Além do Mar
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Encarei as ruas vazias e a chuva que caia forte pela janela, talvez pela quarta vez nos últimos dois minutos. Minha mente, ainda esperançosa, torcia para ver um homem correndo sob a chuva em direção ao restaurante. Mas não havia ninguém.
Encarei meu celular, sem mensagens ou ligações novas. Ele tinha meu numero, ele me ligou para marcar o bendito café. Eu atendi e ele havia logo começado a falar.
– Alo?
– Oi! É o Jacob, da lavanderia. Não o cara da lavanderia, mas o outro cara. Que você conheceu na lavanderia. Jacob.
– Eu sei quem é. Tudo bem?
– Tudo.
Eu não apenas sabia quem era só porquê ele era a única pessoa além de Clint que tinha meu número, mas também porquê passei todo o dia depois da ida à lavanderia pensando nele. Não de uma forma fantasiosa, mas apenas relembrando e me questionando sobre o olhar que ele me lançava, tão intenso e certeiro.
Mas agora, eu pensava nele com um misto de raiva e vergonha. Belo forma de estabelecer relações Summer, levando um bolo logo na primeira saída. Pensei com ironia e fitei o relógio no celular. Eram quatro e quarenta e seis da tarde. Tínhamos combinado as quatro.
Eu não sabia o que era pior, levar um bolo onde todos já te conhecem ou levar um bolo onde ninguém te conhece ainda e ficar conhecida como aquela que levou o bolo.
Com pensamentos raivosos e mortais direcionados para Jacob, paguei o único café que havia tomado e voltei para meu carro debaixo de toda aquela chuva, não me importando em molhar os bancos de couro quando entrei e dirigindo para além da minha casa.
Clint havia dito para ir ao mar apena quando extremamente necessário, afim de não chamar atenção ou correr riscos. Bem, agora era necessário.
A praia estava vazia, logicamente. Afinal, quem seria louco para querer mergulhar com essa tempestade acontecendo? Bem, eu.
Tirei os sapatos e a jaqueta, desabotoei minha calça e tirei minha camiseta ainda no carro. Apenas de lingerie, saltei correndo na chuva e disparei para o mar. Bastava correr ao risco de alguém me ver entrando no mar na chuva para me acharem uma completa pirada, se adicionassem o fato de eu estar de calcinha e sutiã, a situação ficaria ainda mais difícil de explicar.
Enquanto atravessava as ondas fortes e intensas, vi raios há distancia, relâmpagos e trovões vibrando na tarde escurecida. Um raio forte fez tudo piscar e eu mergulhei sem medo.
Bati as pernas para o fundo, o corpo rente a areia e os olhos bem abertos, apesar de ainda não conseguir enxergar nada. Então permiti meu corpo a um momento de alivio e senti a familiar e saudosa sensação me tomar.
Era como se espreguiçar depois de dormir em uma posição ruim, era um alivio para toda a tensão, uma válvula de escape e uma saída para os meus problemas. Pelo menos enquanto a transformação ocorresse.
Não era doloroso ou ruim, pelo contrário, o prazer era de me fazer revirar os olhos. Minhas pernas se juntavam com um queimação deliciosa, internamente meus órgãos se alteravam, modificavam pouco a pouco com pequenos choques. Meu corpo estava carregado de adrenalina e meus sentidos se ampliavam. Meus olhos passaram a ver as formas submersas de peixes, algas e corais, meus ouvidos captavam o som das correntes marinhas, as vibrações das barbatanas distantes e mesmo o som de chamados muito longe de baleias.
Então eu tomei folego e meus pulmões encheram-se de água salgada, o gosto era familiar e mesmo algo que eu apreciava. Pude respirar novamente enquanto meus órgãos internos estavam modificados para absorver o oxigênio da água do mar. A transformação teve fim e eu bati minha cauda, nadando para longe, sem rumo e sem destino traçado.
Me distanciei o suficiente para que a vida marinha se tornasse mais densa e natural, corais coloridos aqui e ali, cardumes ansiosos, um tubarão faminto me fitou e reconheceu minha presença, então nadou para perto, eu sorri com sua manha gentil e deixei meus dedos acariciarem sua pele áspera. Ele nadou para longe pouco depois, quando a fome falou mais alto do que seu dengo.
Eu continuei por ali. Onde estava a chuva acima de mim já não existia e a água não estava turva, pelo contrário, estava clara e transparente em um absurdo tom de verde.
Muitos outros peixes vieram, uma raia manta e outras menores cruzaram meu caminho me saudando de uma forma. Sereias são antigas guardiãs e protetoras do oceano. As criaturas marítimas podem não nos ver com frequência, mas reconhecem um da minha espécie quando veem e não há medo perto de nós. Sereias são boas para a vida abaixo d’água, nos cuidamos, zelamos pelas águas.
Quando me senti apta e percebi que o tempo já havia se passado, voltei sem pressa. Subi para a superfície ainda longe da orla, apenas para ter certeza que meu caminho estava livre. Não chovia, mas a praia ainda estava deserta a não ser pelo meu carro estacionado ali. Já era fim de tarde e a meia luz iria me favorecer. Mergulhei novamente e me transformei, aproveitando os momentos durante o breve período que meu corpo se adaptava a forma humana.
Mesmo sem cauda e sem pulmões que respiravam água, eu tinha uma resistência dentro do mar incomparável com qualquer nadador olímpico. Minhas pernas não se cansavam facilmente para nadar e meu folego era o suficiente para me manter embaixo d’água por uma hora sem problemas, depois disso eu precisava respirar. Além do mais, eu tinha certa afinidade com as ondas.
Não era algo comum para Sereias, mas algumas de nós possuem a habilidade de se sincronizar com o mar. O oceano é mágico da sua própria forma e por gerar criaturas como Sereias, ele nos reconhece como suas. Algumas vezes ele favorita algumas de nós e nós permite chamar pela sua ajuda. Eu sempre tive esse laço forte e ardente. Agora, com um pensamento, a maré ajudou o meu nado, a correnteza fez todo o trabalho das minhas pernas por mim e me moveu até o raso.
Meus pés finalmente tocaram a areia e minha cabeça manteve-se fora d’água. Com um olhar rápido aos arredores, corri para fora do mar nua e encharcada.
Achei a chave do carro que havia deixado sob a roda e saltei para dentro, temendo ser vista. Liguei o aquecedor, batendo o queixo de frio e esquentei minhas mãos no vento quente antes de qualquer coisa. Então sequei superficialmente meu corpo e vesti as roupas de antes, tirando um conjunto reserva de lingerie que eu levava comigo.
Se algumas garotas fazem o mesmo que eu e tem roupas de baixo reserva no carro, garanto que não é pelo mesmo motivo que eu. Meu estoque de roupas de baixo é imenso. Levando em conta que a cada transformação minhas roupas se perdem por completo e muitas vezes que não posso simplesmente correr para o mar nua, é preciso de calcinhas extras.
Eu ainda estava tentando entrar na calça jeans – o que era algo como uma missão impossível quando se está semiúmida, dentro de um carro e alguns quilos acima do peso – quando uma batida na minha janela me fez soltar um grito assustado.
Na minha cabeça uma porção de coisas poderia ter acontecido a seguir. 95% delas eram coisas saídas de filmes de terror. Foi um alívio inexplicável quando percebi uma menina me encarando com um sorriso embaraçado pelo lado de fora.
Controlei minha respiração e acalmando a mim mesma abaixei a janela sentindo minhas bochechas queimarem.
– Oi…
– Oi. – ela disse rindo e uma sobrancelha erguida na minha direção e um olhar malicioso para minhas roupas amassadas no banco do passageiro. – Eu odeio ter que fazer isso, odeio mesmo, considerando sua situação e tudo mais. Entretanto, faz parte do trabalho, — ela apontou para o símbolo na sua camiseta e eu percebi as palavras “SALVA VIDAS” em vermelho. – Você estava claramente com alguém. No mar. Íntimos. Mas só você saiu dali.
Eu tenho certeza que meu rosto inteiro assumiu o tom da sua camiseta e pensei em uma desculpa, mas ela mesmo já tinha me dado a desculpa perfeita, mesmo que embaraçosa.
– Ele saiu antes de mim. – disse tremendo de frio, vergonha e medo que ela desconfiasse da mentira.
Ela parecei mesmo um pouco suspeita por alguns segundos, então algo a fez relaxar e ela sorriu.
– Está explicado, eu teria visto se não estivesse lendo sobre a vida privada dos astros de Hollywood.
Descontraindo o clima, ela sorriu novamente e eu forcei um riso. Por mais que ela estivesse descontraindo um momento completamente embaraçoso, eu ainda estava com o jeans no meio da coxa e uma camiseta úmida colada na minha pele. Pensei em uma forma de dispensa-la sem ser grossa e não consegui surgir em nada.
– Relaxa, não vou contar para ninguém seu… encontro. Com quem quer que tenha sido. Mas me faça um favor e por favor evite o mar depois de tempestades como a de agora pouco, ou vai ser bem mais embaraçoso ter que resgatar alguém que estava em uma situação como a sua…
Sem explicação, um acesso de riso súbito me tomou por completo. Ela realmente achava que eu estava transando com alguém no mar e pior, que eu faria de novo. Não podia julga-la, afinal eu imagino ser isso que uma pessoa normal pensa ao ver uma garota sair correndo do mar nua. Pelo menos a minha verdade estava segura. E a impossibilidade e o completo absurdo da situação era cômico. Era completamente hilário.
Eu ria tanto que lágrimas escaparam pelo canto dos meus olhos e minha barriga começou a doer, eu precisei me curvar para frente, a testa contra o volante, incapaz de me parar de rir. Quando percebi, ela ria junto comigo.
Tomando folego e conseguindo finalmente me conter, estendi o braço por fora da janela.
– Sou Summer.
Ela sorriu, apoiando-se na porta do carro, do lado de fora.
– Leah. Eu diria “Prazer te conhecer”, mas…
Rimos mais um pouco.
***
A chaleira apitou agudamente, machucando meus ouvidos despreparados e me fazendo correr até a água fervendo. Coloquei a água quente em um bule pintado à mão e completei a bandeja com duas xícaras e os pires do conjunto daquele mesmo bule. Pelo menos eu conseguia ferver a água sem iniciar um incêndio, mas basicamente era à isso que minhas habilidades culinárias se resumiam.
– Peguei o chá! – avisei entrando na sala de TV e batendo a porta atrás de mim com o pé.
Jogada no meu sofá como se estivesse na própria casa, Leah segurava o controle da televisão em uma mão e na outra tinha um gorduroso pedaço de pizza.
– Eu escolhi o filme!
Depois do nosso encontro acidental e vergonhoso na praia, Leah e eu começamos a conversar. Ela me mostrou onde ficava sua torre de Salva Vidas e eu entendi porquê não havia a visto do mar, ela ficava quase que camuflada com a mata atrás e eu não prestei atenção.
Conversamos durante um bom tempo do alto da sua torre, como ela mesma chamava, e quando voltou a chover já havia acabado o expediente de Leah e eu a chamei para vir até a minha casa, ver filme e comer alguma coisa. E ela concordou.
Então agora tínhamos duas caixas de pizza, a segunda leva de chá da noite, horas de conversa e duas horas assistindo homens sem camisa lutarem em uma re-encenação das guerras gregas. Leah partilha meu gosto por filmes de guerra sangrentas com homens bonitos.
Coloquei a bandeja à nossa frente e me joguei no sofá ao seu lado depois de pegar mais um pedaço de pizza. O fio de queijo se esticou da minha boca até da fatia em minhas mãos até que se rompeu e caiu sobre minha camiseta.
– Não consigo acreditar que você mora sozinha. – ela disse depois de um pequeno silencio.
– Não é grande coisa. Na verdade é bem infernal algumas vezes, tenho que fazer todas as tarefas eu mesma. E é meios solitário as vezes. Estou pensando em pegar um cachorrinho.
Ela riu e deu mais uma mordida na sua pizza.
– Minha casa é um constante pandemônio. Nunca está silêncio por lá, sempre tem alguém… acordado, parece até as pessoas lá não dormem nunca! – ela comentou com um riso baixo no final que não me passou despercebido.
– Você tem muitos irmãos?
– Só dois.
– É que você disse… Parece que tem mais gente na sua casa.
– Ah, e tem. Moro com meus tios, primos e irmãos. Somos doze ao todo. – ela contou rapidamente.
– Nossa! Isso é uma casa movimentada.
– Bem, sim. Como eu disse, um pandemônio. E o cheiro…
Lhe lancei um olhar questionador e ela ficou sem graça, então riu alto.
– De qualquer forma, eu logo vou me mudar.
– É mesmo?
– Mesmo. Estou saindo com esse cara e eu acho que logo vamos escolher um lugar juntos.
– Então é serio? Estão juntos há quanto tempo?
– Alguns meses, mas eu sei que ele é o cara certo.
– Nossa, queria ter sua convicção para esse assunto.
– Como assim? – ela me fitou honestamente em duvida e eu dei ombros.
– Quando se trata de homens eu sou um desastre! Não vou em um encontro há anos e hoje mesmo levei um bolo!
– Mas e o seu encontro misterioso do mar?
Eu gelei. Tinha completamente esquecido da mentira de mais cedo e o motivo do nosso encontro.
– Ah… Bem… — eu cacei na minha cabeça uma desculpa e quando comecei a entrar em pânico por não conseguir achar nenhuma e Leah começou a parecer desconfiada, seu telefone começou a tocar.
Soltei um suspiro de alivio e ela pediu um minuto para atender, saindo da sala. Me recolhi no sofá com a xícara de chá nas mãos, o calor muito bem vindo esquentando meus dedos gelados e o trazendo conforto e calma para mim. Pensei rapidamente em uma desculpa que daria para Leah, se ela voltasse a perguntar sobre o tal “cara misterioso”, mas não foi preciso. Quando ela voltou para sala, sua expressão estava um pouco perturbada e ansiosa. Ela me deu alguma desculpa esfarrapada sobre precisar ficar de babá para sua prima mais nova e saiu voada de casa.
Eu não quis discutir ou pedir para explicar, afinal nos mal nos conhecíamos e Leah não pediu para eu explicar sobre o suposto encontro indecente no mar.
Depois que ela saiu, eu arrumei a pequena zona que havíamos criado e guardei o resto de pizza na geladeira e tomei todo o bule de chá sozinha enquanto organizava a casa. Com a mente longe, pensei no dia de amanhã, primeiro dia de aula, pelo menos para mim.
Toda a minha vida eu passei fugindo de vampiros e nunca tive oportunidade de ficar em um lugar por tempo suficiente para frequentar a escola. Por isso Clint sempre me ensinou tudo. Ao menos, tudo que eu precisava saber para viver bem e fugir de vampiros.
Por conta disso eu era a melhor quando o assunto era “como empalhar vampiros, arrancar suas cabeças e lhes tacar fogo”, mas não realmente uma prodígio no cálculo básico.
Essa última semana em casa foi minha semana para aprender tudo que um adolescente normal aprende em 17 anos de escola. Sereias, devo dizer, tem uma ótima capacidade de raciocínio, mas ainda assim uma semana não é tempo suficiente para ninguém.
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