Além da psicologia

26 Não me sinto bem - Filipe


Notas iniciais
Ia postar esse capítulo ontem, mas aí eu cortei minha boca com um pirulito, saiu litros de sangue, pareciaqu e eu tinha me cortado com uma faca, tentei postar o capítulo, deu um bug, eu me estresse e por isso tô postando só agora. Dessa vez a narração fica por conta do Filipe. Já estava planejando fazer capítulos desse tipo há um bom tempo e a hora chegou. Em outros momentos outros personagens também ganharão vez aqui, afinal, não é só a Karine que vai além da psicologia.

Amanhã. Sexta-feira. Aniversário da Karine. Eu nem sei se ela se lembra, mas eu farei uma festa pra ela mesmo assim. Não fui pra escola hoje pra poder comprar algumas coisas e arrumar a casa. Só me resta convencê-la a vir até aqui depois da aula.
Mas agora eu irei até a casa dela, como faço quase todas as tardes.
Não precisei bater muito no portão, ela logo o abriu.
— O que aconteceu com você? — ela perguntou, devia estar se referindo à minha falta pela manhã.
— Er... Estava um pouco doente.
— Isso não é motivo para faltar. — Karine tentou impor uma voz de brava, mas parecia um pouco tensa demais para isso.
— Já é quase três horas. Por que você ainda tá com o uniforme? Acabou de chegar da escola?
Karine ficou calada e mais tensa ainda. Comecei a me preocupar. Algo havia acontecido na minha ausência.
— O que foi? — perguntei entrando. Karine fechou o portão. — Você tá um pouco estranha, aconteceu alguma coisa?
Karine assentiu levemente.
— Hoje eu vi algo que jamais imaginei ter visto antes.
— O quê?
— Vamos nos sentar. Talvez você não acredite no que eu vou contar.
***
Realmente, eu não conseguia acreditar no que Karine havia acabado de me contar. O cabelo de extrato de tomate batendo no Gabriel? Não conseguia acreditar. Mas Karine narrou os fatos com tanta descrição que me senti na cena também. Ela realmente tinha talento para escrita.
— Eu nunca imaginaria que... — comecei dizendo.
— Que o Gabriel apanharia do Roberto? Eu também não.
— É, tipo isso.
Ficamos em silêncio por um tempo.
— Ok, mas eu quero muito esquecer o que eu vi atrás da escola. Podemos, por favor, mudar de assunto?
— Claro. Ah, quero que você vá na minha casa amanhã.
— Eu? — Karine apontou para si mesma. — Na sua casa? — Ela apontou para mim.
— Sim. Algum problema?
— Eu nunca fui antes.
— Tudo tem sua primeira vez — eu disse quase sussurrando e lembrei imediatamente da promessa que fiz para karine algumas semanas atrás. Eu seria seu presente de dezesseis anos, mas ele agora tinha apenas quartoze, faria quinze no dia seguinte. Não era nenhuma criança, podia ver isso em seus olhos. Por um momento pensei em me entregar a ela no aniversário de quinze anos, mas esse era apenas meu lado apressado e pervertido tomando conta de mim.
Sempre fiz de tudo para ir com calma com Karine, mesmo às vezes eu perdendo o controle e até assustando minha namorada. Mas nós ainda tínhamos um pouco de consciência para evitar qualquer ato precipitado.
— Estou indo — disse me levantando.
— Por quê? — Karine também se levantou. — Ainda está muito cedo. Você mal chegou.
— Eu tenho umas coisas para fazer.
— Eu estou sozinha, minha mãe saiu logo cedo, nem sei quando ela volta. Por favor, fica aqui comigo.
Os olhos de karine estavam tão apelativos que quase cedi, mas eu ainda tinha que terminar os preparativos para sua festa surpresa.
— Eu prometo que volto assim que eu terminar o que tenho pra fazer.
— Não precisa deixar suas coisas de lado por mim. Se o que você tem pra fazer é realmente muito importante, não tem problema, pode ir.
Mas eu sabia que tinha problema. Karine nunca gostou de se sentir rejeitada, afinal, quem gosta? Mas eu realmente não podia deixar para depois o que eu tinha para fazer.
— Mas eu prometo que eu volto — dizendo isso, dei um beijo nos lábios de Karine.
— Eu te amo — ela sussurrou quando nos afastamos. Senti meu coração bater diferente, poucas vezes apenas havia escutado Karine dizer aquelas preciosas palavras. Dei um sorriso e falei:
— Há quem possa nos achar jovens demais para amar, mas eu nunca estive tão seguro dos meus sentimentos como desde quando começamos a namorar.
Lhe dei um último beijo antes de sair.
+++
Eu já não conseguia respirar direito. Olhar para aquele computador estava me deixando maluco. Eu sabia que o que eu estava pensando em fazer era errado, mas parecia que isso era uma força sobrenatural que atuava sobre mim e que eu nunca conseguia escapar.
Já havia lido uma vez em uma revista que pornografia poderia causar vícios. Ah, e como podia. E o seu efeito no cérebro era bem parecido com os das drogas.
Mas já havia anos que eu tinha entrado nesse buraco sem fundo. Então eu fiz o que eu fazia toda a vez que essa tentação me atormentava: cedi.
+++
Eu praticamente morava sozinho. Minha mãe aparecia em casa raras vezes e ainda sim não falava muito comigo.
Antes das nove da noite eu terminei de arrumar tudo em casa. Mas eu ainda me sentia mal pelo que fiz mais cedo. Desde o dia que minha mãe abusou de mim eu comecei a alimentar esse vício em pornografia. Isso me fazia mal, sempre me deixava com uma sensação ruim, mas eu nunca consegui me libertar.
Decidi me distrair um pouco. Voltei à casa de Karine. Não me importava em chegar a essa hora e sabia que ela também não. Com certeza nós dois também não gostaríamos de passar mais uma noite num quarto e numa casa sozinhos.
— Está um pouco tarde, não acha? — Karine abriu a porta.
— Quer que eu vá embora? — perguntei.
— Você sabe que não. Pode entrar.
— Posso te fazer companhia até amanhã?
— Sim. E vendo essa sacola na sua mão, imagino que veio preparado para isso mesmo.
— Sim. — Joguei a sacola no sofá. — Trouxe meu uniforme para irmos para a escola juntos amanhã.
— Ótimo.
Karine seguiu até seu quarto e eu fui atrás. Sua cama estava bem bagunçada, com várias canetas, cadernos e papéis sobre ela.
— Estudando? — Questionei.
Karine levantou uma sobrancelha para mim.
— Milagres acontecem, mas não a esse ponto.
— Então que bagunça é essa?
— Na noite passada eu tive um sonho bem estranho, mas consideravelmente inspirador. Acho que vou escrever um livro baseado nele. Já fiz até o planejamento.
— Sério? E eu posso ver?
— O planejamento? Claro que não! Se ler meu planejamento antes de eu terminar o livro, ele não dá certo.
— Quem disse?
— Acabei de criar essa superstição.
Sorri. Pelo menos ela parecia estar bem melhor do que eu.
— Então o que eu posso fazer?
— Não me atrapalhar será o suficiente.
— Nossa, posso me retirar depois dessa patada?
Karine riu.
— Desculpa, eu só estou tão concentrada de um modo que nunca estive antes.
— Se é assim, vou pra sala assistir alguma coisa na televisão.
— Tudo bem.
Eu, na verdade, não estava com vontade de assistir nada, de fazer nada. Eu só não me sentia bem. Não estava doente, mas tinha uma sensação esquisita no meu peito, algo me incomodando. Até respirar me dava uma dor sem explicação.
Perto das dez horas Karine se arrumou para dormir. Pediu para eu dormir na cama com ela, mas eu estava com um desconforto de matar. Pedi um colchão e me deitei no chão.
Já conhecia a rorina noturna da Karine, ela nunca pegava no sono rapidamente. Se mexia na cama sem cessar e se levantava a cada dez minutos para verificar se a cama estava com o lençol desamarrotado e ir beber água. Mas ela mesma também já havia se acostumado com isso e não se sentia mais muito incomodada.
Eu estava deitado a uma hora e meia e nada de dormir. Eu ainda estava me sentindo estranho. Eu já tinha me sentido assim antes, mas não com tanta intensidade. O que eu havia feito a tarde foi muito errado. Se eu pudesse receber um castigo... Se eu tivesse coragem de contar sobre isso para alguém e esse alguém finalmente me desse a punição que eu mereço...
Mas não, eu teria que conviver com esse peso até minha morte. Talvez minha morte não estivesse muito longe.
Pressionei o colchão com as mãos e senti as lágrimas caírem sem controle uma atrás da outra. Meu coração nunca havia apertado tanto como naquela noite. Apertei os lábios, mas não pude evitar soltar um soluço. Olhei na mesma hora para Karine, parecia que ela não tinha escutado. Ainda bem.
Mas por que eu estava chorando? Eu já havia assistido vídeos pornográficos várias vezes, sempre me sentia mal, mas nunca chorei por isso. Tinha algo a mais de errado comigo.
Talvez eu mesmo fosse o erro. Se eu morresse deixaria de errar, não é? Eu só podia estar ficando louco. Realmente eu não prestava pra nada. Até a Karine que sempre foi considerada a garota problema está agora quase dormindo.
Mas eu não. Nunca vou dormir. A não ser o sono eterno. Pegar uma faca na cozina e me matar. É, talvez.
Com esforço me sentei no colchão e meu corpo estremeceu. Tinha alguém atrás de mim, tinha certeza. Alguém na minha frente, do meu lado. Pessoas más que agora estava presenciando a minha insanidade. Porque eu estava ficando louco. Abri a boca desesperadamente a procura de ar. Ela estava seca. Sentia as palmas das minhas mãos e pés formigando. Meus próprios lábios estavam formigando. E mais soluços vinham um atrás do outro. E eu chorava como uma criança abandonada numa calçada pouco iluminada e sem esperança.
Estava recebendo uma prévia grátis da morte. E não estava sendo nem um pouco divertido. Estava ficando louco. Louco. Louco. Louco. Não. Não. Não. Não! Eu não podia enlouquecer! Mas eu estava... Estava...
Soltei um grito assustado. Não, isso não podia estar acontecendo comigo. Abracei os joelhos e me encolhi na parede. Podia escutar minhas próprias batidas, meu coração estava acelerado demais, como se eu tivesse acabado de correr uma maratona. Meus olhos começaram a doer de tanto chorar. Agarrei o lençol com força e cerrei os dentes.
Eu estava com medo de alguma coisa, só não sabia o que era.
— Filipe? — O rosto de Karine me trouxe um pouco para a realidade. — O tue você tem? Por que tá chorando?
Não consegui responder. As lágrimas começaram a cessar bem devagar, mas eu ainda me sentia mal.
— Solta.
Nem havia percebido que Karine estava sentada à minha frente massageando minhas mãos que ainda apertavam fortemente o lençol.
O que restou de sanidade em mim me fez obedecer. Minhas mãos estavam dormentes. Eu ainda tremia muito.
— Tenta respirar. — Os olhos de Karine transmitiam preocupação, como se ela já tivesse visto algo como isso. — Profundamente inspire e solte pela boca. Tenta relaxar, é difícil, eu sei, mas vai te ajudar muito nesse momento.
Tentei seguir a instrução, mas era difícil respirar.
— Tá doendo — consegui dizer entre os dentes.
— Aqui? — Karine colocou uma mão sobre meu coração. Assenti. — Eu sei como é isso. Você com certeza está passando por uma crise de ansiedade, eu já tive várias, sei como é ruim. Só tenta manter a mente conectada a alguma coisa alegre e descontraída.
Mas eu não tinha nada alegre ou descontraído para pensar. Karine me envolveu em um abraço. Meus músculos relaxaram um pouco. Em seguida ela me beijou.
Fechei os olhos, mas as lágrimas não deixavam de cair. Karine apertou minhas mãos nas suas enquanto me beijava.
Eu não estava sozinho, não estava abandonado. Pelo menos uma pessoa no mundo pensava em mim. Cuidava de mim.
— Espera um pouco.
Karine se levantou e saiu do quarto. Em menos de um minuto voltou com um copo de água. Acendeu a luz e me deu o copo. Bebi bem devagar e coloquei o copo gelado no rosto que estava com uma temperatura febril. A lâmpada iluminava o quarto, mas pela janela ainda podia ver a escuridão da madrugada. Mas já estava um pouco melhor.
— Como está se sentindo? — Karine me perguntou.
— Meio morto, mas ainda vivo.
Karine deu um sorriso e passou a mão no meu cabelo.
— Entendo o que está sentindo. Ah, como entendo.


Notas finais
Se eu puder aproveitar esse feriado (de meu irmão não me alugar para brincar a tarde toda) escreverei logo o capítulo seguinte. Sei que eu demoro até um mês pra continuar postando, mas é um pouco desanimador postar e não receber nenhum comentário. É como se eu tivesse arquivando tudo. Mas tudo bem, até a próxima.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.