Além do Espelho

10 Na vida real não existe Respawn


Notas iniciais
Olá, queridos leitores! Eu demorei bastante tempo pra postar dessa vez, mas vocês sabem como é final de período, né e.e Bem, espero que vocês gostem do capítulo de hoje Aproveitem!!

—Se você morrer no sonho –Disse ele –Você nunca mais acorda.

Charlie nunca havia realmente parado para pensar no que a morte realmente significava. Uma hora, acreditava que as pessoas morriam e reencarnavam em algum outro ser vivo; outra hora, acreditava que a morte era realmente o fim, e que toda a sua essência seria dissipada e voltaria ao cosmo de algum modo. Agora, nenhuma dessas teorias loucas passava por sua cabeça; apenas um pensamento: Ela definitivamente não queria morrer.

Mas, como a vida estava adorando brincar com as sensações e sentimentos da jovem menina, ela certamente não se daria ao luxo de abrir mão dessa possibilidade, por mais suicida que parecesse, pois era mais um meio possível para poder encontrar sua mãe. E ele nem era tão ruim assim, se parasse para pensar. Tudo que ela precisava fazer era não morrer, o que ela vinha fazendo muito bem há dezessete anos, tanto que em todo esse tempo, nunca havia quebrado um osso sequer; Embora todo esse tempo tenha se passado com várias pessoas ajudando-a a lidar melhor com os riscos que faziam parte de viver. E ela não teria outra pessoa para ajuda-la dessa vez.

A menina pensou em todo tempo que passara lendo livros fantásticos, com heroínas e heróis correndo perigo de vida constantemente, como se aquilo não fosse nada para eles, como se a possibilidade da morte (e a morte em si) fossem apenas situações ocasionais pelas quais hora ou outra eles teriam que passar. Acontece que aquilo eram apenas histórias, e o que ela estava passando era real. Charlie nunca fora a mais corajosa das pessoas. Costumava jogar RPGs nas horas vagas e sempre ficava atrás, dando preferência aos magos e atiradores de longa distância. Nunca sequer havia tentado invocar um assassino, ou mesmo um tanker. Nunca havia tido coragem o suficiente para arriscar a vida nem mesmo nos vídeo games, onde em trinta segundos, poderia voltar à vida. Acontece que na vida real não existe respawn. O fim significa o fim. Depois que morre, você só existe na memória das pessoas, isso se alguém se lembrar de você.

—Charlie? –A menina ouviu um estalo ao lado do ouvido. –CHARLIE! –Alice estava beliscando a menina, que aparentemente havia passado um bom tempo devaneando sobre a morte. –Você está se sentindo bem? Você é tão estranha às vezes...

—Ah, estou sim, eu só estava aqui pensando que EU POSSO MORRER e tal, mas isso não é nada demais já que você pode ficar aqui do outro lado, segura, observando tudo enquanto tá enrolada num cobertor tomando chocolate quente!

Ops.

—Então agora a culpa é minha? –Alice sentia-se totalmente injustiçada. –Eu acordei de madrugada quando você ligou por motivos idiotas e que não faziam o menor sentido! Eu menti pros meus pais sobre ir à escola pra poder vir até aqui com você e para poder te ajudar a procurar a sua mãe, e você sabe o quanto eu odeio ter que mentir por qualquer coisa para os meus pais. Eu me dediquei a te consolar sobre tudo que está acontecendo, tenho me dedicado a ser a melhor amiga possível pra que você não sofra tanto com a ausência dos seus pais e com tudo que tá acontecendo e com a sua vida estar uma completa bagunça. Eu tenho faltado às aulas por cauda de você então eu não admito que você me trate desse jeito nem sequer por um segundo. Eu tenho sido a melhor amiga que eu consigo pra você, Charlie, e isso é algo realmente difícil de fazer. E toda essa situação é muito difícil de lidar porque eu sou sua melhor amiga e eu sinto toda essa dor. –Alice tinha os olhos úmidos. Charlie nunca tinha visto a amiga daquele jeito em toda a sua vida. –Mas não é por isso que eu vou deixar você falar assim comigo, como se eu fosse a causa disso tudo. – Alice levantou-se da poltrona, pegou sua bolsa e virou as costas para todos os presentes na sala. –Se você quiser pedir desculpas, meu telefone estará ligado. –Alice saiu da sala, batendo a porta e descendo as escadas como um furacão.

Jonas estava de boca aberta. Literalmente falando. Ele sempre via as duas amigas saltitando animadamente pelos corredores da escola, sempre de bom humor, sempre sorrindo, em perfeita harmonia, como se aquela fosse a amizade mais completa e sincera que ele já tinha visto na vida. Ele nunca admitiria isso em voz alta, mas invejava um pouco o tanto de carinho e cuidado que elas tinham uma com a outra. A regra da vida dos garotos é bem simples: Seus “amigos” vão falar palavrões na sua presença, te socar quando encontrar pelos corredores da escola e falar sobre “como aquela garota é gostosa” nas horas vagas, e vão achar que isso é amizade, porque foi assim que eles aprenderam as coisas. Se você tiver alguma amiga garota, ou você só quer pegar ela, ou você está na famosíssima friendzone. Em qualquer uma das opções, você é um derrotado, pois as únicas amizades sinceras que existem são as entre homens. E demonstrar afeto, carinho e compreensão aparentemente não são consideradas “coisas de homem.”

Mas a coisa mais marcante daquela pequena discussão foi que em quatro anos de ensino fundamental e dois anos de ensino médio, Jonas nunca havia visto Alice chorar. Não que ela tenha chorado na sala naquele momento, mas ele nunca havia visto a menina nem mesmo com os olhos embargados do modo que tinha visto alguns minutos atrás. Nem mesmo no dia seguinte ao termino do namoro de quase dois anos. Nem mesmo quando descobriu que havia ficado de recuperação em física apenas porque o professor não ia com a cara dela. Em todas essas situações, ela havia levantado a cabeça e seguido em frente. Sem chorar. Sem trepidar em momento algum. Mas aparentemente, a menina não era –ou fingia ser- forte o tempo todo.

Charlie estava frustrada. Exausta e frustrada, na verdade. A menina sentia-se destruída, sem a menor vontade de levantar daquela poltrona. Ela havia acabado de afastar a única pessoa que tinha no meio de todo aquele pesadelo, e agora não tinha ninguém além dela mesma pra se apoiar. Bem, na verdade ela tinha Jonas, mas ele não seria de grande ajuda nesse caso. Ninguém a ajudaria de um jeito tão especial e atencioso como Alice fazia. Charlie não tinha a menor ideia do porque agira daquela forma, ainda mais com sua melhor amiga, que era a única pessoa que ela tinha no momento, como ela mesma havia dito naquela hora. Mas Charlie não podia só sentar no chão e chorar por ter agido de modo completamente idiota sobre sua melhor amiga, ela tinha que treinar. Nesse momento ela encontrou um uso realmente bom para seu “superpoder”: voltar no tempo e desfazer as besteiras que havia feito. Mas infelizmente aquele tipo de coisa era barrado pelo livro de regras.

—Bem, vamos recomeçar seu treinamento, então? –Disse Marcos, tentando quebrar um pouco do gelo que a toda aquela situação havia deixado.

—Vô, não seja tão insensível, ela acabou de brigar com a melhor amiga. –O menino virou-se em direção à Charlie – Quer tomar um sorvete? –A menina fez que sim com a cabeça. –Então, vô, vamos sair por um tempo. Em menos de uma hora estaremos de volta e prontos para treinar, tudo bem?

—Sem problemas, mas nem um minuto de atraso.

Os dois desceram as escadas juntos, mantendo uma distância considerada “segura”. Ao atravessarem a rua, Jonas perguntou qual era o sabor preferido de sorvete de Charlie.

— Morango. Sorvete de Morango.

Notas finais
Então, eu ainda devo continuar demorando pra postar por um tempo, mas eu juro solenemente que não vou abandonar a história *nunca*, então eu peço que vocês tenham paciência e não desistam de mim nem da Charlie. Muito obrigado a quem leu até aqui. Críticas construtivas e elogios sempre são bem aceitos c: Até o próximo capítulo ^^