Notas iniciais
Desejo à vocês uma boa leitura

Tanto para os membros de outras facções, quanto para quem se transferiu para Amizade no começo era difícil diferenciar todos os edifícios, exceto as estufas, sempre construídos com a mesma madeira escura, crua e áspera; isso acontecia por eles não repararem nos pequenos entalhes feito nas madeiras das construções que indicavam ou a profissão seguida por seus moradores, ou qual era a utilidade pública do prédio em questão.

Grace Campbell estava acostumada a chegar em casa todo o dia junto com o sol poente e ouvir risadas da garotada brincando de bambolê, amarelinha e pique-esconde ao redor das casas e dos pomares, que pareciam segui-la por seu caminho até sua casa. Ela até mesmo chegava a diminuir a velocidade de sua lambreta vermelha para não atrapalhar a diversão das crianças.

Ao estacionar ao lado de sua casa a moça tirou o capacete e tirou a chave, desligando a lambreta, antes de ficar em pé e colocar o capacete sobre um dos guidões para em seguida entrar em sua casa.

Já na cozinha Grace encontrou um bilhete de Edward, no qual pedia-lhe que fizesse um bolo de cenoura com cobertura de chocolate para a festa surpresa de sua mãe, Tânia, que aconteceria naquela noite.

Antes das oito da noite o bolo feito pela confeiteira estava na mesa da família Smith e ela acabou sendo convidada para a festa.

—Muito obrigada, Grace, pelo bolo. — A aniversariante agradeceu abraçando a rapariga de cabelos loiros.

— Não precisa agradecer, Tânia, você sempre ajudou muito minha mãe a cuidar de mim e Gregory quando éramos pequenos, nos deixava brincar com Bob e Lucy, seus filhos mais velhos.

— Por enquanto a sorte está ao meu favor, pois além de ter bons amigos e uma boa família, nenhum de meus filhos deixou a Amizade. — A mulher mais velha falou e um segundo depois pediu desculpas à jovem.

— Está tudo bem, Greg está onde deveria e eu ffico feliz por ele. — Campbell afirmou antes de ir embora.

O relógio da cozinha de Grace marcava noive e meia da noite quando as tortas de maçãs foram para o forno. Essa era uma tradição três anos antes, quando ela e o irmão passaram pela Cerimonia de Escolha de suas Facções, enquanto a garota permanecera na Amizade — facção na qual ambos cresceram — Gregory, seu irmão gêmeo escolhera a Audácia para ser sua facção dali em diante, por isso a garota começou a fazer tortas de maçãs para os iniciados da Audácia e também para os de sua própria facção.

Naquele ano, quando ela fizera as tortas pela primeira vez, todos os novatos da Audácia estavam em uma espécie de excursão na fronteira e acharam muito estranho uma lambreta vermelha brilhante com seu farol acesso parar perto da cerca e buzinar, mas o responsável pelos recrutas abriu o portão, dando-lhe passagem.

O espanto dos membros da Audácia tornou-se ainda maior ao verem que não só havia uma carreta com mais ou menos cinquenta tortas de maçã, a qual estava sendo puxada pela lambreta, como também o fato dela se parecer bastante com Gregory Campbell, fato que eles só perceberam quando ela tirou o capacete.

— No que podemos ajudar, senhorita. — O comandante perguntou.

— Bem, vim agradecer todos vocês por escolherem nos proteger, por isso trouxe todas de maçãs. — A garota respondeu sorrindo lhes dando um grande sorriso. — E, sim, Gregory é meu irmão gêmeo. — Respondeu a pergunta que não havia sido feita por aqueles que alternavam os olhares entre ela e o rapaz.

— Quero te agradecer em nome de todos. — O comandante disse antes de lhe convidar para se juntar a eles para comer as tortas.

Desde então Grace era aguardada pelos novatos e veteranos da patrulha em sua primeira noite depois da Cerimonia de Escolha e tanto os novatos, quantos os veteranos ficavam felizes com tal demostração de gratidão daquela jovem doceira da Amizade.

Naquele ano não foi diferente, tirando o fato de que Grace precisou passar fazer essa entrega de caminhonete há dois anos, e que um dos rapazes que ela nunca vira antes ali na fronteira se mantinha afastado de todos os outros que comiam a torta.

— Por que você está longe dos outros? O problema é comigo? — A integrante da Amizade perguntou se aproximando dele segurando dois pratos de papelão com um pedaço de torta, cada um espetado com um garfo de madeira.

— Sim, o problema é com você, satisfeita?! — O homem gritou enfurecido por ter sido per tubado. — Quem é alegre o tempo? Quem consegue ter sangue de barata e não ver crueldade nos outros?

— Nós confiamos naqueles que escolhem ser nossos amigos, nossa família. — Grace o corrigiu amavelmente. — Ou vai dizer que não confia nos da sua facção? A função de vocês é proteger o resto de nós e para isso você precisa confiar nos outros, ou eles vão te deixar levar a pior, ninguém é uma ilha, soldado. — Gregory que estava ali por perto, com certeza, foi quem mais ficou chocado com a resposta de sua irmãzinha, nunca em dezenove anos a tinha visto ter um roupante de raiva, nem mesmo quando esta era provocada por membros da franqueza.

— Você realmente nasceu na Amizade ou foi transferida para lá da franqueza? — Darmouth questionou-a de forma debochado. — Meu nome é Victor Darmouth e eu sou um lutador, não um soldado, Doçura.

— Desculpe. — Campbell pediu com a voz trêmula, assim como o resto de seu corpo e olhos cheios de lágrimas, sentia-se péssima por sua reação diante da provocação daquele membro da Audácia.

— Tanto faz, Doçura, se isso te faz sentir melhor, está desculpada. — O lutador falou de forma condescendente.

Grace não prava de se desculpar com ele enquanto seu irmão, agora um membro da Audácia, membro da Guarda da Fronteira, dirigia a caminhonete vermelha até a casa dela.

Ao chegarem lá Gregory percebeu que todos estavam dormindo, por isso em vez de levá-la para a Sala de Conflito, ele mesmo aplicou uma seringa que tinha pouco de soro calmante que encontrou na caixa de primeiros socorros, que ele encontrou no banheiro.

Ele não sabia, mas aquela era a terceira vez que Grace precisara tomar soro calmante em sua vida: a primeira tinha sido quando o pai deles faleceu dois anos antes deles completarem dezesseis anos e a segunda foi quando ele próprio escolhera a Audácia, Grace não precisou disto no momento da morte da mãe deles, pois ela morrera no parto de ambos.

Enquanto ela dormia e o soro calmante fazia efeito, Victor estava em seu alojamento se sentindo meio atordoado pelas palavras que ouviu daquela que deveria ser uma doce garota da Amizade.

Notas finais
Me façam uma autora feliz me dizendo o que acharam.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.