Além da psicologia
20 Mais que estressada
Notas iniciais
"Por mais que seja algo impossível, distante e inalcançável, eu jamais irei esquecer você. Por mais que isso passe — porque eu sei que vai passar — você estará sempre no meu mundinho interno e, quando eu estiver sozinha, você voltará. E eu vou me lembrar de todos os esforços, de todos os risos, de todos os sonhos... Mas não se gabe por eu me lembrar de você, apesar de ter sido importante, eu sou tão instável quanto o tempo. Um dia de amo, outro de odeio.
Um dia de chamo, no outro te esqueço."
– Karine
Para o Fofis da Bia.
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Um dia, um passo. Um mês, uma caminhada. Um ano, uma corrida.
Eu não estava no pior dia da minha vida, porque eu já tinha vivido dias piores. Eu não vou conseguir desrever como estava me sentindo porque era simplesmente indescritível. Meu coração já não batia, parecia doer. Eu não queria chorar, apesar das lágrimas estarem beirando meus olhos. Eu sentia fome, mas não tinha vontade de comer. Não queria ler, não queria assistir televisão, não queria escrever. Me sentia pior que um pedaço de merda.
E já estava assim há duas semanas.
— Karine, se você não comer vai piorar! — Minha mãe chegava com um prato de comida, que eu logicamente não queria.
— Eu já disse que não quero comer! — gritei.
Minha mãe apenas suspirou e saiu do quarto.
Estava em um momento da minha vida que nada me alegrava. Nem mesmo as visitas do Filipe. Eu queria apenas sumir. Morrer.
Eu já não aguentava mais tanta tristeza! E o pior era que eu nem sabia o motivo de estar assim. Então comecei a chorar. Mas eu lutava para as lágrimas não caírem, eu não queria chorar! Eu não podia chorar.
Mas eu chorei. E muito. Ao som da minha segunda banda preferida: scalene, repetindo sem cessar as músicas Nunca apague a luz e Silêncio.
Me diz o que vai ser de nós e de você sem ter alguém pra entender os seus impasses, os seus problemas que nos levou a desistir.
Parecia que a música entrava no fundo da minha alma e batia nela com força. Cada lágrima que eu derramava parecia lava de vulcão. Eu odiava chorar. E então tocou Silêncio.
Só assim pra saber sem ninguém sem você. A verdade é que não há mais porque buscar entender onde errei. Cada dia é um erro dando voltas em desacertos nos levando sempre em direção, direto ao chão sob mim. Faz tanto tempo, mas o silêncio vai me levar pr'um lugar melhor.
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Acordei com meu celular vibrando. Era Filipe me ligando como fazia em todas as manhãs
— O que você quer? — perguntei atendendo.
— Hoje completam exatas duas semanas que você não fala comigo direito — ele respondeu do outro lado. — O que eu te fiz?
— Nada, Filipe, nada! — Soltei um grunhido. — Será que ninguém percebe que eu estou intolerante a qualquer pessoa?!
Esperei por alguns segundos alguma reação do Filipe, mas ele apenas desligou. Desligou na minha cara! Como ele ousou?
— Karine, se arrume para ir pra escola. — Minha mãe passou pela porta do meu quarto.
— Eu já sei!
Tomei meu banho e me arrumei. Apesar de eu estar em um estranho ciclo entre depressão e irritação, tinha que estudar.
E eu fui.
Entrei na escola com o menor saco para as pessoas. Filipe me enxergou de longe e sorriu. Quem ele pensava que era pra desligar na minha cara e vir cheio de sorrisinhos?
— Karine! — Ele se aproximou. — Tudo bem?
— Nunca mais fale comigo!
Dizendo isso, me desviei dos outros alunos e entrei. Na sala de aula escolhendo uma cadeira bem longe da do Filipe. Mesmo assime le veio falar comigo.
— Ka, desculpa por ter desligado o telefone sem mais nem menos — ele falou de forma tão doce que quase amoleci. — Eu sei que você não está bem, eu só...
— Por que todo mundo diz que eu não estou bem? — gritei chamando a atenção da metade da classe.
Filipe balançou a cabeça, chateado, e se sentou.
A primeira aula começou, mas eu não ouvi uma única palavra do professor.
— Ei. — Senti alguém atrás de mim me cutucar.
Virei-me rispidamente. Era o garoto ruivo que não falava com ninguém e andava por toda a escola acompanhado de um caderno.
— O quê? — perguntei sem paciência.
— você poderia, por favor, parar de se mexer tanto na carteira? Está atrapalhando minha concentração.
Como assim aquele cabeça de fogo havia pedido pra eu parar de me mexer? Não existe coisa pior para um TDAH do que alguém dizer que ele está inquieto.
— Você é muito ousado! — acusei. Ele riu.
— Obrigado. Meu nome é Roberto.
Em qual parte da nossa breve comunicação eu havia perguntado o nome dele?
Não respondi.
— E você é Karine — ele prosseguiu. — A garota de quem todos falam.
— Ah, claro — desdenhei. — Qual boato maldoso você ouviu?
— Eu não queria acreditar no que os outros alunos andam espalhando, mas falando com você parece ser tudo verdade.
Meu coração e meu cérebro pareceram frear ao mesmo tempo. Como eu pude ser tão idiota? Eu estava agindo como idiota! Que idiota não percebe quando está idiota?
— Desculpe — murmurei. — Não acordei com um bom humor.
— Percebi.
Roberto sorriu e voltou sua atenção para o caderno.
Eu precisava manter mais a calma, senão morreria de uma crise qualquer.
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Na hora do intervalo Filipe não falou comigo. Eu já estava me sentindo melhor, mas não me sentia à vontade para ir até ele e pedir desculpa por minhas grosserias.
Sendo assim, passei meus quinze minutos na companhia de Roberto. Não que eu o tivesse chamado, ele simplesmente sentou ao meu lado e pronto.
— O que tem nesse seu caderno? — perguntei quando ele sentou. — Você nunca o solta.
Os olhos verdes dele se iluminaram.
— Eu sou escritor! — ele disse com empolgação. Estou terminando meu primeiro livro.
Quem se iluminou depois foi eu. O garoto era escritor!
— Eu gosto de ler — falei. — E há poucos dias havia começado a escrever também, mas não sei se devo continuar. Minhas ideias murcharam.
Ele sorriu.
— Elas sempre murcham. E depois morrem.
Franzi as sobrancelhas. Era pra eu me animar com aquilo?
— Mas depois nascem outras — ele concluiu. — E aquela ideia morta se renasce em outra roupagem e você percebe que escrever é muito inspirador. Quanto mais você escreve, mais inspirado fica.
Ele sorriu de novo. O que ele via de tão engraçado?
— Se você diz... — eu disse.
— Posso ler o que você escreveu? — ele perguntou sem mais nem menos.
— Claro que não! — respondi na defensiva.
— Ah, mas eu deixo você ler o que eu escrevi. — O garoto sorriu maliciosamente. Era tentador a proposta de ter em mãos aquele caderno.
— Uma troca? — sugeri.
Roberto sorriu mais largo ainda.
— Sim. Te mando por e-mail. Você não vai querer ler esse caderno rabiscado.
Assenti.
Ao fim do intervalo, Filipe continuou sem falar comigo. Estava começando a me chatear comigo mesma por ser tão descontrolada.
Eu não queria perder o Filipe. Além de meu namorado, era meu melhor amigo.
De volta a sala, escrevi em uma folha um bilhete para Filipe e deixei em sua mesa. Ele nunca recusaria um chamado meu.
Filipe abriu o papel, leu e fez algo que me surpreendeu por dentro e por fora: amassou e jogou fora.
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