O convite de Daryl pegou Beth desprevenida. Não esperava que seu professor o convidasse para fazer uma viagem a outra cidade, tampouco a participar de um evento tão particular quanto a festa de lançamento do livro de seu pai com a família dele reunida.

Mesmo assim, ela se sentia feliz. Era estranho, mas não se sentia tão contrariada assim com a ideia de passar mais tempo com Daryl. Fazer uma viagem de carro ao seu lado parecia algo divertido. O professor era uma das poucas pessoas com quem ela sentia que poderia conversar por horas sem se cansar ou acabar o assunto.

— Eu sei que é repentino e você não precisa se sentir pressionada a aceitar, apenas porque seu professor está te convidando. Eu apenas...

— Eu aceito — concorda Beth, decidida.

Dessa vez era Daryl quem não acreditava que a garota havia mesmo concordado em ir com ele até Atlanta. O professor a encara, buscando algum sinal de que ela estivesse desconfortável e apenas tivesse aceitado por educação.

— Seus seminários são incríveis. Você apresenta muito bem e sabe como prender a atenção de quem o assiste — justifica a garota, dando um sorriso bonito. — Além disso, eu estou recebendo a chance de participar da festa de lançamento do livro do meu autor favorito. Como eu poderia recusar?

— Você realmente deseja ir? — questiona Daryl, parando o carro no semáforo. Beth assente. — Então precisamos avisar a sua família. Devido o horário em que sairemos da festa, nós provavelmente teremos que dormir em Atlanta.

Beth assente lentamente, pensando em como explicar para a mãe que decidiu de última hora viajar para Atlanta com seu professor e que ainda passaria uma noite fora. Sabia que o pai estaria fora nos próximos dias, trabalhando em seu próximo filme, então não notaria sua ausência, mas conhecia a mãe o bastante para ter ciência de sua superproteção.

— Mas, onde planeja que eu durma, professor? Tem certeza de que não é um problema que eu o acompanhe? Eu quero ir, mas se for incomodar, não precisa ter vergonha em mudar de ideia — comenta Beth, imaginando que a mudança poderia trazer problemas ao professor.

— Na casa da minha família — responde Daryl, cauteloso. — Temos muitos quartos na casa e eu tenho certeza de que eles não se incomodariam em ter você. Eu adoraria ter a sua companhia durante a viagem, mas se você se sentir muito sobrecarregada em ter que lidar com uma família caótica...

— Eu realmente não serei um incômodo?

— É claro que não! Você jamais seria um incômodo — afirma o professor com sinceridade.

— Então eu aceitarei o convite — responde Beth, dando um sorriso animado. — Apenas precisamos passar em minha casa para pegar as minhas coisas, se você não se incomodar, professor.

— Claro. Ainda temos algum tempo livre — garante o professor, dando um singelo sorriso.

O caminho até a residência de Beth foi cheio de expectativa com cada um perdido em pensamentos. Em momento algum, Daryl voltou a falar sobre a pergunta feita quanto a escolha de curso de sua aluna, ainda assim, o professor sentia que em algum momento da viagem ela acabaria compartilhando a história com ele.

Enquanto isso, Beth preparava as dezenas de argumentos em sua mente que usaria para convencer a mãe, caso ela se recusasse a permitir que a filha viajasse. Não aceitaria um ‘não’ como resposta.

— Chegamos — anuncia Daryl, assim que estaciona o carro de frente a entrada da casa da aluna.

— Você gostaria de entrar, professor? — pergunta a garota, tirando o cinto de segurança. — Seria muito desconfortável esperar dentro do carro nesse frio.

— Não se preocupe comigo. Eu espero aqui. Não precisa ter pressa — responde o professor, dando um sorriso tranquilizador.

— Eu me sentiria mal. Por favor, entre. Eu vou preparar algo para que o senhor se esquente, enquanto eu arrumo rapidamente minhas coisas — insiste a jovem.

Ao notar a determinação da aluna, Daryl percebe que não seria forte o bastante para vencer uma “discussão” com Beth. Assim, mesmo que envergonhado, ele assente e retira o cinto de segurança.

Os dois descem do carro, estremecendo ao sentir o vento gélido de inverno os atingir, ainda que o Sol brilhasse timidamente no céu.

Felizmente não nevava e Daryl esperava que o clima permanecesse estável durante a viagem, ainda que soubesse que as chances de suas preces serem ouvidas eram mínimas, levando em consideração a queda da temperatura nas últimas semanas.

Beth abre a porta de casa e dá espaço para que seu professor entrasse. Como imaginava, era possível ouvir as atividades de sua mãe na cozinha, que havia tirado a semana para descansar em casa.

— Mãe, cheguei! Trouxe um convidado — avisa Beth, sabendo que não poderia fugir de sua mãe para sempre.

Ao ouvir a voz da filha e a notícia de que havia trazido um convidado, Annette abaixa o fogo das panelas em que preparava o almoço e segue para a sala de estar. Estava curiosa para saber quem era o convidado misterioso que foi capaz de fazer a filha quebrar a sua própria regra de nunca trazer visitas para casa.

No entanto, a surpresa de Annette é ainda maior quando reconhece o homem elegante que se encontrava no centro de sua sala, observando discretamente a decoração do ambiente.

— Pode se sentar, professor. Fique à vontade — recepciona Beth, apontando para o sofá. — Eu vou apenas... Ah, mãe.

— Oi, filha — murmura Annette, encarando Daryl de maneira desconfiada. — Eu não esperava receber visita.

Daryl encara a mulher e percebe o hematoma em seu olho. Com sua experiência lidando com pessoas, ele não precisa que dissessem nada para entender que a exuberante cantora era vítima de violência doméstica. E de repente, Daryl consegue entender o motivo de Beth parecer tão deprimida ao ouvir a entrevista da mãe na rádio no dia anterior.

E somente encarando a mãe é que Beth se lembra de que chegar com seu professor, sem avisar a Annette, significava que a ele a veria sem maquiagem e com o machucado em seu rosto.

— Desculpa aparecer tão de repente, sra. Greene — lamenta Daryl, aproximando-se de Annette. — Eu me chamo Daryl Dixon e sou o professor de Beth na faculdade.

O professor decide agir como se não estivesse vendo nada. Apesar de abominar a violência doméstica, ele também tinha consciência de que não poderia se intrometer em um assunto tão delicado sem entender o que acontecia. Assim, a melhor solução naquele momento era agir naturalmente.

Ele estende a mão para cumprimentar a cantora, que o corresponde desconfiada. Mas, por estar preocupada com a presença do homem em sua casa, Annette nem mesmo se lembrava da sua situação.

Tudo o que ela conseguia pensar é que o mesmo homem que ela encarava os documentos no dia anterior estava na sala de sua casa. O mesmo homem que era dono do casaco que sua filha dormia abraçada com um sorriso lindo em seu rosto.

— Certo — responde Annette, tentando entender o que estava acontecendo. — Seja bem-vindo, professor Dixon.

— Obrigado — Daryl agradece, afastando-se da cantora.

Ele se sentia nervoso. Não sabia explicar o motivo. Sendo professor, ele estava acostumado a lidar com os pais de seus alunos. Ainda assim, estar diante da mãe de Beth parecia ser um desafio ainda maior do que apresentar, em algumas horas, o seminário que ele faria para centenas de pessoas.

— Mãe, a senhora pode preparar um chá para o professor, enquanto eu arrumo minhas coisas? — adianta-se Beth, antes que a mãe iniciasse um interrogatório.

— O que você vai arrumar? — questiona Annette, desconfiada.

— Eu convidei a sua filha a participar de um seminário que eu farei em Atlanta e a festa de lançamento do livro de meu pai — explica Daryl, surpreendendo mãe e filha.

— Beth não me contou nada sobre isso — comenta Annette, encarando a filha com seriedade. — Quando vocês decidiram ir para Atlanta?

— Eu a convidei agora a pouco, enquanto dava uma carona da faculdade até aqui — revela o homem. — Sei que é repentino e entendo que esteja preocupada, mas espero que a senhora confie em mim para cuidar de Beth e permita que ela me acompanhe. Eu garanto que farei de tudo para mantê-la segura.

Beth não esperava que o professor se explicasse. Annette encara a filha e se surpreende ainda mais ao perceber que a garota estava determinada a viagem sem nem mesmo questionar sua opinião.

— Atlanta? Mas isso são pelo menos três horas de viagem de carro. Que horas vocês planejam retornar? — indaga Annette, tentando controlar suas emoções.

Não queria fazer uma cena e tampouco envergonhar a filha na frente do professor que ela tanto admira, mas não conseguia deixar de se sentir inquieta com a situação. Beth nunca foi uma garota de tomar decisões impulsivas. Ainda assim, lá estava a filha, decidida a viajar para Atlanta após a inesperada carona do professor.

— Vamos dormir em Atlanta — revela Beth, dando um sorriso nervoso.

— O quê? — balbucia Annette, incrédula.

— Vem, mãe. O professor deve estar querendo algo quente. Lá fora está congelando — comenta a jovem, puxando a mãe para a cozinha. — Fique à vontade, professor. Eu já volto com o seu chá.

— Certo — murmura Daryl, ainda que soubesse que não seria ouvido.

Ao chegarem na cozinha, Beth encara a mãe com os olhos em súplica, enquanto Annette exibe a expressão intimidadora.

— Sei o que vai dizer, mas eu quero ir, mãe — afirma Beth, antes que a mãe começasse a repreendê-la. — Ficaremos na casa da família do professor Daryl essa noite e voltaremos amanhã. É a chance que tenho de participar de um seminário dele e ainda terei a oportunidade de conhecer o pai do professor que é o meu autor preferido.

— O quê? Como assim o pai dele é o seu autor favorito? — questiona Annette, ainda mais perdida com tanta informação.

— O pai dele é Will D. Bruce, mãe. Hoje será a festa de lançamento de seu último livro. Terei a chance de participar da festa e pegar um autógrafo dele — conta Beth em desespero. — Por favor, mãe. Não me proíbe de ir.

— Beth... — Annette suspira. — Você nem mesmo conhece esse homem direito. Como pode simplesmente aceitar dormir na casa da família dele em Atlanta? Ele vai mesmo te levar para a casa da família dele? E se ele for um criminoso? E se fizer algo de ruim com você?

— O professor não é assim, mãe — insiste Beth, fazendo Annette encará-la com repreensão. — Eu sei que ele não é.

— E como você pode ter certeza disso? — resmunga Annette, contrariada.

— Eu simplesmente sei. Confio no professor Daryl. Ele é uma boa pessoa, mãe. Eu sei disso. Acredite em mim — afirma a loira, pegando nas mãos da mãe. — Além disso, eu não sou mais criança. Eu já tenho vinte e cinco anos. Não acha que já está na hora de parar de ser tão superprotetora comigo? Eu sei o que eu estou fazendo.

— Você está agindo como uma adolescente inocente que acredita em tudo o que diz o garoto por quem está apaixonada. Não pode ser tão irracional assim, Beth! — Annette repreende a filha. — Você conviveu algumas horas com ele durante alguns dias da semana em apenas um semestre e acha que o conhece?

— Eu sei que é loucura, mas...

— Se sabe que é loucura, você vai voltar naquela sala e dizer para o seu professor que você mudou de ideia.

— Mãe!

— Beth!

A jovem suspira. Continuar aquela troca de argumentos não as levaria a lugar algum. Ela precisava arrumar uma pequena mala para acompanhar o professor e ainda temia que eles acabassem se atrasando por causa dela.

— Eu vou — afirma Beth, determinada. — Farei isso você gostando ou não. Sei que quer me proteger, mas eu já tomei a minha decisão. Então, por favor, aceite.

O olhar feroz de Beth mostrava que ela não mudaria de decisão. Annette a conhecia bem o bastante para saber que quando a filha colocava algo na cabeça era difícil fazê-la mudar de ideia. Ela realmente viajaria, com ou sem a sua aprovação. Era por isso que Annette sabia que o melhor era concordar e impor regras que a fariam ter ao menos um pouco mais de segurança em saber como estaria sua filha do que ela fugisse e ela não fosse capaz de encontrá-la.

— Você é tão teimosa — resmunga Annette, dando-se por vencida. — Certo. Você não vai mudar de ideia mesmo.

— Eu não vou — concorda Beth.

— Então terá que me mandar mensagem a cada uma hora, avisando onde está e eu quero que você compartilhe sua localização o tempo todo. Também quero o endereço e o telefone da família do seu professor, além do telefone dele. E se eu desconfiar minimamente que tem algo de errado ou se você demorar mais do que cinco minutos para me responder, eu vou chamar a polícia e farei um escândalo na mídia atrás dele — ameaça Annette, encarando a filha com seriedade.

— Você é a melhor! — vibra Beth.

Ela se joga sobre a mãe, dando um forte abraço, antes de distribuir uma série de beijos pelo rosto da mulher.

— Eu te amo! — declara a loira, aconchegando-se nos braços de sua mãe, que corresponde ao abraço com relutância.

— Eu também te amo — resmunga Annette, contrariada com a situação.

Tendo a aprovação de sua mãe, Beth imediatamente sobe para seu quarto e começa a arrumar uma pequena bolsa, colocando roupas, produtos de higiene e calçados. Quando tem a certeza de que pegou tudo e está pronta para iniciar o fim de semana mais surpreendente de sua vida, ela retorna para sala.

Como dito antes, Annette fez questão de pegar todas as informações de Daryl e de sua família. As orientações vergonhosas e exigências da mulher permanece até que ela e seu professor guardassem a pequena mala de Beth no porta-malas do carro e partissem.

— Sinto muito por minha mãe — lamenta Beth, envergonhada.

— Está tudo bem. É normal que ela se sinta assim, afinal, você está viajando com seu professor de faculdade que ela nem mesmo conhece — garante Daryl, sorrindo compreensivo. — Qualquer mãe ou pai na mesa situação que eles agiriam da mesma forma que a sra. Greene agiu.

— Agora minha mãe se tornou a sra. Greene? — brinca Beth, arrancando um pequeno sorriso de seu professor.

— Eu preciso mostrar respeito pelos pais de meus alunos — retruca Daryl, fazendo a garota ri.

O silêncio se faz presente, mas não é algo ruim. Na verdade, Beth e Daryl aproveitavam a sensação de conforto que compartilhavam naquele momento. Eles se sentiam bem juntos, ainda que não dissessem nada.

A garota desvia o olhar da janela e encara o professor, observando os detalhes de seu rosto. Seu perfil era tão bonito que ela sentia como se estivesse encarando uma impressionante obra de arte.

— Obrigada, professor.

— Por que está me agradecendo? — questiona Daryl, confuso. — Por causa do convite? Porque se for, não precisa se preocupar com isso. Eu realmente estou feliz por ter a sua companhia.

— Por isso também, mas estou agradecida por não ter comentado nada sobre minha mãe — murmura Beth, dando um fraco sorriso. Daryl a encara. — Eu sei que você deve ter muitas perguntas e eu ainda estou te devendo uma resposta sobre o motivo de ter escolhido fazer Letras, ainda assim você tem sido muito gentil.

— Você não precisa me contar nada se não quiser. Podemos apenas nos concentrar em nossa viagem, se você não se sentir confortável em falar — recomenda Daryl com sinceridade.

— Não — nega Beth, dando um sorriso mais confiante. — Eu acho que já está na hora de te contar toda a minha história.