Notas iniciais
Aí a continuação do Amálgama pessoal, espero que gostem!

Para quem não me conhece, meu nome é Talita, e eu sou assistente de Enzo Velasquez, o último parapsicoinvestigador do mundo. Vou tentar explicar minha situação até aqui.

Desde que me lembro estou sozinha nesse grande mundo. Sem pais, família, amigos ou conhecidos. Minha vida se resumia a fugir e ser recapturada por diversos orfanatos, roubar comida ou qualquer coisa que pudesse ser convertida nela e tentar evitar problemas com marginais. Às vezes alguma dessas coisas dava errado e eu precisava passar uma temporada em algum hospital que tivesse a bondade de atender uma coitada como eu. Não nego que sempre tentaram me ajudar, os orfanatos, os hospitais, as pessoas que me encontravam pelas ruas... mas elas nada podiam fazer. Eu mesma nada podia fazer contra aquelas companhias que volta e meia cruzavam meu caminho...

Eu sabia quando alguma coisa ruim ia acontecer. Sabia que aquela seria a última vez que aquela jovem atravessaria a rua. Sabia que o coração daquele senhor era uma estrada esburacada que não tardaria em ter um acidente sério. Sabia que o jovem que caminhava com fone nos ouvidos teria um desagradável encontro com outros jovens que levariam mais do que seu celular.

Isso quando eu não encontrava todas essas figuras depois que elas passavam para o outro lado...

Podia ser um arrepio, um cheiro, um vulto, uma voz, ou um misto de tudo. Sensações tão assustadoras que me faziam fugir para qualquer direção na esperança de me ver livre delas. Mas não importava o quanto eu corresse, o quanto me escondesse, elas sempre me encontravam. Eu era um grande ímã para o sobrenatural.

Eu sentia a morte, os mortos e qualquer coisa relacionada a eles. Como as gentis pessoas nos orfanatos, nos hospitais ou nas ruas poderiam me ajudar?

Mesmo jovem eu já havia me conformado com a solidão e só não decidira dar um fim à minha vida porque sabia que encontraria muitas mais daquelas coisas se abraçasse o suicídio.

Então ele apareceu.

Foi num episódio particularmente desagradável que acabei conhecendo Enzo Velasquez. Um quase-quarentão rabugento, com olhos como buracos-negros, cabelos escuros e enrolados como um ninho de ratos, uma barba que sendo feita ou não tinha a mágica de permanecer com o tamanho exato para fazer-lhe parecer um vagabundo que está a dias enchendo a cara.

Ele era assustador para uma garota de nove anos, mas era a única pessoa que podia me ajudar.

Enzo era orgulhoso por ser o único parapsicoinvestigador do mundo. Eu não demorei a entender o que aquela inovadora profissão era... Enzo basicamente ia para os lugares mais assustadores do planeta resolver os problemas de seus moradores, e a partir do momento que nos tornamos uma dupla eu passei a acompanhá-lo em missões que fariam até o mais valente dos soldados molhar as calças.

Estávamos em uma missão dessas agora.

Nosso anfitrião, senhor Basílio, já tinha certa idade. Seu ralo cabelo era branco e seus olhos cor de mel cobertos por tantas rugas que era difícil saber quando estavam abertos ou fechados. Ele caminhava com o corpo arqueado como se a gravidade o afetasse mais do que afetava as pessoas normais, para completar a sensação, suas pernas corroídas pela osteoporose estavam flexionadas como as de um recém nascido.

Ele nos conduziu até a porta da frente, em madeira ricamente trabalhada e com um puxador de bronze na forma de uma gárgula. Antes de entrar respirei fundo ajeitando meu rabo de cavalo, meus cabelos castanhos eram compridos e eu não gostava de deixá-los soltos. Esfreguei meus olhos cor de mel com dedos trêmulos e me preparei para pôr minha vida em risco mais uma vez...

- Com vocês o grupo está completo então poderemos começar. – Nosso anfitrião, senhor Basílio, disse antes de nos convidar para entrar.

A porta foi aberta revelando uma escadaria de mármore claro, os degraus possuíam um carpete próprio que deveria ter custado algumas fortunas. Haviam quadros nas paredes de temas diversos e passagens laterais dos dois lados. O senhor Basílio nos conduziu para a direita colocando-nos diante de uma sala que me fez esquecer por um momento as terríveis sensações que já começavam a me assolar.

- Uau!

Era grande! Mais do que isso, era imenso! O pequeno casebre do Enzo era uma piada perto daquele cômodo! As imensas janelas estavam com as imensas cortinas abertas, jogando uma luz clara por todo o local. Num dos cantos existia uma lareira com o quadro de um austero homem sobre ela. Próximo, uma grande fileira de armários com peças de cristal tão brilhantes que algum efeito de computador parecia adicionado a atmosfera. Uma série de sofás estavam dispostos junto a uma mesa de centro, tão macias que um rato poderia se perder em seu meio até ser encontrado por algum azarado morador.

Mas não parecia haver nenhum rato pelas redondezas. Pelo menos as duas figuras sobre os sofás faziam parecer que não.

Uma era de um senhor na casa dos cinquenta. Pelo menos era o que seus cabelos brancos e as rugas diziam, porque se você visse a profundidade de seus olhos azuis era como olhar um adolescente no auge da juventude. O senhor usava uma batina negra com um tecido roxo sobre os ombros, indo para em sua cintura, a Bíblia aberta sobre o colo deixava claro que não fora só Enzo e eu os convocados para acabar com as assombrações daquela casa.

No outro extremo havia uma mulher com não mais de trinta anos. Cabelos castanhos viçosos que chegavam ao meio das costas. Olhos verdes que pareciam observar cada canto da sala independente de onde apontassem. A mulher vestia calças jeans e camiseta casuais. Minha percepção me dizia que ela tinha perturbações parecidas com as minhas.

Enzo foi até um dos sofás, largando a mochila com um baque. Eu me sentei a seu lado. Nosso anfitrião buscou lugar em outro assento e acabamos os cinco encarando uns aos outros.

- Aos que chegaram mais cedo, peço desculpas pelos que se atrasaram. – Basílio saudou e os olhares viraram para mim e para Enzo. Eu não sabia a hora que Enzo havia marcado, mas já tinha noção de seu histórico de não pontualidade. – Agora que estamos todos aqui poderemos começar, e é bom fazermos isso antes que decidam nos matar.

Notas finais
É isso pessoal, espero que gostem, comentários são sempre bem vindos!