Amadurecimento
1 único
Crescer espiritualmente. Foi o que aquela pirralha disse a Zoro depois de levar uma coça dos meninos do bairro.
"Você precisa ter coragem e revidar! Se não souber fazer isso agora, não vai conseguir carregar problemas maiores!"
Era uma fala realista. Futuramente, Zoro se perguntaria como podia ser tão madura. Tudo bem que Kuina era mais velha, mas a diferença de idade dessas crianças não era tão grande. Ainda assim, ela estava muito à frente de seu tempo. Zoro seria homem, e cedo ou tarde teria que encarar um problema de se encurralar na parede.
Kuina morreu, ela estava certa quando disse que ele precisaria ficar forte para aguentar fardos pesados. Se tornou uma adolescente tão linda e Zoro se apaixonou, mas na primavera ela se foi antes que ele pudesse dizer algo. Zoro amadureceu da forma mais cruel: perdendo uma pessoa importante.
Depois disso um cabelo tingido para afastar todos ao seu redor e, se já era quieto, tornou-se mais ainda. Seu olhar inocente ficou sem brilho.
Mas no terceiro ano, um aluno entrou na escola e passou a se sentar ao seu lado. No fundo, longe de todos. Zoro não gostou, sentiu que aquele loiro sobrancelhudo estivesse invadindo sua privacidade. Havia outras carteiras e não entendia por que resolveu se sentar ao lado do aluno estranho de cabelo verde. Um dia os dois sentaram juntos por um estar ao lado do outro para fazerem uma atividade em dupla. Zoro disse seu nome e o novato também, se chamava Sanji.
Sanji reparou que Zoro era canhoto e também notou que ele se sentava numa cadeira para destros. Perguntou se incomodava, mas Zoro respondeu que estava acostumado. Só não estava acostumado com o cheiro de cigarro que exalava dele, sentado bem ao seu lado. As pontas de seus dedos chegavam a ser amarelas, aquele filho da puta devia ser que nem uma chaminé.
No outro dia, Sanji apareceu com o braço direito enfaixado. Zoro percebeu sua dificuldade de escrever com a mão esquerda e se ofereceu para copiar a matéria do quadro por ele. O loiro aceitou bem feliz, mas Zoro não esperava que suas carteiras se unissem de novo. Sanji observava o esverdeado escrevendo, com o corpo um pouco inclinado para ele. Zoro sentiu o ar leve que fedia a cigarro sair de seus lábios entreabertos e ficou incomodado.
— Se afasta.
O outro levantou sua sobrancelha enrolada um pouco assustado com aquele tom... grosso? Tá que Sanji percebeu que aquele esquisito não era de falar muito, ainda assim achou o idiota muito mal educado por pedir um favor num tom imperativo.
Mas relevou e voltou a se recostar no encosto de sua carteira sem demonstrar descontentamento. Sanji passou a chamar Zoro de marimo nos outros dias por conta de ser tão rude. Obviamente o esverdeado não gostou de nada disso e passou a chamá-lo de sobrancelha enrolada.
Durante uma aula de educação física, tiveram a primeira briga. A turma jogava futebol e Zoro ficava marcando Sanji, mesmo sendo do seu próprio time. Por conta de um empurro "acidental" do esverdeado para o loiro, os dois começaram a brigar. E não foi só nesse dia, passaram a brigar quase toda hora, trocavam golpes e paravam na detenção.
Não demorou muito para os demais alunos não terem só medo de Zoro "o mal encarado" como também tiveram de Sanji "o mal encarado encaracolado". No final, Sanji foi isolado como Zoro, e como não tinha com quem conversar, falava com o marimo como se fosse seu amigo.
Numa tarde, os dois mataram aula e estavam no terraço da escola, próximos do parapeito de arame. Sanji fumava tranquilo e Zoro parecia pensar em algo. Era engraçado o quanto o rosto do marimo era rígido, o sobrancelha enrolada não se lembrava de tê-lo visto sorrir desde que entrara naquela escola. Mas ele ouviu um boato, Zoro parecia ter perdido uma grande amiga no primeiro ano, até mesmo soube de seu nome, era Kuina.
— Tá pensando na Kuina?
Zoro, sentado ao lado, teve um baque quando ouviu aquele nome sair da boca da pessoa mais insuportável do mundo.
— Como sabe disso?!
— Sabendo. — Deu uma longa tragada e expirou a fumaça no rosto de Zoro, que o observava atento e passou a tossir. — Me diga, marimo, os peitos dela eram grandes?
O esverdeado ainda tossia quando ouviu aquele afronta. Sabia que o sobrancelha enrolada não prestava, mas nunca pensou que ele podia brincar com algo de muito valor. Sanji esperava o soco do marimo na sua cara, mas ele passou a chorar.
— Qual é o seu problema?! Pensei que éramos amigos! — Disse Zoro com um forte aperto no coração.
— Amigos? Quando isso? A última coisa que quero de você é amizade.
Zoro não se aguentou e se jogou por cima do loiro, lançando-lhe vários socos, enquanto ficava sobre o seu torso.
Os pais de ambos foram chamados para a escola, mas só a mãe de Zoro comparecera. Os dois foram suspensos por alguns dias e não tiveram contato nem mesmo na internet. Porém, Zoro tivera uma visita inesperada. A irmã de Sanji, Reiju, visitou sua casa numa tarde. Sua mãe estava fora no supermercado e Zoro não sabia o que servir para ela, mas a garota disse que estava tudo bem, apenas queria um copo d'água.
— Bem... eu queria pedir desculpas ao que meu irmão te fez. — Reiju falou sentada na mesa da cozinha. — Ele me contou toda a história.
— Não é você quem tem que pedir desculpas. Ele pediu pra você vir aqui se desculpar por ele?
— Não!! Não é isso, é que apenas estou preocupada com meu irmão. — Desviou o olhar dos olhos castanhos do esverdeado e coçou o braço esquerdo. — Ele tem se comportado de uma forma... meio agressiva desde a morte de nossa mãe um pouco antes dele entrar no seu colégio.
— Pera... a mãe de vocês morreu?
— Ele não te disse?
— Não!
— Ah... eu pensei que soubesse, já que você é o melhor amigo dele.
Zoro ouvia a conversa de pé e sentiu uma leve tontura, fazendo-o se apoiar numa das cadeiras da mesa. — Eu sou o melhor amigo dele?
Reiju era esperta, entendeu que seu irmão não devia se abrir direito com aquele rapaz. — Ele disse que sim, e ele só me conta a verdade!
— Então por que desrespeitou uma amiga minha que já está morta? Por que implica comigo?
— Como eu disse, ele vem andando estranho desde a morte de nossa mãe.
Reiju foi embora e Zoro foi pro seu quarto, não quis nem jantar. Ele não sabia se deveria continuar odiando aquele sobrancelhudo ou se deveria perdoá-lo. Mas de uma coisa ele tinha certeza: Sanji mudou com a morte da mãe como ele mudou com a morte de Kuina. Ambos queriam ficar isolados.
Quando voltaram pra escola, continuaram a se sentar do lado do outro, mas só conversaram no terraço durante o intervalo.
— Sobrancelha enrolada, você não quer minha companhia?
Sanji fumava como sempre e levou alguns segundos para responder. — Não quero sua companhia, acho melhor nossa amizade acabar aqui.
Zoro fingiu que não o escutou. — Disse aquela coisa horrível para odiá-lo?
Os olhos do loiro se abriram. — Por que acha isso?
Então, Zoro apontou para seu cabelo. — Porque fiz quase a mesma coisa, pintei meu cabelo de verde para ninguém vir falar comigo. Mas você apareceu e não teve medo de se aproximar de mim. — Observou o cenho enrugado do amigo. — Você me deixou feliz pacas nesses últimos tempos, por isso digo a você que se isolar é a pior escolha. Eu tava morto antes de você aparecer.
Sanji enxugou seus olhos marejados com o suéter. — Me perdoe, marimo. Eu nunca mais falo algo ruim de Kuina.
O esverdeado se aproximou, arrastando seu corpo, sentado, para envolvê-lo num abraço. Naquele momento, Zoro se sentiu um adulto. Voltando a falar com uma pessoa, perdoando a mesma pessoa e lhe dando um conselho como aquele que Kuina dera.
— Talvez foi ela que te enviou para mim.
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