Além do Horizonte
1 Capítulo 1 - Minha vida normal?
Capitulo 1.
Acordei sobre uma superfície fria e não demorei a perceber que se tratava do chão. Caíra da cama enquanto dormia – de novo. Levantei e olhei ao meu redor. Haviam roupas espalhadas por todo o chão e pela cama, meu guarda-roupa estava aberto e meu computador estava ligado em uma página de uma agência qualquer. Isso me lembrou que eu precisava de um emprego logo. Fui tirada de meus devaneios por minha mãe que entrou no quarto.
- O almoço está pronto – ela disse.
- O que? Eu dormi tanto assim? – perguntei e sem dar tempo para que ela respondesse, entrei no banheiro.
Olhei-me no espelho por um longo momento. Meus cabelos, castanhos e ondulados, estavam completamente embolados. Eu estava pálida e meus lábios estavam arroxeados, devido a minha anemia. Tomei banho rapidamente, coloquei uma calça jeans, uma regata e um tênis e desci até a cozinha, onde peguei uma cápsula de ferro no frasco e um copo grande de água. Despedi-me de minha mãe e dirigi-me até a porta.
- Não vai almoçar? – perguntou.
Balancei a cabeça negativamente e sem dar mais explicações, saí de casa. Passei a tarde inteira de agência em agência, deixando meu book fotográfico e meus contatos, caso passasse em algum processo de seleção. Quando o sol começou a se pôr, resolvi parar e tomar um café. A cafeteria estava lotada, então pedi um café para viagem. Reparei vagamente no rapaz que estava ao meu lado e também aguardava seu café. Ele era extremamente elegante e usava um blazer com calça jeans e um sapato de grife. Nossos cafés chegaram ao mesmo tempo e ambos falaram:
- Isso é café com leite.
- E não foi isso que vocês pediram? – a garçonete falou. Ela não parecia ter mais de 16 anos, então resolvi não discutir, mas o rapaz ao meu lado não teve a mesma idéia.
- Não, não foi isso que pedi e esse café com leite poderia me fazer passar muito mal, senhorita, pois sou intolerante à lactose.
Eu não conseguia entender porque ele parecia tão sereno ao pronunciar palavras tão enérgicas. Acho que o encarei, pois ele olhou para mim.
- Quer trocar o seu café também, senhorita? – perguntou.
- É... Não precisa não. Obrigada. – dei um pequeno sorriso em agradecimento e saí da cafeteria.
Quando cheguei a minha casa, já estava escuro e meus pais já estavam à mesa jantando. Não contei sobre o fracasso do meu dia e apenas subi para o meu quarto dizendo que depois comeria alguma coisa. Tomei banho e coloquei meu pijama quando o telefone tocou.
- Alô.
- Alô – eu falei.
- Julie James? – perguntou a voz feminina.
- Sou eu. – respondi.
- Aqui é da agência Destiny.
- Sim, pode falar – respondi ansiosamente.
- Estamos retornando para avisá-la que você não foi aprovada no processo de seleção.
Lágrimas vieram aos meus olhos enquanto terminava a ligação. Mais uma vez não havia passado no processo. Não precisava ser um gênio para saber o porquê. Fui até o banheiro e me olhei no espelho. Encarei o reflexo reparando em cada irregularidade do meu corpo. Como podia ser tão feia? Tão gorda? Tão... Senti-me nauseada.
- Ninguém nunca vai me contratar. – murmurei.
Então, lembrei-me do café com leite que estava esquecido em cima da escrivaninha. Corri até o meu quarto, peguei o copo de isopor e o levei a boca. O líquido estava gelado e o gosto era ruim, mas bebi tudo e enquanto bebia lágrimas teimosas escorriam por minha face. Lágrimas de raiva, de frustração, de angústia e de dor. Deitei na cama. Sabia que naquela noite não dormiria. Eu era muito intolerante à lactose e aquele leite iria me causa uma terrível diarréia e crises de vômito por pelo menos 24h. Eu já havia sido bulímica, mas forçar o vômito nunca foi o meu forte. Minha solução foi o leite. Puro ou com café, mas sem açúcar é claro. Ele era mais que uma alergia. Ele era meu laxante natural. Ele era meu amigo.
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