Além do encanto

3 Um piquenique qualquer


Em um galho, no alto de uma árvore, Elina aproveitava a brisa que aquela manhã agradável lhe proporcionava. Àquela altura era possível admirar os pássaros voando e silenciava, de forma agradável, os sons da cidade à sua frente.

Um ruído chamou sua atenção, Celine acenava energeticamente. Atrás dela, Shiro a olhava de forma curiosa. A fada pulou de onde estava e pousou de forma graciosa em frente às duas, ganhando empolgadas palmas da ruiva.

— Em que posso ajudá-la, Line? — Elina olhava gentilmente para a amiga, era quase como se Shiro não estivesse ali.

— Piquenique. — Celine levantou uma cesta, quase cobrindo o rosto da garota à sua frente. — Está uma manhã bonita e achei que... Seria bom. — Ela olhou de canto para a garota que esperava pacientemente atrás de si, antes de voltar toda sua atenção a Elina. — Gostaria de nos acompanhar?

Um silêncio se instalou enquanto a tensão pairava, elas apenas receberam um aceno de cabeça como resposta. A presença de Shiro ainda era um incômodo, mas Elina prometeu que seria legal, ao menos tentaria. Além de que, ela não tinha nada para fazer naquele dia, ela nunca tinha.

Desde que passou a viver entre os humanos, apenas vagava por ai, sempre procurava algo para se entreter, mas rapidamente perdia o sentido.

— Conhecemos um lugar que você vai amar. — Celine sorriu empolgada, a empolgação da ruiva não contagiava Elina, mas ainda assim ela sorriu. Ela via algo precioso na positividade e bom humor de Celine, afinal, foram essas qualidades que as tornaram amigas.

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Foram necessárias algumas horas de caminhada para que finalmente chegassem ao local, Shiro e Elina não conseguiam evitar o pensamento de que sozinhas chegariam em instantes, mas Celine não possuía nenhuma habilidade que a permitisse acompanhá-las.

Ambas suspiraram aliviadas quando finalmente chegaram ao local. Mas Celine estava certa, Elina adorou o lugar. No topo de um morro havia um belo campo de flores, o aroma do lugar era suave e aconchegante e a brisa agradável fazia com que as costas da fada formigassem, desejando senti-la passando por suas asas.

— É realmente um lugar bastante agradável. — Elina beijou a bochecha da amiga enquanto Shiro estranhava o jeito suave de falar da garota.

Celine sorriu.

— Eu sei, gostamos muito daqui.

— Por que nunca me falou dele? — Disse enquanto ajudava a organizar as comidas pelo local.

— Bem, você sempre parece distante, fico preocupada em acabar incomodando. Mas ao mesmo tempo me preocupo de você ficar sozinha demais. Um pouco contraditório, não acha?

Elina riu brevemente.

— Não. É apenas como você é.

Shiro ouvia tudo atentamente, as ajudava, porém não via sentido em se pronunciar. Achava a fada interessante, tinha curiosidade em saber mais, mas sabia que era apenas um gasto desnecessário de energia. Estava ali apenas por Celine, a ruiva achava que precisavam apenas de um pouco mais de tempo juntas, e nada fazia com que ela mudasse de ideia, era igualmente cansativo.

"Pretende ficar quieta o dia inteiro?"

"Sabemos que ela irá gritar comigo assim que ouvir minha voz. Me surpreende ainda não ter feito isso só por eu estar aqui." — Shiro sentia que Pyke ria, mas não o ouvia.

"Ela deve sentir algo a mais... Você sabe. Fadas não gostam muito de tipos como eu."

"E isso não dá a ela o direito de ser escrota."

Um toque em sua mão tirou Shiro de seus devaneios, ao olhar para cima Celine a encarava com um sorriso gentil.

— Você está bem? Está quieta demais.

— Estou bem. É só... — Elina a encarava, não parecia irritada ou coisas do tipo, apenas parecia não se importar nem um pouco. — Não é nada.

Elas comiam em silêncio, não chegava a ser ruim, mas não era esse o intuito. Celine achava que deveriam conversar, mas forçar também não seria uma boa ideia. O que deveria fazer?

Borboletas encantavam o local, parecia não existir hora ruim por ali. Pela manhã as borboletas faziam sua bela dança sobre as flores, à noite os vagalumes traziam a luz. Era sempre um lugar lindo.

Os belos insetos se aproximavam das garotas, alguns paravam sobre a comida, mas a maioria rodeava Elina. A mesma estendeu a mão e uma pousou em seu dedo.

— Elina leva jeito com animais, sabia? — Disse Celine animada. — Os animais a adoram, estão sempre por perto.

— Isso é graças ao que sou, não tem muito mérito meu. — A borboleta agora se encontrava em seu nariz. — Consigo me comunicar com eles, entendê-los, e até mesmo lhes ordenar algo. — Mais borboletas se aproximaram de Elina, a maioria pousou por seu corpo, mas algumas ainda sobrevoavam ao seu redor. Ela não conseguiu conter uma risadinha quando a que estava em seu nariz se moveu, fazendo algumas cócegas.

O peito de Shiro se agitou por um breve instante.

Ao olhar para Elina, parecia estar presenciando uma princesa de contos infantis. Aquelas princesas doces e ingênuas que estão sempre cantando e rodeadas por animais, exceto pelo fato da fada não ser ingênua e, muito menos, doce.

— Isso é tudo o que consegue fazer? — Perguntou Shiro e então as borboletas se foram.

— Não. Mas o que posso fazer não vem ao caso.

Um silêncio constrangedor se formou novamente, Celine terminava uma xícara de chá quando a oportunidade de assunto surgiu ao ver Elina pegar um bolinho.

— Você gostou? — Perguntou empolgada, Elina apenas a encarou ainda de boca cheia. — Shiro é uma ótima cozinheira. Eu não sei como consegue, mas tudo o que ela faz é incrivelmente delicioso.

A assassina corou. Ela podia ser impecável ceifando vidas, podia ser imbatível em combate, mas elogios a deixavam desnorteada.

— É normal. Como qualquer outra comida.

Era delicioso. Pelos Deuses, como aquilo era delicioso. A forma como a massa se espalhava pela boca e o recheio era doce e suave, Elina sentia sua boca salivar desejando mais. Mas jamais demonstraria isso, então apenas continuou inexpressiva.

— Eu não consigo entender porquê me odeia tanto.

— Não odeio você, é insignificante demais para isso. — Elina tomava uma xícara de chá tranquilamente, enquanto a paciência de Shiro se esgotava.

Celine sentia uma tempestade vindo, infelizmente ela preferia enfrentar uma tempestade estando em mar aberto a ter que lidar com aquela à sua frente.

— Se eu sou tão insignificante, por que continua me ofendendo a cada oportunidade? Me explique, me faça entender, qual o motivo de tanto desprazer com o simples fato da minha existência.

O som da xícara ao ser colocado no pires pôde ser ouvido quando a expressão de Elina se fechou em completo desgosto ao olhar para Shiro.

— Tudo o que vocês humanos sabem fazem é destruir, arruinar, vocês são caóticos e desprezíveis…

— Nem todos! — Celine a interrompeu.

— Certo! Há excessões. Mas Shiro não é uma delas. O trabalho dela é o exemplo perfeito do quão baixo os humanos podem chegar, do quão desprezíveis podem ser. — Shiro abriu a boca para revidar, mas ela ainda não havia acabado. — Além do mais, não basta o cheiro nojento de sangue que a persegue, algo muito ruim a rodeia, eu não sei o que é, mas pessoas boas não transmitem essa sensação. A energia dela é ruim.

"Bingo!"

— Você não me conhece, não sabe NADA sobre mim. Não pode decidir o meu caráter com base em superficialidades.

— Não preciso conhecer você para saber.

— É claro que precisa! — Shiro se exaltou. — Não sabe que tipo de pessoas eu mato, não tem a menor informação sobre coisas que faço na minha vida. Você não passa de uma estúpida preconceituosa, você consegue ser pior do que diz que eu sou. Você é baixa e arrogante.

Elina piscou algumas vezes, surpresa com o que acabara de ouvir.

— Quem sabe quando aprender que as pessoas são muito mais do que simples rótulos, você possa se tornar alguém decente. — Os olhos de Elina cintilaram por um breve momento.

— Eu sou alguém decente. Se insiste tanto em ganhar a vida de forma tão asquerosa, devia ao menos aprender a se lavar e tirar esse cheiro horrendo de você. Porca.

Uma adaga cortou a bochecha de Elina, parando a alguns centímetros atrás dela.

— Cala. A. Boca! — Antes que pudesse falar ou fazer mais alguma coisa, o toque suave de Celine alcançou o braço de Shiro. Ela negava com a cabeça. Shiro suspirou. — Você não vale a pena.

A assassina levantou-se irritada e logo desapareceu em sombras. Celine encarou Elina em completa decepção, a fada começou a se perguntar se havia ultrapassado algum limite.

— Sabe, você ainda tem muito a aprender, Elina. É verdade que muitos humanos são de fato ruins, mas não é porque eles existem que todos serão ruins. O mundo não é assim. Sempre há algo bom, todos são diferentes entre si, você precisa aprender a reconhecer isso.

Celine levantou e deixou o local.

Elina, agora deitada entre as flores, observava o céu enquanto sentia o sol queimar a pele. Definitivamente não havia sido feita para viver entre humanos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.