Depois de me vestir, fui para a sala. Erick estava sentado no sofá com uma xicara de café nas mãos. Estava usando um roupão azul-claro surrado, o cabelo molhado e estava de cara limpa.

– Como está se sentindo? – perguntou, feliz ao me ver.

– Bem. – sorri, permaneci de pé. – Obrigada.

– Ótimo. – pareceu satisfeito.

– Erick. – comecei. – Sinto muito pelo que aconteceu entre nós ontem a noite. Estávamos fora de nós. – falei, me sentindo culpada. – Tenho que ir...

– Você não vai a lugar algum. – Erick pegou meu pulso. – Quero que fique.

Meu corpo então ficou mole, cambaleei para trás sentando no sofá. Queria ficar, admiti para mim mesma, enquanto sentia um frio na barriga de culpa.

– Olha, eu... – comecei, mas minha voz falhou.

– Está preocupada porque transamos? – franziu a testa e depois riu. – Não se preocupe, usei proteção. Você tem uma energia incrível.

Ele é bi, conclui, respirando fundo, tentando me lembrar de como foi ontem, porem, não me lembrava em imagens, provavelmente resultado do gin, mas me lembrava perfeitamente de todas as sensações.

– Aproposito, adorei te ver tão tranquila, tão relaxada, tão leve... – ele completou, num sorriso, massageando meu ombro com uma das mãos, mordendo o lábio.

Respirei fundo.

– Mas o efeito de tudo isso vai acabar quando votar ao colégio. – contei.

– Por quê?- perguntou.

O como um carro sem freio, contei tudo a ele. Tudo sobre minha infância, como tudo começou a se tornar um buraco dentro de mim depois que Clara apareceu. De como eu me sentia um lixo a cada palavra que ela dirigia a mim a cada dia, tudo que ela falava e fazia até hoje.

Ele me observou e ouviu sem dizer nenhuma palavra, com os olhos fixos nos meus.

– Por que não contou a ninguém, por que não se abriu? – indagou, sem mexer um musculo.

– Ninguém me notava e ouvia. – confessei. – Sou invisível. Meus sentimentos me derrubam.

– Eu vejo em seus olhos. – sussurrou, com os olhos cravados em mim.

Eu desviei o olhar.

– Não fuja de mim. – Erick pegou minha mão. – Estou tentando ver o que está escondido em você.

– Acredito que não muita coisa.

Erick desdobrou a manga da blusa, vendo meus cortes no pulso. Então atirou a xicara contra a parede. Seu rosto continha uma expressão furiosa. Fiquei paralisada ao ver a xicara em pedaços.

– Você sabe muito bem que você não é a pessoa que realmente merece ser contada! – Erick gritou.

– Eu às vezes sou fraca! Não consigo lidar comigo mesma! Tinha que haver um alivio! Eu estou sozinha! – estava chorando.

– Agora não está. – Erick fechou a mão sobre o cortes. Doeu um pouco, gemi. Aos prantos me entreguei aos seus braços.

Naquele mesmo segundo meu coração e meu cérebro gritavam: “Eu o quero!”. Aquilo era loucura! Me sentia tão confortável com ele ali como jamais sentira. O meu sufocamento interno se desaparecia.

– Não oprima o que sente. Isso vai acabar com você. — sussurrou, num tom misterioso. – Liberte tudo e transforme em algo muito maior.

– Isso é tão louco! – falei. – Me sinto tão bem com você!

– Isso é ótimo. – ele riu. — As pessoas que conheço ultimamente não se sentem assim.

Deixei o assunto de lado e me reconfortei em seus braços como num transe.