Além da psicologia
10 Filho de Poseidon e filha de Atena.
Notas iniciais
Aí eu pensei: sim ou claro?
– É... É sério, Filipe?
Ele sorriu:
– Sim.
– É claro que eu quero. Vamos ter uma péssima fama juntos.
Rimos.
– É por isso que eu gosto de andar com você, Karine. Você não é como os outros.
Encarei-o.
– Sei que não sou como os outros — disse melancólica.
– Não disse isso para magoar você. — Ele ficou sério. — Não gosto dos outros, eles são todos iguais. Você é diferente. Você brigou comigo na primeira vez que nos falamos, deu um sumiço com meu livro, mas agora você é minha única amiga.
– Eu tenho temperamento ciclóide.
– Besta é quem não percebe isso.
Dei um soco de leve em seu braço. Ele colocou os óculos de volta ao rosto e tirou cinco livros da mochila.
– O que é isso? — perguntei.
– Minha coleção de Percy Jackson — ele respondeu me entregando o livro. — Se fosse outra pessoa, eu diria para me devolver antes das férias, mas como é você, sei que lerá até antes do baile.
– Ok...
Fiquei pensativa. A única amiga que tive foi Ana, filha do meu professor de literatura. Filipe é muito legal, às vezes penso se eu realmente mereço tê-lo como amigo.
– Sou fiho de Poseidon — ele disse cortando minha frustação.
– De quem?
– Poseidon. É um deus grego.
– Ah...
Voltei ao silêncio.
Ainda no ônibus comecei a ler O ladrão de raios. Estava achando o livro legal.
...
– Estou no portão da sua casa — disse Filipe logo quando atendi o telefone, e ele desligou em seguida.
– O quê? — Mas não tive resposta.
– Era o Filipe? — perguntou minha mãe sorrindo. Ela estava animada com a ideia de eu ter um amigo e de ter um par para o baile.
– Sim, ele já está no portão.
– Ah, Karine! Apresse-se, calçe os sapatos!
– Tudo bem, tudo bem...
O baile aconteceria naquela noite. Estava com um vestido justo e um pouco acima dos joelhos de cor rosa claro. Minha mãe insistiu pra eu usar uma maquiagem, mas eu disse que não. Não suporto me pintar!
– Eu vou sair logo depois. Quando você chegar, não estarei, voltarei só depois da meia-noite — informou minha mãe.
– Muito trabalho?
– Eu dou conta.
Lhe abracei.
– Divirta-se, filha.
– Pode deixar.
E então, eu me considerei uma garota feliz. Estava há quase um mês sem uma crise. Estava feliz! Isso parecia um milagre.
– Por que você faz isso comigo? — Filipe perguntou logo quando me viu?
– O quê?
– Eu quero me divertir nessa festa e você se veste desse jeito!
– Hã? Qual o problema com minha roupa?!
– Faz eu ficar fixado em você. Dane-se a festa, meus olhos vão ficar grudados em você o tempo todo.
E ele sorriu. Senti que enrusbeci.
Quando chegamos à escola, uma música agitada tocava e a iluminação estava de tom roxo. Parecia uma balada das bruxas. Senti todos os olhos em mim e desejei ser engolida por um buraco. Encontrei os olhos de Filipe por trás dos óculos. Ele estava lindo. Paletó e gravata, como um cavalheiro perfeito.
– Concede-me essa dança, princesa? — ele falou logo que uma música lenta tocou.
Dei um sorriso e segurei sua mão. Fomos para a pista de dança.
Logo identifiquei o cantor e a música: James Blunt — Face the sun. Eu amava aquela canção! Segurei-me para não começar a cantar e expulsar todos da pista com minha voz.
Filipe pôs as mãos em minha cintura e coloquei as minhas em seus ombros. O Nerd e a Garota Problemática à visão dos outros.
Mas apenas eu e Filipe aos meus olhos. Pousei a cabeça em seu ombro direito e deixei a música me envolver.
– Sabe — quebrei o silêncio. -, amei Percy Jackson; agora quero ler Heróis do olimpo.
– Sabia que ia gostar. Também quero ler a segunda saga. — Ele fez uma pausa antes de continuar: — Deixa eu adivinhar, filha de Afrodite?
–Não. Por que Afrodite?
– Com tanta beleza e sensualidade pensei que...
O cortei com um olhar.
– Acho que posso ser bonita, mas sensual não.
– A seus olhos — ele respondeu logo que voltei a abraçá-lo.
– Sou filha de Atena — respondi em seguida.
– Nossa... Filhos de Poseidon devem tomar cuidado com crias de Atena... Viu o caso do Percy?
– Não sou nenhuma Annabeth.
– Claro que não. Você não é loira.
– Não precisa se preocupar comigo. Não vou ver você babar enquanto dorme.
– Nem me dar um beijo no monte Santa Helena.
Gelei. Estávamos mesmo falando sobre isso?
– Não seja apressadinho, filho de Poseidon. Chame seu pégasso e vamos dar uma volta.
...
Filipe me deixou em casa um pouco depois das dez.
– Você quer entrar? — perguntei.
– Não tudo bem.
– Eu vou fazer um lanche, sei que você está com fome. A comida da escola é horrível.
– Tem razão. Acho que eu vou entrar.
E entramos.
– Onde está sua mãe? — ele quis saber.
– Trabalhando, voltará só quando eu já estiver dormindo.
Fui até a cozinha e fiz dois sanduíches. Comemos em silêncio.
– Te ajudo a lavar a louça — ele ofereceu ao terminar.
– Não precisa, não vou lavar. Tenho que deixar provas para minha mãe que jantei.
Ele riu.
– São ótimas provas — conluiu.
– Ah, venha, vou lhe mostrar uma coisa.
Fomos até meu quarto e o amostrei meus livros de Harry Potter.
– Minha mãe comprou pra mim mesmo depois de eu ter lido os seus. Ela gosta que eu fique interessada em algo. Ela diz que eu fico mais feliz quando estou fazendo alguma coisa boa, como ler.
– Realmente, você parece mais feliz.
Sentamos na cama e o silêncio tomou posse do recinto.
– E sua mãe? — perguntei. — Não liga se você chegar tarde em casa?
– Minha mãe... — Ele suspirou. — Ela deve estar em alguma festa agora com alguns de seus namorados.
– E seu pai? — perguntei com a testa franzida de preocupação.
– Meu pai é legal, mas mora longe.
Entrelacei nossos dedos próximos e descancei a cabeça em seu ombro.
– Não sinta pena de mim — ele pediu.
– Não sinto pena de ninguém.
Ele fez eu me virar para ele e o olhar nos olhos. Com as duas mãos segurando meu rosto ele sussurrou:
– Eu não sou apenas um nerd. Nem você é uma garota problemática.
Assenti, e ele prosseguiu:
– Não vamos ser títulos impostos pelos outros. Vamos se apenas nós mesmos.
Seus olhos se enxeram de água, mas algo me dizia que ele não iria chorar.
E de repente ele me beijou.
Sim, ele me puxou para mais perto e colou os lábios nos meus. Fiquei surpresa de início, mas quando Filipe está beijando você, você não deve recuar.
Fechei os olhos e o puxei pelo pescoço para mais perto de mim. Sentia meus batimentos pulsarem tão rápidos e minhas mãos tremerem. As mãos de Felipe percorriam por todo meu corpo e eu estremecia nervosamente. Coloquei um dedo entre o beijo para interromper.
– Eu te amo — ele disse. — Amo como nunca amei outra garota na minha vida. Amo apenas você, Karine.
E meu coração parou de vez.
– Você não pode me amar — falei. — Eu sou apenas... Uma simples garota e você é tão... Perfeito.
– Não sou perfeito. Sou apenas uma pessoa melhor ao seu lado.
E nos beijamos novamente, mas eu já não estava mais nervosa. Eu gostava dele, tinha certeza disso.
E por um instante, tive a sensação de que não existia transorno no mundo que me tiraria essa sensação que sentia.
...
Depois que ele foi embora, joguei-me na cama. Pensei nos pratos sujos na cozinha e em minha mãe. Contaria a ela que trouxe Filipe para casa e comemos um lanche. Mas aí ela perguntaria se conversamos depois. Eu diria que sim. Aí ela perguntaria se fizemos alguma coisa a mais depois. Aí eu diria "apenas demos uns beijos e uns amassos, nada de mais".
Não.
Fui até a cozinha e lavei os pratos.
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