Amélia

1 Capítulo único


Notas iniciais
Ei, me avisem de qualquer erro ou se tiverem alguma sugestão! ♥

Era a terceira festa a que Ben ia naquela semana, e elas pareciam ser todas iguais. Lustres presos a tetos altos iluminavam um grande salão com paredes adornadas por ouro e cortinas de veludo; vários jovens cavalheiros e belas damas à procura de um par vagavam, às vezes se juntando a outros para iniciar uma conversa ou se aproximando da mesa com vinhos, champanhes e doces enjoativos. Músicos tocavam melodias suaves enquanto os convidados socializavam, esperando a hora de valsar.

As damas esperavam atrair a atenção de possíveis pretendentes à sua mão, embora Ben achasse que maquiagens esquisitas, perucas bufantes e vestidos desconfortáveis não fosse a melhor maneira de fazê-lo. Cada uma das mulheres tentava demonstrar seu poder aquisitivo, beleza e qualidades à sua maneira: algumas tagarelavam sobre seus palacetes e mostravam suas joias e seu vestido bordado de ouro; outras se calavam e apenas ouviam, considerando que isso provasse que seriam boas esposas, quietas e obedientes e umas poucas eram grossas e mal educadas, pois achavam que isso faria os cavalheiros se interessarem por elas. E Ben sabia, por experiência própria, que funcionava.

Os cavalheiros, por sua vez, adotavam estratégias parecidas para chamar a atenção das damas: falavam sobre suas riquezas, habilidades na caça, mostravam seu relógio de ouro e roupas elegantes, às vezes sendo grosseiros e displicentes com as moças, para reafirmar seu poder.

Percebendo que a festa estava no início e ainda haveriam muitos rituais a serem feitos, sentou-se em uma das cadeiras de uma mesa vazia. Observava enquanto seus amigos tomavam a iniciativa e iam falar com as mulheres mais bonitas da festa. Ele poderia estar lá com eles, contudo seu peito ardia com a recente paixão não superada. Ela era tão linda. “Ainda é.” Tentou reprimir esse pensamento, mas de nada adiantou. Seus pensamentos se desviavam para o motivo de sua tristeza logo que uma brecha se abria e não conseguiam retornar.

Olhou em volta do salão, observando os lustres de ouro, os casais conversando, os músicos que, incansáveis, não pararam um só minuto de tocar desde o início da festa...

Ben a conheceu em uma festa como aquela. Ela se destacava das outras moças; seu cabelo estava liso e solto, não usava maquiagem e seu vestido não era bordado com ouro e pedras nem bufante. Ben imaginou que talvez fosse uma empregada desobediente passeando pelo salão, porém, ao se aproximar, percebeu que o tecido de sua roupa era muito fino e seus cabelos eram muito bem cuidados para ela ser uma empregada. A dama era muito linda. Seus longos cabelos ruivos acompanhavam os seus movimentos, seus olhos, Ben não sabia de qual cor eram, mas reluziam na luz.

Durante toda a festa, Ben a observou, imaginando como poderia se aproximar dela. A moça se recusava a dançar com todos os que pediram, o que o desencorajava a ir conversar com ele.

A moça misteriosa passeava de um lado para o outro do salão, se servindo de vinho e doces e cumprimentando as pessoas, que a olhavam indignados devido a sua aparência inadequada; ela, contudo, parecia pouco se importar aos comentários alheios. Parecia alheia a tudo, na verdade, como se aquela existência não fosse boa o bastante para ela e apenas algo melhor fosse merecedor de seu esforço e atenção.

Quando os convidados começaram a se retirar da festa, Ben, receoso de que a moça fosse embora também, reuniu coragem e se aproximou.

— A música que estão tocando é tão suave, é bem relaxante, não acha? — Não era um assunto muito bom para iniciar uma conversa, contudo foi a única coisa na qual Ben conseguiu pensar.

A dama misteriosa o olhou com curiosidade, provavelmente pensando o porquê algum cavalheiro tentaria uma chance com ela a essa altura da festa, sendo que ela já havia dispensado a todos que haviam a convidado para uma dança, deixando clara sua mensagem.

— Hum, sim. — Ela estreitou os olhos e analisou o menino. — Você gosta de música então?

— Gosto de apreciar música, embora não saiba tocar música, embora não saiba tocar nem tenha muito conhecimento sobre. — Bem estava um pouco nervoso, com medo de se enrolar com as palavras, mas tentou não transparecer.

— Ah, entendo. — Repentinamente, deu meia volta e começou a caminhar, parecendo estar indo em direção às portas.

—Está de saída? —“Perdi minha chance com a dama, ela está indo embora e nunca mais nos veremos.”

Ela voltou-se para Ben, lembrando de sua existência.

— Não, só necessito de um pouco de ar fresco. Irei dar uma volta nos jardins... —A moça parou e pensou um pouco antes de voltar a falar. — Gostaria de me acompanhar?

— Seria um prazer. —Ben, como um cavalheiro, ofereceu seu braço, para que ela se apoiasse nele, porém ela o ignorou, ou talvez não tivesse notado o gesto, o que o deixou chateado.

Atravessaram o salão e saíram por uma das portas menores, para que ninguém notasse sua saída.

Os jardins eram grandiosos, repletos de flores de todos os tipos, com seus nomes sendo desconhecidos para Bem; grandes e pequenas, amarelas, brancas, vermelhas e azuis, com pétalas às vezes arredondadas, às vezes pontudas, mas todas muito bonitas. Seguiram por uma trilha de pedras até chegarem em uma bela fonte no centro do jardim.

Ben ficou encantado com a graciosidade das esculturas da fonte. As asas dos anjos, suas harpas, seus rostos e expressões pareciam ser tão reais.

—O jardim é encantador.

— Concordo com você — ela soou desinteressada; não parecia tão deslumbrada quanto Ben, talvez por já ter visto jardins mais bonitos.

— Desculpe-me, mas não sei seu nome.

— Chamo-me Amélia — falou com um pequeno sorriso, e logo virou as costas para Ben, prestando atenção em algo que ele aparentemente não havia notado.

—Não irá perguntar meu nome? — “Talvez ela apenas não esteja interessada em você.”

—Se você quisesse me dizer, já teria dito. — Ela agachou-se em frente a uma rosa e de maneira delicada a tirou dali.

— Meu nome é Benjamin, mas me chame de Ben.

— Ben... — Amélia levantou, com um grande sorriso no rosto, e, com a rosa na mão, se aproximou de Ben.

— Pronto para uma noite inesquecível?

Ele tinha a chance dele em mãos. Passaria a noite com ela e a impressionaria. Estava mais do que pronto para conquistar aquela dama.

— Sim.

Ela mostrou-lhe a rosa. A rosa era linda, vermelha, grande e saudável. Mas tinha espinhos, espinhos que estavam machucando Ben. E ele só perceberia mais tarde.

Amélia entregou a rosa a Ben, que a pegou com a mão esquerda, e pegou na mão direito dele, o conduzindo em direção ao desconhecido.

*

Ben descobriu rápido o quão ágil era Amélia. Ela tirou seus sapatos, jogando-os em algum canto do jardim, e, utilizando as decorações góticas do palácio a seu favor, escalou até chega à janela do segundo andar, que estava aberta. Ela adentrou a sala e ficou escorada na janela, olhando para Ben, aguardando-o subir.

— Quem está no salão não nos verá daqui? A festa ainda está acontecendo, qualquer um poderia olhar para cá e nos ver.

— Ora, Ben, não fique tão preocupado. Há essa hora só há os bêbados na festa, que se nos virem, e duvido que vejam, nem sequer lembrarão ou pensarão que era algum tipo de alucinação das suas mentes. Venha, suba aqui.

Com certa dificuldade, ele conseguiu chegar à janela. Amélia estava impaciente com a inabilidade de Ben, reclamando baixo sobre como estavam perdendo tempo.

— Vamos, por aqui. — Ela disparou pela porta do recinto, indo em direção ao corredor, não dando a Ben tempo de ver o que havia no local.

Ele teve de se esforçar para acompanha-la, correndo o mais rápido que conseguia, apenas seguindo vulto do seu cabelo ruivo, confiando nela, sem olhar ou pensar no que estava fazendo. Subiram escadas, passaram por muitos corredores. Ben sabia que era errado, contudo queria uma chance com a moça e por ela invadiu um palácio e por ela estava correndo por esse palácio.

Depois de dobrar em um corredor à esquerda, Amélia havia sumido. Ben ficou confuso e ansioso; queria saber o que havia acontecido. Alguém o agarrou, puxando-o pelas costas para dentro de uma sala. Questão de segundos até acostumar-se à escuridão e Ben conseguiu enxergar Amélia a seu lado. Ela havia fechado a porta do lugar. Olhando ao redor, era um quarto, provavelmente de algum nobre residente no castelo, pois era ricamente decorado e enorme. Havia uma porta que levava a uma biblioteca e outra que levava ao banheiro.

Como estava cansado e um pouco tonto, decidiu se sentar em um dos sofás perto da porta. Amélia sentou-se ao seu lado; ela não parecia cansada, parecia estar muito bem, talvez entediada pela sua expressão facial. Ben tinha muitas perguntas, embora não conseguisse formular nenhuma delas de maneira clara. Respirou fundo algumas vezes, fechou os olhos por alguns instantes, tentou pensar de maneira lúcida.

— Por que me trouxe aqui?

— Queria um espaço para conversarmos melhor.

— E esse espaço seria o quarto de um desconhecido?

— Seria o meu quarto. — Ben a encorou, perplexo.

— Sua família é dona desse palácio?

— Sim.

— Então por que viemos correndo? Para que tudo isso? — Ele não sabia como reagir a situação, agora que tinha conhecimento total dela.

— Eu queria testar você, ver até onde iria... Não achou divertido, Ben? — questionou com um amplo sorriso, quase rindo.

Ben estava indignado. Amélia o havia feito passar por tudo aquilo, correr pelos jardins, escalar e adentrar a janela, correr pelo palácio... Apenas para brincar com ele. Saber se ele confiaria nela. E ele confiou. E faria tudo de novo, se fosse preciso. Vendo-a achando graça da situação o desarmou. “Ela tem um sorriso lindo.”

Amélia ficou séria e o olhou.

— Tudo que fizemos e faremos essa noite não sai daqui, entendido?

— Sim.

— Ótimo!

Amélia levantou-se do sofá, foi até a cama e deitou. Ben levantou também e foi até ela.

— Vai deitar-se comigo ou ficará olhando para mim com um boçal?

Ele ficou muito envergonhado. Deitar-se com Amélia seria como um sonho como Ben, porém eles não estavam devidamente comprometidos ainda.

— Nós... Eu...

A moça puxou para a cama, fazendo-o deitar, beijando-o como se estivesse apaixonada por ele. Por algumas horas, Ben acreditou que ela realmente estivesse e se declarou. Por algumas horas, ela fingiu amá-lo e ele amou-a de volta. Porém apenas por algumas horas.

*

Quando Ben acordou, Amélia não estava mais lá. Ela provavelmente estaria comendo ou no banheiro, logo voltaria para dar bom dia a ele. Havia sido a noite mais perfeita em sua vida. Ele cheirou os lençóis; ela tinha o melhor perfume, ele nunca sentiu nada igual. A pele dela era tão macia. Ela era tão bonita. Ben não acreditava em amor à primeira vista, mas depois de conhecer Amélia, ele sabia que a amava. Uma noite era suficiente para amar.

Amélia adentrou o quarto. Trajava um vestido leve e delicado, sem detalhes, todo amarelo.

— O que você ainda está fazendo aqui, Ben?

— Como assim? — Com certeza era apenas mais uma de suas brincadeiras.

— Poderia se retirar do meu quarto, aliás do meu palácio? Tenho um dia cheio de compromissos pela frente. Obrigada. — Amélia deixou a porta aberta e foi remexer em algo biblioteca particular que tinha no quarto.

Ben estava muito confuso.

— Você está bem, querida? Aconteceu algo?

— Aconteceu sim: você ainda está aqui — disse ela da biblioteca. — E eu não sou sua querida.

— Amélia, trocamos juras de amor. Tivemos a noite mais incrível das nossas vidas. Por que está agindo assim?

— Uma noite é suficiente para amar. Amamo-nos por uma noite. Acabou-se.

— Mas e se você estiver grávida?

— Eu sou estéril, Ben. Você acha mesmo que eu teria me deitado com você e outros tantos caso pudesse engravidar?

Uma profunda tristeza abateu-se sobre Ben. Era como se ele estivesse num campo verde cheio de flores, feliz, comendo doces e as flores, sem aviso, explodissem em substâncias tóxicas, atordoando-o, matando-o. Seu mundo, tão colorido com a chegada de Amélia, desmanchou-se em cinzas.

A rosa tinha espinhos afiados e Ben percebeu tarde demais.

Ainda doía em Bem. Ainda o machucava. Quando pensava em pequenas coisas, como janelas e rosas, lembrava dela. O perfume parecia impregnado em suas roupas. E a dona do perfume em sua mente. Ir a festas era inútil, ele nunca iria esquecê-la.

Teve a impressão de ter ouvido seu nome, o que o fez parar de divagar. Havia duas jovens damas que o olhavam de maneira indiscreta há alguns metros da sua mesa, aparentemente falando sobre ele, espalhando ainda mais boatos sobre ele e seu caso com Amélia. Passado alguns dias desde a festa em que se conheceram, Ben começou a ouvir calúnias sobre si; informações falsas ou distorcidas chegavam a seu conhecimento. Alegações como “ele a abandonou depois de deitar-se com ela”, “ele é cruel e vil, não é a primeira garota com a qual ele brinca com o coração” ou “por sorte ela não engravidou”... Se soubessem da verdade. Se soubessem que ela o havia abandonado, que ela é cruel e que ela é estéril... Mas não sabiam. Ninguém acreditaria se Ben contasse. Ele teria de conviver com as calúnias de Amélia para o resto de sua vida, perseguindo-o a toda festa que for, nunca o deixando esquecer da noite em que estiveram juntos.

Por uma hora, ficou observando as pessoas na festa, tentando se distrair e esquecer do que o incomodava. O ritual de cortejo avançava a passos lentos, os casais recém começavam a se formar e se reunir para conversar antes de os músicos começarem a tocar as músicas para as valsas.

Um grupo de nobres estava reunido ao redor de algo, havia um burburinho ali que Ben não havia notado antes. Ele tentava enxergar algo, analisar a situação, tentar pescar uma informação para saber do que se tratava tanto alvoroço, porém sem sucesso. E então um casal idoso se aproximou do grupo, parecia ser amigo deles, obrigando-os a abrir a roda que formada para que eles pudessem se juntar. Nesse meio tempo, Ben viu o motivo da reunião de nobres: Amélia ao lado de um homem elegante, exibindo o anel em sua mão. O homem desconhecido e ela estavam noivos. Não foi apenas Ben que a viu, ela também notou sua presença. Amélia disse algo ao noivo e aos que estavam ao redor dela; o homem pareceu protestar, mas ela ignorou-o, vindo velozmente na direção de Ben.

Ele não sabia como reagir, não estava preparado para encará-la mais uma vez. Vê-la ao lado de outro havia causado uma sensação estranha nele, algo que nunca tinha sentido antes. Ciúmes.

— Olá, Ben. Como está? — Ela continuava linda. Seus cabelos dessa vez estavam presos e cacheados, seu vestido estava mais parecido com o das outras damas, porém continuava a ser mais simples e bonito que os delas, e seu perfume... Aquele era o cheiro que atordoava Ben.

— Estou bem. E você, Amélia? — Como ela havia sido educada e formal com ele, agiria assim também.

— Estou ótima. Fiquei noiva — falou exibindo o belo anel. Era de ouro com um grande diamante.

— O anel é lindo, parabéns. Desejo muitas felicidades a vocês dois. — A cada palavra dita, Ben sentia uma flecha se cravando em seu coração.

— Sim, obrigada, tanto faz. — Amélia, como sempre, mostrava desinteresse a todo tempo, como se apenas os desejos momentâneos dela importassem e todo o resto não fosse bom o suficiente para merecer a atenção dela. Como Bem não havia percebido isso antes? Essa atitude dela?

Eles despediram-se trocando mais algumas poucas palavras e ela voltou para o lado do seu noivo.

Amélia era a pessoa mais egoísta que Ben já havia conhecido. Ela queria tudo de todos para si. Ben deveria agradecer a ela por tê-lo expulsado de sua vida, acabaria se prejudicando mais se continuasse a seu lado. Tinha pena do noivo dela. Apesar de ainda machucar, ele teria de esquecê-la. Ela não queria seu amor. No final de tudo, Amélia só queria sua atenção, apesar de Ben nunca ter tido a dela.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!