. . .
– Vocês vão ficar brigados até quando? Será possível, João Lucas? Já faz uma semana, garoto!
– Ah, mãe... — ele não estava mais magoado com ela. Ele sabia a verdade.
– Ah, mãe... — ela o imitou. — O que você está esperando pra perdoar logo a Eduarda?
– Mãe, eu... Eu não tenho tido tempo, sabe? O trabalho tá tão pesado... Quando eu tenho tempo, é pros lekinhos.
– Hum. — Marta comentou. — Ela tá lá em cima, sozinha... — ele sorriu e não hesitou em correr até lá.
Os primeiros dias foram difíceis, obviamente, mas logo não existia mais mágoa. Ele viu verdade nos olhos dela.
João Lucas quase não havia esbarrado com Eduarda na casa, afinal, era a explicação por eles ainda não terem se acertado. Apesar disso, não existiu um, um maldito dia, que João Lucas ou Eduarda não sentiram saudade. Eles lembravam-se constantemente um do outro, era impossível ser diferente. Os jantares, almoços de família, Lucas não aparecia. Aquilo machucava Du. Ela pensava que ele estaria com outra, quando na verdade, ele se afogava num monte de papéis, tentando esquecer daquela briga no trabalho. O que era inútil. Os cafés da manhã, eram impossíveis dos dois se encontrarem. Ela sempre acordara e ia direto cuidar de seus filhos, que eram a sua razão de viver, depois que pensara perder Lucas. Enquanto ele, saía sempre cedo demais.
Os passos pareciam eternidade. Ele tinha saudade.
– Du? — ele a chamou, entrando no quarto dos dois. Ele correu para um abraço. Não que ele não quisesse a beijar, ele só precisava daquele abraço para começar a dilatar a saudade.
Ele precisava daquilo, daquele abraço, tanto quanto ela. João Lucas não podia deixar que seu orgulho o abatesse e desfazesse aquele casamento. Ele já sabia a verdade, não sabia? Não havia porquê se manter separado da sua amiga-esposa-mãedeseusfilhos.
– Lek? — ela largou o controle do vídeo game, se separou do abraço, olhando fixamente nos olhos de seu marido, que sorriu. — Oi. Aconteceu alguma coisa com os lekinhos?
– Não, não... — os dedos dele, deslizavam pela pele de Eduarda.
– Então, que que foi?
– Eu te amo. — foi o que ele disse. Foi a maior verdade que ele havia dito. Ele viu um sorriso surgir da boca de sua esposa.
– Eu também te amo. Demais da conta. — ela retribuiu, abraçando-o novamente.
Quando abriu seus olhos, viu detrás de Lucas, Martinha e Alfredinho parados na porta sorrindo, Marta de pé atrás deles. Eduarda sorriu. Afinal, ela ama sua família.
Claro, o tempo, como inimigo em alguns aspectos do amor, daria boas brigas para eles enfrentarem. Mas o que o amor não supera? Afinal, o tempo é inimigo dos apaixonados, ele distancia muita gente. Só que ela não deixaria sua família se desfazer em nenhuma hipótese. Naquele momento, ela ficou firme com essa decisão. Iria lutar com unhas e dentes por aquela família e não importa mais o que façam nem digam.
Foi assim, olhando aquela imagem de seus filhos ao lado de Marta, que guardou uma das melhores lembranças de sua vida. Ela os ama tanto.
Não iriam ser uma família perfeita, ao contrario, não teriam um felizes para sempre, mas quem liga? Não havia porquê se importar com isso agora. Acariciou sua barriga, ali crescia mais um de seus filhos.
Os braços de Lucas, era o melhor lugar. Uma nova fase se iniciaria, ela tinha certeza daquilo.
Ela os ama tanto. Demais. Demais da conta.
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