Além do horizonte escuro- Os Lâfrer
19 CAPÍTULO 18: O Legado da Luz
Cinco anos haviam se passado, e o nome Lâfrer não era mais apenas sinônimo de linhagem militar, mas de esperança. A mansão, que antes era um mausoléu de silêncio e poeira, havia se transformado na sede da Fundação Lâfrer de Amparo ao Veterano.
O financiamento para o projeto veio de uma ironia final do destino. Após se suicidar na prisão, incapaz de suportar a desonra e o desprezo da própria filha, o General Vance deixou uma herança vasta e manchada de sangue. Hadassa não hesitou: usou cada centavo para construir centros de reabilitação, clínicas psicológicas e programas de reinserção para soldados que, como Richard, sentiam que o mundo havia acabado após a farda.
No dia da inauguração oficial, o jardim da fundação estava repleto de homens e mulheres que finalmente tinham um lugar para chamar de lar.
— Você está muito quieta, Doutora Nymerelle — a voz de Richard, agora mais profunda e carregada de uma paz madura, soou atrás dela.
Hadassa estava no alto da escadaria, observando a placa de bronze na entrada. Ela usava um jaleco branco com o emblema da fundação. Richard aproximou-se, vestindo apenas uma camisa social branca, os olhos azuis brilhando sob o sol.
— Só estava pensando na ironia de tudo isso, Richard — ela sorriu, a língua afiada ainda presente, mas agora suavizada pelo tempo. — O dinheiro de um homem que só sabia destruir agora está pagando o salário de quem constrói. É o melhor diagnóstico que já dei.
— Você sempre teve um talento especial para transformar veneno em antídoto — Richard a abraçou pela cintura, beijando o topo de sua cabeça.
Nesse momento, um som de pequenos passos rápidos ecoou pelo corredor de mármore.
— Papai! Mamãe! Olhem o que eu achei!
Um garotinho de quatro anos, com os mesmos olhos azuis intensos de Richard e o cabelo escuro de Hadassa, surgiu correndo. Ele segurava uma pequena boina militar, que ficava enorme em sua cabeça.
— Thomas — Richard chamou, usando o nome de seu próprio pai com um orgulho renovado. — Cuidado com as manobras táticas nesse corredor, soldado. O chão está encerado.
O pequeno Thomas Lâfrer parou, bateu uma continência desajeitada (exatamente como Richard costumava fazer quando queria irritar Hadassa) e deu um sorriso travesso.
— Eu sou um explorador, papai! Estou procurando o tesouro da fundação!
Hadassa agachou-se, arrumando a boina na cabeça do filho e limpando uma mancha de grama no joelho dele.
— O tesouro está na cozinha, Thomas. Chama-se "biscoitos da vovó Claire". Mas aviso que o caminho está cheio de perigos, como lavar as mãos antes de comer.
O menino riu e saiu correndo novamente, a personificação da vida que Richard achou que nunca teria.
Richard e Hadassa ficaram ali, de mãos dadas, observando o filho brincar sob o sol. A cicatriz no rosto de Richard ainda estava lá, um mapa de sua história, mas não causava mais dor. A herança de Hadassa também estava presente, mas não carregava mais o peso do crime.
— Sabe, Capitão — Hadassa sussurrou, encostando a cabeça no ombro dele. — O Thomas tem o seu sorriso sarcástico. Eu criei um monstro.
— Não — Richard sorriu, olhando para o horizonte que agora era claro e infinito. — Você criou um Lâfrer. E graças a você, ele nunca vai precisar lutar uma guerra sozinho.
A Fundação Lâfrer estava aberta. A escuridão fora vencida. E no coração daquela família, a luz nunca mais deixaria de brilhar.
Fale com o autor