Além da vida

1 Livro 1, Bella- Memórias


Eu estava sentada à mesa, observando Renesmee desenhar. Ela sempre gostou de arte, mas naquela manhã algo parecia diferente. Seus traços eram precisos, detalhados, como se ela tivesse passado anos aperfeiçoando cada linha. Me aproximei e observei a folha de papel. O desenho era lindo. Tinha uma suavidade e uma precisão que me lembravam alguém.

— Que desenho bonito, Ness — comentei, tentando parecer casual.

Ela ergueu os olhos para mim, um sorriso tranquilo no rosto.

— Obrigada, mamãe. Eu queria desenhar como a tia Eva. Ela também gostava de desenhar flores, não é?

Senti o sangue gelar por um segundo. Renesmee nunca conheceu Eva. Minha cunhada morreu muitos anos antes de minha filha nascer. E, embora tivéssemos algumas fotos antigas, eu nunca mencionei nada sobre os desenhos de Eva.

— Como… como você sabe que a tia Eva desenhava flores, Ness? — perguntei, tentando disfarçar meu nervosismo.

Ela continuou desenhando, distraída, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Ah, eu lembro. Ela sempre desenhava flores, cachorros… e ela tinha um cachorro também, não tinha? Eu queria ter um cachorro igual ao que ela e o papai tinham quando eram pequenos.

Minhas mãos começaram a tremer. Respirei fundo, tentando manter a calma.

— Que cachorro, Ness? — perguntei, a voz vacilante.

— O Blackie! Aquele que eles encontraram no parque. Papai disse que ele era o melhor cachorro do mundo. Eu também quero um assim, um que seja meu amigo para sempre.

Soltei o ar que não percebi que estava segurando, completamente atordoada. Blackie era o nome do cachorro que Edward e Eva tiveram quando eram crianças. Mas nós nunca falamos sobre ele na frente de Renesmee. Nem Edward, nem eu.

— Ness, querida… como você sabe sobre isso? — perguntei, tentando controlar o pânico crescente dentro de mim.

Ela parou de desenhar e olhou para mim com aqueles olhos grandes e serenos.

— Eu só lembro, mamãe. Às vezes, eu lembro das coisas que a tia Eva me contava.

O som da xícara que estava em minhas mãos se chocando contra o chão ecoou pela cozinha. Eu a deixei cair, incapaz de manter o controle por mais tempo. O que ela estava dizendo? Como ela podia saber essas coisas?

— Você… você se lembra de mais alguma coisa, Ness? — minha voz era apenas um sussurro.

— Sim, mamãe. Eu lembro de quando você e a tia Eva estavam conversando sobre os quadros no quarto dela. Ela disse que adorava aquela pintura com as montanhas ao pôr do sol. Vocês riram muito naquele dia, não foi?

Minhas pernas fraquejaram. Eva e eu tínhamos tido aquela conversa… mas muitos anos atrás, antes de ela morrer.

Eu estava em choque. Não sabia o que fazer ou como reagir àquilo que Renesmee acabara de dizer. Tudo parecia surreal. Minhas mãos ainda tremiam quando ouvi o som da porta se abrindo. Edward havia chegado. Ele entrou no apartamento com seu típico sorriso tranquilo, mas assim que seus olhos encontraram os meus, sua expressão mudou. Ele percebeu imediatamente que algo estava errado.

— Bella, o que aconteceu? — perguntou, a voz cheia de preocupação.

Olhei para Renesmee, que ainda estava concentrada em seu desenho, e depois para Edward.

— Vamos para a cozinha — murmurei, tentando manter a voz estável.

Edward me seguiu sem questionar. Assim que estávamos a uma distância segura, longe dos ouvidos atentos de nossa filha, me virei para ele, o coração acelerado.

— Edward, tem algo estranho acontecendo com a Nessie.

Ele franziu o cenho, esperando que eu explicasse. Respirei fundo e comecei a contar tudo o que havia acabado de acontecer.

— Ela está lembrando coisas… coisas que não poderia saber. Ela falou sobre o cachorro que vocês tinham, o Blackie. E sobre os desenhos de flores da Eva. Mas não é só isso... Ela falou de uma conversa que eu tive com sua irmã anos atrás, uma conversa que só eu e Eva estávamos presentes.

Edward cruzou os braços, claramente tentando racionalizar o que eu estava dizendo.

— Bella, isso não faz sentido. Nessie deve ter ouvido alguma história de Alice ou Emmett. Eles sempre contam coisas sobre o passado. Talvez ela tenha juntado as peças.

Balancei a cabeça, desesperada para que ele entendesse o que eu sentia.

— Não, Edward, você não está entendendo. Essa conversa… ninguém sabia dela. Foi uma coisa íntima entre mim e Eva. Como a Nessie poderia saber?

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, mas ainda parecia cético.

— Eu vou falar com ela — disse, decidido.

Edward saiu da cozinha e foi até a sala, onde Renesmee ainda desenhava com toda a calma do mundo. Ele se aproximou e se agachou ao lado dela, observando o desenho por um momento antes de falar.

— Nessie, querida, posso te fazer uma pergunta? — ele começou, a voz suave.

Ela levantou os olhos para ele, sorrindo.

— Claro, papai.

Edward hesitou, mas então perguntou algo que apenas ele e Eva haviam compartilhado.

— Você se lembra… de uma vez em que eu e a tia Eva estávamos falando sobre o nosso lugar favorito quando éramos crianças?

Renesmee olhou para ele com naturalidade, como se a pergunta não fosse nada de extraordinário.

— Ah, sim. Vocês gostavam de ir àquela colina atrás da casa dos avós. A tia Eva sempre dizia que lá era o melhor lugar para ver o pôr do sol. Você a chamava de "Estrela", e ela ria porque achava o apelido engraçado.

O rosto de Edward ficou pálido no mesmo instante. "Estrela" era o apelido carinhoso que ele usava apenas com Eva, algo que ninguém mais sabia. Renesmee continuou desenhando, alheia ao impacto de suas palavras.

— Papai, por que você está tão quieto? — ela perguntou, com uma inocência desarmante.

Edward não respondeu. Seus olhos estavam fixos nela, a expressão completamente perturbada. Ele se levantou lentamente e veio em minha direção, a palidez ainda estampada em seu rosto.

— Bella... — ele murmurou, a voz fraca. — Isso não é possível.

Edward e eu nos afastamos novamente, para que Renesmee não escutasse nossa conversa. Ele ainda parecia abalado, seus olhos fixos em algum ponto distante, perdido em pensamentos. Eu sabia que ele estava tentando encontrar uma explicação lógica para o que acabara de acontecer, mas nem eu, nem ele conseguíamos entender como nossa filha poderia ter essas lembranças tão precisas.

— Edward… — murmurei, tocando seu braço para chamar sua atenção. — Isso é perturbador. Ela não só lembra de coisas que nunca deveria saber, mas… você notou? Nessie é idêntica à Eva quando era criança. O jeito como ela desenha, até a forma como ela falou com você agora… é como se fosse a Eva, não apenas em lembranças, mas em essência.

Edward respirou fundo, tentando se recompor, mas eu podia ver o medo em seus olhos.

— Isso não faz sentido, Bella. Eva… Eva se foi há tanto tempo. Não pode haver uma conexão entre elas.

— E se houver? — perguntei, o pânico crescendo em minha voz. — E se Nessie realmente tem as lembranças da sua irmã? Se isso for verdade, o que estamos lidando aqui é muito maior do que podemos entender. E… Edward, se Nessie realmente se lembra de tudo… Ela vai acabar encontrando o Jacob.

O nome de Jacob pairou no ar como uma tempestade iminente. Ambos sabíamos o que isso significava. Jacob tinha sido o grande amor da vida de Eva, o homem com quem ela se casou e teve uma filha, Claire, antes de morrer tragicamente. Se Nessie de alguma forma carregava as memórias de Eva, o encontro com Jacob seria devastador — para ele, para nós, e principalmente para nossa filha.

Edward se encolheu ao pensar nisso, passando as mãos pelos cabelos, claramente frustrado.

— Não podemos deixar isso acontecer — ele disse com firmeza. — Precisamos entender o que está acontecendo antes de voltarmos a Seattle. Eu não quero que Nessie veja o Jacob antes de termos certeza do que estamos lidando.

— Concordo — murmurei, com o coração pesado. — Precisamos de ajuda. Talvez Carlisle ou algum especialista que conhecemos possa nos ajudar a entender. Não podemos fazer essa viagem agora, não desse jeito.

Edward assentiu, concordando comigo. Ele sabia que eu tinha razão. Se Nessie estava de fato carregando as memórias de Eva, o encontro com Jacob seria um turbilhão emocional para todos. Não havia como prever a reação de Jacob, muito menos como Renesmee lidaria com essas lembranças.

— Vamos adiar a viagem — ele disse, finalmente. — Vou ligar para o hospital e dizer que precisaremos ficar mais alguns dias. Não posso arriscar levar Nessie para lá enquanto ainda estamos tão perdidos.

— E o que vamos fazer até lá? — perguntei, o medo ainda presente em minha voz.

Edward olhou para mim, determinado.

— Vamos procurar respostas, Bella. Seja o que for que esteja acontecendo com nossa filha, vamos descobrir. Não podemos permitir que ela passe por isso sozinha. E, até entendermos, precisamos mantê-la longe de Jacob.

Senti um aperto no peito ao ouvir essas palavras. Eu sabia que Edward estava certo, mas a ideia de adiar nossa volta, de enfrentar essa tempestade crescente, era assustadora. Renesmee, por outro lado, continuava a desenhar na sala, alheia ao caos que suas palavras haviam desencadeado.

E eu não podia deixar de me perguntar… o quanto mais nossa filha sabia? E o quanto do que ela era agora pertencia à memória de Eva, e não à nossa doce Nessie?

Notas finais
Se gostarem do enrendo continuo...