Além da psicologia

7 Drogas para viver a droga da minha vida


Notas iniciais
Estou com mais tempo agora para escrever Além da psicologia já que terminei A minha e a sua felicidade. Espero não estar deixando vocês atordoados com a vida de Karine.

Acordei melhor que a noite pensada. Totalmente recuperada de meus transtornos e problemas. O vazio estava preenchido.

Só que não.

Acordei pior que a noite anterior. Meu quarto fedia a sangue. O lençol estava endurecido e vermelho. Senti ódio e raiva de mim mesma. Pensei em ligar para Liliane, mas eu não queria pedir ajuda a um adulto mesmo sendo minha psicóloga.

Então eu não tomei banho e nem comi. Fui atrás de Victor, Laura e Talis. Encontrei-os em um beco qualquer.

– Ka! — gritou Laura. Os meninos estavam jogados em um canto com um cigarro na mão e uma garrafa de wisk.

Joguei-me no chão. Peguei a garrafa e bebi um gole. Quase cuspi em seguida.

– Cê tá acabadona, eim! — disse Talis e me ofereceu um cigarro. Eu aceitei.

– O que houve? — perguntou Victor.
Mostrei o braço cortado e as pernas. Comecei a chorar.

– Você tá mal mesmo!

– Sinto-me uma idiota!

– Ainda por causa da parada na escola?

– Lógico. Estou acostumada com humilhações, mas nesse nível...

Eles poderiam ser bêbados drogados, mas me compreendiam.

Foi um dos piores dias da minha vida, levei dois maços de cigarro pra casa e meu novo vício era a maconha. Álcool, drogas, mutilação, gritos, desespero...

Assim foi minha vida por três dias seguidos. Não tomei banho, não comi, não fiz nada. Poderia jurar que perdi uns dez quilos nesse tempo.

Drogas, álcool, cortes, sangue, drogas, álcool... Noites em claro. Minha mãe voltaria em dois dias e encontraria sua filha quase morta na cama ensanguentada.

Mas decidi fazer uma coisa louca. Peguei o livro do Harry Potter que o nerd tinha me emprestado e fiquei admirando a capa. Mas havia algo estranho na contracapa. Um número de telefone. Mas de quem? Estava tão atordoada que liguei. Uma voz masculina atendeu:

– Alô, quem fala?

– Oi. Quem é?

– Ora, mas foi você quem ligou!

– Eu sou uma idiota! — comecei a gritar. — Uma retardada idiota.

– Quem está falando?

Hesitei um pouco. Quem era a garota falando com o garoto? Eu. Mas quem era eu?

– A Garota Problemática — respondi e desliguei em seguida.

Mas apesar do vazio em mim, algo me mantia em sanidade. Minha cabeça tremia, as vozes ecoavam... Parava de respirar várias vezes e gritava do nada.

Mas a noite foi pior. Fiz cortes mais profundos em mim, fumei mais, bebi mais chorei mais, gritei mais, vi vultos, aranhas, baratas, vi-me na rua novamente de camisola, meu pai gritando comigo, Gabriel me agarrando no shopping, a bolada na cara de Tamires, todas as imagens flutuando em minha mente.

E do nada tudo ficou escuro. Eu não enxergava nada. É um sonho, pensei. Mas algo me dizia que era real. Um frio assustador percorreu meu corpo e uma sensação de medo indecifrável me atingiu.

– Estou vendo... São aranhas! Não, a culpa não é minha, não bate em mim!!

Eu gritava, me batia. Via homens, mulheres, crianças... Todos passando por mim e me chamando de Garota Problemática. Pessoas me chutavam, diziam que eu era uma idiota, mas depois fingiam que eu não existia.

Todos os medos da minha vida reunidos em um pesadelo só.

Ser abandonada.

Ser assustada.

Ser ridicularizada.

Idiota, retardada, merda de menina, imprestável, garota problemática, garota sem controle...

Ficar sozinha com estranhos.
Ser exposta.

Ficar perto de muitas pessoas.

Animais peçonhentos.

Medo.

Medo.

Medo.

Medo...

Tudo em um só pesadelo... A pior sensação de todas, tudo em cima de mim.
Eu não poderia aguentar isso por mais tempo. Peguei meu celular e liguei para Liliane que atendeu no quarto toque.

– Socorro! Estão atrás de mim! Estão acabando comigo! Eu vou morrer!

– Oi? Quem é?

– Diz pra mim que a culpa não é minha!

– Karine, é você?

– Não, Karine não existe mais, só uma garota condenada a uma infinidade de problemas.

E desliguei. Estava encolhida no chão. Abraçando os joelhos. Então eu não vi mais nada.

...

Abri os olhos. Estava em um quarto fechado e branco. Ótimo, consegui chegar ao manicômio. Diagnosticada com overdose louca.

– Como se sente? — uma voz feminina soou atrás de mim.

– Quê?

Era Liliane. Finalmente um rosto conhecido. Olhei para mim mesma. Estava limpa, com alguns quilos a mais até.

– Você estava jogada no seu quarto. Sangrando. Um pacote de cigarros e uma garrafa ao seu lado. Não reconheci você quando a vi quase morta.
Sua voz transmitia decepção.

– Desculpe — falei tentando não chorar.

– Você usava drogas desde quando?

– Foi só nessa semana.

– Você está no hospital há quase um mês.

– Quê?

– Você estava horrível. Por que você fez isso com você, Karine?
Ela começou a chorar.

– Acabei comigo, não foi? Eu estava desesperada. Você sabe o que aconteceu na escola?

– Sua mãe me contou. Por que você não conversou comigo, já que estava mal?

– Meus problemas são apenas meus. Eu já preocupo demais as pessoas.

– Você preocupou mais sua mãe quando ela voltou de casa e soube que você estava em coma.

– Em coma?

– Sim. Eu bati na porta da sua casa e você não abria. Eu comecei a ficar desesperada depois daquela ligação e ligava pra você que não atendia. Então eu chamei a polícia e quando conseguimos entrar... Você... Você estava jogada no chão do seu quarto em um estado deprimente.

Ela deu um longo suspiro.

– Eu não sei o que estava acontecendo comigo naquela semana disse. E minha mãe?

– Quer que eu a chame?

Assenti. Minha psicóloga segurou minha mão e me olhou nos olhos.

– Prometa-me que você nunca mais usará drogas ou beberá álcool. Prometa que quando você estiver com problemas ligará para mim ou conversará com sua mãe.

– Sim.

Recebi um abraço apertado. Depois minha mãe entrou. Percebi que ela estava decepcionada. Choramos muito. Conversamos também e acho que nos entendemos.

As semanas seguintes foram mais tranquilas. Não me droguei nem bebi mais. Mas o vazio no meu coração permanecia. Conversava com mamãe e Liliane. Frequentava ao Clube. Voltei à escola.

Algo no fundo do meu coração dizia que as coisas mudariam de repente.

Notas finais
Obrigada por lerem.