Além do Olhar
3 Máscaras de Cristal
O salão do Clube Harmonia brilhava sob o lustre de cristal. Era a noite do evento beneficente anual, e a elite da cidade exibia suas joias e sorrisos ensaiados. Kyara usava um vestido elegante, mas sentia-se sufocada. Seus pais, Arthur e Elizabeth, desfilavam como se fossem a realeza local, seguidos por um Arthur satisfeito em seu terno sob medida.
— Sorria, Kyara — murmurou Elizabeth entre dentes, enquanto cumprimentava um senador. — Você é uma Stanford, comporte-se como tal.
Foi quando Kyara o viu. David Sinclair estava perto da varanda, conversando com o reitor da faculdade. Ele vestia um terno cinza chumbo que parecia ter sido esculpido em seu corpo. Sua presença era magnética, uma ilha de autenticidade naquele mar de falsidade.
— Pai, mãe, Arthur... — Kyara chamou, o coração acelerado. — Quero apresentar alguém.
Ela caminhou até David, que sorriu ao vê-la. Ao chegarem perto da família, o sorriso de David permaneceu educado, mas a expressão dos Stanford mudou instantaneamente. O ar pareceu congelar.
— Professor Sinclair, estes são meus pais e meu irmão, Arthur — disse Kyara, tentando manter a voz firme.
David estendeu a mão para o pai de Kyara.
— É um prazer conhecê-los. Kyara é uma das minhas alunas mais brilhantes.
O senhor Arthur Stanford mal tocou na mão de David, retirando a sua rapidamente como se tivesse encostado em algo incômodo. Ele olhou David de cima a baixo, com um desprezo que não se preocupou em esconder.
— Sinclair? — perguntou o pai, a voz carregada de ironia. — E você dá aulas de quê, exatamente?
— Educação Física, senhor — respondeu David, mantendo a postura impecável, embora seus olhos notassem a hostilidade.
O irmão de Kyara soltou uma risada nasalada, olhando para o lado.
— Ah, sim. O "treinador". Kyara comentou que estava entusiasmada com o novo curso, mas não imaginava que o nível era... esse.
— Arthur! — Kyara sibilou, sentindo o sangue subir ao rosto.
— O que foi, querida? — Elizabeth interveio, com um sorriso gélido. — Só estamos surpresos. Geralmente, as referências da faculdade são de profissionais com outro... perfil. Você entende, não é, senhor Sinclair?
David respirou fundo, a mandíbula levemente contraída.
— Entendo perfeitamente o seu "perfil", senhora Stanford. Com licença.
Ele se retirou com uma elegância que os Stanford jamais teriam. Kyara ficou parada, trêmula de raiva, vendo David se afastar enquanto sua família voltava a conversar como se nada tivesse acontecido.
O Confronto
O trajeto de volta para casa foi um silêncio sepulcral. Assim que a porta da mansão se fechou, a explosão aconteceu.
— Como vocês puderam? — Kyara gritou, a voz ecoando no hall de entrada. — A educação que vocês tanto pregam ficou onde? No lixo?
— Baixe o tom, Kyara! — ordenou o pai. — Você nos faz passar vergonha apresentando um... um sujeito daqueles em um evento de gala?
— "Sujeito daqueles"? O nome dele é David! Ele é mestre, é um profissional incrível e um homem de caráter! — Kyara rebateu, as lágrimas de ódio escorrendo.
— Ele não pertence ao nosso círculo, Kyara — disse o irmão, tirando o paletó calmamente. — Você é loira, linda, tem o mundo aos seus pés. Por que se rebaixar andando com gente assim? É por isso que Medicina era melhor, lá o nível das pessoas é outro.
— "Gente assim"? Você é racista, Arthur! Todos vocês são! — Kyara apontou para cada um deles. — Eu tenho nojo desse preconceito mascarado de "tradição". Eu amo o que faço e admiro o David mais do que qualquer um de vocês com seus diplomas de luxo e corações vazios!
— Chega! — Elizabeth gritou. — Enquanto morar sob este teto...
— Pois talvez eu não devesse morar mais! — Kyara interrompeu, subindo as escadas correndo.
Ela entrou no quarto e bateu a porta com tanta força que um quadro no corredor chegou a tremer. Trancou a fechadura, jogou-se na cama e chorou — não de tristeza, mas de uma fúria transformadora. Ela não era mais a boneca dos Stanford. A barreira tinha sido rompida, e ela não pretendia voltar atrás.
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