Além de mim
4 A conversa silenciosa
Notas iniciais
“O olhar de duas almas conectadas dispensa a necessidade de palavras. ”
Era um dia não totalmente ensolarado na fazenda, Suzanne acordou e ficou um tempo na janela de seu quarto observando a paisagem verde que tanto amava, na sua casa estava sempre cercada de casas e mais casas e constantemente sentia saudade da natureza.
Depois de se arrumar ela desceu para tomar café com sua família.
— Mmmmmm... Mas que cheiro incrível! – Suzzane chega na sala com os olhos brilhando em direção a mesa.
— Pegue um pedaço de bolo! – disse a vó de Suzzane lhe passando um prato
Suzanne se junta a mesa e começa a comer com sua família
— E então filha, soube que conheceu um amigo ontem no bosque. – Disse a mãe de Suzzane
— Ah sim, é um menino que mora aqui por perto eu acho, na verdade não sei bem, nunca o tinha visto antes.
— De qualquer forma fico feliz por você ter tido uma companhia, quando puder deveria trazer ele para o conhecermos.
— Se eu o vir vou falar com ele. – Sorriu Suzanne.
Após terminar seu café Suzzane pegou seu caderno e mp3 e saiu em direção ao bosque.
— Filha já vai ao bosque denovo? – Perguntou o Pai de Suzanne.
— Sim pai, quero passar a manhã lá, à tarde eu volto!
— Okay, leve um lanche, sobraram bolinhos de chuva.
— Tabom! – Suzanne embrulha os bolinhos junto com sua vó e os coloca em uma sacola e sai em direção ao bosque.
Conforme ia adentrando o bosque pôde sentir os raios de sol batendo na sua pele, não queimava mas trazia uma sensação confortável pois a aquecia.
— Ah finalmente cheguei – Disse Suzanne sentando-se.
Ela começou a escrever e logo em seguida colocou seus fones, estava ouvindo Bach, e então fechou seus olhos. Sem perceber adormeceu, e quando abriu os olhos havia alguém encostado na árvore há uns 2 metros de distância, aparentava estar dormindo, parecia ser alguém de sua idade, confusa ficou sem saber o que fazer, quem poderia ser? Porque de repente sempre havia alguém em seu lugar secreto? Seria irmão do menino do outro dia? Confusa mas ao mesmo tempo curiosa resolveu descobrir, achegando-se perto do rapaz observou para ver se existia semelhança entre o menino do outro dia, ele também possuía cabelos castanhos, chegou mais perto para ver se ele estava mesmo dormindo e então ele levantou a cabeça e os olhares deles se cruzaram, Suzzane caiu para trás e se afastou, havia algo nos olhos dele que lembravam os olhos puros do menino mas havia algo diferente, havia uma intensidade neles.
— Ah oi! – O rapaz respondeu com um sorriso.
— Err. Oi? – Suzzane respondeu confusa – Quem é você?
— Você deve estar meio confusa, eu te vi mas você estava dormindo então resolvi não te chamar, ai me encostei nessa árvore.
— Você por um acaso é irmão do menino de ontem?
— Se pergunta se ele é da família é sim. – Respondeu o rapaz. – Reparei que estava ouvindo Bach, gosto muito das músicas dele.
— Sim, é maravilhoso, mas espere um pouco, eu não quero ser rude mas é que ultimamente parece que todo mundo está vindo nesse lugar e até ano passado eu era a única pessoa aqui e é meio estranho, como você conhece esse lugar? – Suzzane não queria soar rude mas estava confusa com aquela situação.
— Sabe quando precisa se retirar para estar em algum lugar onde você sente que finalmente pode respirar?
— Sim... – Suzzane pensou em como naquela simples frase ele havia definido o porque dela ir ao bosque por anos.
— Esse sentimento me levou até aqui. Todos nós somos atraídos por algo, para alguns é a necessidade de aceitação, outros de saber o que realmente é verdade e ainda alguns por Deus...
— ... – Isso é estranho, é como se ele estivesse descrevendo o meu interior sem que eu falasse uma palavra, parece que ele pode ver através dos meus olhos... – No reflexo Suzzane desvia os olhos dos dele e olha para baixo – Acho que já entendi, vocês são pessoas diferentes – Suzzane dá um sorriso de lado, estranhamente aquela “Família”, a criança e agora o rapaz, pareciam ter algo diferente neles. – Eu gosto de vir aqui por motivos parecidos.
A barriga do rapaz começa a roncar
— Opa, acho que devo ir, esqueci de trazer algo para comer.
— Não – Suzzane disse em um reflexo e ficou sem jeito, por algum motivo ela gostava da companhia do rapaz e não queria que ele fosse embora, era estranho mas ele parecia a entender sem que ela precisasse dizer uma palavra e de alguma forma se sentia a vontade perto dele como se fossem próximos – quer dizer... eu tenho alguns bolinhos de chuva aqui, eu não vou comer tudo, minha vó acabou colocando uma quantidade para duas pessoas.
— Nesse caso eu aceito, pelo cheiro parecem deliciosos – O menino disse se aproximando sentando-se ao lado de Suzzane.
— Pode pegar – Ela sorriu abrindo o saco.
Ele estendeu a mão para ela.
— Ahn... Oi? – Disse Suzzane confusa com o gesto.
— Pode agradecer ao alimento? Se importa em me dar as mãos para agradecermos? – Disse ele com um olhar gentil e terno, ao olhar nos olhos dele Suzzane sentia algo incomum, era como se ela fosse a coisa mais preciosa diante dele naquele momento? Mas como isso poderia fazer sentido? Afinal eles se conheciam há apenas alguns minutos, automaticamente ela lhe deu as mãos. Ele sorriu e segurou suas mãos com firmeza e gentileza e então ficaram em silêncio.
— Pode agradecer eu te seguirei mentalmente – Disse com um sorriso
— Ah é que eu não sei bem como.
— Está tudo bem, não há uma fórmula é apenas o que você sente no seu coração sendo colocado em palavras. Expresse sua gratidão. Imagine no quão grata você é agora em poder comer algo tão gostoso, eu posso dizer que você deve estar muito grata esse cheiro está bom demais.
Suzzane riu da espontaneidade e simplicidade do rapaz.
— Tudo bem, hum, Senhor Deus? – Suzzane abriu os olhos para espiar a expressão do seu ‘amigo’ e como se ele já soubesse que ela faria isso estava sorrindo e confirmando com a cabeça. – Obrigado por esses bolinhos de chuva e por ter enviado alguém para me ajudar a comer porque seria um pecado desperdiça-los – Ela deu um sorriso – Obrigado, Amém!
Amém! – Disse o ‘amigo’.
— Geralmente é sempre meus pais quem oram pela refeição, eu achava que não sabia fazer isso, me sentia estranha, mas eu me sinto bem, porque realmente estou agradecida – ela disse comendo o bolinho – Nossa eles parecem mais gostosos que o normal! Será que Deus abençoou mesmo? – Ela disse impressionada
Seu ‘amigo’ deu uma risada.
— E porque não abençoaria? Suas palavras foram sinceras, não é que haja algo diferente no bolinho é só que você abriu seu coração para sentir, as coisas feitas com gratidão são bem mais prazerosas. – Ele sorriu comendo o bolinho.
— É um sentimento muito bom. – Ela dá um leve sorriso, pensando que gostaria de ser grata mais vezes.
— Se olharmos ao nosso redor através das lentes que Deus nos dá conseguiremos sempre encontrar algo para estar agradecidos, não importa as dificuldades pelas quais a gente possa passar, Ele está sempre conosco, não somos um erro, somos importantes aos olhos de Deus.
Suzzane sentiu algo arder em seu peito, quando o ‘amigo’ falava em Deus era como se algo em seu coração acendesse.
“Erro, seria possível eu não ser mesmo um erro.”
— Deus não comete erros, porém muitos não confiam em Deus o suficiente para acreditar nisso.
Suzzane o fitou assustada, parecia que ele tinha lido seus pensamentos.
— Eu preciso ir, está ficando tarde. Eu gostei muito da sua companhia. – Suzzane sorri
— Eu fiquei muito feliz em passar a manhã com você também Suzzane – Ele sorriu com um olhar tão terno o qual ela jamais vira, ele a ajudou a se levantar e acenou enquanto ela ia embora.
—Ah é verdade – Suzzane se lembrou que esqueceu de perguntar o nome dele e virou-se para perguntar – Qual o se- Ele não estava mais lá. – Que estranho, ele é rápido. – Disse confusa.
Suzzane voltou para casa e sentou-se na varanda pensando sobre o encontro que tivera com o rapaz no bosque e como estranhamente ele parecia saber tudo o que ela sentia sem que ela dissesse nada, ela desejou poder encontra-lo denovo.
— Eu nem perguntei o nome dele, mas espera... como ele sabia o meu?...
Fale com o autor